Evolução do excesso de peso e obesidade até a idade adulta, Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil, 1982-2012

Evolução do excesso de peso e obesidade até a idade adulta, Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil, 1982-2012

Autores:

Natália Peixoto Lima,
Bernardo L. Horta,
Janaína Vieira dos Santos Motta,
Marina S. Valença,
Vânia Oliveira,
Thaíssa Vieira dos Santos,
Denise Petrucci Gigante,
Fernando Celso Barros

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0102-311Xversão On-line ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.31 no.9 Rio de Janeiro set. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00173814

ABSTRACT

This study assessed the prevalence of overweight and obesity in adolescence and adulthood among subjects enrolled in the 1982 Pelotas Birth Cohort, Rio Grande do Sul State, Brazil, according to social and demographic characteristics. In 1982, hospital births in Pelotas were identified and all live born infants (n = 5,914) were examined and have been followed since. The data were collected at 15, 18, 23, and 30 years of age. In women, prevalence of overweight increased from 23.6% at 15 years to 52.4% at 30 years of age, while obesity increased from 6.6% to 23.8%. In men, overweight increased from 22.9% to 62.9%, and obesity from 7.5% to 22.1%. Overweight and obesity increased more among individuals of both sexes with lower socioeconomic status, which can lead to more inequality in the occurrence of chronic diseases.

Key words: Nutritional Assessment; Obesity; Cohort Studies

RESUMEN

Este estudio examinó la prevalencia de exceso de peso y obesidad en la adolescencia y la edad adulta en los individuos de la cohorte de nacimientos de 1982, de la ciudad de Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil, de acuerdo a características sociales y demográficas. En 1982, se identificaron los nacimientos hospitalarios ocurridos en Pelotas y nacidos vivos (n = 5.914), a cuya familia residente en la zona urbana de la ciudad se le realizó un seguimiento. En este estudio se utilizaron los datos recogidos a los 15, 18, 23 y 30 años. En las mujeres, la prevalencia de exceso de peso aumentó de 23,6% a los 15 años a 52,4% a los 30 años, mientras que para la obesidad el aumento fue de un 6,6% a un 23,8%. En los hombres, el exceso de peso aumentó de un 22,9% a un 62,9%, mientras que para la obesidad, el aumento fue de un 7,5% a un 22,1%. El incremento de sobrepeso y obesidad fue mayor entre las personas con menor nivel socioeconómico en ambos sexos, lo que puede conducir a una mayor desigualdad en la aparición de enfermedades crónicas no transmisibles.

Palabras-clave: Evaluación Nutricional; Obesidad; Estudios de Cohortes

Introdução

A obesidade é um importante fator de risco modificável para as doenças crônicas não transmissíveis 1,2,3. O excesso de peso e a obesidade são globalmente responsáveis por 44% da carga global de diabetes, 23% de doença isquêmica do coração e entre 7% e 41% para alguns tipos de câncer 4. Estimativas globais apontam que a cada ano, morrem no mundo 3,4 milhões de pessoas por conta do excesso de peso e obesidade 2. Nos últimos anos, tem ocorrido aumento na prevalência de excesso de peso e obesidade, tanto em países de alta quanto nos de baixa e média renda 5. Esse aumento seria devido às mudanças comportamentais ocorridas nas últimas décadas, sobretudo com maior alimentação inadequada e sedentarismo 1. Mantido tal incremento, estima-se que em 2020, cinco milhões de óbitos serão por causa da obesidade 6.

No Brasil, entre 1974-1975 e 2008-2009, o excesso de peso em adultos aumentou cerca de três vezes no sexo masculino (de 18,5% para 50,1%) e quase dobrou no sexo feminino (de 28,7% para 48%). Para a obesidade, o aumento foi cerca de quatro vezes nos homens (de 2,8% para 12,4%) e de duas vezes nas mulheres (de 8% para 16,9%)7. Esse incremento da prevalência de obesidade tem ocorrido em todas as faixas etárias e, consequentemente, os indivíduos estão experimentando maior exposição cumulativa ao excesso de peso 8. Por outro lado, poucos estudos têm avaliado a evolução da obesidade na transição da adolescência para a idade adulta. O presente estudo tem como objetivo analisar a evolução na prevalência de excesso de peso e obesidade em indivíduos que têm sido acompanhados desde o nascimento na cidade de Pelotas, Rio Grande do Sul, segundo características sociais e demográficas.

Metodologia

Em 1982, os 5.914 nascidos vivos filhos de mães residentes na zona urbana de Pelotas, foram identificados e examinados; as mães foram entrevistadas logo após o parto. Esses indivíduos têm sido acompanhados desde então, e informações sobre a metodologia do estudo estão disponíveis em outras publicações 9,10.

Em 1997, foi realizado censo em uma amostra sistemática de 70 dos 265 setores censitários da zona urbana da cidade a fim de identificar os participantes da coorte que residiam nesses setores. Em 2000, todos os homens nascidos em 1982 que compareceram ao alistamento militar em Pelotas, foram entrevistados. Novo censo foi realizado em 2001 nos setores visitados em 1997, sendo entrevistados os nascidos em 1982. Em 2004-2005 e 2012-2013, tentou-se acompanhar todos os participantes da coorte pela utilização de diferentes estratégias de busca. Nas visitas de 1997, 2001 e 2004-2005, as entrevistas ocorreram nos domicílios dos participantes, enquanto em 2000 a entrevista foi realizada no local de alistamento militar. No acompanhamento de 2012-2013, os participantes compareceram à clínica do Centro de Pesquisas Epidemiológicas, onde foram entrevistados e examinados. Nos acompanhamentos utilizados no presente estudo, o peso e altura foram medidos com balanças e estadiômetros portáteis que apresentavam precisão de 100g e 1mm, respectivamente.

Aos 15, 18 e 19 anos, conforme proposto pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o excesso de peso foi definido como sendo o índice de massa corporal (IMC) um desvio padrão acima da mediana para idade e sexo, enquanto o IMC maior do que dois desvios padrão determinou a presença de obesidade 11. Aos 23 e 30 anos, os indivíduos com IMC ≥ 25,0kg/m2 foram classificados como tendo excesso de peso e, como obesos, aqueles com IMC ≥ 30,0kg/m2 12. Na análise de cada acompanhamento, foram excluídas as mulheres grávidas e aquelas que tinham filhos com menos de três meses.

No presente estudo, foi avaliada a prevalência de excesso de peso e obesidade na adolescência e idade adulta, assim como a incidência no período dos 23 aos 30 anos, de acordo com a cor da pele e renda familiar e escolaridade materna ao nascer. O teste de qui-quadrado para heterogeneidade ou tendência linear foi utilizado para comparar as proporções e aquele com menor valor de p foi relatado. Para analisar a incidência, utilizou-se regressão de Poisson com ajuste para a variância robusta. As análises foram realizadas com o software Stata versão 13.0 (StataCorp LP, College Station, Estados Unidos).

Consentimento verbal foi obtido dos responsáveis pelas crianças nas fases iniciais do estudo (1982-1986). Nas fases recentes, o Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pelotas, filiado ao Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), aprovou o estudo, sendo obtido consentimento por escrito dos participantes ou de seus responsáveis.

Resultados

Em 1997, foram entrevistados 1.076 participantes da coorte, sendo a taxa de participação de 71,8%. Em 2000, obteve-se informação de 2.250 homens e, em 2001, de 1.031 mulheres, com participação de 78,9% e 69%, respectivamente. A taxa de acompanhamento em 2004-2005 foi de 77,4%, tendo sido entrevistados 4.297 indivíduos. Em 2012-2013, foram avaliados 3.701 indivíduos, que somados aos 325 óbitos identificados entre os participantes da coorte, representou uma taxa de acompanhamento de 68,1%.

A prevalência de excesso de peso entre os 15 e os 30 anos aumentou de 23,2% para 57,6%, enquanto para obesidade o incremento foi de 7,1% para 23%. A Figura 1 apresenta a distribuição do IMC entre 15 e 30 anos de idade; nesse período a média do IMC aumentou de 21,16kg/m2 em 1997 para 26,83kg/m2 em 2012-2013. A prevalência de excesso de peso e obesidade nas mulheres aumentou, respectivamente, de 23,6% e 6,6% em 1997 para 52,4% e 23,8% em 2012-2013, enquanto nos homens passou de 22,9% e 7,5% para 62,9% e 22,1%, no mesmo período (Figura 2).

Figura 1 Distribuição do índice de massa corporal (IMC) nos participantes da coorte de nascimentos de 1982. Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil, 1997-2012. 

Figura 2 Prevalência de excesso de peso e obesidade em homens e mulheres. Coorte de 1982, Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil, 1997-2012. 

A Tabela 1 mostra que entre os homens, independentemente da idade, a cor da pele não esteve associada com o excesso de peso e obesidade. Entretanto, renda familiar e escolaridade materna estiveram diretamente associadas com o excesso de peso em todos os acompanhamentos e com a prevalência de obesidade aos 18 e 30 anos. É possível observar que houve diminuição na diferença dessas prevalências ao comparar os homens de menor e maior nível socioeconômico. Enquanto aos 15 anos de idade, o excesso de peso era cerca de 2,4 vezes maior naqueles cuja renda familiar ao nascer era > 10 salários mínimos em relação aos com renda familiar ≤ 1 salário mínimo, aos 30 anos a razão entre as duas prevalências diminuiu para 1,3.

Tabela 1 Prevalência de excesso de peso e obesidade em homens de acordo com características sociais e demográficas. Coorte de 1982, Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil, 1997-2012. 

15 anos 18/19 anos 23 anos 30 anos
n % n % n % n %
Excesso de peso
Cor da pele p = 0,77 * p = 0,41 * p = 0,53 * p = 0,12 *
Branca 441 22,9 1.706 16,8 1.653 30,5 1.313 63,4
Negra 72 20,8 339 14,8 339 29,2 281 58,0
Outra 45 26,7 182 19,2 214 33,6 159 67,3
Renda familiar – 1982 (salários mínimos) p = 0,02 ** p < 0,001 ** p < 0,001 ** p = 0,001 **
≤ 1,0 91 15,4 414 10,9 438 22,2 350 56,6
1,1-3,0 267 23,6 1.098 16,0 1.092 31,0 853 62,5
3,1-6,0 119 21,9 442 20,6 415 35,4 348 66,7
6,1-10,0 40 25,0 142 19,0 128 32,8 105 62,9
> 10,1 41 36,6 124 25,0 123 39,8 91 75,8
Escolaridade materna (anos) p = 0,02 ** p < 0,001 ** p < 0,001 ** p = 0,02 **
0-4 163 17,8 691 13,8 717 27,8 558 57,9
5-8 249 23,3 982 15,8 954 29,4 766 64,9
9-11 49 24,5 241 21,6 239 32,6 194 66,0
≥ 12 96 30,2 310 22,6 292 40,4 233 65,7
Obesidade
Cor da pele p = 0,54 * p = 0,78 * p = 0,09 * p = 0,27 *
Branca 441 7,5 1.706 4,8 1.653 7,6 1.313 22,3
Negra 72 5,6 339 5,6 339 5,3 281 19,2
Outra 45 11,1 182 5,5 214 10,3 159 25,8
Renda familiar – 1982 (salários mínimos) p = 0,15 ** p = 0,04 ** p = 0,03 ** p = 0,13 *
≤ 1,0 91 3,3 414 3,4 438 5,9 350 17,7
1,1-3,0 267 7,9 1.098 4,9 1.092 7,1 853 22,5
3,1-6,0 119 8,4 442 5,4 415 9,4 348 25,9
6,1-10,0 40 10,0 142 6,3 128 7,0 105 22,9
> 10,1 41 9,8 124 7,3 123 11,4 91 19,8
Escolaridade materna (anos) p = 0,20 ** p = 0,03 ** p = 0,03 ** p = 0,58 **
0-4 163 5,5 691 3,8 717 5,9 558 21,7
5-8 249 7,6 982 5,1 954 8,0 766 21,9
9-11 49 10,2 241 5,4 239 8,4 194 23,2
≥ 12 96 9,4 310 7,1 292 9,6 233 23,2

* Teste para heterogeneidade; ** Teste para tendência linear.

Entre as mulheres, a cor da pele esteve associada com a obesidade aos 23 e 30 anos. Ao contrário do que foi observado para os homens, o excesso de peso e obesidade foram menores nas mulheres com maior nível socioeconômico, e a renda familiar e escolaridade inversamente associadas à prevalência de excesso de peso e obesidade aos 18 e 23 anos. Contudo, o incremento no excesso de peso também foi maior nas mulheres com baixo nível socioeconômico e aos 30 anos de idade a prevalência de excesso de peso foi cerca de duas vezes maior nas mulheres com renda familiar ao nascer ≤ 1 salário mínimo em comparação com aquelas com renda familiar superior a 10 salários mínimos (Tabela 2).

Tabela 2 Prevalência de excesso de peso e obesidade em mulheres de acordo com características sociais e demográficas. Coorte de 1982, Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil, 1997-2012. 

15 anos 18/19 anos * 23 anos ** 30 anos ***
n % n % n % n %
Excesso de peso
Cor da pele p = 0,31 # p = 0,13 # p = 0,53 # p = 0,12 #
Branca 413 22,3 679 17,1 1.493 22,9 1.367 49,5
Negra 72 30,6 135 24,4 306 36,0 278 61,5
Outra 28 25,0 68 17,7 157 33,1 136 63,5
Renda familiar – 1982 (salários mínimos) p = 0,04 # p = 0,003 ## p ≤ 0,001 ## p ≤ 0,001 #
≤ 1,0 91 14,3 183 20,2 382 29,3 343 50,7
1,1-3,0 245 26,9 442 20,1 962 26,7 888 57,2
3,1-6,0 110 28,2 165 16,4 370 25,4 342 51,2
6,1-10,0 34 23,5 42 9,5 115 23,5 103 43,7
> 10,1 30 10,0 42 2,4 117 11,1 96 26,0
Escolaridade materna (anos) p = 0,16 ## p = 0,001 ## p < 0,001 ## p < 0,001 #
0-4 156 25,0 304 21,7 637 30,1 578 57,1
5-8 205 25,4 359 19,5 816 26,8 752 55,9
9-11 72 23,6 105 16,2 219 21,0 194 48,5
≥ 12 80 16,3 113 7,1 282 16,7 255 34,1
Obesidade
Cor da pele p = 0,50 # p = 0,47 # p = 0,003 # p = 0,002 #
Branca 413 7,3 679 4,9 1.493 7,6 1.367 21,8
Negra 72 4,2 135 7,4 306 11,8 278 30,9
Outra 28 3,6 68 5,9 157 14,0 136 28,7
Renda familiar – 1982 (salários mínimos) p = 0,49 # p = 0,21 ## p < 0,001 ## p = 0,001 #
≤ 1,0 91 5,5 183 4,9 382 10,2 343 22,5
1,1-3,0 245 7,0 442 6,6 962 10,4 888 25,5
3,1-6,0 110 9,1 165 4,9 370 7,3 342 26,6
6,1-10,0 34 5,9 42 0 115 3,5 103 20,4
> 10,1 30 0 42 2,4 117 0,9 96 7,3
Escolaridade materna (anos) p = 0,08 ## p = 0,01 ## p < 0,001 ## p = 0,001 #
0-4 156 7,7 304 7,6 637 11,6 578 24,4
5-8 205 7,8 359 5,3 816 9,2 752 26,5
9-11 72 6,9 105 2,9 219 5,9 194 24,2
≥ 12 80 1,3 113 1,8 282 3,2 255 14,1

* Excluídas 37 gestantes; ** Excluídas 126 gestantes ou mulheres que tinham filho com menos de 3 meses de idade; *** Excluídas 17 gestantes ou mulheres que tinham filho com menos de 3 meses de idade; # Teste para heterogeneidade; ## Teste para tendência linear.

Em relação à mudança de estado nutricional dos 23 aos 30 anos, a incidência de excesso de peso foi de 37,9% nas mulheres e 47,4% nos homens, e de obesidade foi 17,3% e 16%, respectivamente. Entre as mulheres, o risco de excesso de peso foi maior em indivíduos de cor da pele diferente de branca e negra (RI = 1,35; IC: 1,06; 1,71), renda familiar materna na faixa de 1,1 e 3 salários mínimos (RI = 2,23; IC: 1,38; 3,60) e escolaridade materna de 0 a 4 (RI = 1,82; IC: 1,35; 2,45) e 5 a 8 anos (RI = 1,82; IC: 1,36; 2,43), enquanto o risco de obesidade foi maior naquelas de cor negra (RI = 1,54; IC: 1,17; 2,03). Entre os homens, não foi encontrada associação com as características estudadas (Tabela 3).

Tabela 3 Incidência de excesso de peso e obesidade dos 23 aos 30 anos, de acordo com características sociais e demográficas. Coorte de 1982, Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil, 1997-2012. 

Variáveis Incidência de excesso de peso (%) Incidência de obesidade (%)
Homens Mulheres Homens Mulheres
Cor da pele p = 0,11 * p = 0,03 * p = 0,91 * p = 0,007 *
Branca Referência Referência Referência Referência
Negra 0,86 (0,71; 1,04) 1,15 (0,94; 1,41) 0,94 (0,67; 1,30) 1,54 (1,17; 2,03)
Outra 1,12 (0,93; 1,36) 1,35 (1,06; 1,71) 1,01 (0,68; 1,51) 1,24 (0,82; 1,86)
Renda familiar – 1982 (salários mínimos) p = 0,15 * p = 0,002 * p = 0,20 * p = 0,05 *
≤ 1,0 0,73 (0,56; 0,96) 1,82 (1,10; 3,03) 1,33 (0,62; 2,87) 2,66 (1,09; 6,50)
1,1-3,0 0,77 (0,60; 0,98) 2,23 (1,38; 3,60) 1,74 (0,85; 3,59) 2,86 (1,21; 6,80)
3,1-6,0 0,85 (0,65; 1,11) 1,91 (1,15; 3,15) 1,95 (0,93; 4,10) 3,54 (1,47; 8,52)
6,1-10,0 0,82 (0,59; 1,14) 1,47 (0,79; 2,71) 1,70 (0,72; 3,98) 3,07 (1,17; 8,07)
> 10,1 Referência Referência Referência Referência
Escolaridade materna (anos) p = 0,12 * p < 0,001 * p = 0,62 * p = 0,08 *
0-4 0,89 (0,71; 1,10) 1,82 (1,35; 2,45) 1,17 (0,78; 1,75) 1,30 (0,85; 1,97)
5-8 1,05 (0,86; 1,29) 1,82 (1,36; 2,43) 1,04 (0,70; 1,55) 1,57 (1,06; 2,33)
9-11 1,07 (0,83; 1,37) 1,52 (1,06; 2,19) 1,28 (0,80; 2,06) 1,67 (1,03; 2,69)
≥ 12 Referência Referência Referência Referência

* Regressão de Poisson com variância robusta.

Discussão

No presente estudo, foi verificado aumento na prevalência de excesso de peso e obesidade, tanto para homens quanto para mulheres, no período compreendido entre os 15 e 30 anos de idade.

A natureza prospectiva do presente estudo permite avaliar a evolução do excesso de peso e obesidade de maneira longitudinal, ao invés de usar dados de uma série de estudos transversais. As altas taxas de acompanhamento asseguram a representatividade da amostra. Além disso, as perdas de acompanhamento apresentaram distribuição similar de acordo com variáveis socioeconômicas, ao longo dos acompanhamentos, reduzindo a probabilidade de que as tendências observadas sejam decorrentes de perdas diferenciais na população avaliada. As medidas antropométricas foram coletadas com métodos padronizados, com balanças calibradas regularmente. Os entrevistadores foram submetidos a treinamento e sessões de padronização 13, reduzindo assim a chance de viés de informação.

Enquanto a obesidade era mais frequente nos países de maior renda, mais recentemente tem sido evidenciada mudança na prevalência em países de média e baixa renda, como o Brasil 14,15,16. No presente estudo, a frequência de excesso de peso nas mulheres quase dobrou e a de obesidade aumentou aproximadamente quatro vezes, enquanto, para os homens, ambas as prevalências praticamente triplicaram no período compreendido entre 15 e 30 anos de idade. Tal aumento na prevalência de excesso de peso e obesidade pode ser devido tanto a um efeito consequente do aumento da idade, quanto a uma tendência secular no incremento do excesso de peso e obesidade que vem sendo observada no Brasil. Por exemplo, a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2008-2009), mediante comparação entre uma série de pesquisas transversais realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mostrou que, em adultos, o excesso de peso e obesidade aumentaram cerca de 3 e 4 vezes nos homens e praticamente dobraram nas mulheres na comparação entre 1974-1975 e 2008-2009, enquanto, entre 2006 e 2009, dados da VIGITEL (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico) apresentaram aumento significativo na prevalência de excesso de peso em mulheres na faixa etária de 25 a 34 anos 17, e de obesidade naquelas com idade entre 25 e 32 anos 18.

O maior aumento na prevalência de excesso de peso e obesidade foi constatado no período compreendido entre os 23 e 30 anos, e esse foi de aproximadamente 2 vezes para excesso de peso e 3 vezes para obesidade, em ambos os sexos. Dados transversais do VIGITEL 2013 apontaram que os indivíduos na faixa etária de 25 a 34 anos têm a prevalência de excesso de peso cerca de 50% maior em relação àqueles com 18 a 24 anos, enquanto para obesidade a diferença é de 2 vezes nos homens e aproximadamente 3 vezes nas mulheres 19. Conforme a literatura, é esperado um aumento da prevalência com a idade, atingindo seu pico aproximadamente entre os 50 e 60 anos 20. Em relação à incidência nesse período, a ocorrência de excesso de peso foi maior nos homens, enquanto a de obesidade foi maior nas mulheres.

As altas prevalências de obesidade têm etiologia multifatorial e têm sido atribuídas à possíveis fatores comportamentais – como dieta inadequada e inatividade física21,22,23 – genéticos 24 e ambientais 25,26. O aumento verificado no presente estudo é condizente com a transição nutricional que vem acontecendo nas últimas décadas no Brasil, caracterizada por um declínio na desnutrição e aumento do excesso de peso 27,28.

O padrão de obesidade em relação ao nível socioeconômico é diferente entre países de alta e baixa renda. Em países de alta renda, tem sido verificada associação negativa, ou seja, quanto maior o nível socioeconômico, menor a prevalência de obesidade, enquanto em países de baixa renda a associação é positiva 29. Neste estudo, observa-se que o excesso de peso está positivamente associado ao nível socioeconômico nos homens, enquanto nas mulheres a associação é em direção oposta. Dados da POF 2008-2009, baseados em pesquisas transversais, apresentaram resultados nesse mesmo sentido7.

No que diz respeito à variação no excesso de peso e obesidade de acordo com o nível socioeconômico, tem sido relatado maior aumento da obesidade nos grupos de menor renda 27,30. Nessa coorte, embora o crescimento tenha sido observado em todos os níveis socioeconômicos, o incremento na prevalência também foi maior naqueles com menor nível socioeconômico, levando a diminuição na diferença da prevalência de excesso de peso ou obesidade entre homens ricos e pobres. Enquanto na adolescência o excesso de peso e a obesidade eram mais frequentes nos estratos com melhor nível socioeconômico, nas mulheres se constatou aumento no diferencial entre pobres e ricos, com maior aumento entre aquelas de menor nível socioeconômico. A incidência de excesso de peso no período dos 23 aos 30 anos apontou risco para as mulheres de menor nível socioeconômico, enfatizando o aumento no diferencial.

Na literatura brasileira, não foram encontrados estudos que abordassem o tema de maneira longitudinal, limitando a comparabilidade dos achados a estudos baseados em dados de pesquisas transversais.

Considerando que a população estudada é jovem e que o excesso de peso está associado ao maior risco de várias doenças crônicas não transmissíveis é preocupante o fato de que 57,6% dos indivíduos apresentam excesso de peso aos 30 anos de idade. Além disso, o maior incremento entre os grupos mais pobres pode levar ao aumento na desigualdade de ocorrência de tais doenças 31. Portanto, é necessário que sejam adotadas políticas de combate à obesidade, abordando as múltiplas facetas associadas a sua ocorrência, tendo como prioridade os grupos de menor nível socioeconômico.

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