Expressividade da fala de executivos: análise de aspectos perceptivos e acústicos da dinâmica vocal

Expressividade da fala de executivos: análise de aspectos perceptivos e acústicos da dinâmica vocal

Autores:

Daniela Maria Santos Serrano Marquezin,
Izabel Viola,
Ana Carolina de Assis Moura Ghirardi,
Sandra Madureira,
Léslie Piccolotto Ferreira

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.27 no.2 São Paulo mar./abr. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/2317-1782/20152014188

No contexto do profissional executivo, organizações têm investido no aprimoramento da expressividade da fala de seus colaboradores. Essa ação tem sido considerada como fator estratégico para alcançar um diferencial competitivo, credibilidade e reputação positiva. Tal investimento inclui, além da abertura de novos canais de comunicação, a preparação dos colaboradores, principalmente dos executivos, cujos pronunciamentos representarão a própria identidade da empresa( 1 ).

Considerando que esta pesquisa aborda aspectos relacionados à expressividade da fala de executivos, é importante apontar alguns conceitos sobre essa função. Os executivos atuam dentro de uma organização com a função de planejar, organizar, dirigir e distribuir as tarefas que são realizadas pelos demais funcionários. Estabelecem uma liderança formal e esclarecem os colaboradores sobre o que se espera deles( 2 , 3 ).

Partindo do conceito de expressividade como um nível de informação no processo de comunicação( 4 ), a expressividade da fala constrói-se a partir das interações entre elementos segmentais (vogais e consoantes) e prosódicos (ritmo, entoação, qualidade de voz, taxa de elocução, pausas e padrões de acento) e entre som e sentido. A percepção dos recursos utilizados na expressividade da fala acontece na interação entre o que é da intenção do falante e o que é da interpretação do ouvinte( 5 ).

A prosódia e os elementos que a compõem moldam a enunciação, imprimindo ao que se fala um "modo de falar" que é dirigido intencionalmente ou não ao ouvinte. Quando se fala de função comunicativa, há referência a um aspecto audível dos elementos prosódicos. No plano da expressividade, distingue-se entre as funções prosódicas, a expressão de atitude, a postura interpessoal e o tipo de elocução; as funções afetivas, como a tristeza, alegria, raiva e afetos como o humor; e as funções indiciais, que são marcas de gênero, origem social e dialetal( 6 ).

De acordo com a prática de fonoaudiólogos quanto à expressividade da fala de profissionais do rádio, o termo expressividade da fala remete à transmissão de emoções e intenções na mensagem( 7 ).

O estudo( 8 ) dos efeitos persuasivos da qualidade e dinâmica de voz em locutores de propaganda demonstrou que os falantes avaliados com a fala mais convincente, entusiástica e agradável apresentaram pitch mais baixo, demarcação estratégica das pausas, articulação precisa e taxa de elocução média. Em contra-partida, os falantes julgados como pouco convincentes e agradáveis apresentaram pitch mais alto e taxa de elocução rápida.

A variação nos parâmetros que compõem a dinâmica vocal e a marcação efetiva das fronteiras entre os enunciados possibilitam a compreensão do enunciado e favorecem a concentração da atenção do ouvinte/interlocutor( 9 ).

Para o estudo com professoras( 10 ), foi realizada avaliação da expressividade da fala por alunos de Pedagogia, usando, em ordem de preferência, classificadores como motivadora, agradável, prende a atenção e transmite firmeza e hesitação. Fonoaudiólogos avaliaram o uso de pausas e duração dos enunciados, a taxa de elocução, a articulação, a entoação e a ocorrência de repetição dos padrões melódicos. A professora, cuja expressividade da fala foi considerada positiva, apresentou articulação precisa, taxa de elocução com variação média e variabilidade do pitch, e transmitiu, ainda, a impressão de fala objetiva e segura. A professora, cuja expressividade da fala foi considerada negativa, apresentou articulação imprecisa, taxa de elocução considerada lenta e pouca variabilidade de pitch, e transmitiu a impressão de fala insegura para os ouvintes.

Com o objetivo de estudar os efeitos da emoção sobre a voz, a fala e a fluência na situação de falar em público, um estudo(11) analisou a fala de quatro sujeitos nas situações de: seminário/ palestra; entrevista; momentos antes da palestra e entrevista; logo após a palestra. Foi realizada avaliação perceptivo-auditiva para análise dos parâmetros de voz e fluência da fala e análise do discurso. Concluiu-se que o estado emocional alterado interferiu na coordenação pneumofonoarticulatória, na produção de vícios de linguagem, na inteligibilidade de fala, no aparecimento de hesitações, repetições, prolongamentos e sons de preenchimento.

Com relação à frequência fundamental, vozes mais graves são consideradas mais agradáveis( 12 ) e transmitem maior sensação de segurança, autoridade e credibilidade( 13 ). A taxa de elocução (TE) pode ser classificada como lenta, média ou rápida e está diretamente relacionada aos padrões temporais. Suas variações afetam tanto a duração como a qualidade dos segmentos(14,15) .

A taxa de articulação (TA) é a razão entre o tempo total de fala (incluindo pausas preenchidas, prolongamentos de sílabas e pausas silenciosas) e o número de sílabas fonéticas por segundo. A TA pode ser considerada como lenta, média ou rápida, sendo média de 3,7 a 4,8 sílabas por segundo e rápida de 4,6 a 6,3 sílabas por segundo( 16 ).

A pausa é um elemento prosódico que auxilia na construção e compreensão do sentido do discurso, favorece a troca de turnos entre os falantes e possibilita o processamento da mensagem, uma vez que demarca a continuidade prosódica. As pausas coincidem com fronteiras sintáticas, marcando, geralmente, fronteiras entre as frases. O uso é indicado para o deslocamento de elementos sintáticos e para assinalar mudança no conteúdo semântico. Fora do esperado, o uso de pausas pode representar hesitação, o que revela uma reorganização da fala. Além disso, pode ser utilizada como recurso de ênfase, para chamar atenção para o que vai ser dito( 17 ).

Segundo alguns autores( 8 , 18 - 20 ), as pausas podem ser estudadas quanto a sua estrutura, função, distribuição e tempo. Com relação à estrutura, podem ser silenciosas, quando há de fato um silêncio, que pode ser empregado com diferentes propósitos; preenchidas, quando ocorre em produções de conteúdos não linguísticos, como alongamento de partes da palavra, em sons como [m ] e inspiração com ruído audível; ou sinalizadas, quando há uma variação de f0 ou ruptura no fluxo da fala. Quanto à função, podem ser classificadas em: pausas discursivas, de planejamento e para demarcar os constituintes das frases (palavras, grupos de palavras ou frases e são utilizadas para organizar partes do discurso, como o início e o final de um relato); pausas expressivas, que têm a função de destacar palavras que o falante deseja enfatizar, produzindo, dessa forma, um determinado efeito; pausa respiratória, que ocorre por razão fisiológica. As pausas podem ocorrer entre ou no interior dos enunciados, cumprindo diferentes papéis de acordo com a intenção e necessidades do falante e podem ser breves ou longas no que diz respeito a sua classificação temporal( 21 ).

No estudo( 22 ) sobre o uso das pausas nos diferentes estilos de televisão, as pausas foram classificadas em: delimitativas, para planejamento e estruturação do discurso; de planejamento, para planejar a continuidade da fala e de estruturação discursiva, que organiza partes do discurso. Foram seleciona-das amostras de fala de dois jornalistas, em cinco programas de televisão. As medidas foram extraídas por meio da análise acústica, com segmentação dos tempos de narração e das pausas silenciosas em milissegundos (ms). As pausas silenciosas breves foram as que apresentaram medidas entre 50 e 250 ms e as que apresentaram um elemento plosivo junto com a pausa; e foram consideradas pausas as que estiveram acima de 200 ms. Pausas silenciosas longas foram aquelas que apresentaram mais de 250 ms. Os resultados apontaram para mudanças ocorridas no uso das pausas, em função do tipo de narrativa. Concluiu-se que as pausas, em estilos de programas interativos de televisão, têm o papel de construir turnos de fala e que, entre outros elementos prosódicos, o uso adequado destas é fundamental para a construção da expressividade da fala, por desempenharem um papel delimitativo e sinalizador de efeitos de sentido.

O objetivo desta pesquisa foi analisar a expressividade da fala de um grupo de executivos partindo de dados perceptivos e acústicos da dinâmica vocal.

MÉTODOS

O presente estudo obteve aprovação do Comitê de Ética da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), protocolo de número 423/2011.

Participaram da pesquisa quatro sujeitos (S1, S2, S3 e S4), executivos, do gênero masculino, que assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

O teste Kingdomality ( 23 ), elaborado para um programa de colocação profissional, foi aplicado com o objetivo de caracterizar os sujeitos quanto aos estilos corporativos e, a partir destes, selecionar os descritores semânticos correspondentes aos aspectos comunicativos utilizados na análise das impressões perceptivo-auditivas sobre a expressividade da fala dos sujeitos. O programa conta com quatro grupos de estilos corporativos, a saber: ajudantes, desafiadores, mantenedores e exploradores. No programa Kingdomality, ao descrever o estilo corporativo de cada grupo, os autores citam termos relativos à expressividade da fala e às competências comunicativas, por exemplo: saber ouvir, empático, objetivo, convincente, cortês, seguro, entre outros.

Para coleta das amostras de fala, foi realizada gravação da fala, caracterizada por relato com sugestões de produtos de investimentos. E finalizaram com uma frase de convencimento sobre os produtos apresentados na consultoria.

Cada sujeito foi gravado em sessão individual, por dez minutos, em sala silenciosa, com a utilização de gravador digital modelo ICD-PX312/PX312F da marca Sony, acoplado a um microfone de cabeça posicionado a 10 cm da rima oral esquerda. O registro foi feito por meio do software de análise acústica do programa Vocalgrama. A digitalização e edição dos dados foram realizadas no software Sound Organizer Sony versão 1.1, instalado em computador notebook da marca Dell Inspiron.

Na análise perceptivo-auditiva da qualidade vocal, considerou-se a avaliação de aspectos da produção vocal como: presença ou não de alteração da qualidade vocal; equilíbrio ou desequilíbrio do sistema de ressonância e precisão ou imprecisão na articulação (compreensão ou ininteligibilidade da fala).

A análise perceptivo-auditiva da dinâmica da voz teve como objetivo a avaliação de aspectos da dinâmica da voz, como: variação do pitch; variação de loudness; continuidade de fala; taxa de elocução e suporte respiratório. Para isso, foi utilizada a parte de dinâmica da voz do instrumento Vocal Profile Analysis Scheme (VPAS)( 24 ). Participaram das análises três fonoaudiólogos juízes, com formação em fonética e experiência especificamente em avaliação sob a perspectiva fonética (VPAS-PB). Estes receberam, por e-mail, as gravações com a frase de convencimento dos quatro sujeitos e o instrumento para avaliação.

Para levantamento das impressões causadas pela expressividade da fala dos executivos, relacionada às atitudes comunicativas, foram selecionados quatro descritores qualitativos descritos no teste Kingdomality, a saber: seguro, empático, objetivo e convincente. Um questionário de diferencial semântico foi elaborado para a avaliação de 30 juízes, considerados aqui como prováveis investidores, de diversas profissões e idades variadas, que, juntamente com as gravações, fizeram o julgamento.

Para análise acústica, foi utilizado o programa Praat versão 5.2.21 (www.praat.org) - software de livre distribuição para pesquisa em fonética acústica. Por meio da análise acústica, foram extraídas as seguintes medidas: medidas da frequência fundamental - f0 (f0 mínimo, f0 máximo e extensão de f0 em Hertz, Hz), as medidas foram realizadas em toda a extensão da frase, com anotação dos valores do f0 mínimo e f0 máximo e extração das medidas de extensão de f0; medidas de duração - medida da unidade vogal a vogal (unidade VV), que compreende a extensão de uma vogal até o início da vogal seguinte. Em cada sentença, foram delimitadas e segmentadas as unidades dos enunciados produzidos por cada um dos quatro sujeitos. Após a extração das unidades, foi realizada a divisão do número de unidades VV pela duração de tempo da sentença. Para isso, aplicou-se o teste estatístico Z-escore a essas medidas, para obtenção de uma suavização do contorno de duração das unidades VV, o que possibilitou a verificação dos picos de duração destacados, separando os grupos prosódicos. Nos resultados, foram considerados como picos mais importantes ou significativos aqueles que ultrapassaram a linha superior vermelha dos gráficos 5, 6, 7 e 8, respectivos para os sujeitos 1, 2, 3 e 4; medida da TE do enunciado - realizou-se o cálculo do número de sílabas por segundos; medida da TA do enunciado pela divisão do número sílabas fonéticas por segundo; pausas - marcadas perceptivamente e com apoio na inspeção da onda sonora e do espectrograma de banda larga.

As pausas foram classificadas quanto a sua estrutura em: pausas silenciosas; pausas preenchidas e pausas sinalizadas. Quanto à função, em: pausas respiratórias; pausas discursivas e pausas expressivas. E quanto às características de tempo, quanto ao comprimento em: longas ou curtas; quanto aos intervalos, em regulares ou irregulares.

Neste estudo, utilizou-se o modelo de classificação das pausas( 21 ) (Quadro 1).

Quadro 1. Classificação das pausas 

Realizou-se a análise descritiva dos dados por meio de frequências absolutas e relativas, medidas de tendência central (média e mediana) e dispersão (desvio padrão, mínimo e máximo). O intervalo de confiança de 95% (IC95%) foi calculado como estimativa por intervalo, a fim de verificar a diferença entre as proporções.

Para avaliar a similaridade entre os sujeitos de pesquisa, utilizou-se a análise multivariada de cluster aglomerativo hierárquico, pela técnica do vizinho mais próximo, e a dissimilaridade pela distância Euclidiana, por ligação simples. A representação gráfica foi apresentada pelo dendograma. Nesse processo, todas as variáveis receberam padronização, a saber: a) variável nominal, transformação simples de caractere alfa numérico para numérico; b) variável ordinal, transformação pela equação (valor real/(valor acima da escala-1); e c) variável contínua, transformação pela equação (valor real-média)/desvio padrão).

Para os valores referentes à divisão do número de unidades VV pela duração de tempo da sentença, para cada sujeito, foi realizado o teste do Z-escore e a suavização da curva pela média móvel. Para a comparação entre sujeitos, foi utilizado o teste de Kruskal-Wallis. Utilizaram-se testes não paramétricos, pois as variáveis contínuas não apresentaram distribuição normal pelo teste de Kolmogorov-Smirnov.

Assumiu-se um nível descritivo de 5% para significância estatística. As análises estatísticas foram realizadas no programa estatístico Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) para Windows versão 17.0 e pelo EstatCamp.

RESULTADOS

A caracterização dos sujeitos evidenciou serem todos do gênero masculino; dois administradores de empresas e dois economistas, em cargo executivo de gerência. Quanto ao estilo corporativo Kingdomality, dois deles apresentaram-se como desafiadores e outros dois como ajudantes.

As emissões dos sujeitos foram descritas com os trechos de fala e os momentos de pausa (marcados com uma barra - / - e entre parênteses o tipo, quanto à estrutura; função; tempo, com comprimento sinalizado entre # e em ms) encontra-se no Anexo 1.

Análises perceptivo-auditivas

Com relação à qualidade vocal, à dinâmica vocal e às impressões sobre a expressividade da fala relacionada a descritores semânticos e à análise acústica, verificou-se: S1: apresentou qualidade vocal adequada, articulação precisa e ressonância laringofaríngea; pitch habitual abaixado, pitch extensão diminuída, pitch variabilidade diminuída, loudness habitual aumentado, loudness extensão neutra, loudness variabilidade diminuída, continuidade interrompida, taxa de elocução lenta e suporte respiratório inadequado; apresentou maior rejeição, pois foi apontado como inseguro, não objetivo, não empático e não convincente; menor valor de taxa de elocução e de taxa de articulação; quatro momentos de pausa, uma respiratória, com duração de 143 ms, e as demais caracterizadas por hesitações, ou seja, pausa sinalizada, com duração silábica longa em som plosivo (586 ms); preenchida, inspiração com ruído audível (378 ms); preenchida, caracterizada por hesitação e obstrução total dos articuladores na produção de plosivas (1.688 ms). Os intervalos entre as pausas foram considerados irregulares, pois as pausas foram utilizadas com quebras dos grupos prosódicos e com separação de constituintes sintagmáticos; S2: apresentou qualidade vocal adequada, articulação precisa e ressonância equilibrada; pitch habitual neutro, pitch extensão diminuída, pitch variabilidade diminuída, loudness habitual neutro, loudness extensão neutra, loudness variabilidade aumentada, continuidade interrompida, taxa de elocução rápida e suporte respiratório adequado; foi considerado seguro, pouco objetivo, empático e convincente; apresentou valor representativo de maior variação de f0; valores considerados médios para as taxas de elocução e articulação; nove momentos de pausa, uma respiratória (190 ms); uma silenciosa, caracterizada por interrupção na fala (250 ms); quatro preenchidas, com alongamentos de partes das palavras (1.070, 597, 370 e 250 ms, respectivamente); uma expressiva, como recurso de ênfase (563 ms), e duas discursivas, para planejamento e organização (437 e 358 ms). Os intervalos apresentaram-se mais regulares, quando comparados aos do S1, pois S2 utilizou pausa para recarga respiratória e pausas de estruturação e de ênfase na fala, apesar de apresentar momentos de hesitação; S3: apresentou qualidade vocal adequada, articulação precisa e ressonância laringofaríngea; pitch habitual abaixado, pitch extensão diminuída, pitch variabilidade aumentada, loudness habitual neutro, loudness extensão neutra, loudness variabilidade aumentada, continuidade interrompida, taxa de elocução rápida e suporte respiratório inadequado; apontado como seguro, objetivo, empático, e convincente; valores considerados médios para as taxas de elocução e articulação; cinco momentos de pausa, duas respiratórias (115 e 340 ms); duas preenchidas, com alongamentos de partes das palavras (421 e 1856 ms) e uma expressiva, como recurso de ênfase (384 ms). Assim como S2, S3, quando comparado ao S1, apresentou intervalos mais regulares, utilizou pausas de recarga respiratória e pausa de ênfase na fala, apesar de apresentar momentos de hesitação; S4: apresentou qualidade vocal adequada, articulação precisa e ressonância equilibrada; pitchhabitual abaixado, pitch extensão diminuída, pitch variabilidade diminuída, loudness habitual neutro, loudness extensão neutra, loudness variabilidade diminuída, continuidade interrompida, taxa de elocução rápida e suporte respiratório adequado; recebeu maior pontuação, sendo avaliado como o mais seguro, objetivo, empático e convincente; valor indicativo de menor variação de f0; valores considerados médios para as taxas de elocução e articulação; cinco momentos de pausa, três discursivas, para planejamento e estruturação da fala (991, 532 e 208 ms), e duas expressivas, caracterizadas como recurso de ênfase de palavras. Os intervalos entre as pausas foram regulares, não apresentou hesitação e os grupos prosódicos coincidiram com o enunciado, sem separar os constituintes sintagmáticos.

Com a distribuição dos sujeitos, segundo a avaliação dos três juízes fonoaudiólogos, calculou-se a matriz de proximidade (Quadro 2) e, a partir desses dados, verificou- se que há uma formação na qual S3 e S4 estão próximos, formando um grupo com S2 que está pouco mais distante (Figura 1).

Figura 1. Dendograma a partir da análise multivariada de cluster segundo a avaliação da qualidade vocal e da dinâmica vocal realizada pelos juízes fonoaudiólogos, dos quatro sujeitos 

Com relação às impressões causadas pela expressividade da fala dos executivos, relacionada às atitudes comunicativas, foi realizado o cálculo do número e percentual de sujeitos de pesquisa segundo características das impressões sobre a expressividade da fala relacionada a descritores semânticos, atribuídas por 30 juízes leigos (Tabela 1).

Tabela 1. Número e percentual de sujeitos de pesquisa segundo características das impressões sobre a expressividade da fala relacionada a descritores semânticos, atribuídas por 30 juízes leigos 

Variável S1 S2 S3 S4
n (%) n (%) n (%) n (%)
Seguro 1 (3,3) 21 (70,0) 25 (83,3) 30 (100,0)
Inseguro 29 (96,7) 5 (16,7) 2 (6,7) 0 (0,0)
Neutro 0 (0,0) 4 (13,3) 3 (10,0) 0 (0,0)
Objetivo 13 (43,3) 13 (43,3) 25 (83,4) 30 (100,0)
Não objetivo 13 (43,3) 8 (26,7) 4 (13,3) 0 (0,0)
Neutro 4 (13,4) 9 (30,0) 1 (3,3) 0 (0,0)
Empático 7 (23,3) 19 (63,4) 24 (80,0) 26 (86,8)
Não empático 14 (46,7) 7 (23,3) 2 (6,7) 2 (6,6)
Neutro 9 (30,0) 4 (13,3) 4 (13,3) 2 (6,6)
Convincente 11 (36,7) 15 (50,0) 25 (83,4) 30 (100,0)
Não convincente 16 (53,3) 9 (30,0) 4 (13,3) 0 (0,0)
Neutro 3 (10,0) 6 (20,0) 1 (3,3) 0 (0,0)
Total de sujeitos 30 (100,0) 30 (100,0) 30 (100,0) 30 (100,0)

Legenda: S = sujeito

Na comparação pelo IC95%, verificou-se uma diferença estatisticamente significativa (p<0,050) entre todos os sujeitos quando avaliada a característica seguro. Não houve diferença entre S1 e S2, quanto à característica objetivo. S3 e S4 apresentaram diferença entre si e com S1 e S2. Na apresentação das características empático e convincente, respectivamente, observou-se diferença entre todos os sujeitos (p<0,005; Figura 2).

Figura 2. Proporção e intervalo de confiança de 95% (IC95%) para os quatro sujeitos da pesquisa para as categorias (A) seguro, (B) objetivo, (C) empático e (D) convincente 

Análise acústica

Verificou-se a distribuição dos valores absolutos para as medidas de frequência fundamental (Tabela 2) e valores relativos à avaliação das medidas de frequência fundamental para os quatro sujeitos (Figura 3).

Tabela 2. Frequência absoluta das medidas de frequência fundamental para os quatro sujeitos 

Medidas (Hz) Sujeitos
1 2 3 4
f0 mínimo 76 80 92 80
f0 máximo 173 214 200 150
Extensão de f0 97 134 108 70

Legenda: f0 = frequência fundamental

Figura 3. Dendograma a partir da análise multivariada de cluster para a avaliação das medidas de frequência fundamental 

Com os valores absolutos das medidas de duração analisados, demonstrou-se, na divisão por grupos, S2, S3 e S4 em um grupo e S1 em outro (Tabela 3).

Tabela 3. Frequência absoluta das medidas de duração para os quatro sujeitos 

Medidas Sujeitos
1 2 3 4
Duração da frase em segundos 15 19 19 22
Total de unidades VV 42 67 86 96
Taxa de elocução em sílabas (s) 2,8 3,5 4,5 4,6
Taxa de articulação em sílabas (s) 3,8 4,4 5,5 5,7

Legenda: VV = vogal a vogal

Observou-se que não houve diferença entre os sujeitos ao se analisar o número de unidades VV extraídas (p=0,761). Contudo, ao se analisar continuamente essa variável segundo sujeitos, verificam-se os picos de duração que marcam momentos importantes de uso de pausa, tanto para aspectos considerados negativos na fala, como, por exemplo, em hesitações, quanto para os aspectos considerados positivos na fala, como em ênfases e estruturação de frase (Tabela 4 e Figura 4).

Tabela 4. Descrição do número de unidades vogal a vogal extraídas para os quatro sujeitos 

Sujeitos Unidades VV Média (DP) Mediana Mínimo Máximo Valor de p
1 43 272,4 (241,4) 202 91 1.319 0,761
2 69 268,7 (295,7) 188 72 2.177
3 84 263,6 (285,0) 191,5 15 2.110
4 93 232,1 (179,9) 181 53 1.106

Legenda: VV = vogal a vogal; DP = desvio padrão

Figura 4. Análise do tempo de duração - suavização do contorno de duração das unidades vogal a vogal, ocorrência dos picos de duração que separam os grupos prosódicos - em milissegundos pelo Z-escore para (A) Sujeito 1, (B) Sujeito 2, (C) Sujeito 3 e (D) Sujeito 4 

DISCUSSÃO

Com relação à análise perceptivo-auditiva da dinâmica da voz, pela avaliação da maioria dos fonoaudiólogos juízes, S1, S2, S3 e S4 apresentaram pitch habitual abaixado. Tal característica pode estar associada ao fato de serem todos e colaborou para ser o segundo melhor pontuado quanto às impressões positivas, isto é, convincente, empático, seguro e objetivo( 8 , 9 , 14 , 18 - 22 ).

S4 utilizou pausas para planejamento e estruturação da fala e como recurso de ênfase de palavras. Os intervalos entre as pausas foram regulares, não apresentou hesitação e os grupos prosódicos coincidiram com o enunciado, sem separar os constituintes sintagmáticos. As pausas realizadas por S4 podem ser consideradas estratégicas, pois a fala configurou-se articulada e gerou unanimidade entre os juízes quando avaliaram a expressividade da fala desse sujeito positivamente, ou seja, como convincente, seguro, empático e objetivo( 8 , 9 , 14 , 18 - 22 ).Ainda com referência ao uso das pausas, as discursivas empregadas por S2 e S4 revelaram a habilidade desses executivos em identificar as partes relevantes do contexto de fala e a sensibilidade em destacá-las para o ouvinte, facilitando o processamento da mensagem( 8 , 9 , 14 , 15 , 18 - 22 , 25 , 26 ).

A pausa expressiva, de acordo com a literatura( 19 ), pode ser considerada como enfática, pois tem a função de salientar a informação dada. As pausas expressivas empregadas por S2, S3 e S4 demonstraram habilidade dos sujeitos em utilizar o recurso de ênfase, ao marcarem determinadas palavras, e demonstraram a intenção de reforço das ideias transmitidas.

No contexto do executivo( 2 , 3 ), espera-se que esse profissional seja seguro, convincente e objetivo, características estas de persuasão. Com referência a isso, é importante ressaltar que S4 destacou-se pelos aspectos positivos, enquanto que S1, pelos negativos, associados aos recursos de comunicação.

Os resultados das análises perceptivo-auditivas e acústicas realizadas nesta pesquisa podem contribuir para o trabalho do fonoaudiólogo sobre expressividade, especialmente de executivos. Sugere-se, na realização de assessoria personalizada, compreender as características individuais e quais as habilidades existentes que podem ser aprimoradas, apesar de se considerar também o estilo esperado em função da profissão e do que é proposto pela empresa. Os achados citados podem auxiliar o fonoaudiólogo a entender melhor a dinâmica da voz e os recursos a serem trabalhados para impressionar e gerar sentido. Destaque especial pode-se dar ao uso de pausas, no sentido de grupos prosódicos coincidirem com o enunciado, sem a separação de constituintes de um sintagma, característica esta, muito evidente neste estudo.

CONCLUSÃO

Com os resultados obtidos, pode-se concluir que as características de expressividade da fala utilizadas por um grupo de executivos estiveram associadas aos ajustes e variações realizados na produção da qualidade vocal e dinâmica da voz. Com relação à dinâmica vocal, dois sujeitos mereceram destaque: um, de forma positiva, pois ao utilizar adequadamente os recursos prosódicos, transmitiu segurança, foi considerado objetivo, empático e convincente; e outro, de forma negativa, pois os recursos utilizados não foram efetivos, uma vez que, com a realização de quebras dos grupos prosódicos, não transmitiu segurança, foi apontado como pouco objetivo, não empático e não convincente.

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