Excesso de peso e fatores associados entre profissionais de saúde da Estratégia Saúde da Família

Excesso de peso e fatores associados entre profissionais de saúde da Estratégia Saúde da Família

Autores:

Franciele Viana Siqueira,
Darlete dos Santos Reis,
Rafael Artur Lopes Souza,
Sirlaine de Pinho,
Lucinéia de Pinho

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1414-462Xversão On-line ISSN 2358-291X

Cad. saúde colet. vol.27 no.2 Rio de Janeiro abr./jun. 2019 Epub 13-Jun-2019

http://dx.doi.org/10.1590/1414-462x201900020167

Abstract

Background

There is an overall increase in the prevalence of obesity, an important risk factor for chronic noncommunicable diseases.

Objective

To evaluate the prevalence of overweight and associated factors in health professionals in the Family Health Strategy.

Method

This is a cross-sectional study carried out with 215 health professionals from Montes Claros, MG, in 2015. Demographic, labor, behavioral and eating habits were investigated. Professionals were classified as having a health profile - concomitance with normal body mass index, not smoking, consuming fruits and vegetables daily, practicing physical activity and not adding salt to meals. Statistical analysis with a logistic regression model was used to identify factors associated with overweight.

Results

Community health agents (58.0%), nurses (27.0%), nursing technicians (9.0%) and physicians (6.0%) participated. Most of them were females (87%) with a mean age of 35.92 (±8.98). 53.5% and were overweight (36.7% overweight, 16.8% obese). Old age, other work relationship, irregular fruit, and vegetable consumption, and absence of health profile were associated with overweight.

Conclusion

There was a high prevalence of overweight in the health professionals, associated with lifestyle and work.

Keywords:  occupational health; health personnel; obesity

INTRODUÇÃO

O sobrepeso e a obesidade constituem um problema de saúde pública global, devido aos riscos para a saúde e ao aumento substancial da prevalência nos últimos anos1-3. No Brasil, também há um aumento nas frequências de sobrepeso e obesidade, caracterizando um acelerado processo de transição nutricional no país4.

O excesso de peso é resultante da interação complexa entres diversos fatores, entre os quais podem ser incluídas as características do trabalho. As condições adversas de trabalho, tais como longas jornadas, demandas excessivas e exposição a ambientes hostis, podem contribuir para a prevalência de obesidade na população trabalhadora. O contexto laboral pode influenciar o estilo de vida, os hábitos alimentares e os padrões de atividade física do trabalhador e, consequentemente afetar a sua saúde5-7.

O perfil dos trabalhadores da saúde caracteriza-se pela coexistência de diversos agravos, os quais têm relação direta com as condições específicas do trabalho e a forma como este é organizado, acrescidos das doenças comuns à população em geral8. O trabalho na área de saúde foi significativamente associado ao aumento da prevalência de obesidade6, o que pode levar ao alto absenteísmo e à baixa produtividade no local de trabalho, com consequências para as empresas e para a sociedade9.

No cenário da Atenção Primária à Saúde (APS) local, são limitadas as pesquisas sobre a vigilância em saúde do trabalhador10. Nesse sentido, o objetivo deste trabalho foi avaliar a prevalência de excesso de peso e os fatores associados entre profissionais de saúde da Estratégia Saúde da Família.

MÉTODO

Trata-se de estudo transversal e analítico, com abordagem quantitativa, realizado com profissionais das equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF), participantes do programa Unidades Promotoras da Saúde, no ano de 2015, no município de Montes Claros, norte de Minas Gerais. O programa tinha como finalidade apoiar as instituições na implantação de ações para promover a saúde e garantir a melhor qualidade de vida dos servidores, por meio do controle de tabagismo e alcoolismo, incentivo à alimentação saudável e atividade física/práticas corporais. A proposta do programa era estimular estilos de vida saudáveis através do fortalecimento do debate acerca de hábitos promotores de saúde11.

A população da pesquisa foi composta por 215 profissionais de saúde de ambos os sexos, com idade entre 19 e 60 anos de 50 unidades de Estratégia de Saúde da Família no município inseridas no programa das Unidades Promotoras da Saúde. Foram excluídos os funcionários que estivessem em férias, licença ou afastamento (11,7%).

A coleta de dados foi realizada in loco nas unidades Estratégia de Saúde da Família por meio da avaliação do estado nutricional e a aplicação de um questionário.

O estado nutricional foi avaliado a partir do Índice de Massa Corporal (IMC). Para cálculo do IMC, foi feita aferição da estatura e do peso corporal. O peso foi verificado em uma balança digital da marca Filizolla® com capacidade máxima de 150Kg e precisão de 100g, na qual o participante ficou em pé em posição vertical, com roupas leves, no centro da balança, descalço, com os braços relaxados ao lado do corpo. A altura foi medida com um estadiômetro afixado da própria balança, com o profissional em pé, descalço, com o corpo e a cabeça eretos, olhando para a frente, com os pés juntos e com as costas e a parte inferior do joelho encostadas no estadiômetro. A partir do IMC, os indivíduos foram classificados em baixo peso: < 18,5; eutrófico: 18,5-24,9; sobrepeso: 25-29,9; e obesidade: ≥ 30 kg/m2). Neste estudo, considerou-se como variável desfecho o excesso de peso (sobrepeso e obesidade).

O questionário foi composto pelas variáveis demográficas, laborais, comportamentais e hábitos alimentares, descritas a seguir.

Demográficas: sexo (masculino e feminino) e idade (20 a 30 anos, 31 a 40 anos e ≥ 41 anos).

Laborais: tempo de serviço (≤ 5 anos e > 5 anos) e presença de outro vínculo de trabalho.

Comportamentais: consumo atual abusivo de bebida alcóolica (ingestão de cinco ou mais doses (homens) ou quatro ou mais doses (mulheres) em uma única ocasião, pelo menos uma vez nos 30 dias anteriores à entrevista), tabagismo (fumantes atuais de cigarro - independentemente do número de cigarros, da frequência e da duração do hábito de fumar) e prática de atividade física (realiza 150 minutos ou mais de atividade física por semana)12.

Hábitos alimentares: consumo de água (≥ 8 copos por dia); consumo regular de frutas e verduras (consumo todos os dias ou quase todos os dias – pelo menos 5 dias da semana), leguminosas (consumo diário de feijão), acréscimo de sal à refeição pronta, retira a gordura das carnes e se troca almoço/jantar por lanches.

Perfil de Saúde: presença simultânea para as características de IMC dentro da normalidade (18,5 a 24,9kg/m2); não fumar; não beber; consumir frutas e verduras regularmente; praticar atividade física; e não adicionar sal às refeições ou alimentos já preparados13.

Todos os dados foram tabulados e analisados com o programa Statistical Package for the Social Sciences for Windows, versão 20.0. Foi realizada a análise descritiva dos dados, por meio da frequência absoluta e relativa. Em seguida, foram realizadas as análises bivariadas entre a variável desfecho e cada variável independente, por meio do modelo de regressão de Poisson com variância robusta. Foram estimados os valores brutos de razão de prevalência, com intervalo de confiança de 95%. As variáveis com nível descritivo p ≤ 0,20 foram selecionadas para a análise múltipla. Na análise múltipla, foi adotado o modelo de regressão de Poisson hierarquizado (stewise forward procedure) e a ordem de entrada dos blocos foi determinada a partir de um modelo teórico. Neste modelo, as variáveis independentes foram distribuídas em níveis distal, intermediário e proximal de acordo com a interação destes níveis no processo de desenvolvimento do excesso de peso (Figura 1). Para cada variável incluída, verificava-se se os valores de p dos coeficientes estimados eram menores que 0,05.

Figura 1 Modelo conceitual de hierarquia entre as variáveis investigadas 

O projeto deste estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) com protocolo nº 112937/2014 e conduzido em acordo com os princípios éticos contidos na Declaração de Helsinki.

RESULTADOS

Os profissionais de saúde participantes deste estudo foram representados por 58,0% de agentes comunitários de saúde, 27,0% enfermeiros, 9,0% técnicos de enfermagem e 6,0% médicos. A maioria era do sexo feminino (87,0%) e com idade média de 35,92 (±8,98). Na análise do estado nutricional, observou-se que 46,5% foram classificados como eutróficos e 53,5% com excesso de peso (36,7% com sobrepeso e 16,8% com obesidade). As distribuições dos profissionais de saúde de acordo com as características demográficas, laborais, comportamentais, hábitos alimentares e perfil de saúde estão apresentadas na Tabela 1.

Tabela 1 Distribuição dos profissionais de saúde segundo características demográficas, laborais, comportamentais, hábitos alimentares e perfil de saúde. Montes Claros-MG (2015) 

Variáveis n %
Sexo
Feminino 187 87,0
Masculino 28 13,0
Idade
20 a 30 anos 73 34,0
31- 40 anos 76 35,3
≥ 41 anos 66 30,7
Tempo de serviço
≤ 5 anos 97 45,1
> 5 anos 118 54,9
Outro vínculo de trabalho
Não 117 54,4
Sim 98 45,6
Consumo de bebida alcoólica
Não 91 42,3
Sim 124 57,7
Tabagismo
Não 202 94
Sim 13 06
Prática de atividade física regular
Sim 106 49,3
Não 109 50,7
Consumo de água
Sim 27 12,6
Não 188 87,4
Consumo de frutas
Sim 59 27,4
Não 156 72,6
Consumo de verduras
Sim 112 52,1
Não 103 47,9
Consumo de leguminosas
Sim 97 45,1
Não 118 54,9
Adição de sal às refeições
Não 167 77,7
Sim 48 22,3
Retira gordura das carnes
Sim 137 63,7
Não 78 36,3
Troca do almoço ou jantar por lanches
Não 109 50,7
Sim 106 49,3
Presença do perfil saúde
Sim 42 19,5
Não 173 80,5

A Tabela 2 apresenta os resultados das análises bivariadas dos fatores associados ao excesso de peso. Verificou-se que as seguintes variáveis se mostraram associadas, ao nível de 0,20%: idade (p=0,009; p<0,001); outro vínculo de trabalho (p=0,009); consumo de bebida alcoólica (p=0,126); prática de atividade física regular (p=0,202); consumo de água (p=0,026); consumo de frutas (p=0,005); consumo de verduras (p=0,007); consumo de leguminosas (p=0,186); e perfil de saúde (p=0,007). Essas variáveis foram selecionadas para análise múltipla final.

Tabela 2 Distribuição (%) de excesso de peso, razão de prevalência (RP) bruta e respectivo intervalo de 95% de confiança segundo características demográficas, laborais, comportamentais, hábitos alimentares e perfil de saúde. Montes Claros-MG (2015) 

Variáveis Excesso de peso RPbruta (IC 95%) p-valor
n %
Sexo
Feminino 100 87,0 1,00
Masculino 15 13,0 1,05(0,69-1,45) 0,992
Idade
20 a 30 anos 26 22,6 1,00
31- 40 anos 44 38,3 1,91(1,35-2,72) 0,009
≥ 41 anos 45 39,1 1,63(1,13-2,34) <0,001
Tempo de serviço
≤ 5 anos 50 43,5 1,00
> 5 anos 65 56,5 1,07(0,83-1,38) 0,606
Outro vínculo de trabalho
Não 53 46,1 1,00
Sim 62 53,9 1,40(1,09-1,79) 0,009
Consumo de bebida alcoólica
Não 43 37,4 1,00
Sim 72 62,6 1,23(0,94-1,60) 0,126
Tabagismo
Não 108 93,9 1,00
Sim 07 6,1 1,02(0,60-1,69) 0,979
Prática de atividade física regular
Sim 52 45,2 1,00
Não 63 54,8 1,18(0,92-1,52) 0,202
Consumo de água
Sim 19 16,5 1,00
Não 96 83,5 0,73(0,55-0,96) 0,026
Consumo de frutas
Sim 21 18,3 1,00
Não 94 81,7 1,69(1,17-2,44) 0,005
Consumo de verduras
Sim 50 43,5 1,00
Não 65 56,5 1,41(1,09-1,82) 0,007
Consumo de leguminosas
Sim 47 40,9 1,00
Não 68 59,1 1,19(0,92-1,54) 0,186
Adição de sal às refeições
Não 90 78,3 1,00
Sim 25 21,7 0,97(0,71-1,31) 0,827
Retira gordura das carnes
Sim 74 64,3 1,00
Não 41 35,7 0,97(0,75-1,26) 0,838
Troca do almoço ou jantar por lanches
Não 50 43,5 1,00
Sim 65 56,5 0,91(0,71-1,17) 0,462
Perfil saúde
Sim 13 11,3 1,00
Não 102 88,7 1,90(1,19-3,04) 0,007

Os resultados da análise de regressão logística múltipla hierarquizada estão apresentados na Tabela 3. No bloco distal de determinação, a variável idade foi o fator associado ao excesso de peso. As prevalências de excesso de peso foram maiores entre os profissionais na faixa etária de 31- 40 anos (RP=1,91) e com idade superior a 41 anos (RP=1,63), quando comparadas às daqueles com idade de 20 a 30 anos. No bloco intermediário, a prevalência de excesso de peso foi maior entre os indivíduos que declararam outro vínculo de trabalho (RP=1,17). No bloco proximal, verificou-se que aqueles que não consumiam frutas (RP=1,35) e verduras (RP=1,30) regularmente e ausência do perfil de saúde (RP=1,63) apresentaram maiores prevalências de excesso de peso, após ajuste pelas variáveis dos blocos hierarquicamente superiores.

Tabela 3 Resultados da análise de regressão de Poisson múltipla hierarquizada. Montes Claros-MG (2015) 

Variáveis RPajustada (IC 95%) p-valor
Idade
20 a 30 anos 1,00
31- 40 anos 1,91(1,35-2,72) 0,009
≥ 41 anos 1,63(1,13-2,34) <0,001
Outro vínculo de trabalho*
Não 1,00
Sim 1,17(1,02-1,34) 0,024
Consumo de frutas**
Sim 1,00
Não 1,35(1,18-1,54) <0,001
Consumo de verduras***
Sim 1,00
Não 1,30(1,02-1,66) 0,033
Perfil saúde****
Sim 1,00
Não 1,63(1,03-2,57) 0,035

RP = razão de prevalência; IC95% = intervalo de 95% de confiança

*Ajustada pela variável idade

**Ajustada pelas variáveis idade e outro vínculo de trabalho

***Ajustada pelas variáveis idade, outro vínculo de trabalho e consumo de frutas

****Ajustada pelas variáveis idade, outro vínculo de trabalho, consumo de frutas e de verduras

DISCUSSÃO

Neste estudo, constatou-se alta prevalência de excesso de peso, aproximadamente metade dos profissionais de saúde das Estratégia de Saúde da Família. As características laborais e os hábitos comportamentais foram associados ao excesso de peso.

O aumento do sobrepeso e da obesidade é uma realidade global e atual, e tornou-se um grande desafio para a saúde nos últimos anos. Na análise das tendências temporais das capitais brasileiras e do Distrito Federal entre os anos de 2006 e 2013, foi observado aumento estatisticamente significativo na maioria dos indicadores de excesso de peso na população adulta brasileira14.

Entre os trabalhadores da saúde, a prevalência de excesso de peso atinge proporções importantes, conforme observado no presente estudo e em outros levantamentos prévios internacionais15-17 e nacionais13,18-20. Em uma investigação com profissionais de saúde dos ambulatórios do Sistema Único de Saúde no município de Pelotas-RS, foi observado que 47,7% apresentaram excesso de peso, sendo 35,9% com sobrepeso e 11,8% com obesidade13. Em Londrina/PR, em um estudo com 380 adultos trabalhadores de um hospital universitário, observou-se que a prevalência de excesso de peso foi de 63,9%20. Em pesquisa com 175 profissionais de enfermagem em um hospital público em Fortaleza/CE, foi observada a prevalência de excesso de peso em 55,7% dos trabalhadores, sendo 21,8% obesos e 33,9% com sobrepeso18. Pesquisa realizada com 917 trabalhadores de saúde no Rio de Janeiro/RJ revelou que quase metade deles apresentaram algum grau de excesso de peso19, o que confirma a magnitude deste problema na população em diferentes regiões do país.

O excesso de peso é um dos principais fatores de risco responsáveis pelo aumento da morbidade e mortalidade por Doenças Crônicas Não Transmissíveis21. Um estudo de coorte intitulado The Nurse’s Health Study, com início em 1976, foi conduzido nos Estados Unidos e avaliou a influência do estilo de vida e fatores alimentares na mortalidade desses profissionais. Foi observado que, entre outros fatores, a idade, o índice de massa corporal e a alteração de peso estavam diretamente relacionados à mortalidade por todas as causas, entre elas as doenças cardiovasculares16.

A obesidade é uma doença multifatorial e envolve a relação complexa de fatores socioeconômicos, comportamentais, demográficos e psicossociais19,22. Há um aumento da prevalência do excesso de peso com o avançar da idade14,19,23, conforme observado no presente estudo. Em Pelotas/RS, na análise da evolução do excesso de peso e obesidade da adolescência até a idade adulta, em estudo longitudinal, observou-se o incremento na prevalência de excesso de peso e obesidade23. No inquérito nacional sobre Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (VIGITEL) com indivíduos de 18 anos de idade ou mais, as prevalências de sobrepeso e de obesidade aumentaram com o avanço da idade, especialmente até a faixa de 35 a 44 anos14.

Na literatura, alguns estudos, indicaram a influência do contexto de trabalho na saúde do trabalhador8,19,24,25. A prevalência de excesso de peso em 4.893 trabalhadores municipais em Belo Horizonte/MG foi de 44,4%, e foi associada às características do trabalho, hábitos de vida e condições de saúde25, dados similares ao presente estudo.

Os trabalhadores da área de saúde possuem características específicas do seu trabalho, como horários em turnos, longas jornadas e elevado escore de carga de trabalho, o que pode comprometer os hábitos de vida e as condições de saúde, consequentemente o seu estado nutricional, com aumento da predisposição ao sobrepeso e obesidade nessa população24,26,27.

Em investigação sobre a relação entre estresse no trabalho, horários de trabalho e obesidade entre 2.103 profissionais de saúde, foi observada maior prevalência desse agravo em trabalhadores com longas horas de trabalho. Chin et al.28 também verificaram que profissionais de saúde que trabalhavam em tempo integral ou trabalhavam ≥40h por semana possuíram maior chance de sobrepeso e obesidade. No presente estudo, observou-se que profissionais com outros vínculos possuíam maior prevalência de excesso de peso, o que também caracteriza maior carga de trabalho. Conforme demonstrado em estudos prévios em condições de jornada de trabalho prolongada, o indivíduo pode apresentar um desequilíbrio fisiológico, devido a alterações do sono e metabolismo, presença de ansiedade e compulsão alimentar, gerando um quadro propício para desencadear o ganho ponderal29,30.

A relação entre comportamento alimentar e sobrepeso/obesidade foi verificada neste estudo. Os profissionais de saúde com consumo de frutas e verduras inadequado possuíam maior prevalência de excesso de peso, achados similares àqueles obtidos em pesquisa com trabalhadores de um município do nordeste brasileiro31. Entre 40.853 adultos participantes de um estudo no país, observou-se que a prevalência do consumo recomendado de frutas e verduras foi baixa (24%). O consumo adequado de frutas e verduras é um fator de proteção para doenças crônicas14,32 e, por isso, é incentivado nas diretrizes para uma alimentação saudável1,33.

Espera-se que os profissionais de saúde tenham mais conhecimentos sobre os comportamentos de cuidados de saúde e suas consequências a longo prazo. Além disso, espera-se que eles atuem como modelos, uma vez que os comportamentos de saúde destes profissionais podem afetar as atitudes dos pacientes e motivá-los para fazer mudanças no estilo de vida. Essas características dos profissionais de saúde podem promover mudanças na saúde ocupacional, ou seja, a prevenção de doenças relacionadas ao estilo de vida saudável e, ainda, incentivar tais comportamentos em seus pacientes34,35.

Os trabalhadores da Atenção Primária à Saúde estão na linha de frente para promover comportamentos saudáveis, mas os julgamentos sociais de seus pacientes podem impactar a sua credibilidade como atores promotores de saúde. Comportamentos inadequados dos profissionais de saúde podem impactar negativamente a prestação de cuidados à saúde. Nesse sentido, a implementação de medidas relacionadas à promoção da saúde e do bem-estar em ambientes de trabalho na APS, apoiando, assim, a equipe na adoção de estilos de vida saudáveis, tem muito a contribuir para a saúde pública34,35.

O aumento da obesidade pode estar relacionado com as diferenças de sexo no ganho de peso. Em estudos prévios com dados populacionais, estimou-se que a prevalência de sobrepeso e de obesidade foi maior entre mulheres36,37. Na presente investigação, não foi constatada a associação entre o sexo e a prevalência de sobrepeso e obesidade em profissionais de saúde. Este resultado pode ter sido influenciado pelo predomínio do sexo feminino entre os pesquisados e, por isso, sugerem-se estudos adicionais para explorar esta associação.

O excesso de peso em profissionais de saúde é uma condição que pode gerar consequências ao indivíduo, à sociedade e aos serviços de saúde e, por isso, a necessidade de estratégias para a promoção da saúde ocupacional8,14. Os resultados obtidos sugerem a importância de ampliar e fortalecer os processos de educação permanente e apoio técnico às equipes de saúde para que os profissionais sejam acompanhados e sensibilizados para aderir a um estilo de vida saudável e praticar mudança de comportamento para uma melhor qualidade de vida18. Além disso, os profissionais de saúde que atuam na Estratégia de Saúde da Família (ESF) têm um papel importante para promover comportamentos de estilo de vida saudáveis para a saúde da população.

Essas informações podem subsidiar a implementação de políticas públicas de saúde para o trabalhador, com condução de programas eficazes de promoção da saúde no local de trabalho visando à prevenção da obesidade em combinação com estratégias de intervenção focadas em indivíduos. Nesta perspectiva, os resultados deste estudo, ressaltam a importância da proposta “Unidade Promotora de Saúde” no cenário local, que tem a finalidade de apoiar as instituições na implantação de ações que tenham como objetivo promover a saúde dos servidores, refletindo na rotina de trabalho deles e atingindo assim a população adscrita11.

Neste estudo, há limitações que devem ser consideradas. Trata-se de um estudo com desenho transversal que avalia apenas associação entre variáveis, sem possibilidade de definir relação de causa e efeito. O estudo contemplou um grupo com categorias profissionais diversificadas e, portanto, as características dos processos de trabalho podem influenciar os resultados38. Estudos futuros devem considerar a análise por categoria profissional e a influência do processo de trabalho no excesso de peso. A pesquisa possui caráter e aplicação local, em um município norte mineiro. Ainda assim, este conjunto de dados é importante para o levantamento das condições de saúde do trabalhador brasileiro.

O excesso de peso apresentou elevada prevalência entre profissionais de saúde da Estratégia Saúde da Família. Os fatores relativos às características demográficas, do trabalho e hábitos de vida foram associadas ao excesso de peso. O estudo propõe a adoção de um estilo de vida saudável entre profissionais de saúde para a prevenção do excesso de peso, uma vez identificada a relação entre os fatores modificáveis e a prevalência deste agravo. Essa investigação é fundamental para o conhecimento na área e subsidiar a implantação de políticas de saúde do trabalhador na Atenção Primária. Os resultados obtidos podem permitir a implantação de programas de promoção da saúde no local de trabalho, com o objetivo da adoção de comportamentos promotores de saúde. Há um potencial de melhorar os resultados de saúde dos profissionais e da população assistida e, portanto, intervenções no local de trabalho podem impactar a saúde pública.

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