Existe relação entre o conhecimento de estudantes a respeito das formas de contágio do HIV/AIDS e suas respostas sobre a proximidade com soropositivos?

Existe relação entre o conhecimento de estudantes a respeito das formas de contágio do HIV/AIDS e suas respostas sobre a proximidade com soropositivos?

Autores:

Vanessa Prado Santos,
Maria Thereza Ávila Dantas Coelho,
Estéfani Lima Macário,
Tâmara Cerqueira da Silva Oliveira

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.22 no.8 Rio de Janeiro ago. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232017228.25892015

Introdução

Trinta e cinco milhões de pessoas, em todo o mundo, viviam com o vírus da imunodeficiência humana (HIV) até o final de 20131. No mesmo ano, foram estimados em 2,1 milhões os novos casos de infecção pelo vírus HIV, havendo uma queda de 38% em relação ao ano de 2001. O número de mortes relacionadas com a doença também continua a diminuir. Em 2013, o número anual de pessoas morrendo de doenças relacionadas à AIDS foi de 1,5 milhões de pessoas, evidenciando uma queda de 35% quando comparado ao ano de 2005. No entanto, os dados estatísticos desta pandemia não se apresentam de maneira uniforme nos diferentes países do mundo1.

Na África Subsaariana, cerca de 24,7 milhões de pessoas estão vivendo com o vírus HIV, sendo este o local mais afetado pela epidemia, quando comparado à distribuição global de pessoas soropositivas1. Nas regiões do Pacífico e na Ásia, os valores chegam, em média, a 4,8 milhões. Para a América Latina, a estimativa é de 16,6 milhões de pessoas, com o destaque de que 75% dos casos estão distribuídos entre Brasil, Colômbia, Venezuela e República Boliviana1. Em relação aos novos casos de infecção, na América Latina ocorreu um processo lento de declínio, sendo que, no México, observou-se um decréscimo de 39% no número de novas infecções, enquanto que no Brasil houve um aumento de 11%1.

Segundo o Boletim Epidemiológico de 2014, do Departamento de DST, AIDS e Hepatites Virais da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, cerca de 734 mil pessoas vivem com HIV/AIDS no Brasil, correspondendo a uma prevalência de 0,4% da população brasileira2. Entre os jovens, no período compreendido entre 2004 e 2013, houve um aumento no número de casos novos da doença em ambos os sexos. Entre os homens, destaca-se o aumento da incidência na faixa etária de 15 a 24 anos, observando-se que, entre aqueles com 15 a 19 anos, houve um aumento de 120%; e entre os de 20 a 24 anos, de 75,9%. Entre as mulheres, a tendência significativa de aumento é entre aquelas com 15 a 19 anos, com um aumento de 10,5%2.

Apesar da veiculação de informações sobre a doença nos meios de comunicação, o aumento da incidência da AIDS entre jovens brasileiros mostra que ainda pode haver desinformação sobre essas vias de transmissão. De acordo com Dziekaniak e Rover3, a informação é o insumo básico para o desenvolvimento do conhecimento, sendo este o valor agregado à informação, o ‘o que se faz com ela’, o diferencial que culminará na tomada de decisões acertadas, no saber fazer. Apesar do conhecimento não implicar, necessariamente, em uma mudança de comportamento4,5, a desinformação pode, segundo a literatura, favorecer o preconceito e dificultar o combate a ideias estereotipadas sobre a doença6. Numerosos estudos avaliam o conhecimento acerca das questões de saúde através dos mais diversos questionários7,8. No entanto, autores que avaliaram um grupo em dois momentos, antes e depois de uma atividade educativa, demonstraram que, apesar de haver um maior número de respostas corretas no segundo momento, ainda persistiram algumas incorretas. Ou seja, a aquisição do conhecimento não se deu de maneira uniforme na amostra9. Na literatura e na prática cotidiana observa-se que são múltiplos e complexos os fatores que interferem no conhecimento e que é difícil avaliá-lo através de medidas diretas e pontuais.

Nesse contexto, o objetivo deste estudo é encontrar se os estudantes universitários detêm o conhecimento acerca das formas de contágio do HIV/AIDS, quais as suas respostas acerca da proximidade com pessoas soropositivas e ainda verificar se há uma correlação entre o conhecimento sobre as formas de contágio e tais respostas.

Métodos

Este estudo faz parte de uma pesquisa que analisa as concepções e as práticas de saúde e doença entre estudantes universitários. No Brasil, existem ainda poucas pesquisas que tratem desta questão entre professores e estudantes universitários do campo da saúde. Nesta etapa quantitativa, investigamos o conhecimento sobre as formas de contágio do HIV/AIDS e as respostas sobre o convívio com soropositivos entre os estudantes de um curso de graduação em saúde. Incluímos na amostra todos os estudantes ingressos no respectivo curso nos anos de 2012, 2013 e 2014, através do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), que frequentaram as duas primeiras semanas letivas, ou seja, recém ingressos na Universidade, e aceitaram participar do estudo através da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Foi aplicado um questionário, desenvolvido pelo Ministério de Saúde, contendo 50 questões10. O questionário foi elaborado para avaliar programas de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis (DST) e AIDS. As perguntas pretendiam saber o que o indivíduo conhecia sobre AIDS e DST, como ele via a AIDS e as pessoas que a têm, conhecer aspectos da prática sexual do indivíduo e saber se ele tinha tido alguma DST nos últimos meses. Como nossa pesquisa também pretende encontrar o que o estudante conhece sobre a AIDS e como ele vê a doença e as pessoas que a têm, utilizamos o mesmo questionário, visto que ele contempla aspectos semelhantes. No instrumento aplicado havia perguntas relacionadas às formas de contágio, opinião, prevenção e realização de testes diagnósticos da infecção pelo vírus10.

Nossa amostra contou com 591 estudantes universitários que assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido, concordando em participar da pesquisa, atestando ciência de que os questionários eram anônimos e os dados seriam analisados sem a identificação dos mesmos. A pesquisa foi conduzida conforme as diretrizes e as normas reguladoras de pesquisas envolvendo seres humanos, da Resolução 196/96, posteriormente substituídas pela Resolução 466/1211,12, e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia.

Foram analisadas, nesta etapa do estudo, as dez perguntas do questionário sobre as formas de contágio do HIV/AIDS e as cinco questões do instrumento acerca de opiniões relativas aos direitos das mulheres e à proximidade com soropositivos. As perguntas analisadas nesta etapa do estudo se encontram detalhadas nas Tabelas 1 e 2. Havia apenas duas possibilidades de respostas, sim (S) ou não (N), para as 10 perguntas sobre as formas de contágio, como também para as cinco demais (sim, se concordavam com a afirmação, e não, se discordavam) sobre opiniões e a proximidade com indivíduos soropositivos. As respostas foram tabeladas em planilha, sendo avaliadas as frequências de respostas positivas (Sim) ou negativas (Não). Após uma primeira análise das respostas referentes às 10 perguntas sobre as formas de contágio do HIV, os estudantes foram subdivididos em dois grupos segundo o número de respostas corretas: entre 3 e 6 acertos (grupo A) e entre 7 e 10 acertos (grupo B), com o objetivo de correlacionar o número de acertos e a presença de respostas preconceituosas. As respostas acerca das cinco perguntas do questionário que continham possíveis relações com preconceito, sobre o convívio social com soropositivos, tiveram sua frequência estudada e descrita em percentual da amostra.

Tabela 1 Respostas dos estudantes quando perguntados a respeito das formas de contágio do HIV/AIDS. 

Forma de contágio do vírus HIV/AIDS (10 perguntas) Respostas
Sim Não
N(%) N(%)
Sexo sem preservativo 581 (98,3%) 10 (1,7%)
Talheres, pratos e copos 33 (5,6%) 557 (94,4%)
Usar o mesmo banheiro 54 (9,2%) 533 (90,8%)
Beijo na boca 158 (27,1%) 426 (72,9%)
Gravidez ou parto 568 (96,4%) 21(3,6%)
Aleitamento materno 351 (61,1%) 223 (38,9%)
Picadas de inseto 64(11,5%) 492(88,5%)
Sangue contaminado 577 (98,8%) 07 (1,2%)
Seringas e/ou agulhas 574 (97,6%) 14(2,4%)
Brincar com crianças que tenham o vírus 13(2,2%) 576 (97,8%)

Tabela 2 Correlação entre o conhecimento dos estudantes sobre as formas de contágio do HIV/AIDS (grupos A e B) e a presença de respostas contrárias à proximidade com pessoas soropositivas. 

Afirmações GRUPO A* GRUPO B**
(24 estudantes) (567 estudantes) Valor de p
N(%) N(%)
Concordaram que se incomodariam se uma criança com o vírus da AIDS estudasse na escola do seu filho 06 (25%) 30 (5,4%) 0,002
Concordaram que o patrão deve mandar embora do emprego uma pessoa com o vírus da AIDS para proteger a si e aos colegas de trabalho 02 (8,7%) 05 (0,9%) 0,027
Concordaram que se incomodariam se uma casa vizinha se transformasse em uma casa para pessoas com AIDS 03 (13%) 38 (6,8%) 0,21

* GRUPO A: estudantes que acertaram entre 3 e 6 de um total de 10 perguntas sobre formas de contágio do HIV/AIDS.

**GRUPO B: estudantes que acertaram entre 7 e 10 de um total de 10perguntas sobre formas de contágio do HIV/AIDS.

Para estudar a possível relação entre o conhecimento das formas de contágio, avaliado pelo número de acertos, e as respostas de proximidade com soropositivos, analisamos comparativamente os estudantes dos dois distintos grupos (A e B). Esta análise buscou verificar se havia correlação entre um menor conhecimento e respostas que denotavam a não aceitação da proximidade com soropositivos. A análise estatística foi realizada no programa EPI-INFO 2005. Para o estudo das possíveis associações entre as variáveis qualitativas (grupos A e B, conforme o número de acertos e respostas preconceituosas) foi utilizado o Teste Exato de Fisher, considerando significante um p ≤ 0,05.

Resultados

A nossa amostra em estudo foi composta por 591 estudantes universitários da área de saúde que responderam ao questionário, sendo que 190 (32%) se autodeclararam do sexo masculino e 401 (68%), do feminino. A média de idade foi de 22,9 anos.

Quando analisadas as dez perguntas acerca das formas de contágio do vírus HIV/AIDS, a grande maioria dos estudantes universitários revelou um conhecimento elevado acerca da doença. Noventa e oito por cento dos estudantes responderam que o sexo sem preservativo é uma forma de contágio; 96% afirmaram que a gravidez e o parto de mães soropositivas também são formas de contágio; 99% referiram o sangue contaminado como forma de contrair o HIV e 98% responderam que seringas e agulhas contaminadas são formas de transmissão. Noventa e oito por cento dos participantes responderam que brincar com crianças soropositivas não é uma forma de contágio; 94% revelaram que talheres, pratos e copos não são formas de se contrair o HIV; 91% afirmaram que usar o mesmo banheiro também não e 89% responderam que picadas de insetos não são formas de se adquirir a AIDS. As duas perguntas com maior proporção de respostas incorretas foram: 27% dos estudantes responderam que o beijo na boca é uma forma de contrair a AIDS e 39% responderam que o aleitamento materno não é uma forma de contágio do HIV/AIDS (Tabela 1).

Quando considerados o número de acertos dos estudantes às dez perguntas dessa etapa do questionário, obtivemos que 4% (24 estudantes) da amostra acertou entre 3 e 6 perguntas (Grupo A), enquanto 96% (567 estudantes) acertou entre 7 e 10 perguntas (Grupo B). Nenhum estudante acertou menos que três perguntas dessa seção do questionário, que continha 10 questões sobre formas de contágio do vírus (Tabela 3).

Tabela 3 Número de acertos dos 591 estudantes quanto às 10 perguntas sobre as formas de contágio do HIV/AIDS. 

Número de respostas corretas Estudantes que acertaram este número de perguntas
N(%)
Nenhuma ou 1 0 (0%)
2 0 (0%)
GRUPO A*
3 01 (0,2%)
4 02 (0,3%)
5 10 (1,7%)
6 11 (1,9%)
GRUPO B**
7 33 (5,6%)
8 121 (20,5%)
9 216 (36,5%)
10 197 (33.3%)

* GRUPO A: 24 estudantes que acertaram entre 3 e 6 de um total de 10 perguntas sobre formas de contágio do HIV/AIDS. **GRUPO B: 567 estudantes que acertaram entre 7 e 10 de um total de 10 perguntas sobre formas de contágio do HIV/AIDS.

Avaliamos também as respostas que denotavam uma não aceitação da proximidade com indivíduos soropositivos. Estas perguntas do questionário investigavam: “Você se incomodaria se uma criança com o vírus da AIDS estudasse na escola do seu filho?”, 93,8% responderam que não; “Você acha que seu patrão deve mandar embora do emprego uma pessoa com o vírus da AIDS para proteger você e seus colegas de trabalho?”, 98,8% dos participantes da pesquisa afirmaram que não; e “Você se incomodaria se uma casa vizinha à sua se transformasse em uma casa para pessoas com AIDS?”, 93% responderam que não.

Correlacionando o número de acertos dos estudantes (subdivididos nos dois grupos A e B) com a presença de respostas que revelavam a não aceitação da proximidade com soropositivos, encontramos diferença estatisticamente significante em relação a duas, do total de três perguntas. Os estudantes com menor número de acertos sobre as formas de contágio do HIV (entre 3 e 6 respostas corretas/grupo A) concordaram, em maior número, com as afirmações de que “o patrão deveria mandar embora do emprego uma pessoa com o vírus da AIDS” e que “se incomodaria se uma criança com o vírus da AIDS estudasse na escola do seu filho”. A correlação entre o conhecimento sobre as formas de contágio do HIV/AIDS (categorizados nos grupos A e B) e a presença de respostas de não aceitação da proximidade com soropositivos se encontra detalhada na Tabela 2.

Discussão

A literatura mostra que os jovens apresentam um bom conhecimento sobre as formas de contágio do vírus HIV/AIDS13,14. Na nossa pesquisa, com mais de 500 estudantes universitários, encontramos que mais de 95% deles conhecem as formas de contágio do vírus através da relação sexual, sangue contaminado, seringas e agulhas, gravidez e parto, denotando possuir conhecimento sobre o tema. Muitas dessas informações são frequentemente veiculadas em campanhas nos meios de comunicação. No entanto, ainda tivemos elevado número de respostas incorretas quando se tratava da possibilidade de contágio pelo beijo na boca e da transmissão através do leite materno.

As diversas pesquisas contam com amostras de diferentes características, mas em todas elas observa-se que ainda há algum desconhecimento sobre as formas de contágio do vírus HIV/AIDS entre os jovens15,16. Um estudo com estudantes de uma Universidade do interior de São Paulo revelou que 90% dos jovens afirmaram que pode ocorrer a transmissão por drogas injetáveis; 84%, através de transfusão sanguínea; 67%, por secreções sexuais; e 22%, através da saliva16. Porém, a literatura mostra que muitos jovens ainda têm dúvidas sobre a transmissão vertical, e através da saliva e da picada de insetos16,17. Apesar dos instrumentos de coleta de dados serem diferentes nas pesquisas sobre o assunto, algumas das perguntas sobre as formas de contágio estão presentes em todos eles16,17.

A relação entre o conhecimento sobre as formas de contágio do vírus e as respostas de não aceitação da proximidade com soropositivos é controversa na literatura. Estudos realizados com jovens de outras nacionalidades foram divergentes em demonstrar a relação entre conhecimento e preconceito15,17,18. Pesquisa de Tavoosi et al.15, realizada com estudantes do ensino médio, encontrou que os jovens com menor conhecimento sobre a doença apresentavam mais atitudes negativas sobre as pessoas soropositivas, sendo que cerca de metade dos estudantes acreditava que um soropositivo não deveria estudar na escola dos demais alunos. Já Holtzman et al.17, em pesquisa realizada com estudantes norte-americanos de escolas secundárias, não encontrou correlação entre conhecimento sobre o HIV e o comportamento dos jovens. Na Grécia, jovens de 13 escolas técnicas e profissionalizantes apresentaram elevado conhecimento sobre as formas de contágio do HIV, e 76% continuariam amigos de um indivíduo soropositivo; mas apenas 19% dos estudantes gostariam que os colegas da escola soubessem de um eventual diagnóstico de HIV positivo14.

No nosso estudo, com jovens universitários que também detinham um bom conhecimento sobre as formas de contágio do vírus HIV/AIDS, encontramos que poucos estudantes demonstraram a não aceitação da proximidade com soropositivos. No Brasil, um estudo de Seidl et al.6 realizado na Universidade de Brasília (UnB), revelou que os alunos da área de saúde tendem a ter posições menos excludentes, quando comparados aos das ciências humanas e exatas, a respeito do direito de pessoas com HIV/AIDS à educação e ao trabalho. Um dos motivos atribuídos a essa diferença seria um maior conhecimento sobre o assunto pelos alunos de cursos da área de saúde, baseado no contexto próprio da área6.

Em relação às perguntas aplicadas no nosso estudo, poucos estudantes afirmaram que seu patrão deveria mandar embora do emprego uma pessoa com o vírus da AIDS para a sua proteção e a de seus colegas de trabalho. Também no ambiente universitário do estudo de Seidl et al.6, cerca de um quarto da amostra estudada concordou com essa afirmativa. Porém, o nosso trabalho não comparou os estudantes de diferentes áreas, encontrando respostas de não aceitação da proximidade com soropositivos em uma frequência ligeiramente menor que o estudo de Seidl et al.6, em que cerca 8,2 % da amostra concordou plenamente com a afirmação de que o patrão deveria demitir um soropositivo para proteção dos demais trabalhadores e 7,8 % concordou em parte, havendo um percentual de cerca de 15% da amostra concordante com esta afirmação, em uma escala gradativa de concordância, que não foi utilizada no nosso estudo. Em outro trabalho, indivíduos soropositivos participantes de uma pesquisa revelaram que temiam que a descoberta da infecção pelos colegas de trabalho pudesse gerar o preconceito ou desconforto na prática da sua profissão19. Alguns dos participantes pediram demissão do trabalho por sentirem medo de serem expostos como portadores do HIV; outros foram demitidos por preconceito; e existiram ainda aqueles que desistiram de procurar emprego, por temor de se submeterem aos testes admissionais19.

O preconceito é considerado como a atitude de um indivíduo em relação a um determinado grupo, fundamentada na crença de que aquele grupo específico possuiria características negativas20. O preconceito pode ser influenciado por múltiplos fatores, entre eles os culturais, os cognitivos, os históricos, os econômicos e os de personalidade. O processo de destruição do preconceito não se daria por meio da inibição de somente um fator, mas de uma atuação sobre diversos deles20. Não são apenas as diferenças individuais que favorecem o desenvolvimento do preconceito. Ele se baseia nas experiências do indivíduo e nas suas relações sociais, que se desenvolvem através do ambiente familiar, escolar e redes de comunicação, podendo atuar em diferentes esferas que irão facilitar ou dificultar o seu surgimento21. Segundo Galvão22, apesar da AIDS não ser mais associada à “morte física”, o portador vivencia uma “morte social” decorrente do estigma que a condição de soropositivo gera nas relações interpessoais e intergrupais.

No nosso estudo, a questão com maior número de respostas que poderiam denotar algum grau de preconceito, pois revelam a não aceitação da proximidade com pessoas soropositivas, foi em relação ao incômodo caso uma residência vizinha se transformasse em um centro para pessoas com AIDS. Porém, nesta pergunta não houve diferença significativa entre os dois grupos de jovens, com menor e maior conhecimento sobre as formas de contágio da doença, mostrando que a ideia do convívio despertou uma resposta negativa em ambos os grupos.

Em Brasília, autores investigaram a existência do preconceito em relação às pessoas soropositivas em duas esferas universitárias (pública e privada)22. Com a criação de uma “Escala de Distância Social”, objetivaram mensurar o desconforto em relação aos portadores do vírus HIV. Com uma amostra de 169 estudantes universitários, foram estudados diferentes atores sociais, com maior ou menor proximidade, como amigos, parentes, vizinhos, conhecidos com HIV e outros. Os resultados revelaram que o desconforto era maior quando havia relações mais próximas (amizade ou parentesco), quando comparado às relações formais, sem convívio afetivo. A amostra analisada revelou uma sensação de desconforto nas relações sociais muito próximas22. Adolescentes portadores do vírus HIV, ao conhecerem seu diagnóstico, desejam que ninguém mais tenha conhecimento do mesmo, o que provavelmente se deve ao medo do preconceito e da discriminação associados à doença23. Apenas familiares e, às vezes, os parceiros poderiam saber, pois os adolescentes relatam que os amigos têm o hábito de questionar as mudanças na aparência, secundárias à doença23.

De acordo com os nossos resultados, um menor conhecimento esteve significativamente associado a respostas negativas da proximidade, apesar delas também estarem presentes, em menor frequência, entre os jovens com maior número de acertos a respeito das formas de contágio do vírus. Tavoosi et al.15 também encontraram esta correlação, e tendo aplicado questionários a mais de quatro mil estudantes, revelaram uma frequência maior de atitudes negativas quanto aos soropositivos entre estudantes com menor conhecimento, sendo que 23% amostra respondeu que não apertaria a mão de um soropositivo, se soubesse da doença. Já em pesquisa realizada com estudantes de medicina da Malásia, Chew e Cheong24 não encontraram correlação entre conhecimento e atitudes negativas, mas 50% da amostra responderam que os parceiros de soropositivos deveriam ser informados mesmo sem o consentimento do doente e 49% concordaram que todos os pacientes admitidos em um hospital deveriam realizar sorologia para HIV.

As perguntas que denotavam atitudes negativas para com pessoas portadoras do HIV/AIDS não foram semelhantes nos diversos estudos e ainda não há, na literatura, um instrumento universalmente aceito para avaliar o comportamento dos jovens em relação a essa doença. As escalas para correlacionar conhecimento e atitudes que revelam preconceito também diferem nos estudos, porém, as amostram contam, em sua maioria, com jovens com elevado conhecimento sobre a doença e que participam de múltiplos setores da sociedade, havendo respostas que indicam preconceito em parte da literatura pesquisada6,14,15,17.

Na nossa pesquisa, apesar das respostas contrárias à proximidade com indivíduos soropositivos serem pouco frequentes, em duas das três perguntas houve correlação entre elas e um menor conhecimento sobre as formas de contágio da doença, sugerindo que um maior debate sobre este tema com os jovens pode trazer alguma contribuição no combate ao preconceito. Porém, a pequena prevalência de opiniões que denotavam preconceito pode ter relação com a metodologia adotada, já que o questionário aplicado solicitou uma resposta direta, com apenas duas opções, e pontual, o que pode não representar um comportamento cotidiano dos jovens universitários. No entanto, o caráter anônimo do questionário permite uma resposta mais direta e livre. Outro aspecto a ser considerado é que nossos estudantes, recém ingressos na Universidade, estão adquirindo novos conhecimentos para discutir e repensar suas atitudes e opiniões, cabendo à sociedade e às Universidades ampliar seus espaços para o debate destas questões.

Concluindo, de acordo com os resultados obtidos no presente estudo, os estudantes universitários, em sua maioria, possuem conhecimento sobre as formas de contágio do HIV/AIDS. Entretanto, ainda existe algum grau de desinformação, principalmente sobre a transmissão vertical do vírus. Houve maior frequência de respostas negativas em relação à proximidade com soropositivos entre os estudantes com menor conhecimento sobre as formas de contágio do HIV/AIDS. Futuras pesquisas são necessárias para avaliar se um investimento em ações de educação em saúde poderia auxiliar no combate ao preconceito na sociedade contemporânea.

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