Fatores associados à qualidade de vida de idosos comunitários da macrorregião do Triângulo do Sul, Minas Gerais, Brasil

Fatores associados à qualidade de vida de idosos comunitários da macrorregião do Triângulo do Sul, Minas Gerais, Brasil

Autores:

Michelle Helena Pereira de Paiva,
Maycon Sousa Pegorari,
Janaína Santos Nascimento,
Álvaro da Silva Santos

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.21 no.11 Rio de Janeiro nov. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1413-812320152111.14822015

Introdução

Apesar do aumento de pessoas idosas ser uma conquista da humanidade, isso não garante às mesmas a dignidade para se viver bem1, ou seja, a qualidade de vida (QV) não acompanha a evolução ocorrida no perfil demográfico e epidemiológico.

Diante disso, o maior desafio tem sido cuidar de uma grande população idosa cuja maioria apresenta nível socioeconômico e educacional baixo e uma alta prevalência de doenças crônicas e incapacitantes2, o que tem exigido um maior investimento em pesquisas sobre QV na velhice.

A QV pode ser entendida como sendo3:

“A percepção individual de sua posição na vida, no contexto da cultura e sistema de valores em que a pessoa vive, em relação aos seus alvos, expectativas, padrões e interesses. É um conceito de ampla abrangência, afetado de modos complexos pela saúde física da pessoa, seu estado psicológico, nível de dependência, relacionamentos sociais, e relacionamentos com os mais importantes aspectos dentro do seu ambiente”.

Estudos que visam avaliar a saúde, QV e fatores associados ainda são insuficientes4 para se estabelecer um corpo sólido de conhecimento. Portanto, conseguir uma melhor compreensão dos fatores envolvidos na QV é uma preocupação crescente na literatura brasileira e internacional5.

Os estudos revelam divergências quanto aos fatores associados à QV de idosos. Além disso, diferenças regionais e culturais podem influenciar na associação entre QV e seus potenciais fatores6. Um estudo mostrou que a faixa etária com melhor QV foi a de 60 a 69 anos, e esta reduz a cada década de vida, de modo que menos da metade dos idosos com 80 ou mais anos apresentam índice de QV considerado adequado7. Diferente de outra pesquisa8 que mostrou que a QV não diminui com a idade quando comparado a um grupo jovem e muito idoso.

Outros resultados apontam que idosos do sexo masculino apresentaram melhores índices de QV em todas as facetas, exceto na intimidade. Além disso, os maiores escores de QV estiveram associados aos idosos casados, de cor branca, que seguem uma religião, residem com a família, não aposentados, que exercem uma atividade remunerada e renda entre um a três salários mínimos7.

Acredita-se que investigações pautadas na QV de idosos são relevantes para o futuro da saúde, principalmente no caso do Brasil, cuja população está envelhecendo rapidamente e que sofre grandes desigualdades4.

Além disso, pesquisas como estas podem favorecer o aprofundamento e a compreensão dos aspectos relacionados ao envelhecimento, além do planejamento, organização dos serviços de saúde e implementação de ações a partir do contexto populacional observado. Dessa forma, o presente estudo teve por objetivo verificar os fatores socioeconômicos e de saúde associados à QV de idosos comunitários.

Métodos

Trata-se de um estudo analítico de corte transversal e quantitativo, baseado na população de 79.924 pessoas com 60 anos ou mais9, é parte integrante do projeto de pesquisa “Perfil de Saúde da População Idosa dos Municípios da Superintendência Regional de Saúde – Uberaba/Minas Gerais”. A região estudada está localizada no Triângulo Mineiro, no Estado de Minas Gerais, sudeste do Brasil. Para o presente estudo, foram analisados os idosos residentes em 24 municípios, a saber: Água Comprida, Araxá, Campo Florido, Campos Altos, Carneirinho, Comendador Gomes, Conceição das Alagoas, Conquista, Fronteira, Frutal, Ibiá, Itapagipe, Iturama, Limeira do Oeste, Pedrinópolis, Perdizes, Pirajuba, Planura, Pratinha, Sacramento, Tapira, Uberaba, União de Minas e Veríssimo. No total, os municípios analisados representam uma área territorial de 33.594,041Km2 e com índice de desenvolvimento humano médio de 0,71710.

Para o cálculo amostral, considerou-se como referencial a população de idosos de cada município9 e os parâmetros: erro amostral de 0,05; intervalo de confiança de 95% e proporção populacional de cada município (população idosa do município dividida pela população total do município). Desta forma, o cálculo da amostra mínima resultou em 3.198 idosos, sendo o processo de amostragem aleatório simples.

Os critérios para inclusão dos idosos foram: concordar em participar do estudo, assinando o termo de consentimento livre e esclarecido; atingir a pontuação mínima de acordo com o grau de escolaridade no Mini Exame do Estado Mental11 e ter capacidade de andar, mesmo com auxílio de bengala ou andador. Os critérios de exclusão foram: ser dependente de cadeira de rodas, possuir déficit grave de audição ou de visão, dificultando consideravelmente a comunicação e estar acamado provisória ou definitivamente. Participaram deste estudo 3.430 idosos.

Os dados foram coletados no período de maio de 2012 a abril de 2013 em locais públicos ofertados pelas prefeituras dos municípios supracitados, por alunos de graduação e pós-graduação. Foram utilizados: questionário estruturado para variáveis socioeconômicas e de saúde, Mini Exame do Estado Mental, Escala de Katz e os instrumentos World Health Organization Quality of Life-Bref (WHOQOL-BREF), World Health Organization Quality of Life Assessment for Older Adults (WHOQOL-OLD).

O Mini Exame do Estado Mental (MEEM), elaborado por Folstein e McHugh em 1975 e traduzido por Bertolucci et al.11, é composto por questões que avaliam as seguintes funções cognitivas: concentração, linguagem, práxis, orientação, memória e atenção12. Essas questões são agrupadas em sete categorias, sendo: orientação para tempo (5 pontos), orientação para local (5 pontos), registro de três palavras (3 pontos), atenção e cálculo (5 pontos), lembrança das três palavras (3 pontos), linguagem (8 pontos) e capacidade construtiva visual (1 ponto). O escore do MEEM pode variar de um mínimo de 0 até um total máximo de 30 pontos13. O ponto de corte para declínio cognitivo considera o nível de escolaridade, sendo 13 pontos para analfabetos, 18 pontos ou menos para aqueles com 1 a 11 anos de escolaridade e 26 pontos para escolaridade superior a 11 anos11.

O questionário estruturado foi elaborado pelos pesquisadores do presente estudo, este abordou as características socioeconômicas e demográficas dos idosos pesquisados tais como: idade, sexo, situação conjugal, escolaridade e renda familiar e perguntas referentes ao estado de saúde do idoso como: autoavaliação do estado de saúde, doenças autorreferidas (quantidade e tipos de doença) e consumo medicamentoso (quantidade de medicamentos e classes).

Para avaliação da capacidade funcional foi utilizado o Índice de Independência em Atividades da Vida Diária (Índice de Katz) elaborado por Katz (1963) e adaptado à realidade brasileira por Lino et al. Tal escala consta de seis itens que medem o desempenho da pessoa nas atividades de autocuidado14. Foi considerado independente quando o idoso não apresentava dificuldade para a realização de nenhuma das atividades básicas de vida diária (ABVD) e dependente quando tinha dificuldade para realizar uma ou mais atividades.

A QV dos idosos foi avaliada por meio dos instrumentos WHOQOL-BREF e WHOQOL-OLD. O WHOQOL-BREF foi traduzido e validado no Brasil por Fleck et al.15, é composto por 26 itens, sendo dois relacionados à QV global e saúde em geral, e os 24 demais dispostos em quatro domínios (físico, psicológico, meio ambiente e relações sociais)15. O WHOQOL-OLD foi validado para a população idosa brasileira por Chachamovich et al.16 e é composto por 24 itens distribuídos em seis facetas: funcionamento dos sentidos; autonomia; atividades passadas, presentes e futuras; participação social; morte e morrer e intimidade. Trata-se de um instrumento específico para a avaliação da QV em idosos16, devendo o mesmo ser aplicado conjuntamente com o WHOQOL-BREF. Em ambos os instrumentos, os domínios e as facetas são compostos por questões cujas pontuações, em escala Likert, variam de 1 a 5, conforme o grau de satisfação. Os escores finais variam de 0 a 100 e são calculados por uma sintaxe, sendo que o maior número corresponde à melhor QV.

Foi constituída uma planilha eletrônica para o armazenamento dos dados, por meio do programa Microsoft Office 2007 Excel®. Os dados coletados foram digitados por duas pessoas, com dupla entrada, para posterior verificação da existência de inconsistências. Na ocorrência de divergências, os pesquisadores retomavam a entrevista original para a realização das correções pertinentes.

O banco de dados foi importado para o programa Statistical Package for Social Sciencies (SPSS) versão 17.0. Cada domínio do WHOQOL-BREF e WHOQOL-OLD foi ponderado isoladamente com as suas respectivas sintaxes. As variáveis categóricas foram analisadas por meio de frequências absolutas e percentuais e para as numéricas utilizou-se média e desvio padrão. Para verificar os fatores associados à QV, procedeu-se à análise bivariada preliminar, empregando-se o teste t-student para a comparação entre as médias dos escores dos domínios do WHOQOL-BREF e as facetas do WHOQOL-OLD com as variáveis categóricas: sexo, estado conjugal, escolaridade, renda e percepção de saúde. Utilizou-se o Coeficiente de Correlação de Pearson para a correlação entre os escores dos domínios do WHOQOL-BREF e as facetas do WHOQOL-OLD e as variáveis idade, número de medicamentos e de morbidades; e incapacidade funcional para ABVD. Os testes foram considerados significativos quando p < 0,10.

As variáveis de interesse de acordo com o critério de inclusão estabelecido (p < 0,10) foram introduzidas no modelo de regressão multivariável. As variáveis idade, número de morbidades autorreferidas, medicamentos e incapacidade funcional para ABVD foram consideradas quantitativas. Os fatores associados à QV foram identificados por meio da análise multivariável no modelo de regressão linear múltipla (método enter), considerando um nível de significância de 5% (p < 0,05). Foram considerados os pré-requisitos mínimos necessários incluindo-se as análises de resíduos (normalidade, linearidade e homocedasticidade) e de multicolinearidade.

Esse trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Após anuência e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, a entrevista foi conduzida.

Resultados

Foram entrevistados 3430 idosos com 60 anos ou mais dos 24 municípios que compõe a Macrorregião do Triângulo do Sul. A maioria dos idosos apresentou 60 a 69 anos (52,6% - n = 1805), era do sexo feminino (61,5% - n = 2111), vivia com parceiro (56,2% - n = 1920) e possuía um a quatro anos de estudos (54,2% - n = 1859). Os idosos referiram cor da pele branca (60,1% - n = 2058) e o maior percentual recebia entre um a três salários mínimos (48,6% - n = 1658), Tabela 1. Apresentaram percepção de saúde regular (39,2% - n = 1342), presença de uma a quatro morbidades (73,7% - n = 2527), uso de um a quatro medicamentos (79,3% - n = 2721) e independência para as ABVD (85,2% - n = 2923), Tabela 2. Um percentual expressivo de idosos apresentou hipertensão arterial (65,8% - n = 2256), seguido de doenças osteomusculares (35,8% - n = 1227), hiperlipidemia (30,9% - n = 1060), doenças reumáticas (30,5% - n = 1045), cardiopatias (24,5% - n = 839) e diabetes (19,9% - n = 682). Fazem uso de anti-hipertensivos (64,7% - n = 2218), seguido de analgésicos (39,2% - n = 1346), diuréticos (32,1% - n = 1102), antidepressivos (16,4% - n = 562) e hipoglicemiantes (14,5% - n = 497).

Tabela 1 Distribuição das variáveis socioeconômicas e demográficas dos idosos. Macrorregião do Triângulo do Sul, Minas Gerais, Brasil, 2013. 

* Salário mínimo referente ao período no Brasil (2012-2013): R$ 678,00.

Tabela 2 Distribuição das variáveis clínicas, capacidade funcional e morbidades dos idosos. Macrorregião do Triângulo do Sul, Minas Gerais, Brasil, 2013. 

O domínio relações sociais e a faceta morte e morrer apresentam os maiores escores médios (73,54 e 72,36 respectivamente). Os menores escores médios foram observados no domínio meio ambiente e na faceta autonomia (62,00 e 66,82 respectivamente), Tabela 3.

Tabela 3 Distribuição dos escores de QV dos domínios do WHOQOL-BREF e facetas do WHOQOL-OLD. Macrorregião do Triângulo do Sul, Minas Gerais, Brasil, 2013. 

Em relação aos fatores associados, as variáveis da análise bivariada preliminar foram submetidas à análise multivariável, de acordo com o critério de inclusão estabelecido (p < 0,10). As Tabelas 4 e 5 apresentam os modelos de regressão linear para os escores de QV dos domínios do WHOQOL-BREF e facetas do WHOQOL-OLD entre os idosos. Os pré-requisitos mínimos necessários considerados foram atendidos e os coeficientes de determinação variaram de 0,036 a 0,293. Verificou-se que o preditor que mais contribuiu para os menores escores em todos os domínios e facetas de QV foi a percepção de saúde negativa.

Tabela 4 Modelos de regressão linear multivariável para os escores de QV do WHOQOL-BREF em relação às variáveis estudadas. Macrorregião do Triângulo do Sul, Minas Gerais, Brasil, 2013. 

R2 = Coeficiente de determinação; * Coeficientes de regressão linear padronizado; F: Físico; P: Psicológico; RS: Relações sociais; MA: Meio ambiente; **p < 0,05.

Tabela 5 Modelos de regressão linear multivariável para os escores de QV do WHOQOL-OLD em relação às variáveis estudadas. Macrorregião do Triângulo do Sul, Minas Gerais, Brasil, 2013. 

R2 = Coeficiente de determinação; * Coeficientes de regressão linear padronizado; FS: Funcionamento dos sentidos; A: Autonomia; APPF: Atividades passadas, presentes e futuras; PS: Participação social; MM: Morte e morrer; I: Intimidade; ** p < 0,05.

Todas as variáveis estudadas apresentaram associação com pelo menos um domínio ou uma faceta. Houve associação entre sexo feminino e menores escores de QV no domínio psicológico e na faceta morte e morrer. A variável idade avançada esteve associada com os baixos escores no domínio físico e facetas funcionamento dos sentidos e autonomia; exceto para morte e morrer em que foram observados maiores escores de QV. A ausência de companheiro (a) associou-se com menores escores no domínio relações sociais e faceta intimidade. A ausência de escolaridade esteve associada aos baixos escores nos domínios físico, psicológico, meio ambiente; e facetas funcionamento dos sentidos, autonomia e participação social. Ausência de renda esteve associada aos baixos escores de QV nos domínios físico, psicológico, meio ambiente e faceta intimidade. A percepção de saúde negativa e incapacidade funcional associaram-se aos menores escores em todos os domínios e facetas. O maior número de morbidades autorreferidas associou-se aos baixos escores no domínio físico e facetas funcionamento dos sentidos e morte e morrer; enquanto que o maior número de classes de medicamentos aos baixos escores no domínio físico, Tabelas 4 e 5.

Discussão

Em relação aos domínios da QV, obteve maior escore para o domínio relações sociais e menor para o meio ambiente. Resultado divergente foi encontrado em pesquisa com 2.052 idosos em Sete Lagoas – MG, em que o maior escore foi no psicológico (80,30) e o menor no domínio físico (41,00)4. O menor escore no domínio meio ambiente sugere que os idosos deste estudo podem encontrar dificuldades para adaptar-se ao local em que vivem. Estes aspectos podem favorecer a dependência, a falta de autonomia e o isolamento social17.

Além disso, o menor escore no domínio meio ambiente pode ter sido influenciado pelo maior percentual de idosos do presente estudo que vivem com renda de 1 a 3 salários mínimos (48,6%). Essa situação pode comprometer o atendimento das necessidades dos idosos e consequentemente aumentar o risco de adoecimento e ocasionar repercussões negativas em sua QV18.

Estudo realizado na cidade de Barra Bonita – SP obteve menor escore na faceta autonomia quando comparado às outras, resultado condizente ao da presente pesquisa17. Esta condição pode estar relacionada com a dificuldade dos idosos em tomarem as suas próprias decisões; agir com liberdade e de acordo com os seus desejos19. Ademais, no presente estudo, este resultado pode ter sido influenciado pelo menor escore no domínio meio ambiente. Diante disso, os profissionais de saúde devem planejar, organizar e coordenar as suas ações nos diferentes espaços em que os idosos estão inseridos e de forma que vise estimular a autonomia deles na tomada de decisões e suas preferências.

O alto escore na faceta morte e morrer aponta que os idosos estão enfrentando de forma favorável as preocupações, as inquietações e os temores relacionados ao final da vida20. Para os mais idosos, a consciência da própria idade e a expectativa de um futuro mais curto os leva a uma maior aproximação com a ideia de morte, aceitando-a como etapa inevitável21.

Além dos domínios e facetas que estão sendo mais impactados negativamente entre os idosos, torna-se fundamental conhecer os fatores associados aos mesmos, tendo em vista que eles podem afetar a saúde dos mesmos4. Ademais, contribuir para nortear a criação de políticas de apoio e ações sistemáticas nos serviços de saúde.

Como visto nesta pesquisa, o avanço da idade associou-se ao baixo escore de QV, corroborando com dados encontrados em investigações nacionais4,22 e internacional23. Embora o envelhecimento não seja sinônimo de doenças, com o aumento da idade, os idosos tornam mais susceptíveis ao aparecimento de uma ou mais doenças, principalmente as crônico-degenerativas24; assim como ao declínio progressivo da capacidade funcional22, o que pode interferir negativamente na QV dos idosos. Desse modo, os profissionais de saúde devem ter uma visão integral do idoso e estar atentos às possíveis demandas com o avançar da idade.

Pesquisa realizada com idosos que vivem na Polônia verificou que uma elevada QV depende de uma boa educação (OR = 2,31; p < 0,05) e de uma renda que seja suficiente para viver (OR = 1,63; p < 0,05)25, divergindo com os achados da presente pesquisa. Destaca-se que os determinantes sociais, como a escolaridade e a renda, devem ser considerados na prática dos profissionais de saúde, de forma a manter a equidade em saúde e por interferir no bem-estar, na independência funcional e na QV dos idosos18.

A percepção de saúde negativa associou-se aos menores escores em todos os domínios e facetas. Pesquisa realizada em Curitiba – PR verificou que a percepção de saúde negativa pode influenciar a QV dos idosos26. Outra investigação conduzida com idosos moradores em Sete Lagoas – MG obteve, após o ajuste para as variáveis sociodemográficas, que a percepção de saúde positiva esteve entre os principais determinantes para uma boa QV4.

Estudo apontou ainda que os idosos que avaliaram melhor sua saúde e que relataram não ter doenças apresentaram escores médios maiores no domínio físico e meio ambiente27. Além disso, que aqueles idosos que apresentam uma percepção de saúde negativa, os sentimentos relacionados à morte e morrer estão mais presentes que para aqueles que avaliam a saúde como boa ou muito boa27. Entende-se, assim, a necessidade dos profissionais de saúde avaliarem a percepção de saúde e que intervenções sejam traçadas considerando este indicador de saúde.

Outra associação encontrada foi entre os idosos sem parceiro(a) e menor escore na faceta intimidade, corroborando com o resultado encontrado em estudo conduzido com idosos que vivem na região Sul do Brasil27. A ausência de um parceiro pode ocasionar dificuldades na capacidade do idoso de ter outras relações pessoais e íntimas, podendo, assim, ter um maior impacto na faceta intimidade15.

O suporte social inadequado e o insuficiente atendimento à saúde, alcançar a maior longevidade associada à QV satisfatória é um dos maiores desafios relacionados às políticas públicas, com aumento da alocação de recursos para o atendimento às demandas socioeconômicas e sanitárias28. Além disso, estes aspectos podem contribuir para favorecer a incapacidade funcional ou impor novas limitações no estilo de vida do idoso18.

Diante disso, faz-se necessário que os profissionais de saúde considerem a estrutura de rede de apoio deste idoso, em especial daquele que não possui parceiro(a), sistematizando as suas abordagens e de forma a estimular e fortalecer a interação e os contatos afetivos com a sua família e a comunidade18,29.

Observou-se associação entre o maior número de classes de medicamentos com os baixos escores no domínio físico. O uso de múltiplos medicamentos por idosos pode afetar a morbimortalidade e a QV dos mesmos. As reações adversas aos medicamentos são associadas a desfechos negativos da terapia, podem influenciar a relação médico-paciente, uma vez que a confiança no profissional pode ser abalada; retardar o tratamento, limitar a autonomia do idoso e afetar a QV; além disso, em muitos casos o tratamento das reações adversas envolve a inclusão de novos medicamentos aumentando o risco da cascata iatrogênica30.

Tem destaque o uso de vários medicamentos que podem gerar dependência de mediação de terceiros ou tratamentos, aspecto avaliado no domínio físico15 tendo em vista que o idoso possa ter dificuldades em relação ao horário e à forma adequada no uso do medicamento.

O maior número de morbidades autorreferidas associou-se aos baixos escores no domínio físico e facetas funcionamento dos sentidos e morte e morrer. Estudo realizado com idosos que moram na cidade de Jyväskylä, Finlândia, verificou que o aumento no número de morbidades influenciou de forma negativa na QV dos idosos31. Diante disso, verifica-se a necessidade dos profissionais de saúde estarem envolvidos no manejo e controle dos fatores de risco; das morbidades e das complicações já instaladas.

A incapacidade funcional associou-se aos menores escores em todos os domínios e facetas, corroborando com achado de outras investigações22,24. A capacidade funcional configura um sentido mais amplo do que manter a saúde para os idosos, no intuito de dar ênfase uma vida com autonomia e independência, mesmo com a presença de uma ou mais doenças32,33.

Desta forma, a capacidade funcional é um aspecto central para se obter uma boa QV na velhice22 e os resultados da sua avaliação devem ser considerados para traçar estratégias de promoção da saúde para os idosos e intervenções para as dificuldades já instaladas.

O estudo apresentou algumas limitações como o delineamento transversal, que não permite estabelecer relações de causalidade, não ter avaliado as atividades instrumentais de vida diária e morbidades e medicações autorreferidas o que pode subestimar ou superestimar algumas informações encontradas. Além disso, há escassez de estudos utilizando o WHOQOL-OLD.

Os fatores socioeconômicos e de saúde foram associados à QV de idosos, com destaque para os menores escores de QV no domínio meio ambiente associados à ausência de escolaridade e renda, percepção de saúde negativa e incapacidade funcional; e na faceta autonomia à maior idade, ausência de escolaridade, percepção de saúde negativa e incapacidade funcional. O preditor que exerceu maior influência foi a percepção de saúde negativa.

Os resultados aqui evidenciados reforçam a necessidade da avaliação da QV como um relevante indicador de saúde entre os idosos e para que intervenções adequadas sejam planejadas a partir dos fatores que estão impactando de forma negativa na mesma.

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