Factors associated with alcohol consumption among public maintenance workers

Factors associated with alcohol consumption among public maintenance workers

Autores:

Jaqueline Lemos de Oliveira,
Jacqueline de Souza

ARTIGO ORIGINAL

Acta Paulista de Enfermagem

Print version ISSN 0103-2100On-line version ISSN 1982-0194

Acta paul. enferm. vol.31 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1982-0194201800004

Resumen

Objetivo:

Analizar el consumo de alcohol entre empleados públicos de mantenimiento e identificar los factores sociodemográficos asociados. Métodos: Estudio cuantitativo transversal, con empleados públicos de mantenimiento de universidad del interior del Estado de São Paulo. Se aplicó cuestionario sociodemográfico y Prueba de Identificación de Trastornos Relacionados con el Consumo de Alcohol (AUDIT).

Resultados:

El 78% de los empleados consumieron alcohol em los últimos 12 meses. Entre los no abstemios, 43% presentaba consumo de bajo riesgo, 50% abusaba de la bebida y 7% estaban registrados como dependientes del alcohol. El 54% refirió consumir 4 dosis o más cuando bebían, 82% informó el consumo en binge. Los factores asociados al consumo fueron años de escolarización, función, sexo, ingresos y color, y el consumo de 4 o más dosis estuvo asociado a la función de jornalero.

Conclusión:

La prevalencia del consumo en empleados registrados como de “consumo abusivo o probable dependencia” fue mayor (descriptivamente) que la identificada en un importante relevamiento nacional. La escolarización fue el factor sociodemográfico más relevante, toda vez que cada año menos de estudio incrementó aproximadamente 20% las chances de “consumo abusivo o probable dependencia”.

Descriptores Trastornos relacionados con alcohol; Consumo de bebidas alcohólicas; Trabajadores; Salud laboral; Enfermería del trabajo

Introdução

O consumo do álcool como estratégia de enfrentamento do estresse tem sido associado a alguns atributos individuais, como poucos recursos psicossociais à disposição para responder de modo adaptativo às situações que geram tensão e sofrimento.(1) Além disso, pode ser uma forma de viabilizar o exercício da função, em decorrência dos efeitos farmacológicos próprios do álcool (calmante, euforizante, estimulante, relaxante, indutor do sono, anestésico e antisséptico).(2)

Por esses fatores, o consumo de álcool tem sido cada vez mais incorporado ao cotidiano das pessoas em atividade produtiva, podendo culminar em diminuição da produtividade, alterações das relações laborais, familiares, interpessoais, sociais e prejuízos à saúde.(1,3)

Diversos autores têm desenvolvido estudos que identificam profissões cujas condições de trabalho favorecem o consumo de álcool, tais como: coveiros; enfermeiros; caminhoneiros; garis e trabalhadores autônomos.(3,46) Além disso, o exercício de atividades socialmente desprestigiadas, a atuação em ambientes secos, quentes, ou poluídos e funções que provocam fadiga mental ou física com ritmo que culmina em desgaste intenso, são descritos como aspectos que têm sido associados ao consumo do álcool como estratégia para o alívio da tensão e do sofrimento.(36)

Alguns pesquisadores têm investigado os fatores sociodemográficos associados ao consumo de álcool entre trabalhadores,(7,8) no entanto, não se identificou estudos com a população específica de trabalhadores de manutenção. Além disso, a maioria dos estudos prévios sobre alcoolismo entre trabalhadores(1,4,913) consideraram principalmente o consumo abusivo ou a dependência, sem análises específicas sobre aspectos como frequência do consumo e consumo em binge. De acordo com a Organização Mundial da Saúde o consumo em binge, também denominado como heavy episodic drinking, corresponde ao consumo de altos níveis (60 gramas ou mais) de álcool em uma única ocasião.(14) Tendo em vista a especificidade do sexo em relação ao beber, o consumo em binge tem sido caracterizado como o consumo de quatro doses ou mais para mulheres e cinco doses ou mais para homens em uma única ocasião.(15,16)

O consumo em binge constitui-se em importante indicador relacionado ao consumo desta substância, independentemente se o indivíduo atende aos critérios de dependência, pois pode indicar o envolvimento frequente em situações de risco à saúde e segurança.

Assim, o presente estudo teve como objetivo analisar o consumo de álcool entre trabalhadores públicos da manutenção e identificar os fatores sociodemográficos associados às diferentes facetas do consumo desta substância (frequência, número de doses, consumo em binge e padrão de consumo).

Métodos

Trata-se de um estudo quantitativo transversal, realizado com trabalhadores públicos da manutenção de uma universidade do interior de São Paulo.

O setor é constituído por 112 funcionários. O critério de inclusão foi atuar no setor há pelo menos um ano. O critério de exclusão foi estar de férias ou outro tipo de afastamento durante o período de realização da coleta de dados da pesquisa e estar em período probatório. Todos os trabalhadores atendiam ao critério de inclusão e cinco se enquadravam no critério de exclusão. Todos os elegíveis foram convidados pessoalmente e 35 se negaram a participar, constituindo-se uma amostra de 72 trabalhadores.

Para a realização do estudo foram considerados todos os aspectos éticos previstos pela resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde (protocolo de aprovação 22074313.5.0000.5393).

A coleta dos dados foi empreendida por uma graduanda de enfermagem treinada para a aplicação dos instrumentos no local de trabalho dos participantes, em uma sala privativa e em horário combinado com a chefia do setor. Utilizou-se um questionário com informações sociodemográficas e o Teste para Identificação de Problemas Relacionados ao Uso de Álcool (AUDIT), validado para uso no Brasil.(1719)

Para analisar o consumo foram consideradas as variáveis: frequência (baseado na questão um do AUDIT), número de doses ao beber (baseado na questão dois do AUDIT), consumo em binge,(1416) (considerado no presente estudo como o consumo de cinco ou mais doses de uma única vez com alguma frequência nos últimos 12 meses, baseado na questão três do AUDIT) e o padrão de consumo (a partir da classificação total do escore de tal instrumento). Destaca-se que, no presente estudo uma dose de álcool foi considerada, seguindo recomendações prévias(17) como, em média, uma latinha de cerveja ou chope de 350 ml, uma taça de vinho de 90 ml, uma dose de destilado de 30 ml, uma lata ou uma garrafa pequena de qualquer bebida ice, isto é, cada dose-padrão contém cerca de 10-13 g de álcool.

Foi utilizado o Teste Mann Whitney para analisar a diferença da frequência do consumo (escore da questão um – classificação ordinal) entre os grupos, considerando os fatores sociodemográficos – gênero, cor, estado civil, religião, função e renda familiar.

Para a análise da associação entre o número de doses, consumo em binge e as variáveis sociodemográficas foi utilizado o Teste de Qui-Quadrado de Person ou Teste Exato de Fisher, sendo que a variável número de doses foi dicotomizada entre “três doses ou menos” ou “mais de três doses” e a variável consumo em binge entre “sim” ou “não”.

Em relação à idade (que apresentou distribuição normal, Teste Kolmogorov-Smirnof, p=0,295), foi empreendido o Teste t de Student considerando os grupos: a) número de doses (três doses ou menos/mais de três doses), b) consumo em binge (sim/não) e c) padrão de consumo (consumo de baixo risco/consumo abusivo ou provável dependência).

Em relação aos anos de estudo (que não apresentou distribuição normal, Teste Kolmogorov-Smirnof, p=0,002) foi empreendido o Teste de Mann Whitney considerando os grupos a) número de doses, b) consumo em binge e c) padrão de consumo.

Além disso, empreendeu-se análise de regressão logística múltipla considerando como variável desfecho a padrão de consumo. As variáveis independentes analisadas foram idade (anos), gênero, cor, estado civil, anos de estudo (anos), religião, número de filhos (até 1 filho/2 ou mais), função e renda familiar. O programa utilizado nas análises foi o SPSS versão 22.

Mediante a estratégia estabelecida de associações entre as dimensões estudadas (características sociodemográficas), foram elaborados três modelos explicativos de regressão logística binária, introduzindo as variáveis em forma de blocos, permanecendo no modelo subsequente apenas aquelas que tiveram significância estatística (p<0,05) no modelo anterior. O critério de saída para todas as variáveis introduzidas em cada modelo foi p <0,20. Ao final, chegou-se a um modelo final de regressão com apenas as variáveis de maior significância estatística. O método adotado para introdução das variáveis nos modelos foi o “forward stepwise”. Considerou-se um nível de significância p<0,05 e intervalo de confiança (IC) de 95 %, com cálculo das razões de chances ajustadas. As análises foram realizadas com auxílio de um estatístico.

Resultados

Conforme pode ser observado na Tabela 1, a maioria dos participantes era do sexo masculino, branca e trabalhador braçal; 43,1% encontravam-se na faixa etária dos 46 aos 55 anos e 80,6% possuíam companheiro(a). A média ( x¯ ) de anos de estudo dos participantes foi de 10 anos e o desvio padrão (σ) foi de 3,35 anos.

Tabela 1 Dados sociodemográficos dos trabalhadores públicos da manutenção (n=72) 

Características n(%)
Gênero
Masculino 67(93)
Feminino 5(7)
Faixa etária
25 a 35 anos 8(11,1)
36 a 45 anos 14(19,4)
46 a 55 anos 31(43,1)
56 a 66 anos 19(26,4)
Cor
Branca 43(59,7)
Parda 22(30,6)
Preta 6(8,3)
Amarela 1(1,4)
Religião
Católico 42(58,3)
Evangélico/ Protestante 15(20,8)
Espírita 3(4,2)
Outro 3(4,2)
Nenhum 9(12,5)
Situação Conjugal
Com Companheiro 58(80,6)
Sem Companheiro 14(19,4)
Função
Trabalhadores Braçais 62(86,1)
Administrativo 10(13,9)
Renda familiar (salários mínimos)
1 a 5 28(38,9)
Acima de 5 44(61,1)

Apenas 16(22%) trabalhadores estavam abstêmios nos últimos 12 meses e 56(78%) trabalhadores haviam consumido bebidas alcoólicas neste período. A figura 1 apresenta o padrão de consumo dos participantes. Conforme pode ser observado, os indivíduos com padrão de consumo abusivo (n=28) ou provável dependência (n=4) totalizavam 32 trabalhadores (44%).

Figura 1 Distribuição dos trabalhadores públicos da manutenção de acordo com o padrão de consumo referido (n=72) 

A Tabela 2 apresenta o número de doses ao beber, o consumo em binge, o padrão de consumo e a frequência com os fatores sociodemográficos associados.

Tabela 2 Dados sociodemográficos e a relação com o padrão de consumo de álcool dos trabalhadores públicos da manutenção (n=72) 

Características Consumo de álcool
Mais de 3 doses tipicamente ao beber Consumo em binge Consumo abusivo ou provável dependência Frequência (ordinal)
n(%) p-value n(%) p-value n(%) p-value n( x¯ do rank) p-value
Gênero
Masculino 30(42) 0,094 45(63) 0,079 32(44) 0,061 53(29,6) 0,028
Feminino 0(0) 1(1) 0(0) 3(9,2)
Cor
Branca 17(24) 0,505 27(38) 0,724 19(26) 0,957 34(25,1) 0,042
Preta/parda 13(18) 19(26) 13(18) 22(33,8)
Religião
Sim 24(33) 0,481 37(51) 0,189 26(36) 0,173 47(27,0) 0,085
Não 6(8) 9(13) 6(8) 9(36,8)
Renda (salários mínimos)
1 a 5 11(15) 0,642 17(24) 0,467 14(19) 0,449 19(34,5) 0,040
Acima de 5 19(26) 29(40) 18(25) 37(25,4)
Situação conjugal
Com companheiro(a) 25(35) 0,738 35(49) 0,183 24(33) 0,287 45(27,5) 0,344
Sem companheiro(a) 5(7) 11(15) 8(11) 11(32,5)
Função
Trabalhadores Braçais 29(40) 0,019 41(57) 0,143 30(42) 0,169 48(30,0) 0,079
Administrativo 1(1) 5(7) 2(3) 8(19,5)

O número de doses ao beber foi associado significantemente com a função do trabalhador: 96,7% dos que consumiam quatro ou mais doses eram trabalhadores braçais.

Quando considerada a frequência do consumo, identificou-se diferença significante entre os trabalhadores das diferentes faixas de renda consideradas, sugerindo que os indivíduos com menor renda bebiam mais frequentemente. Houve diferença significante na frequência do consumo entre o gênero masculino e feminino, sugerindo que o sexo masculino consumia bebidas alcoólicas com maior frequência. Também se identificou diferença significante na frequência do consumo entre indivíduos da cor branca ou preta/parda, sugerindo consumo mais frequente de bebidas alcoólicas por trabalhadores pretos/pardos.

Além disso, o consumo em binge não foi associado a nenhuma das variáveis estudadas (Tabela 2).

A variável anos de estudo apresentou diferença significante entre os trabalhadores dos diferentes padrões de consumo ( x¯ do rank: “consumo de baixo risco” 43,3 e “consumo abusivo ou provável dependência” 28; p=0,001). O modelo final de regressão logística também apontou esta variável como um fator associado ao consumo de álcool, isto é, a cada um ano a menos de estudo, os trabalhadores apresentaram 20,4% mais chances de consumo abusivo ou provável dependência (Odds Ratio=0,796; IC 95% - 0,676-0,939; p=0,007; erro estimado=0,084). As demais variáveis não apresentaram associação significante com a variável desfecho.

Não houve diferença da idade entre os grupos analisados, a saber a) número de doses (“três doses ou menos” ou “mais de três doses”), b) consumo em binge (“sim” ou “não”) e c) padrão de consumo (“consumo de baixo risco” ou “consumo abusivo ou provável dependência”).

Discussão

Considerando que um dos objetivos do presente estudo era identificar os fatores sociodemográficos associados ao consumo de álcool, entende-se que inúmeras questões subjetivas permeiam este fenômeno, no entanto devido ao método adotado tais questões não foram consideradas. Entende-se que estudos futuros com desenho que possibilite adentrar o universo de significados dos trabalhadores públicos da manutenção usuários de álcool auxiliariam a compreensão mais aprofundada deste fenômeno. Destaca-se como importantes limitações o tamanho da amostra e número de recusas no presente estudo. Além disso, a comparação entre a amostra estudada e a população em geral se restringiu a um dos levantamentos nacionais, pois os diferentes indicadores utilizados nos demais estudos impossibilitou a comparação da prevalência do consumo em adultos e dos diferentes padrões de consumo.

Apesar disso, entende-se que o presente estudo é de extrema importância por suscitar novos insights que podem contribuir para o entendimento dos diversos fatores associados ao consumo de álcool entre trabalhadores considerando as diferentes facetas deste consumo. Além de proporcionar dados específicos da população de trabalhadores públicos da manutenção.

Em relação ao consumo de álcool na população estudada, ressalta-se a alta prevalência de não abstêmios (77,8%; n=56) considerando a média apresentada em um dos principais levantamentos nacionais (50%).(20) Consequentemente, a prevalência de trabalhadores com padrão de consumo “consumo abusivo ou provável dependência” também foi alta (57,1% dos não abstêmios; n=32), quase cinco vezes maior que a média apresentada em um dos principais levantamentos nacionais (17%).(20)

Especificamente em relação ao padrão de consumo abusivo ou provável dependência, identificou-se que 44% (n=32) do total de participantes (n=72) se enquadravam nesse padrão de consumo, porcentagem superior ao apresentado em pesquisas prévias tanto com trabalhadores em geral (trabalhadores migrantes da Flórida 13,4%;(21) trabalhadores da indústria na Tanzânia 13,7%(22) quanto com funcionários públicos do Brasil (trabalhadores da saúde 12,7%(10) e trabalhadores do transporte 13,5%.(11) Salienta-se que os estudos prévios não foram desenvolvidos especificamente com trabalhadores da manutenção. Assim, este resultado sugere que provavelmente este grupo está mais suscetível ao consumo de risco ou dependência.

Identificou-se que 35,7% (n=20) dos trabalhadores públicos da manutenção bebiam pelo menos uma vez por semana, resultado abaixo do apresentado pelo último levantamento nacional, o qual indicou que 53% da população consumia álcool ao menos uma vez por semana.(20) Cabe notar que a amostra do levantamento nacional abrangeu toda a população sem especificidade de função ou escolaridade e incluiu os adolescentes, aspectos que certamente interferem na comparação entre tais resultados.

Entretanto os resultados demonstraram que 46,4% dos trabalhadores públicos da manutenção referiram consumir tipicamente três doses ou menos ao beber e 82,1% (n=46) referiram consumir, com alguma frequência, cinco ou mais doses em uma única ocasião, caracterizando o consumo em binge, que tem sido apontado como um importante fator de risco para problemas de saúde e fortemente relacionado a eventos violentos.(1416,23) O consumo em binge torna a pessoa tolerante a muitos dos efeitos do álcool e pode suscitar agravos à saúde e prejuízos nas atividades laboral, familiar e social.(1416,23)

No presente estudo identificou-se associação entre o número de doses e a função 96,7% (n=29), dos participantes que consumiam quatro doses ou mais em uma única ocasião eram trabalhadores braçais, corroborando com pesquisas prévias.(7,12,24) Esse comportamento de consumir tal quantidade de doses em uma única ocasião pode implicar em riscos específicos relacionados ao trabalho, uma vez que uma das atribuições desta função é operar máquinas e equipamentos, atividade que exige muita atenção e destreza. Nesse sentido, destaca-se que de 20% a 25% dos acidentes de trabalho no mundo envolvem pessoas que estão sob o efeito do álcool ou outras drogas, além disso, o consumo abusivo de álcool tem sido descrito como um fator que diminui a produtividade e aumenta o absenteísmo.(8)

Ademais, entende-se que estudos sobre os aspectos subjetivos relacionados a esse hábito de consumo, são de suma importância para o planejamento de estratégias resolutivas em termos de sensibilização e alguns estudos prévios tem apontado que a pressão dos colegas, as condições climáticas nas quais o serviço é realizado e até mesmo o consumo como suporte para o exercício das atividades, são aspectos que influenciam o consumo de altas doses de bebida alcoólica.(2527) Estudos futuros poderiam aprofundar-se nessa questão.

Em relação à frequência de consumo, no presente estudo identificou-se que os trabalhadores cuja faixa de renda era mais alta bebiam menos frequentemente, o que diverge dos resultados de estudos prévios, os quais demonstraram menor consumo em segmentos com menor renda.(28,29) Este resultado ressalta a necessidade de investigar as especificidades dos diferentes grupos de trabalhadores, pois os fatores de risco e proteção de fato parecem se diferenciar entre eles. Vale destacar também que a maioria dos estudos prévios analisou o consumo de uma forma geral, sem considerar especificamente o aspecto “frequência”como uma das facetas deste consumo e isto pode implicar em divergência na comparação dos resultados.

Ainda em relação à frequência do consumo, houve diferença significativa entre os gêneros masculino e feminino, sugerindo que os trabalhadores do sexo masculino consomem bebidas alcoólicas com mais frequência. Tal resultado corrobora os achados de estudos prévios que consideraram as variáveis frequência e quantidade conjuntamente.(10,24,25,30)

O maior consumo de álcool por homens tem sido apontado em estudos desenvolvidos em diferentes regiões do mundo.(10,21,22,31) Atribui-se este fato a alguns aspectos culturais e fisiológicos.(31) A cultura de dominação masculina e a associação do álcool aos momentos de lazer, relaxamento e descontração desempenham forte influência para a manutenção desse padrão de consumo.(31,32)

Cabe também salientar que o perfil da amostra analisada é majoritariamente masculino (93%) e tal resultado pode ser reflexo do setor de manutenção exigir atividades culturalmente consideradas masculinas. Esta questão também foi identificada em estudos prévios.(13,25)

O fato dos trabalhadores no padrão de consumo de baixo risco ter mais anos de estudo foi um resultado que corrobora com algumas pesquisas prévias e diverge de outras, devido às diferenças entre às populações estudadas (homens/mulheres; adultos/jovens; trabalhadores/desempregados/estudantes, entre outros) e às categorias utilizadas para identificar a escolaridade dos indivíduos.(28,29,32)

No presente estudo identificou-se que 27,8% dos participantes possuíam oito anos de estudo ou menos. Esse resultado pode ser reflexo do fato que os trabalhadores de universidade pública em geral têm estabilidade no emprego e para algumas funções maior escolaridade não implica em progressão da carreira. Isto pode culminar em falta de motivação para melhoria da formação sobretudo no caso dos trabalhadores braçais (função da maioria dos participantes) cujas atribuições são de menor complexidade intelectual.

Os resultados também demonstraram maior frequência de consumo por pessoas que se autodeclararam pretas/pardas, diferentemente de estudos prévios desenvolvidos com adultos usuários de serviços de saúde(33,34) e com trabalhadores do transporte.(11) Tais estudos adotaram o quesito raça/cor na análise sociodemográfica, mas não identificaram associação significante dessa característica com o consumo de álcool.(11,33,34)

Assim, tal resultado certamente aponta para uma especificidade dos trabalhadores da manutenção. Historicamente, as pessoas da cor preta ou parda estão mais suscetíveis a condições vulneráveis em termos socioeconômicos, o que pode influenciar o consumo do álcool como escape diante das adversidades enfrentadas no cotidiano.(35) Estudos apontam que as desigualdades nos indicadores de saúde relacionados ao quesito raça/cor remetem aos determinantes sociais de saúde como um fator influente na pior condição de saúde para negros comparados aos brancos.(33) Assim, pesquisas que consideram tal quesito tem sido uma recomendação relevante, pois se entende que há especificidades importantes neste grupo populacional marcado por várias questões relacionadas à desigualdade social. Logo, estudos com desenho metodológico específico para estas questões são importantes também no tocante à problemática do consumo de álcool.

Vale destacar que a intervenção breve consiste em um conjunto de práticas que englobam a triagem dos níveis de risco e um conjunto de ações específicas a serem empreendidas pelo profissional de acordo com o padrão de consumo identificado.(36) A intervenção breve propicia tanto a identificação dos problemas relacionados ao consumo de álcool, quanto o aconselhamento do indivíduo com vistas à tomada de atitudes que previnam o consumo exagerado e/ou os motivem para o tratamento.(36)

Trata-se de um recurso simples, com baixo custo e que pode ser aplicado por profissionais de diversas áreas.(37,38) O enfermeiro, especificamente, é um profissional capacitado para desenvolver ações de educação em saúde essenciais para a promoção da qualidade de vida da população,(37,38) logo entende-se que este profissional pode ser um elemento-chave na efetivação da intervenção breve em diferentes settings.

Considerando os resultados promissores de estudos prévios com trabalhadores,(37) bem como as características do consumo de álcool da amostra estudada, entende-se que a intervenção breve consiste numa importante ferramenta que pode ser utilizada pelo enfermeiro tanto nos serviços de saúde,(38) quanto em ambientes organizacionais, pois pode contribuir para a mudança no comportamento de beber destes trabalhadores.

Conclusão

A prevalência de consumo de álcool entre os trabalhadores públicos da manutenção foi maior do que a apresentada em um dos principais levantamentos nacionais. Diante do exposto, ressalta-se a importância de estratégias diferenciadas de prevenção para o trabalhador da manutenção, com foco no ambiente de trabalho, no incentivo para o estudo e em técnicas alternativas para o enfrentamento do estresse. Entendese que o planejamento das ações preventivas para esse grupo de profissionais deve considerar não apenas os critérios de dependência, mas também, o consumo em binge que é uma prática comum mesmo entre os bebedores que não se encontram no padrão de consumo abusivo e conforme observado no presente estudo tem alta prevalência entre os trabalhadores públicos da manutenção. O uso periódico de instrumentos de triagem e estratégias de intervenção breve pode complementar o rol de ações preventivas neste setting. Em relação a estudos futuros, sugere-se aprofundar aspectos subjetivos relacionados ao consumo de álcool, incluindo dados qualitativos e estudos cujo desenho de pesquisa permita uma análise mais aprofundada do quesito raça/cor e das diferenças psicossociais relacionadas ao desempenho da função desses trabalhadores.

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