Fatores associados à adesão terapêutica em idosos diabéticos assistidos na atenção primária de saúde

Fatores associados à adesão terapêutica em idosos diabéticos assistidos na atenção primária de saúde

Autores:

Anna Karla de Oliveira Tito Borba,
Ana Paula de Oliveira Marques,
Vânia Pinheiro Ramos,
Márcia Carrera Campos Leal,
Ilma Kruze Grande de Arruda,
Roberta Souza Pereira da Silva Ramos

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.23 no.3 Rio de Janeiro mar. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232018233.03722016

Introdução

O diabetes em idosos está associado a maiores taxas de morte prematura, incapacidade funcional e doenças coexistentes, tais como hipertensão, doença coronariana e acidente vascular cerebral. Além disso, contribui para as chamadas síndromes geriátricas caracterizadas pela polifarmácia, disfunção cognitiva, incontinência urinária, quedas e dor persistente1,2.

Para o controle metabólico e prevenção das complicações do diabetes é necessária uma rotina de autocuidado que envolve o uso de medicação e a adoção de hábitos de vida saudáveis (alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, moderação no uso de álcool e abandono do tabagismo)1,3. No entanto, as mudanças de comportamentos são desafiadoras para os idosos com diabetes e serviços de saúde, resultando na não adesão em mais de 80% dos indivíduos com a doença e predispondo à ocorrência de incapacidades que impactam negativamente na sua qualidade de vida4.

A adesão é um fenômeno multidimensional5 e, segundo Leite e Vasconcelos6, corresponde à concordância entre a prescrição médica e a conduta do próprio paciente. Porém, são muitos os fatores que contribuem para a falta de adesão entre os idosos, tais como o acesso aos medicamentos, características da doença e do tratamento, apoio social, relação profissional de saúde-paciente, idade avançada, baixo poder aquisitivo, analfabetismo, depressão, ansiedade, negação ou medo da doença e as crenças relativas à saúde7.

Diante da variedade e a complexidade dos fatores que concorrem para a não adesão ao tratamento, é necessária uma abordagem individualizada do profissional responsável pela assistência, contemplando as singularidades de cada situação7,8. Desse modo, estudos que identifiquem as prevalências de adesão às diferentes modalidades de tratamento para o controle glicêmico e os fatores associados são importantes para direcionar ações individuais e coletivas de atenção à saúde ao segmento mais envelhecido da sociedade. Neste contexto, este estudo buscou investigar os fatores associados à adesão terapêutica em idosos diabéticos assistidos na atenção primária de saúde.

Métodos

Estudo observacional-seccional, desenvolvido no Núcleo de Atenção ao Idoso (NAI) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), serviço gerontogeriátrico de natureza ambulatorial. A amostra foi do tipo conveniência, constituída por 244 idosos diabéticos, de ambos os sexos, que ingressaram no serviço no período de janeiro de 2006 a dezembro de 2010. Comprometimento de comunicação e/ou cognição registrado no prontuário, idosos com dificuldade ou impossibilidade de locomoção, devido à fraqueza muscular, problemas articulares, dores ou condições neurológicas que restringisse o acesso ao ambulatório foram adotados como critérios de exclusão.

As perdas registradas em decorrência de óbito (15), recusa em participar do estudo (21) e registro incorreto do endereço e/ou número do telefone no prontuário (58) contribuíram para a composição final da amostra equivalente a 150 idosos diabéticos.

A coleta de dados ocorreu nos meses de fevereiro a setembro de 2011, por meio de roteiro estruturado com questões fechadas, sendo as entrevistas realizadas por acadêmicos dos cursos de fisioterapia e enfermagem, que receberam treinamento para a aplicação do instrumento e foram avaliados e reciclados durante todo o período da pesquisa.

A variável dependente correspondeu à adesão terapêutica referida, a qual corrobora com as Diretrizes para o Tratamento e Acompanhamento do Diabetes Mellitus9. Neste estudo, a adesão integral correspondeu à resposta positiva nas perguntas relacionadas ao uso de medicamentos (hipoglicemiantes orais e/ou insulina), conforme prescrição médica (exceto os que não possuíam medicação prescrita para o diabetes), prática regular de exercício físico aeróbico e/ou de resistência, frequência mínima de três vezes na semana e duração mínima de 30 minutos por sessão ou 150 minutos/semana contínuos, conforme recomendações das Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes9 e controle alimentar. Os idosos que referissem não ter medicação prescrita para o diabetes, a adesão integral foi considerada quanto à prática regular de atividade física e controle alimentar. A adesão parcial foi definida por resposta positiva em uma das perguntas (uso de medicamentos, atividade física regular e controle alimentar) e não adesão definida por resposta negativa nas três perguntas.

As variáveis independentes selecionadas para análise foram: características sociodemográficas (sexo, idade, escolaridade, situação conjugal, arranjo familiar, situação previdenciária, renda mensal do idoso, contribuição para o sustento da casa); condições de saúde e fatores relacionados ao tratamento (autopercepção de saúde, tempo de diagnóstico do diabetes, tempo de tratamento, medicamentos prescritos pelo médico utilizados para o diabetes, meio de aquisição da medicação, presença de efeito colateral, percepção quanto ao uso diário dos medicamentos, uso de chás antidiabéticos em substituição aos medicamentos); percepção da doença (conhecimento sobre a doença, tipos de tratamento - categorizado em nenhum, básico [medicação ou dieta ou exercício físico], moderado [medicação e dieta ou medicação e exercício físico ou dieta e exercício físico], avançado [medicação, dieta e exercício físico], percepção sobre a ocorrência de complicações, crenças no uso dos medicamentos, seguimento da dieta e prática de atividade física para o controle da doença, crenças na mensuração do nível glicêmico e mudanças na rotina de vida com o tratamento); suporte social (apoio social avaliado através do APGAR da Família10, cuja denominação representa um acrônimo em inglês, derivado dos domínios: Adaptation [adaptação], Partnership [companheirismo], Growth [desenvolvimento], Affection [afetividade] e Resolve [capacidade resolutiva], relação profissional/equipe de saúde-paciente investigada por meio da confiança no médico e na equipe multiprofissional, entendimento das explicações sobre o diabetes, esclarecimento de dúvidas sobre o tratamento no momento da consulta, profissional responsável pelas orientações sobre o tratamento e participação em grupos educativos para diabetes).

Para a análise dos dados, foi utilizado o programa Statistical Package for Social Sciences (SPSS) for Windows, versão 17.0. A associação entre as variáveis independentes e a adesão terapêutica foi examinada através da análise bivariada pelos testes Qui-Quadrado de Independência de Pearson ou o teste Exato de Fisher, este último, quando os resultados não atendiam aos requisitos para a aplicação do primeiro teste, ambos com nível de significância de 5% e intervalos de 95% de confiança.

Na análise multivariada foi utilizado o modelo de regressão multinomial com a inclusão de todas variáveis com p < 0,20 e permaneceram no modelo final as variáveis com p < 0,05. Os resultados foram interpretados em termos de Razão de Chances (Odds Ratio) e respectivos Intervalos de Confiança (IC), calculados para cada variável estatisticamente significativa (p ≤ 0,05).

O protocolo de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal de Pernambuco. Os entrevistados realizaram a assinatura ou impressão digital do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, no qual eram explicados os objetivos da pesquisa e as informações solicitadas, garantida a confidencialidade das informações obtidas.

Resultados

Dos 150 idosos diabéticos entrevistados, 73,3% eram do sexo feminino, 54,7% estavam na faixa de 60 a 69 e apenas 10,6% tinham acima de 80 anos. Verificou-se que 51,3% viviam com companheiro e 60,0% com cônjuge e familiares. No que se refere à escolaridade, 58,7% possuíam até 8 anos de estudo. Foi visto que 73,3% eram aposentados, 52,7% recebiam de 1 a 2 salários-mínimos e 66,0% contribuíam totalmente para o sustento da casa (Tabela 1).

Tabela 1 Adesão terapêutica segundo fatores socioeconômicos e demográficos de idosos diabéticos na atenção primária de saúde. Recife, PE, 2011. 

Variável Adesão terapêutica p - valor

Total (n = 150) Integral (n = 41; 27,3%) Parcial (n = 100; 66,7%) Não adesão (n = 9; 6,0%)

n (%) n % n % n %
Sexo
Masculino 40 (26,7) 10 25,0 26 65,0 4 10,0 0,453*
Feminino 110 (73,3) 31 28,2 74 67,3 5 4,5
Faixa etária (anos)
60 a 69 82 (54,7) 27 32,9 51 62,2 4 4,9 0,364**
70 a 79 52 (34,7) 11 21,2 38 73,1 3 5,8
80 ou mais 16 (10,6) 3 18,8 11 68,8 2 12,5
Situação conjugal
Com companheiro 77 (51,3) 17 22,1 55 71,4 5 6,5 0,484**
Sem companheiro 73 (48,7) 24 32,9 45 61,6 4 5,5
Arranjo familiar
Mora sozinho(a) 27(18,0) 11 40,7 15 55,6 1 3,7 0,197**
Somente com cônjuge 33(22,0) 9 27,3 20 60,6 4 12,1
Cônjuge + familiares 90(60,0) 21 23,3 65 72,2 4 4,4
Ano de estudo
≤ 8 anos 88 (58,7) 20 22,7 64 72,8 4 4,5 0,696**
> 8 anos 62 (41,3) 21 33,9 36 58,0 5 8,1
Situação previdenciária
Aposentado (a) 110 (73,3) 28 25,4 75 68,2 7 6,4 0,869**
Não é aposentado (a)a 40 (26,7) 13 32,5 25 62,5 2 5,0
Renda mensal idoso (SM)b
< 1 18 (12,0) 5 27,8 12 66,7 1 5,6 0,805(2)
1 - 2 79 (52,7) 20 25,3 55 69,6 4 5,1
2 - 4 29 (19,3) 10 24,5 18 62,1 1 3,4
≥ 4 24 (16,0) 6 25,0 15 62,5 3 12,5
Contribuição no sustento da casa
Sim, totalmente 99 (66,0) 29 29,3 63 63,6 7 7,1 0,841**
Sim, parcialmente 39 (26,0) 10 25,6 27 69,2 2 5,1
Não 12 (8,0) 2 16,7 10 83,3 - -

a Pensionista e não aposentado; b SM (salário-mínimo) vigente à época da pesquisa (em reais) = R$ 545,00. * Teste Qui-quadrado de Pearson. ** Teste Exato de Fisher.

Analisando-se a adesão referida tem-se que 78,7% faziam uso regular de medicamentos para diabetes, seguidos de 16,0% que não tinham indicação para medicação. Apenas 38,7% praticavam atividade física regularmente e 60,0% seguiam recomendações nutricionais prescritas por médico ou nutricionista. Avaliando-se o seguimento terapêutico referido dos idosos diabéticos, a adesão parcial foi predominante (66,7% dos participantes), seguido de 27,3% de adeptos integrais e 6,0% restante de não adeptos (Tabela 1).

Na análise bivariada, as variáveis associadas à adesão terapêutica referida foram: autopercepção da saúde (p = 0,038), crenças no uso dos remédios para controlar o diabetes (p = 0,001), entendimento das explicações sobre o diabetes (p = 0,005) e profissional responsável pelas orientações sobre o tratamento (p = 0,028) (Tabelas 2, 3 e 4).

Tabela 2 Adesão terapêutica segundo as condições de saúde e fatores relacionados ao tratamento de idosos diabéticos na atenção primária de saúde. Recife, PE, 2011. 

Variável n (%) Adesão terapêutica p valor

Integral Parcial Não adesão

n % n % n %
Autopercepção da saúde
Excelente a boa 39 (26,0) 15 38,5 21 53,8 3 7,7 0,038*
Regular 93 (62,0) 24 25,8 66 71,0 3 3,2
Ruim 18 (12,0) 2 11,1 13 72,2 3 16,7
Tempo de diagnóstico
≤ 5 anos 50 (33,3) 15 30,0 30 60,0 5 10,0 0,524*
6 a 10 anos 35 (23,3) 10 28,6 23 65,7 2 5,7
≥ 11 anos 65 (43,3) 16 24,6 47 72,3 2 3,1
Tempo de tratamento farmacológico
< 5 anos 44 (34,9) 12 27,3 30 68,2 2 4,5 0,676*
5 -10 anos 33 (26,2) 9 27,3 23 69,7 1 3,0
≥ 10 anos 49 (38,9) 12 24,5 37 75,5 - -
Tempo de tratamento não farmacológicob
< 5 anos 54 (48,2) 22 40,7 32 59,3 - - 0,654**
5 - 10 anos 26 (23,2) 8 30,8 18 69,2 - -
≥ 10 anos 32 (28,6) 11 34,4 21 65,6 - -
Medicamento para Diabetesc
Hipoglicemiante oral 107 (84,9) 26 24,3 78 72,9 3 2,8 0,471*
Insulina 9 (7,1) 2 22,2 7 77,8 - -
Hipoglicemiante oral e insulina 10 (7,9) 5 50,0 5 50,0 - -
Aquisição de medicamento para Diabetesc
Totalmente pelo SUS 67 (53,2) 18 26,9 46 68,7 3 4,5 0,448*
Parcialmente pelo SUS 23 (18,2) 8 34,8 15 65,2 - -
Recursos próprios 36 (28,6) 7 19,4 29 80,6 - -
Relato de efeito colateralc
Sim 29 (23,0) 5 17,2 22 75,9 2 6,9 0,097*
Não 97 (77,0) 28 28,9 68 70,1 1 1,0
Percepção quanto ao uso dos medicamentos todos os dias?c
Bom 61 (48,4) 18 29,5 42 68,9 1 1,6 0,841*
Indiferente 38 (30,2) 8 21,1 29 76,3 1 2,6
Ruim/Péssimo 27 (21,4) 7 25,9 19 70,4 1 3,7
Uso de chás antidiabéticos em substituição aos medicamentosc
Sim 5 (4,0) 1 20,0 4 80,0 - - 1,000*
Não 121 (96,0) 32 26,4 86 71,1 3 2,5

* Teste Exato de Fisher. ** Teste Qui-quadrado de Pearson. b Ajustado para indivíduos que auto-relataram prática de atividade física e/ou seguimento nutricional. c Ajustado para indivíduos que tinham medicação prescrita para diabetes.

Tabela 3 Adesão terapêutica segundo a percepção da doença de idosos diabéticos na atenção primária de saúde. Recife, PE, 2011. 

Variável Adesão terapêutica p - valor

n (%) Integral Parcial Não adesão

n % n % n %
O Diabetes é uma doença que tem cura?
Sim 22(14,7) 8 36,4 12 54,5 2 9,1 0,417*
Não 128(85,3) 33 25,8 88 68,8 7 5,5
Conhece os tipos de tratamento?
Nenhum 28 (18,7) 5 17,9 21 75,0 2 7,1 0,292**
Básico 25 (16,7) 5 20,0 19 76,0 1 4,0
Moderado 48 (32,0) 11 22,9 34 70,8 3 6,3
Avançado 49 (32,7) 20 40,8 26 53,1 3 6,1
Acha que traz complicações
Sim 146(97,3) 40 27,4 97 66,4 9 6,2 1,000**
Não 4(2,7) 1 25,0 3 75,0 - -
Conhece dois órgãos que podem ser atingidos
Sim 82 (54,7) 24 29,3 53 64,6 5 6,1 0,888**
Não 68 (45,3) 17 25,0 47 69,1 4 5,9
Crença nos medicamentos para controlar o Diabetes?
Usa e acredita nos medicamentos 125(83,3) 33 26,4 89 71,2 3 2,4 0,001**
Usa e não acredita nos medicamentos 7 (4,7) 3 42,9 3 42,9 1 14,3
Não faz uso de medicamento 18 (12,0) 5 27,8 8 44,4 5 27,8
Crença na dieta e atividade física para controlar o Diabetes?
Sim 144(96,0) 41 28,5 95 66,0 8 5,6 0,171**
Não 6 (4,0) - - 5 83,3 1 16,7
Preocupação em verificar o nível de glicose no sangue
Sim 104(69,3) 29 27,9 71 68,3 4 3,8 0,248*
Não 46 (30,7) 12 26,1 29 63,0 5 10,9
Mudanças na rotina com o tratamento
Sim 76 (50,7) 23 30,3 50 65,8 3 3,9 0,453**
Não 74 (49,3) 18 24,3 50 67,6 6 8,1

* Teste Qui-quadrado de Pearson. ** Teste Exato de Fisher.

Tabela 4 Adesão terapêutica segundo o suporte social de idosos diabéticos na atenção primária de saúde. Recife, PE, 2011. 

Variável Adesão terapêutica p - valor

n (%) Integral Parcial Não adesão

n % n % n %
APGAR da família
Elevada disfunção familiar 17(11,3) 2 11,8 13 76,5 2 11,8 0,177*
Moderada disfunção familiar 21(14,0) 8 38,1 11 52,4 2 9,5
Boa funcionalidade familiar 112(74,7) 31 27,7 76 67,9 5 4,5
Confiança no médico
Sim 44(96,0) 39 27,1 96 66,7 9 6,3 1,000*
Não 6 (4,0) 2 33,3 4 66,7 - -
Confiança na equipe de profissionais
Sim 146(97,3) 39 26,7 98 67,1 9 6,2 0,673*
Não 4 (2,7) 2 50,0 2 50,0 - -
Entendimento das explicações sobre o Diabetes
Sim 117(78,0) 36 30,8 78 66,7 3 2,6 0,005*
Não 18 (12,0) 2 11,1 14 77,8 2 11,1
Não recebe explicações 15(10,0) 3 20,0 8 53,3 4 26,7
Esclarecimento de dúvidas sobre o tratamento durante a consulta
Sim 131(87,3) 37 28,2 87 66,4 7 5,3 0,587**
Não 19 (12,7) 4 21,1 13 68,4 2 10,5
Profissional que orienta sobre o tratamento
Médico 122(81,3) 33 27,0 85 69,7 4 3,3 0,028*
Enfermeiro 1 (0,7) - - 1 100,0 - -
Nutricionista 10 (6,7) 4 40,0 6 60,0 - -
Agente Comunitário de Saúde 5 (3,3) 1 20,0 3 60,0 1 20,0
Médico e nutricionista 3 (2,0) 1 33,3 1 33,3 1 33,3
Não recebe orientações sobre o tratamento 9 (6,0) 2 22,2 4 44,4 3 33,3
Participação em grupos educativos para o Diabetes
Nunca participou 120(80,0) 30 25,0 82 68,3 8 6,7 0,389*
Participou 30(20,0) 11 36,7 18 60,0 1 3,3

* Teste Qui-quadrado de Pearson. ** Teste Exato de Fisher.

Na análise multinomial, a variável “Crença nos medicamentos para controlar o diabetes” foi significativa ao comparar a não adesão com adesão integral (OR = 9,65; IC95% 1,6;56,6), e não adesão com adesão parcial (OR = 18,15; IC95% 3,5;95,4), no ajuste do modelo final. Assim, o idoso diabético que toma e acredita que os medicamentos controlam o diabetes tem 9,65 vezes a mais de chances em atingir uma adesão integral ao tratamento quando comparado ao idoso que não faz uso de medicamentos e não adere ao tratamento. Em contrapartida, o idoso diabético que toma e acredita que os medicamentos controlam a doença, tem 18,15 vezes a mais de chances em atingir uma adesão parcial ao tratamento quando comparado ao idoso que não adere. O teste da razão da verossimilhança foi significativo (p = 0,003) indicando que o modelo proposto pode ser utilizado (Tabela 5).

Tabela 5 Fatores associados à adesão terapêutica de idosos diabéticos segundo modelo de regressão logística multinomial na atenção primária de saúde. Recife, PE, 2011. 

Variáveis Não Adesão x Adesão Integral

Modelo Bruto Modelo Ajustado*

OR (IC95%) p-valor OR (IC95%) p-valor
Crença nos medicamentos para controlar o Diabetes
Usa e acredita nos medicamentos 11,00 (2,0-61,0) 0,006 9,65 (1,6-56,6) 0,012
Usa e não acredita nos medicamentos 3,00 (0,2-39,6) 0,834 2,83 (0,2-41,2) 0,444
Não faz uso de medicamentosa 1,00 - 1,00 -

Variáveis Não Adesão x Adesão Parcial

Modelo Bruto Modelo Ajustado*

OR (IC95%) p-valor OR (IC95%) p-valor

Crença nos medicamentos para controlar o Diabetes
Usa e acredita nos medicamentos 18,54 (3,7-92,1) < 0,001 18,15 (3,5-95,4) 0,001
Usa e não acredita nos medicamentos 1,88 (0,2-23,4) 0,488 1,89 (0,1-25,4) 0,630
Não faz uso de medicamentosa 1,00 - 1,00 -

*Modelo ajustado para as variáveis: autopercepção da saúde, entendimento das explicações sobre o diabetes e profissional que orienta sobre o tratamento; a Categoria de Referência da variável; Teste da razão de verossimilhança (p - valor = 0,003); Poder de predição = 68,7%.

Discussão

A adesão integral à terapêutica para o diabetes foi baixa entre os idosos diabéticos entrevistados. Resultado semelhante também foi observado em estudo realizado com pessoas com diabetes tipo 2 no sudeste do Brasil11 e na zona urbana e rural dos sete estados da República mexicana12.

Apesar de prevalente, a adesão terapêutica medicamentosa mostrou-se abaixo do recomendado de 80%6. Revisão sistemática destaca que o baixo seguimento à terapêutica medicamentosa em idosos é decorrente da complexidade dos esquemas medicamentosos, atrelada à falta de entendimento, esquecimento, diminuição da acuidade visual e destreza manual13. Resultado consonante também foi encontrado na cidade de Bagé/RS, em que a baixa adesão esteve associada à idade, ausência de plano de saúde, compra de medicamentos, uso de mais de três medicamentos e incapacidade instrumental para a vida diária14.

A prática regular de atividade física e o seguimento nutricional também não se mostraram adequados. A mudança no estilo de vida faz parte do tratamento para as doenças crônicas, porém os hábitos são comportamentos sociais e culturalmente construídos ao longo da vida, envoltos em aspectos simbólicos que materializam a tradição na forma de ritos e tabus, sendo de difícil modificação.

Franchi et al.15 comparando a prática de atividade física em 88 idosos diabéticos e não-diabéticos, observaram que aproximadamente metade dos participantes dos dois grupos não praticava nenhuma atividade física, dados estes que corroboram com o encontrado neste estudo. Diversas barreiras contribuem para a inatividade física entre os idosos, com destaque para os problemas de saúde e os compromissos familiares16. Contudo, sabe-se que a redução progressiva da aptidão física e da força muscular contribui para a perda da autonomia e capacidade funcional nessa fase da vida, tornando-se prevenível com a prática regular de atividade física17. Desse modo, é necessária a adoção de programas públicos de incentivo a prática de atividade física, que considerem os espaços comunitários, as possibilidades e limitações do idoso ao tipo de exercício, além do esclarecimento acerca das contribuições da atividade física para a saúde biopsicossocial do idoso16,18.

Além da prática de atividade física, o seguimento de um plano alimentar é de extrema importância para o controle glicêmico1,3. Na avaliação do seguimento nutricional no diabetes, Broadbent et al.19 identificaram que a adesão esteve associada à menor ocorrência de complicações, maior controle pessoal e do tratamento, menos sintomas e transtornos emocionais. Nesse sentido, as orientações dietoterápicas devem ser individualizadas, com base nas preferências, cultura, tradições e metas metabólicas, com ênfase em escolhas alimentares saudáveis20.

A autopercepção da saúde atual esteve associada à adesão terapêutica nessa investigação, concordando com estudo realizado no sudeste do Brasil21. Esta variável representa a forma como o indivíduo vê seu estado e compreende sua enfermidade, sendo considerado marcador de risco de mortalidade. Segundo Fonseca et al.22, ao definir sua saúde como boa ou razoável, o idoso não se caracteriza como pessoa livre de doenças, mas como sujeito autônomo e capaz de agir sobre o ambiente. Neste estudo, o idoso que autopercebe a sua saúde como regular desempenha uma maior rotina de cuidados com a doença em relação ao que a autoavalia como ruim. Resultado semelhante também foi encontrado por Luz et al.23 ao identificar que a prevalência de não adesão esteve associada à pior autopercepção de saúde.

As informações recebidas e o entendimento das explicações sobre o diabetes influenciam o comportamento dos indivíduos ao decidirem em seguir ou não à terapêutica prescrita para o diabetes24. A falta de conhecimento sobre a doença e a inadequada capacitação e integração dos profissionais de saúde estão associadas a não adesão ao tratamento, sendo necessária a incorporação de novas tecnologias nos serviços de saúde, a fim de instrumentalizar e motivar os indivíduos com o diabetes para a mudança comportamental25.

O médico foi o profissional responsável pelas orientações sobre o tratamento do diabetes por meio de consultas individuais, porém a adesão parcial foi predominante entre os entrevistados. Leite e Vasconcelos6 afirmam que a adesão ao tratamento não é determinada exclusivamente pelo poder do médico de fazer o cliente seguir a prescrição. Porém, certas atitudes do prescritor, tais como: linguagem, tempo dispensado para a consulta, respeito aos questionamentos e motivação para o cumprimento da terapia podem interferir na adesão terapêutica. Contudo, no presente estudo, não foi avaliado como os profissionais de saúde passavam a informação aos idosos, sendo esse um dos fatores limitantes.

A crença do idoso sobre a utilização do medicamento para o controle do diabetes apresentou associação positiva tanto no modelo bivariado como multivariado, corroborando aos resultados encontrados por outros autores5,7. A adesão medicamentosa para o controle glicêmico envolve crenças comportamentais, normativas e de controle que devem ser consideradas na avaliação dos determinantes do comportamento26.

Estudo de Coorte conduzido com indivíduos diabéticos tipo 2 na cidade de Boston, Estados Unidos, concluiu que a crença nos medicamentos para a melhora dos sintomas e proteção para a saúde no futuro esteve associada a maiores taxas de adesão ao medicamento, quando comparado àqueles indivíduos descrentes27. Desse modo, destaca-se a importância de considerar os conceitos, convicções e atitudes dos idosos relacionadas à saúde e às práticas de cuidado.

Como limitações do estudo, encontra-se o uso de roteiro estruturado, sujeito a distorções e tendenciosidades do entrevistador; análise da adesão ter sido realizada apenas sob o ponto de vista do relato do idoso diabético quanto à terapêutica prescrita, o que difere de outros estudos que avaliaram a adesão por meio do controle glicêmico12,15; uso da medida de associação Odds Ratio, considerando que os estudos transversais utilizam a medida razão de prevalência, porém a aferição da adesão sob os três aspectos (integral, parcial e não adesão) só foi possível utilizando o Modelo Multinomial, optando-se por trabalhar com o Odds Ratio apesar do risco da sobrestimação; escassez de estudos internacionais e nacionais relacionados a adesão em idosos diabéticos sob os três aspectos estudados, dificultando a comparação com outros achados voltados a este segmento, comprovando a necessidade de outros estudos nessa temática com o público mais envelhecido.

Os achados apontam a necessidade de ações que incentivem a mudança comportamental, para a adoção de estilos de vida saudáveis e o desenvolvimento de estudos adicionais, para melhor definir o papel das crenças em saúde e as práticas de cuidados nesta população. Além disso, infere-se que o desenho de práticas educativas com metodologias ativas baseadas na reflexão e respeito à autonomia e individualidade dos idosos diabéticos possibilite a promoção das atividades de autocuidado para o controle glicêmico.

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