Excesso de peso e fatores associados em quilomboras do médio São Francisco baiano, Brasil

Excesso de peso e fatores associados em quilomboras do médio São Francisco baiano, Brasil

Autores:

Ricardo Franklin de Freitas Mussi,
Bruno Morbeck de Queiroz,
Edio Luiz Petróski

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.23 no.4 Rio de Janeiro abr. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232018234.03662016

Introdução

O excesso de peso corporal representa um importante problema de saúde pública. Esta condição atinge países desenvolvidos e em desenvolvimento, influenciando na ampliação da morbimortalidade populacional1. Suas principais causas podem ser resultantes da interação entre fatores biológicos e culturais, que se modificaram ao longo da história humana, tais como, o pertencimento a determinado grupo populacional e o estilo de vida2.

Levantamentos nacionais alertam para o aumento das prevalências de excesso de peso na população adulta brasileira. Sua frequência elevou-se em média 1,3 ponto percentual entre os anos de 2006 e 2013, variou de 42,6% para 50,8% na última avaliação3. Fatores sociodemográficos, como ser do sexo masculino e maior faixa etária, estiveram associados a esta condição na população brasileira no ano de 20133. Além disso, existem evidências que o excesso de peso é um dos principais fatores determinantes da hipertensão na população em geral4.

Contudo, ainda são escassos estudos que avaliaram as alterações no estado nutricional realizados com grupos em vulnerabilidade social. Adultos quilombolas, assim como nos dados dos levantamentos nacionais, têm apresentado alta prevalência de excesso de peso, entre 42%5 e 42,8%6, no entanto, sinalizam diferentes fatores sociodemográficos, comportamentais e comorbidades associadas5,6, o que dificulta a compreensão dos seus fatores predisponentes.

Os quilombos são caracterizados por serem comunidades étnico-raciais, de ancestralidade negra, ligadas aos trabalhos rurais ou culturas de subsistência, pelo seu isolamento geográfico e manutenção de suas manifestações culturais e religiosas7. Contudo, essas comunidades têm sofrido com as mudanças ambientais e vêm enfrentando problemas fundiários que, somados às precárias condições de vida, indicam risco para a manutenção da saúde desta população6,8.

Ressalta-se que os quilombos contemporâneos diferem daqueles históricos. Os primeiros eram habitados por escravos fugidos, enquanto, os contemporâneos, apesar de formados por descendentes de negros escravizados, não são constituídos, necessariamente, pelos grupos de fugitivos9.

Considerando a limitada disponibilidade de informações com este segmento populacional específico, e, para melhor compreensão e rastreio das condições de saúde desta população, o presente trabalho teve como objetivo analisar a prevalência do excesso de peso e os fatores associados em adultos de comunidade quilombola do médio São Francisco baiano, nordeste brasileiro.

Métodos

Estudo transversal, realizado na Comunidade Quilombola de Tomé Nunes, localizada no município de Malhada, região do Médio São Francisco baiano, Nordeste brasileiro, com índice médio de desenvolvimento humano (IDH) de 0,56210. A comunidade investigada é reconhecida como quilombola rural, localizada à 12 km da área urbana, fixada na margem direita do Rio São Francisco, com acesso por estrada não asfáltica; sua atividade laboral fundamental é a agropecuária de subsistência9.

Segundo informações ofertadas pela agente comunitária de saúde, com base em sua caderneta de acompanhamento, que atende 100% dos moradores do quilombo, no período da coleta de dados, verificou-se uma população de 201 adultos (> 18 anos). O cálculo amostral considerou correção para população finita, prevalência de 15% para obesidade em brasileiros adultos (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico - VIGITEL)11, erro amostral de cinco pontos percentuais e nível de confiança de 95%, acrescidos de 10% para perdas e recusas, determinando amostragem mínima de 109 indivíduos. A seleção aleatória simples deuse por sorteio, incluindo os moradores presentes na página de abertura da caderneta contendo a listagem da agente comunitária de saúde, o que garantiu igual probabilidade de ser sorteado a todos os participantes.

Anteriormente as coletas, foi realizado agendamento da visitação por intermédio da associação de moradores. Para a ocorrência da coleta, foi realizada leitura do termo de consentimento livre e esclarecido com as informações da pesquisa, assinado pelos que aceitassem participar do estudo. Todos os participantes sabiam assinar seus nomes.

As entrevistas, parte inicial da coleta de dados, foram conduzidas por equipe treinada para testagem, refinamento e calibração de entrevistador. Esse procedimento contou com aplicação de questionário elaborado para a pesquisa, baseado no instrumento proposto para o VIGITEL11 (contendo perguntas sobre questões sociodemográficas e estilo de vida), utilizado para população adulta brasileira.

As variáveis sociodemográficas estudadas foram: sexo (masculino e feminino), idade (anos completos), situação conjugal (com ou sem companheiro), escolaridade (alfabetizado ou analfabeto), situação laboral (trabalho remunerado ou não).

As variáveis relativas ao estilo de vida estudadas foram: tabagismo atual (fumante ou não fumante), etilismo atual (consome bebida alcoólica ou não consome bebida alcoólica), pratica regular de atividade física de tempo livre (AFTL) e atividade física de deslocamento (AFD) em minutos por semana, horas de televisão por semana.

As variáveis estudadas relativas às condições de saúde foram: as mensurações hemodinâmicas (pressão arterial) e da bioquímica sanguínea (glicemia), realizadas por único avaliador habilitado e experiente. Além da autoavaliação do estado de saúde (respostas: ‘excelente’ e ‘boa’, consideradas saúde positiva; e ‘regular’ e ‘ruim’, consideradas saúde negativa).

A pressão arterial, sistólica (PAS) e diastólica (PAD), foi aferida uma vez, em ocasião única, após as entrevistas (realizadas com participante permanecendo sentado em média 20 minutos). A mensuração ocorreu garantindo repouso mínimo de cinco minutos com os quilombolas sentados, com os pés plantados no chão, e com o braço direito apoiado sobre a mesa no nível cardíaco e a palma da mão voltada para cima12. Durante as mensurações, foi utilizado um esfigmomanômetro, do tipo coluna de mercúrio (Mercurial Sphygmomanometer Premium, modelo CE 0483), com o manguito ajustado ao perímetro do braço do indivíduo. Posteriormente, foi calculada a pressão arterial média (PAM) [PAM = PAD + 1/3(PAS-PAD)]13.

O nível glicêmico sanguíneo foi verificado com o participante em jejum, por meio de monitor portátil validado14 da marca Roche®, modelo Accu-Chek Active e fitas reagentes para Accu-Chek, com o resultado sendo emitido em miligramas por mililitro (mg/ml). Para a mensuração, foi obtida uma gota de sangue por punção digital, utilizando-se lancetador Accu-ChekSoftclix® Pro e respectivas lancetas descartáveis. Para minimizar os riscos de infecção durante o procedimento de coleta, anteriormente a sua realização, ocorreu higienização do local de punção (dedo do avaliado) e o avaliador utilizou luvas cirúrgicas descartáveis, trocadas a cada verificação.

A massa corporal foi determinada com o avaliado, descalço e com o mínimo de vestimentas possível, sobre a balança em posição ortostática (ereto, pés afastados à largura do quadril e a massa distribuída igualmente entre os membros inferiores)15, valendo-se de balança eletrônica portátil (CamryEletronic, modelo EB9013, com capacidade de 150 kg e precisão de 100g). Para verificação da estatura o avaliado permaneceu em posição ortostática, cabeça orientada segundo o plano de Frankfurt, com os pés (descalços e unidos), glúteos, ombros e cabeça tocando a parede15, recorrendo-se a uma fita métrica fixada verticalmente na parede, permitindo medir a distância, em centímetros, entre o vértex (ponto mais superior da cabeça no plano mediano sagital) e o solo. Essas medidas permitiram a avaliação do estado nutricional pelo índice de massa corporal [IMC = massa corporal (kg) / estatura2 (m)].

O IMC foi a variável dependente. A classificação quanto ao estado nutricional, obedeceu ao seguinte critério: baixo peso (≤ 18,5kg/m2), eutrofia (≥ 18,5 a < 25,0kg/m2), sobrepeso (≥ 25,0 a < 30 Kg/m2) e obesidade (≥ 30 kg/m2)16, foram considerados com excesso de peso aqueles que atenderam a classificação de sobrepeso e obesidade. Para as análises de regressão, esta variável foi tratada como contínua.

Para a análise descritiva das características da população foram calculadas as frequências, médias, valores mínimos e máximos e desvios padrão. A análise do gráfico de resíduos, que demonstrou distribuição normal e variâncias homogêneas, com poucos pontos discrepantes e influentes, definiu a aceitação da estatística inferencial baseada nos modelos de regressão linear simples e múltipla, conforme modelo hierárquico de análise17 (Figura 1). Neste sentido, no bloco distal (nível 1), foram alocadas as variáveis sociodemográficas (sexo, idade, situação conjugal, escolaridade e situação laboral), seguida das relativas ao estilo de vida (nível 2) (tabagismo, etilismo, AFTL, AFD, horas de tv) e, finalmente, as variáveis relativas às condições de saúde, no nível proximal (autoavaliação de saúde, PAM, glicemia) (nível 3).

Figura 1 Modelo hierárquico para análise dos fatores associados ao excesso de peso em adultos quilombolas baianos. 

Na análise ajustada, foram incluídas as variáveis que apresentaram significância estatística de, pelo menos, 10% (p ≤ 0,10) nas análises brutas e de importância teórica, seguindo a ordem de um modelo hierárquico para determinação dos desfechos. Neste sentido, as variáveis dos níveis mais superiores (distais) interagem entre si e determinam as variáveis dos níveis mais inferiores (proximais). O efeito de cada variável exploratória sobre o desfecho foi controlado para as variáveis do mesmo nível e de níveis superiores no modelo, sendo que o critério estatístico de permanência no modelo foi de 10% (p ≤ 0,10). O nível de significância adotado no estudo foi de 5%. Os dados foram tabulados e analisados no Statistical Package for the Social Sciences for Windows (SPSS) versão 22.

A presente investigação é recorte da pesquisa “Comunidades Negras Quilombolas Baianas: antropometria aumentada e atividades físicas reduzidas como fatores de risco à saúde”, autorizada pelo Comitê de Ética em Pesquisa, da Universidade Estadual de Feira de Santana (CEP/UEFS), e seguiu as normas brasileiras para pesquisas com seres humanos previstas pela Resolução do Conselho Nacional de Saúde (CNS) n° 466, de 12 de dezembro de 2012.

Resultados

A Tabela 1 apresenta a caracterização da população do estudo para as variáveis categóricas. Todos os convidados aceitaram participar, responderam todas as questões e permitiram todas as mensurações. Dos indivíduos que participaram do estudo, 55,4% eram mulheres. A maioria dos indivíduos relatou possuir um relacionamento conjugal (63,4%), serem alfabetizados (89,3%), possuir trabalho remunerado (66,1%) e consumirem bebida alcoólica (58,0%). Quanto ao estado de saúde, 58% avaliaram negativamente sua saúde. A prevalência de excesso de peso nos adultos foi de 27,7% (IC95% - 19,3: 36,1).

Tabela 1 Descrição das características sociodemográficas, estilo de vida e condições de saúde em amostra de adultos quilombolas. Tomé Nunes, Malhada, Bahia, Brasil, 2012. (n = 112). 

Variáveis N %
Sexo
Feminino 62 55,4
Masculino 50 44,6
Escolaridade
Alfabetizado 100 89,3
Analfabeto 12 10,7
Trabalho
Com remuneração 74 66,1
Sem remuneração 38 33,9
Tabagismo
Fumante 37 33,0
Não fumante 75 67,0
Etilismo
Consome bebida alcoólica 65 58,0
Não consome bebida alcoólica 47 42,0
Autoavaliação de Saúde
Positiva 47 42,0
Negativa 65 58,0
Índice de Massa Corporal (IMC)
Baixo peso 7 6,3
Eutrófico 74 66,1
Excesso de peso 31 27,7

Na Tabela 2 é possível verificar que o grupo apresentou média etária de 42,13(± 18,52) anos, massa corporal de 58,7(± 10,4) quilogramas, estatura de 1,60(± 0,09) metros. Os participantes ainda declararam estarem envolvidos em 84,12(± 141,77) minutos por semana em AFTL e 183,27(± 137,95) minutos de AFD. Quanto ao comportamento sedentário foram observados uma média de tempo gasto de 14,16(± 11,07) horas assistindo televisão por semana.

Tabela 2 Características da amostra de adultos quilombolas. Tomé Nunes, Malhada, Bahia, Brasil, 2012 (n = 112). 

Variáveis Média (DP) Mediana Mínimo Máximo
Idade (anos) 42,1 (± 18,5) 39,0 18,0 94,0
Atividade física no tempo livre (minutos/semana) 84,1 (± 141,8) 0,0 0,0 840,0
Atividade física no deslocamento (minutos/semana) 183,3 (± 138,0) 174,0 0,0 660,0
Horas de televisão (horas/semana) 14,2 (± 11,1) 14,0 0,0 42,1
Índice de Massa Corporal (Kg/m2) 23,1(± 3,8) 22,2 16,0 34,3
Pressão arterial média (mmHg) 91,4 (± 13,3) 90,0 70,0 146,7
Glicemia (mg/ml) 116,2 (± 27,5) 110,0 76,0 278,0

DP: Desvio padrão.

A Tabela 3 apresenta os resultados da análise de regressão linear bruta e múltipla. Neste sentido, a análise bruta indica que o aumento do IMC se associa ao sexo feminino, autoavaliação negativa de saúde, gastar menos tempo em atividades físicas de tempo livre e apresentar maior pressão arterial média. Durante a análise de regressão linear múltipla, foi verificada que permaneceu a associação, com à variável desfecho (IMC), o sexo feminino, a autoavaliação negativa de saúde e a pressão arterial média (PAM) aumentada. Houve uma correlação linear positiva do IMC com à pressão arterial média e a autoavaliação de saúde, e negativa com o sexo masculino.

Tabela 3 Associação entre excesso de peso e fatores socidemográficos, estilo de vida e condições de saúde em adultos quilombolas. Modelos de regressão linear bruta e ajustada. Tomé Nunes, Malhada, Bahia, Brasil, 2012 (n = 112). 

Variáveis β bruto (IC95%) p-valor* βajustado (IC95%) p-valor** R2 ajustado
Sexo
Feminino Referência
Masculino -0,289 (-3,611;-0,831) 0,002 -0,261 (-3,195;-0,817) 0,001a 0,326
Situação Conjugal
Sem companheiro Referência
Com companheiro 0,218 (0,262;3,187) 0,021 0,231 (0,337;3,323) 0,017a 0,114
Idade em anos 0,140 (-0,10;0,680) 0,141
Escolaridade
Alfabetizado Referência
Analfabeto 0,135 (-0,641;3,984) 0,155
Situação laboral
Sem remuneração Referência
Com remuneração 0,029 (-1,287;1,760) 0,759
Hábito etílico
Não Referência
Sim -0,128 (-2,442;0,459) 0,178
Hábito tabagista
Não fumante Referência
Fumante -0,106 (-2,438;0,684) 0,268
AFTL -0,213 (-0,011;-0,001) 0,024
AFD -0,018 (-0,006;0,005) 0,847
Horas de televisão -0,035 (-0,077;0,053) 0,717
Autoavaliação de Saúde
Positiva Referência
Negativa 0,231 (0,364;3,210) 0,014 0,186 (0,088;0,177) 0,019a 0,326
Glicose capilar 0,048 (-2,202;1,312) 0,617
PAM 0,492 (0,095;0,190) < 0,001 0,458 (0,088;0,177) < 0,001a 0,326

*Regressão linear bruta;

**Regressão linear múltipla;

avariáveis que permaneceram no modelo final de acordo com o modelo hierárquico; AFTL: atividade física do tempo livre (horas); AFD: atividade física de deslocamento (horas); PAM: pressão arterial média (mmHg).

Discussão

Os principais achados deste estudo indicam importante prevalência do excesso de peso, presente em, aproximadamente, um terço dos adultos quilombolas. Sexo feminino, possuir uma autoavaliação negativa do estado de saúde e fatores relacionados às condições de saúde, como maior pressão arterial média, estiveram associados ao aumento dos valores de IMC.

A prevalência de excesso de peso, nos adultos quilombolas avaliados, foi inferior aos valores encontrados para adultos brasileiros, considerando os dados referentes à Pesquisa de Orçamentos Familiares, de 2007-2008 (63,8%)5, e o VIGITEL, de 2013 (50,8%)3. Os valores permaneceram inferiores mesmo quando comparados, exclusivamente, com os adultos da região nordeste do país (52,8%)5.

Estudo com adultos quilombolas do sudoeste baiano, realizado em 2011, constatou prevalência de excesso de peso de 42%, condição mais prevalente entre as mulheres5. Em outro estudo com remanescentes quilombolas paranaenses, desenvolvido em 2006, o excesso de peso observado foi de 42,8% dentre os adultos6. Embora em ambos os estudos mencionados o excesso de peso esteja presente em quase metade da população avaliada, este panorama não foi refletido nos adultos da presente investigação.

O aumento do peso foi associado positivamente com o sexo feminino. Diferenças entre os sexos, com maiores prevalências de excesso de peso para mulheres quilombolas5, ou entre mulheres africanas18, também foram documentadas; e estão de acordo com resultados de outros estudos populacionais em geral19,20. Mudanças hormonais e metabólicas entre as mulheres21 podem contribuir para o excesso de peso neste grupo. Para além do mencionado, outros fatores comportamentais, como diferentes atividades laborais desenvolvidas, podem ter contribuído para esta associação.

No quilombo investigado, a autoavaliação de saúde negativa foi associada com aumento do IMC. Quadro que corrobora com os resultados de investigação em quilombolas do sudoeste baiano22. Nesse sentido, é importante reconhecer que o conceito de saúde é reflexo da conjuntura social, econômica, política e cultural, e apresenta variações entre as comunidades e indivíduos segundo o momento histórico, localização e classe social, além dos valores individuais e das concepções científicas, religiosas, filosóficas23. Então, a autoavaliação negativa da saúde em indivíduos com excesso de peso é fator que representa um papel mediador para adoção de estilo de vida saudável24.

Houve uma correlação linear positiva entre o IMC e à pressão arterial média para os adultos quilombolas. A relação entre excesso de peso e valores pressóricos aumentados tem sido amplamente reconhecida25,26. Estudo conduzido em comunidades quilombolas do Nordeste brasileiro27 indica que a classificação dos indivíduos para o estado de sobrepeso e obesidade aumentaram em 1,22 (IC95% = 1,05:1,42) e 1,78 (IC95% = 1,33:2,37) a chance de serem classificados como hipertensos. O excesso de peso foi determinante proximal da hipertensão mesmo ajustado por fatores sociodemográficos e comportamentais.

Embora os mecanismos exatos da relação entre excesso de peso, obesidade e hipertensão não estejam totalmente compreendidos, postula-se que múltiplos mecanismos potenciais têm contribuído para o desenvolvimento de pressão arterial elevada em indivíduos obesos. Estes incluem desde a hiperinsulinemia, a ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona, estimulação do sistema nervoso simpático, além de concentrações inadequadas de certas adipocitocinas28,29. Além disso, fatores genéticos têm sido investigados30, configurando, desta maneira, esta relação como de características multifatoriais e poligênica.

O presente estudo apresenta algumas limitações que precisam ser consideradas. A primeira relaciona-se a característica de estudos transversais, por não permitirem estabelecer relação temporal entre exposição (variáveis sociodemográficas, do estilo de vida e das condições de saúde investigadas) e desfecho (excesso de peso). O tamanho da amostra pode ser insuficiente para detecção de associações de menor magnitude. Outra limitação incide na utilização de método duplamente indireto para avaliar o excesso de peso, relativo a gordura corporal, dos indivíduos, contudo salienta-se que o IMC representa indicador amplamente empregado em estudos populacionais. A realização de mensuração única para variáveis antropométricas e pressóricas, também pode ser considerada limitação, contudo o avaliador era habilitado e experiente.

Os principais achados deste estudo indicam que 1 em cada 3 quilombolas investigados apresentaram excesso de peso, o que sugere que esse grupo está menos exposto aos fatores de risco relacionados ao excesso de peso que adultos brasileiros e outros grupos com perfil populacional semelhante5,6.

Esses resultados reforçam a necessidade de políticas públicas direcionadas à promoção de saúde, principalmente aquelas relacionadas aos reconhecidos fatores de combate ao excesso de peso, como o acesso a uma alimentação saudável. Adicionalmente, indicam a importância de políticas que considerem as especificidades da população quilombola nos determinantes do excesso de peso.

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