Fábrica de corpos: corpo e poder na Fundição Tupy

Fábrica de corpos: corpo e poder na Fundição Tupy

Autores:

Odilon Castro,
Pedro Paulo Gomes Pereira

ARTIGO ORIGINAL

Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.18 no.49 Botucatu abr./jun. 2014 Epub 17-Mar-2014

http://dx.doi.org/10.1590/1807-57622013.0177

ABSTRACT

The purpose of this paper is to present an ethnographic research that sought to understand how the relationship between body and power was configured in the Tupy Foundry car parts factory, located in Maua, Greater São Paulo, Brazil. The study was conducted throughout the year 2011 with 12 workers as the researcher main interlocutors. They were interviewed on several occasions and through these it was obtained as result two forms of experience with the body: first, the body that breaks; and second, the body that escapes in daily encounters with power.

Key words: Body; Power; Work; Friendship

RESUMEN

La propuesta de este texto es presentar una encuesta etnográfica que trato de comprender la forma en que se configuraban las relaciones entre cuerpo y poder en la fábrica de piezas de automóvil Fundição Tupy. Realicé la encuesta durante todo el año 2011. Durante el trabajo en campo, me aproximé más directamente de 12 trabajadores que se convirtieron en mis principales interlocutores. Los entrevisté en diversas ocasiones y, por medio de esas entrevistas, obtuve como resultado dos maneras de experiencia con el cuerpo: la primera, el cuerpo que se rompe y la segunda, el cuerpo que escapa en los encuentros diarios con el poder.

Palabras-clave: Cuerpo; Poder; Trabajo; Amistad

Apresentação

Este artigo visa apresentar a pesquisa etnográfica: “Fábrica de corpos”, concluída em 2012 no Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O estudo teve por objetivo investigar como se configuravam as relações entre corpo e poder na fábrica de autopeças denominada Fundição Tupy1.

Todavia, antes de qualquer intenção de investigação acadêmica, no período entre os anos de 1997 e 2000, fui trabalhador operário na Fundição Cofap/Tupy. Durante tal experiência, escrevi minhas impressões sobre o meu trabalho e dos demais operários em um diário que nomeei como “Diário da Fábrica”. Dez anos depois, relendo este diário, percebi que nele eram narradas, em meio ao final da história da Fundição Cofap e o início da história da Fundição Tupy: as angústias dos trabalhadores, suas relações conflituosas dentro e fora da fábrica, e, sobretudo, as modificações nos corpos destes operários. Tal narrativa me interpelou e foi, então, que me envolvi numa pesquisa acadêmica propriamente dita.

Reler o diário foi algo muito marcante – trabalho, alimentação, uniformização, lazer, apelidos: tudo parecia girar em torno do corpo e de metáforas corporais. Assim, dez anos após minha permanência na fundição como operário, eu estava novamente nos portões da fábrica, desta vez, como pesquisador, tentando fazer uma ciência social do observado2.

Realizei a pesquisa etnográfica durante todo o ano de 2011. Durante o trabalho de campo, me aproximei mais diretamente de 12 trabalhadores, que se tornaram meus principais interlocutores. Entrevistei-os em diversas ocasiões. Como fui impedido pela diretoria da Fundição Tupy de adentrar na empresa, as informações coletadas se deram mediante: observações diárias feitas nos portões da fábrica, anotações no diário de campo e entrevistas gravadas nas residências dos operários, bares e na Sede do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e Mauá. A opção pela investigação etnográfica foi escolhida por se tratar de um método que possibilita interação direta com os investigados, auxiliando na compreensão de como os trabalhadores, coletivamente, constroem e dinamizam processos sociais, e como as subjetividades se expressam dentro e fora da fábrica3.

Durante o processo de escolha do método, atentei-me para as vantagens e desvantagens que propiciaria o método etnográfico. Por meus interlocutores serem, em certa medida, do meu próprio universo, me deparei com o medo da rejeição. Afinal, eu estava afastado do universo fabril e dos amigos operários da Fundição Tupy por dez anos. Como pesquisador, interroguei-me sobre o meu limite em relação à necessidade de me distanciar do próprio universo para constituí-lo em termos sociológicos e culturais4. E atentei-me para o fato de que, também, por conhecer o universo fabril, eu poderia eliminar preocupações para o risco de as pessoas do local informarem somente o que consideram que o pesquisador desejaria ouvir5.

Este artigo está organizado da seguinte forma: inicialmente, apresentarei o campo onde foi realizada a pesquisa: a Fundição Tupy; em seguida, muito rapidamente, algo da discussão das ciências sociais sobre corpo, em especial, a contribuição da antropologia. Contudo, por motivos que serão explicitados no decorrer do texto, concentrarei a análise no filósofo francês Michel Foucault, autor fundamental para o desenvolvimento desta pesquisa. Nesta mesma seção, exibirei, velozmente, dois dos meus principais interlocutores: Zé Barba e Bocão. O texto se deterá nesses personagens pela maior proximidade no decorrer da etnografia realizada, e porque mostram bem os principais contornos da discussão sobre corpo empreendida neste artigo. Seguindo o percurso, o texto se volta para duas formas de percepção do corpo indicadas por meus interlocutores: o corpo que quebra e o corpo que escapa. Essas metáforas (“quebrar” e “escapar”) foram expressões recorrentes que resolvi levar a sério neste texto. Para finalizar, sistematizarei o caminho percorrido neste texto, tecendo algumas considerações que se tornaram visíveis pela pesquisa etnográfica.

A fábrica de autopeças Fundição Tupy

Inaugurada em 1975 por Abraão Kasinski, a Fundição Cofap, localizada na região de Capuava, em Mauá, fora a mais moderna e importante fundição da América Latina nos anos 1980. No entanto, a partir da década de 1990, período em que as empresas do ramo de fundições, de um modo geral, fizeram a transição do estágio manual para o estágio de linhas automatizadas, a Fundição Cofap estava com dez anos de atraso tecnológico em relação às outras fundições existentes no mundo. As adaptações foram impossíveis e, em julho de 1997, a fundição e todo o restante da fábrica deixaram de pertencer ao grupo Cofap, confirmando, assim, o alto nível de competição pelo qual passava a indústria de autopeças brasileira e mundial. Em 1999, a empresa Tupy Fundições assumiu os direitos trabalhistas de, aproximadamente, mil trabalhadores, divididos em três turnos: manhã, tarde e noite. Atualmente, ocupa uma área de 100.000m2 e possui 36.000m2 de área construída, produzindo cento e dez mil toneladas de peças por ano: blocos e cabeçotes de diferentes motores (c) .

Observando de fora, a fábrica é uma grande estrutura de aço, com portas e telhas velhas, cercada por muros e grades. O pó preto que sai das chaminés cai sobre a fábrica e sobre os carros no estacionamento. As poucas árvores existentes na fábrica também são cobertas pelo pó e pela ferrugem das chaminés. No seu interior, lustres pendurados por todos os lados tentam, em vão, iluminar a escuridão do galpão. O barulho não permite ouvir nada além das máquinas e das ferramentas. O pó preto e o barulho cobrem os operários, com seus uniformes, roupas velhas, enferrujadas, rasgadas, e muitas de numeração incompatíveis com seus corpos, que parecem brigar com a vestimenta. É obrigatório o uso dos equipamentos de proteção individual (EPIs): capacetes, óculos, protetores auriculares, luvas e botas. Porém, nem todos os operários fazem uso dos EPIs, devido ao incômodo causado pelos equipamentos. O cheiro de tinta, de óleo e de solvente mistura-se com o cheiro de algo queimando. Linhas com esteiras, operários com aventais de couro. Nas mãos, as ferramentas de desbaste: lixadeiras, chicotes, marteletes, marretas e mangueiras de que saem ar. Os corpos, e as peças, percorrem incessantemente as linhas de produção.

A fundição é dividida por departamentos: fusão, macharia, soldagem, rebarbação, qualificação e pintura, auditoria e embalagem. As hierarquias são expressas por uniformes, horários, tipos de contratações (operários: horistas; e trabalhadores dos escritórios: mensalistas), e pelos diferentes salários, indicados pelas diferentes cores dos capacetes. Os horários das refeições, assim como louças e talheres, e os alimentos são diferenciados para trabalhadores horistas e mensalistas. Os operários comem no “bandejão” de alumínio.

A fundição é um ambiente velho, sujo, escuro, barulhento e protegido. Lugar onde os corpos são uniformizados e obrigados a se protegerem com equipamentos - EPIs - que os sufocam, para, logo em seguida, se armarem de ferramentas de desbaste que os desgastam nas esteiras das linhas de produção. Local dividido por departamentos, onde os nomes designam produção pesada, numa cadência ditada pelo trabalho ininterrupto. Espaço onde os corpos sofrem um tipo de reificação6 que bloqueia sua aparência. Território que insiste em propiciar refeições separatistas7. Ambiente que produz peças e corpos, e, ao mesmo tempo, é produzido por esses corpos-peças. Projeto arquitetônico disciplinador8, onde o corpo torna-se central.

Os operários referem-se ao próprio corpo como instrumento, como forma de pensar a realidade que o circunscreve. Ou referem-se aos corpos dos outros operários: as modificações adjacentes do trabalho, as mudanças da linha de produção, as doenças adquiridas pelo trabalho pesado e insalubre, como tendinite e bursite, enfim, o corpo ocupa, entre os trabalhadores, lugar de destaque. Tudo gira em torno do corpo e das metáforas corporais: os gestos, os apelidos, as tentativas de comunicação devido ao barulho, a alimentação, os uniformes, as músicas, as roupas de passeio, o uso do álcool. Certa manhã, por exemplo, conversando com Belinha, atendente da Lanchonete do Azulão, localizada ao lado da fábrica, acostumada ela própria a ouvir os operários narrarem sobre seus corpos, ouvi a seguinte assertiva:

“O corpo é um carro, tem que estar em movimento. A gasolina do corpo é o trabalho. Cama entrava. Por um lado [...] descansar é bom. Mas não ter movimento, parar de trabalhar faz a pessoa ficar doente, o corpo estaciona, não volta mais”.

Estando o corpo no centro das indagações de meus interlocutores, passei, então, a me voltar para as análises que abordavam o tema, bem como as relações entre corpo e poder (já que os corpos ali eram de trabalhadores operários). Na próxima seção, vou me deter nesses aspectos.

Corpo e poder

A antropologia, há muito tempo, tem se debruçado sobre o corpo como objeto de investigação. Pesquisas antropológicas mostram que questões, até então, tratadas como de domínio exclusivo da biologia – como sexualidade, alimentação, saúde e doença, dores, sono e morte – estão igualmente submetidas a fatores culturais, o que explica sua variabilidade tanto em uma mesma sociedade (em função do tempo ou de suas subdivisões) quanto entre sociedades. Esses estudos tiveram papel fundamental para a compreensão do corpo como objeto social, colocando-o, novamente, no mesmo campo da sociedade.

Em um famoso texto de 1950, Marcel Mauss9 defende o valor crucial para as ciências do homem de um estudo das técnicas corporais, definidas como as maneiras pelas quais cada sociedade impõe ao indivíduo um uso rigorosamente determinado de seu corpo. Isto é, por intermédio da educação, das necessidades e das atividades corporais, a sociedade imprime sua marca nas pessoas. Assim, cada conduta tradicionalmente apreendida e transmitida fundamenta-se em certas sinergias nervosas e musculares que constituem sistemas solidários com todo um contexto sociológico.

Já Mary Douglas10 ressaltou que o domínio do corpo social limita as formas de percepção do corpo físico, isto é, limita a experiência física do corpo, sempre modificada pelas categorias sociais, por meio das quais é conhecida. O corpo reflete e produz um tipo específico de sociedade. Há uma troca constante entre os dois tipos de experiências corporais, isto é, entre a percepção sobre o corpo transpassada pela experiência social e pela experiência física, uma reforçando as categorias da outra. Recentemente, Thomas Csordas11 também concentrou sua investigação no significado de nossa existência como seres corpóreos, indicando que a base conceitual da abordagem para a análise da cultura e do sujeito é a noção de corporeidade.

Diversos autores12 - 16 vêm se debruçando sobre o corpo, como se pode observar nos textos que procuram analisar o estado da arte do tema. Loïc Wacquant17, por exemplo, em Corpo e alma: notas etnográficas de um aprendiz de boxe, revela caminhos e escolhas da vida de boxeador. Segundo o autor, as disposições e lógicas desses atletas são construídas por um referencial: o seu capital-corpo. A prática do corpo do boxeador é sempre calculada para o máximo rendimento no ringue.

Em sua etnografia, o autor mostrou como a estrutura social e simbólica da sala de boxe governa a transmissão da técnica da “nobre” arte e a produção da crença coletiva na illusio pugilística. Durante três anos, o pesquisador misturou-se na paisagem local e entrou no jogo. Aprendeu a lutar boxe e participou da preparação do boxeur, até combater no torneio dos Golden Gloves. O pesquisador inverteu a fórmula tradicional da “observação participante”, tornando método a já levantada hipótese de uma “participação observante”. Combinou observação e experimentação, campo e transformação, e tratou do processo de produção não apenas do corpo do boxeador, mas também de seu espírito, de um aparelho sensório-motor modificado por práticas cotidianas minuciosas, invisíveis, contínuas, ao mesmo tempo individuais e coletivas, cujos efeitos são imperceptíveis a olho nu. O corpo, na obra, é alvo de uma progressiva remodelação por via de práticas disciplinares.

Sobre tais práticas que visam a disciplina dos corpos, os trabalhos de Michel Foucault18 se mostraram profícuos, pois nos auxiliam na percepção de que o corpo é um medidor privilegiado das práticas sociais, e que falar do corpo é falar do modo como uma sociedade se organiza cultural, econômica e politicamente. Para Foucault, o corpo é um ente, composto por carne, ossos, órgãos e membros – matéria – literalmente, um lócus físico e concreto. Não obstante, essa matéria física não é inerte, sem vida, mas, sim, uma superfície moldável e transformável, por técnicas disciplinares e de biopolítica. O corpo seria, ao mesmo tempo, uma construção discursiva e não discursiva, objeto infinitamente maleável do poder, território de domesticação e de rebeldia onde os acontecimentos inscritos podem ser vistos e podem resistir.

A ideia básica de Foucault18 é mostrar que as relações de poder não se passam fundamentalmente pelo campo do direito, nem por violência; nem são basicamente contratuais e nem unicamente repressivas. Suas análises querem mostrar que a dominação capitalista não conseguiria manter-se, se fosse exclusivamente baseada na repressão. O poder produz domínios de objetos e rituais de verdade, produz uma eficácia produtiva, uma riqueza estratégica, uma positividade. E é justamente esse aspecto, para o filósofo, que explica o fato de que tem como alvo o corpo humano, não para supliciá-lo, mutilá-lo, mas para aprimorá-lo, adestrá-lo.

Quando Foucault18 pensa na mecânica do poder, pensa em sua forma capilar de existir, no ponto em que o poder encontra o próprio grânulo dos indivíduos, atinge seus corpos, vem inserir-se em seus gestos, suas atitudes, seus discursos, sua aprendizagem, na sua vida cotidiana. O poder, em Foucault18, não é visto como algo apenas repressor que anula o sujeito, e sim como um jogo de relações que produz o sujeito. Segundo o autor, não se explica inteiramente o poder quando se procura caracterizá-lo por sua função repressiva. O indivíduo não é o outro do poder, realidade exterior, que é por ele anulado; é um de seus mais importantes efeitos. Efetivamente, aquilo que faz com que um corpo, gestos, discursos e desejos sejam identificados e constituídos enquanto indivíduos é um dos primeiros efeitos de poder. O indivíduo é um efeito do poder e, simultaneamente, ou pelo próprio fato de ser um efeito, é seu centro de transmissão. O poder passa pelo indivíduo que ele constituiu.

Como já se disse, a experiência etnográfica me levou à discussão sobre corpo, já que meus interlocutores colocavam-no como central. A pesquisa me foi levando para me concentrar, cada vez mais, nas metáforas corporais, nas narrativas sobre os corpos “quebrados” pelo trabalho, e os corpos que “escapam” em seus itinerários tortos fora da fábrica. Essas metáforas eram formas de os operários dissertarem sobre as relações entre corpo e poder. Na seção seguinte, vou me centrar em dois de meus interlocutores, Zé Barba e Bocão, devendo-se tal procedimento tanto à proximidade estabelecida no trabalho de campo como por suas narrativas insistirem mais diretamente na centralidade do corpo e das experiências corporais.

Operários em (des)construção

Zé Barba é um senhor de 49 anos de idade, nascido na cidade de Primavera, Pernambuco. Casado, tem dois filhos homens, um de 23 e outro de vinte anos de idade. No dia de uma das entrevistas (29/09/2011), completou 24 anos trabalhando na fundição e me contou que sua história na fábrica começou quando viu a fila na portaria da Fundição Cofap, e na fundição “está até hoje”. Trabalha na rebarbação, setor que realiza o trabalho mais pesado da fábrica – a limpeza das peças com ferramentas de desbaste: lixadeiras, marteletes, esmeril – e onde ocorre a maioria dos acidentes de trabalho. No dia da entrevista, encontrava-se afastado, atingiu a mão com a marreta. Antes da fundição, trabalhou em usina de açúcar e de álcool em Pernambuco por cinco anos. Gosta de trabalhar, e o faz porque tem “esperança de um dia aposentar, sem se acidentar mais”. Garante que mudou muita coisa na sua vida a partir do momento que entrou para trabalhar na fábrica: casou, teve dois filhos, comprou uma “casinha” para morar. Refere-se à sua vida como sendo “boa demais”. Vai para a igreja todas as noites “graças a Deus”, afinal isso é o que fornece “força para permanecer de pé”. Quando se aposentar, não sentirá saudades do trabalho, não irá se apegar ao “serviço”, que descreve como algo muito bruto. Diz que só dará tempo de pagar o advogado e se “mandar” para o interior, mas garante que virá visitar os amigos e o sindicato todos os meses, afinal, “amigos e luta são as coisas mais importantes da vida, depois da família”.

Bocão é um senhor de cinquenta anos de idade, natural de Monte Alegre, Paraíba. Casado, têm dois filhos homens, um de 24 anos de idade, outro de 22, e uma filha de 26. Completou 25 anos trabalhando na fábrica. Relata que preencheu uma ficha para o processo de seleção e lá permanece até hoje, “até quando Deus e os ‘homi’ [chefes] permitirem”. Trabalhou na rebarbação, mas, por motivos de doença, foi transferido para a macharia, setor inicial no processo de fabricação das peças (estágio de moldes de areia e ferro). Antes de trabalhar na fundição, trabalhou na construtora Constam e na fábrica de alimentos Adria, em São Caetano do Sul, por quatro anos em cada. Estando fora da fábrica, aproveita a vida com a família e com os amigos. Garante que “mesmo com aquele tipo de serviço duro, o prazer da sua vida é dar risada” – para permanecer dentro da fábrica por tantos anos, “o segredo é brincar com todo mundo”. Quando sair da fábrica, sentirá muita saudade dos amigos, sobretudo nos momentos da troca de turnos e do banho, momento que, para ele, é de pura descontração.

As narrativas de Zé Barba e Bocão, em todos os momentos, tecem uma história do corpo. O corpo da rebarbação, mais consumido e adoecido pelo trabalho pesado e repetitivo com as ferramentas de desbaste. O corpo da macharia, sufocado e desidratado, exposto ao calor constante. O corpo da fábrica, dos uniformes sujos. Enfim, ideias sobre corpos que emergem diariamente no encontro com o poder na Fundição Tupy. Na próxima seção, serão apresentadas duas formas de representação do corpo, por eles denominada de: o corpo que “quebra” e o corpo que “escapa”, tentando seguir as formulações de Zé Barba e Bocão.

O corpo que “quebra”

Zé Barba estava afastado, em setembro de 2011, por ter quebrado a mão. Contou que o motivo de tal acidente acontecera por conta de a “chefia” não ter parado o trabalho para soldar um apoio no novo carimbo de aço, utilizado para gravar números nas peças. Foi batendo com a marreta para gravar a numeração no bloco de motor, o carimbo foi ficando escorregadio pelo óleo da peça durante o trabalho e, num momento de correria, bateu com tamanha força, que o carimbo escorregou e a marreta o atingiu.

A respeito de seu corpo, Zé Barba o comparou a um CD que recebera em seu aniversário. Um disco muito escutado. Segundo Zé Barba, o jovem operário não tem nenhuma marca, “nenhum risco” no corpo; já o velho operário tem o corpo marcado, “riscado, não toca como deveria”. O corpo vai sendo desgastado pelo trabalho, “suas partes” (mãos, coluna, ombros) vão sendo refeitas por cirurgias e afastamentos. Em sua narrativa, há “o antes e o depois”, pois o corpo “muda muito”, transformando-se com o tempo. O corpo se molda às dores advindas do trabalho.

Zé Barba insistia na transformação do corpo causada pelo desgaste do trabalho. Com a mão quebrada, descreveu, no espaço, o movimento que é feito ao trabalhar com a lixadeira, e garantiu que após um ano – ou dois, para o caso de trabalhadores “mais fortes” –, o corpo estará “enferrujado”. Foi enfático: “pega ferrugem, não sai dos pelos. Não tem jeito: se trabalhar com a lixadeira, o corpo enferruja e quebra”. O corpo, segundo ele, não resiste ao trabalho: o “corpo quebra”.

Já Bocão relatou uma experiência vivida na fábrica que qualificou de “extrema humilhação”. Após quatro anos, afastado de suas atividades devido à necessidade de realização de uma cirurgia no ombro esquerdo (provocada pela carga de trabalho, segundo os médicos e os peritos que concederam o afastamento), ao retornar, contou que fora recebido por um “novo chefe” que lhe indicara um novo posto de trabalho: o “acabamentinho”, cujas atividades lhe exigiriam novamente o trabalho com lixadeiras, chicotes e marteletes, nas linhas da rebarbação. Bocão é um homem simples, e de uma constituição de masculinidade muito colada àquilo que, talvez sem reflexão sobre o assunto, eu não temeria chamar de masculinidade hegemônica19 , 20 – aquela que diz que “um homem não chora”. Todavia, foi chorando que me disse que, quando se recusou a trabalhar neste posto, fora repreendido pelo “chefe”, que o acusou de não querer trabalhar, e sim apenas ficar num “quartinho” entregando ferramentas, ou furtando para vendê-las fora da fábrica – afirmações estas que Bocão considerou como “nojentas”. Sobre seu afastamento, contou que a “história” começou com fortes dores em seu corpo, a ponto de não conseguir mais lavar os cabelos. “O corpo, parecia que estava contando sua própria história”. Expôs então que as dores iniciaram enquanto trabalhava no jato [máquina] da rebarbação. Produzindo uma peça, sentiu uma “xuxada” [fisgada] no braço, “parecendo que abriu a carne”, mas continuou trabalhando por muito tempo, mesmo sentindo dores. Quando não suportou mais a dor, foi ao médico e recebeu o diagnóstico de “rompimento dos tendões”. Disse ter muitos “problemas” de saúde, que seu corpo mudou muito, e “mudou pra pior”. Praticamente “80% ‘da’ [sua] saúde acabou” dentro da fábrica. E novamente a metáfora de quebrar surge na sua narrativa: “eles quebraram meu corpo”, afirmou sintetizando sua experiência. Em seu relato, afirmou “que a primeira coisa que vem é a velhice, porque a fundição acaba com o ser humano”. O verbo acabar tem um campo semântico que indica tanto o “perfazer” como o “concluir, terminar, dar cabo”. De forma que a insistência de Bocão com o termo “acabar” indica uma formulação na qual a fábrica, ao mesmo tempo, atua, molda, e “quebra”, “dá cabo” do mesmo corpo que produziu. Sua formulação permitiu-lhe prever o seguinte quadro: em dez anos, um operário recém-contratado estará invariavelmente com tendinite. E, assim como ele, estará: “todo estourado, sem coluna, sem saúde”. E concluiu: “Tamo fabricando peça, peão, doença, corpo, tudo estourado”. “Lá dentro é uma fábrica de corpos”.

Os dois operários, Zé Barba e Bocão, apresentam, em suas narrativas, certa indignação. Porém, neste primeiro momento, parece não haver possibilidades de mudanças. Indignados, denunciam, passivos, o que fere, marca e quebra os corpos operários. Trazem, na voz, lágrimas, e, em todo o corpo, a violência da cadência acelerada do trabalho na fundição. Experiências de Humilhação Social (d) 6 e de Assédio Moral (e) 21 que denunciam as relações de força dentro da fábrica. Relações essas que parecem seguir sempre linhas tênues entre relações de poder e de violência. Narram episódios que metamorfoseiam o corpo em peça de ferro, onde o próprio operário o confunde e o acerta com a marreta no momento de raiva. Ou é levado ao seu limite, enferrujando e quebrando como uma velha peça de ferro produzida pelo trabalho.

Uma “fábrica de corpos”, de corpos construídos e moldados pela disciplina, pelos horários, pelas técnicas corporais e pelas experiências com as ferramentas e máquinas; de corpos que quebram, assim como as máquinas. Mas, haveria algo que não disciplinasse e que não controlasse esses corpos? E de que forma formulariam meus interlocutores essa experiência?

O corpo que “escapa”

Zé Barba confessou ter dificuldades em dizer as razões que o fazem passar “uma vida dentro da fábrica”, e se imaginou fora dela após a aposentadoria: “só descansar, isso que eu quero, uma vida de sossego seria bom”. Após longo período em silêncio, identificou como principal motivo de sua permanência dentro da fábrica, além do salário, a amizade. Segundo ele, são os laços de amizade e de camaradagem que o fazem permanecer “resistindo, lutando e trabalhando”. Perguntei, então, como se daria essa capacidade de resistir à “quebra”. Ele, então, me narrou uma história diferente da que me havia contado até aquele momento. Ele descreveu, como exemplo, os divertidos almoços, os cafés coletivos e as brincadeiras no vestiário. As amizades atuavam como algo que escapa, pois as astúcias dos camaradas possibilitavam formas de agir que os faziam deslizar sobre a maquinaria da fábrica.

O trabalhador revelou, então, uma espécie de “jogo de esconde-esconde”, no qual os trabalhadores “driblam” as regras feitas por “autoridades desconhecidas”. Afirma haver códigos, olhares, que o fazem acelerar a cadência do trabalho antes do almoço, e que o fazem desacelerar a cadência após o almoço. Sobre tais olhares, confessa que a partir deles compreende o que o outro operário está “dizendo”. Sabe quando está terminando o turno, mesmo sem estar com relógio no pulso. Faz piadas direcionadas aos chefes, sem que eles possam decifrá-las. Sente quando há cachaça no setor, trazida pelos caminhoneiros que transportam as peças para as montadoras. E revela que este “jogo de esconde-esconde” é conhecido pelo encarregado imediato, pois este, também, um dia, já fora operário. Porém, segundo Zé Barba, engenheiros e gerentes nunca saberão dessas “escapadas”, afinal, este é um dos “segredos operários”.

Zé Barba nomeou tais relações de segredo e de escapadas como “resistência”, pois “eles [os chefes] não conseguem tirá-las dos trabalhadores”. De acordo com o operário, o trabalho é ordenado para que seja realizado de uma forma que os trabalhadores não se comprometam com a qualidade das peças, e sim com a quantidade, e ressaltou:

“querem que a gente apenas produza e mantenha o sorriso no rosto, seguindo a missão da empresa. Mas nós gostamos de fazer as peças bem feitas, isso nos dá prazer, aumenta nossa responsabilidade”.

Outra forma de resistir é a de ver-se naquilo que é produzido, talvez, fugindo daquilo que, magnificamente, Karl Marx (1975)22 chamou de alienação. Zé Barba garantiu que há “coisas” dentro da fábrica – emoções, conversas, prazeres em fazer a peça “certinha” – que “os chefes” nunca entenderão, porque este sentimento de ter prazer com um trabalho tão duro, só quem é “peão” é que pode sentir.

Não foi fácil para Bocão expor seus sentimentos sobre o que mais gostava dentro da fábrica. Em vários momentos durante as entrevistas, o operário se manteve em silêncio quando o tema se referia à questão do prazer no trabalho, parecendo quase não haver razões para trabalhar na fábrica. Em uma ocasião, afirmou que a única coisa que lhe dava prazer dentro da fundição eram os amigos. Para resistir, diante das humilhações relatadas, assumiu “contar até dez” e pedir a Deus para não perder a cabeça, “porque tem hora que [...] quase perde”. Confessou jogar duro, ser combativo na fundição, e que, para isso, buscava forças nos amigos “que são iguais”. Segundo Bocão, tudo parece “jogar” contra os trabalhadores: chefia, sindicato, salários... “até a temperatura acompanhada do barulho que faz lá dentro nos atrapalha”. Entretanto, para Bocão, há estratégias adotadas pelos trabalhadores que “burlam o esquema de opressão”:

“A gente esquece o uniforme, hora a gente rasga e até aguardar o novo a gente usa uma camiseta mais leve, entende? Têm momentos que a gente não usa mesmo os EPIs, que são obrigatórios, mas incomodam muito. Obrigam a usar, mas não projetam algo mais decente. A gente sabe que ‘zoa’ a saúde, mas é duro usar. E pra falar com o camarada que está longe? A gente também dá um jeitinho, a gente usa gestos, usa isso aí que você disse, “linguagens corporais”: dois dedos nos ombros, para falar dos chefes. Fingir estar atirando com um revólver, para apontar ‘peão safado’ [traidor]. Levantar o dedo indicador e o mindinho, guardando os outros, para simular traição da esposa. Indicar para a porta da expedição, beber cachaça nas barracas fora da fábrica. Abaixar, empinando o quadril para trás e depois rapidamente forçar para frente, para “rasgar” [fazer] na hora extra. Dar uma volta no ar, com a mão na altura da cintura, para desconsiderar o que o ‘peão’ estava dizendo. Esticar o braço, com a mão aberta, virada com a palma para cima e passar no ar como uma foice, para ameaçar operários de facão [demissão]. Passar os dedos da mão (menos o polegar) no queixo, como uma navalha, para quem ‘mata peças’, para ‘peão cabaço’. Pra dizer a verdade, a gente até força a demissão”.

Bocão admite que, quando se aposentar, sentirá saudades dos camaradas – que o “distraem” na vida –, e endossa que, enquanto a aposentadoria não chegar, continuará brincando com os colegas, posto essa ser sua postura de “resistência”: contar piadas, apelidar os novos operários, tomar cachaça para entrar ou para sair do trabalho, e viver “um dia depois do outro dia”, visto que também acha graça em ver os chefes impondo o ritmo das “vendas” e os operários “ditando o ritmo dos corpos cansados”. Garante que, na produção, por mais que os “chefes acreditem” serem responsáveis por ela, sempre serão os operários a produzi-la, da melhor maneira que os convém, “dando o seus jeitinhos de escapar”.

Se anteriormente os dois operários, Zé Barba e Bocão, trouxeram certa passividade, neste momento os trabalhadores trazem sutilezas para as relações de poder estabelecidas dentro da fábrica. Inventos capazes de alterar o tempo dentro da fábrica, onde um dia depois do outro dia signifique mais do que outro dia de trabalho, mais calma, concentração para buscar prazer durante seu ofício. Prazer este irreconhecível, segundo eles, para quem não é / foi operário. Irreconhecível, também, são os jogos de esconde-esconde dentro da fábrica, onde só os iguais, enquanto posição política – trabalhadores que não concluíram o Ensino Fundamental ou Médio – são capazes de decifrar a resistência operária em relação ao trabalho. Resistência expressa pelo corpo, que se, em alguns momentos, ele quebra, em outros se fortalece e joga o jogo das relações de forma dura, e, ao mesmo tempo, brincalhona e embriagada, pois esses corpos falam criando gírias gestuais. E se alguns bebem álcool como diversão – ou fuga – para enfrentar a rigidez das normas, a grande parte se alimenta de amizade, da camaradagem operária, do que Simone Weil (1996)23 chamou de Fraternidade Humana.

Considerações finais

Na etnografia realizada, foi possível verificar que, na Fundição Tupy, a flexibilidade da força do trabalho está relacionada com novas tecnologias menos fechadas, inventadas por meios científicos, mas que continuam apresentando como alvo, mesmo que de maneiras diferentes, o corpo humano. Os corpos dos operários são o núcleo fundamental da experiência social e política, o que significa dizer que o poder sobre eles é físico, que incide sobre a carne, os músculos, os ossos, modulando as intensidades corpóreas, chegando, literalmente, a quebrar estes corpos. Porém, também pude compreender que o envolvimento com o trabalho, e a própria utilização do corpo no trabalho, pode ser também uma forma de resistência. O corpo que quebra em determinados encontros com o poder é também o mesmo corpo que, noutros encontros, escapa, pois, como disse Zé Barba, “meu corpo é meu, eu sei, às vezes esqueço. Ai, lembro, é um exercício resistir, mas temos que fazer isso”.

REFERÊNCIAS

. Castro, O. Fábrica de corpos [dissertação]. São Paulo: Universidade Federal de São Paulo; 2012.
. Lévi-Strauss C. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; 1975.
. Sato L, Souza MPR. Contribuindo para desvelar a complexidade do cotidiano através da pesquisa etnográfica em psicologia. Psicol (São Paulo). 2001; 12: 29-47.
. Fonseca C. Quando cada caso não é um caso: pesquisa etnográfica e educação. ANPEd (Caxambu). 1998; 21:58-78.
. Zaluar A. Teoria e prática do trabalho de campo: alguns problemas. In: Cardoso RC, organizador. A aventura antropológica: teoria e pesquisa. Rio de Janeiro: Paz e Terra; 1986. p. 107-25.
. Goldmann L. Dialética e cultura. São Paulo: Paz e Terra; 1979.
. Goncalves Filho JM. Humilhação social - um problema político em psicologia. Psicol. USP [Internet]. 1998 [acesso 2013 Jul 29]; 9(2):11-67. Disponível em:
. Foucault M. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes; 2008.
. Mauss M. Sociologia e antropologia. São Paulo: Ed. Edusp; 1950. v. 2.
. Douglas M. Rules and meanings: the anthropology of every day knowledge. London: Penguin; 1993.
. Csordas TJ. Corpo, significado, cura. Porto Alegre: Ed. UFRGS; 2008.
. Pereira PPG. De corpos e travessias: a grande divisão e o campo da saúde. Saude Soc. 2011; 20:66-75.
. Caprara A, Landim LP. Etnografia: uso, potencialidades e limites na pesquisa em saúde. Interface (Botucatu). 2008; 12(25):363-76.
. Elias N. O processo civilizador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar; 1990.
. Viveiros de Castro E. A fabricação do corpo na sociedade xinguana. Bol Museu Nac (Rio de Janeiro). 1979; 32:2-19.
. Velho G. Desvio e divergência: uma crítica da patologia social. Rio de Janeiro: Jorge Zahar; 1974.
. Wacquant L. Corpo e alma: notas etnográficas de um aprendiz de boxe. Rio de Janeiro: Relume Dumará; 2002.
. Foucault M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal; 2008.
. Miskolci R. Corpos elétricos: do assujeitamento à estética da existência. Estud Fem (Florianópolis). 2006; 14(3):681-93.
. Almeida MV. Senhores de si: uma interpretação antropológica da masculinidade. Lisboa: Fim de Século; 1995.
. Freitas M, Heloani R, Barreto M. Assédio moral no trabalho. São Paulo: Cengage; 2008.
. Marx K. O capital. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; 1975.
. Weil S. A condição operária e outros estudos sobre opressão. São Paulo: Paz e Terra; 1996.
Termos de Uso | Política de Privacidade. © Copyright, Todos os direitos reservados.