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Fatores associados ao aleitamento cruzado

Fatores associados ao aleitamento cruzado

Autores:

Mariana Pujól von Seehausen,
Maria Inês Couto de Oliveira,
Cristiano Siqueira Boccolini

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.22 no.5 Rio de Janeiro maio 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232017225.16982015

Abstract

This article aims to estimate the prevalence and analyze the factors associated with cross-nursing. A cross-sectional study was conducted in 2013 with interviews with a representative sample of mothers of infants less than one-year-old (n’ = 695) attended in nine primary health units in Rio de Janeiro, Brazil. Sociodemographic characteristics were studied; pregnancy, childbirth and primary care assistance; maternal habits and baby features. Adjusted prevalence ratios (PR) were obtained by Poisson Regression, retaining variables associated with the outcome in the final model (p ≤ 0.05). Cross-nursing was practiced by 29.4% of the mothers. Most practitioner mothers were relatives or friends. The following variables were directly associated with cross-nursing: being an adolescent mother (PR’ = 1.595), smoking (PR’ = 1.396), alcohol consumption (PR’ = 1.613), inappropriate baby feeding habits (PR’ = 1.371) and infant’s age in months (PR’ = 1.066). Maternal formal employment was inversely associated with the practice (PR’ = 0.579). Cross-nursing has a relevant prevalence among mothers assisted by primary health care units in Rio de Janeiro City. This issue should be addressed, especially among the most vulnerable groups, due to the association with adolescence and with unhealthy habits.

Key words: Breast feeding; Cross-nursing; Primary Health Care; Cross-sectional studies; Child health

Introdução

A amamentação possui diversas vantagens: estimula o crescimento e o desenvolvimento motor e cognitivo do bebê e tem impacto significativo na redução da morbi-mortalidade infantil1-3. Desde a década de 1980, quando foi lançado o Programa Nacional de Incentivo ao Aleitamento Materno, as políticas de estímulo, proteção e apoio ao aleitamento materno vêm resultando em aumento na duração mediana deste: de 2,5 meses em 1975 para 14,0 meses em 20064-6.

O aleitamento cruzado consiste na prática em que uma mulher amamenta uma criança que não é seu filho, um compartilhamento informal entre mães, não remunerado, podendo ser recíproco. É considerado ocasional, pois a mãe continua amamentando seu próprio filho e geralmente ocorre em situações em que a criança está sob o cuidado de uma outra lactante7-9. Esta prática é culturalmente aceita no Brasil, possivelmente devido à tradição das amas de leite, que no século XIX amamentavam e cuidavam das crianças de famílias com as quais viviam10.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), nas excepcionais condições em que o leite de uma mulher não é adequado ou não está disponível para a alimentação de seu filho, a escolha da melhor alternativa depende de circunstâncias individuais ou coletivas, como catástrofes. Tais alternativas são: amamentação realizada por uma lactante saudável, leite ordenhado de outra lactante, leite obtido em bancos de leite humano ou substituto ao leite humano11,12. No Brasil, o aleitamento cruzado é formalmente contraindicado pelo Ministério da Saúde, desde 1996, devido ao risco de transmissão vertical do HIV pela amamentação13.

O aleitamento cruzado é um tema pouco estudado pela literatura. Embora desaconselhado no Brasil há cerca de 20 anos, não foram encontrados artigos que tenham descrito a prevalência desta prática e investigado os seus determinantes. Não se sabe, portanto, se a prática do aleitamento cruzado tem se mantido, se foi reduzida, ou mesmo se expandiu no período. Este trabalho teve por objetivo estimar a prevalência de aleitamento cruzado em mulheres assistidas por unidades básicas de saúde e analisar os fatores associados à prática.

Métodos

Estudo transversal, cuja população foi composta por uma amostra representativa das mães de crianças menores de um ano assistidas pelas nove unidades básicas do Sistema Único de Saúde (SUS) que possuíam Postos de Recebimento de Leite Humano Ordenhado (PRLHO) no município do Rio de Janeiro em 2013. Dentre os nove PRLHO, seis funcionavam em Clínicas da Família e três em Centros Municipais de Saúde, distribuídos em cinco das dez áreas de planejamento da cidade14. O presente estudo faz parte da pesquisa “Avaliação dos fatores associados à doação de leite materno por usuárias de unidades básicas de saúde da cidade do Rio de Janeiro” e contou com apoio da FAPERJ. Foram selecionadas para o estudo unidades básicas com PRLHO, pois nestas unidades as mães teriam a possibilidade de doar seu leite de uma forma institucional.

O projeto de pesquisa foi desenhado para a investigação de vários desfechos relativos à doação de leite humano e à amamentação e o tamanho da amostra original foi definido com base em uma prevalência de 50% dos desfechos (pois garante o maior tamanho de amostra possível para nível de erro e confiança controlados), com alfa de 5% e beta de 80% para detectar uma razão de chances de 1,5, resultando em uma amostra de 697 sujeitos15. A quantidade de mães entrevistadas em cada unidade foi proporcional à média do número de crianças menores de um ano acompanhadas pela unidade no bimestre anterior ao trabalho de campo.

As fontes de dados foram questionários estruturados aplicados às mães nos meses de novembro e dezembro de 2013. Os instrumentos foram testados previamente em estudo piloto, conduzido nos meses de setembro e outubro de 2013, em duas unidades básicas do município do Rio de Janeiro. Entrevistadoras, nutricionistas e enfermeiras, foram capacitadas para a aplicação dos questionários de forma padronizada em treinamento teórico-prático com carga horária de 20 horas e participaram do estudo piloto. O trabalho de campo contou com a supervisão de uma profissional com prática em pesquisa e dos pesquisadores envolvidos. Em cada unidade básica de saúde a entrevistadora correspondente coletou dados em todos os turnos de atendimento até que o tamanho amostral correspondente fosse atingido. O período de coleta de dados em cada unidade variou de 25 dias a um mês e meio.

Foram consideradas como variáveis de exposição as características sociodemográficas maternas e contextuais (idade, cor da pele, escolaridade, renda materna, paridade, experiência prévia de amamentar, local de moradia, presença de companheiro, chefe da família, morar com sogra ou mãe e número de moradores na residência), características da assistência recebida durante a gravidez e o parto e do recém-nascido (número de consultas pré-natais, local de realização do pré-natal, orientação sobre aleitamento materno durante o pré-natal, tipo de hospital, tipo de parto, idade gestacional do bebê, peso ao nascer, internação em unidade neonatal, primeira mamada na primeira hora de vida e tipo de aleitamento na alta hospitalar) e os hábitos e atividades maternas, a assistência na unidade básica e características do bebê (fumar pelo menos um cigarro por dia, ingerir bebida alcoólica pelo menos uma vez por semana, percepção da própria saúde, estar estudando, exercer trabalho remunerado formal ou informal, percepção de ajuda para amamentar, sexo do bebê, idade do bebê em meses, número de consultas do bebê, cuidador principal, estar na creche, regime adequado de alimentação do bebê, uso de mamadeira e uso de chupeta). A variável “regime adequado de alimentação do bebê” foi construída a partir de informações sobre a idade deste e o tipo de alimentação recebida. O regime alimentar foi considerado adequado quando o bebê menor de seis meses de idade estava em aleitamento materno exclusivo (AME) ou quando a criança no segundo semestre de vida recebia leite materno complementado por fruta e/ou suco de frutas e por papa salgada e/ou comida de panela.

Os dados sobre o aleitamento cruzado foram obtidos por meio de dois conjuntos de perguntas: 1. “Desde que o/a (nome do bebê) nasceu, você amamentou alguma outra criança sem ser seu filho/a?”; “Esta(s) crianças era(m) filha(s) de quem?”; “Por que você amamentou estas criança(s)?” e 2.“O/a (nome do bebê) foi amamentado alguma vez por outra pessoa?”; “Quem era(m) esta(s) mulheres que amamentou(aram) o/a (nome do bebê)?; “Por que esta mulher amamentou (nome do bebê)?”. No entanto, como o perfil das mães que praticaram as duas formas de aleitamento cruzado (a mãe ter amamentado outra criança que não o seu filho e a mãe ter o seu filho amamentado por outra nutriz) foi semelhante (dados não expostos), optou-se por empregar um desfecho único: o aleitamento cruzado, que compreendeu as duas formas referidas.

Análise univariada foi desenvolvida para conhecimento da distribuição das variáveis de exposição e do desfecho sob investigação, a prática do aleitamento cruzado. Em seguida foi conduzida uma análise bivariada entre cada variável de exposição e o desfecho, utilizando-se teste qui-quadrado de Pearson, com intervalos de confiança de 95%. As variáveis que obtiveram valor de p ≤ 0,20 foram incluídas na modelagem estatística.

As razões de prevalência ajustadas foram obtidas por modelo de regressão de Poisson com variância robusta, pois o desfecho apresentou prevalência elevada16. O modelo final, utilizado para estimar medidas de associação com seus respectivos intervalos de confiança de 95%, foi composto pelas variáveis de exposição que obtiveram valor de p ≤ 0,05. A regressão seguiu modelo conceitual hierarquizado, segundo a proximidade temporal de cada variável com o desfecho17. Foram consideradas como variáveis distais as características maternas e contextuais, como variáveis intermediárias as características do pré-natal, do parto, do recém-nascido e da assistência hospitalar e como variáveis proximais os hábitos e as atividades maternas, a assistência na unidade básica e as características do bebê.

Resultados

A prevalência de aleitamento cruzado entre as mães foi de 29,4% (n = 204), sendo que 10,8% (n = 75) amamentaram uma ou mais crianças que não o seu filho, 9,8% (n = 68) tiveram seu filho amamentado por uma ou mais nutrizes e 8,8% (n = 61) praticaram as duas formas de aleitamento cruzado.

Mais da metade das mães praticantes (56,4%) tinha relação de parentesco com a outra nutriz envolvida e a principal motivação para a prática foi o bebê estar sendo cuidado por uma que não sua mãe (51,5%) (Tabela 1).

Tabela 1 Prática de aleitamento cruzado segundo a relação entre as mães envolvidas e suas motivações. Município do Rio de Janeiro, RJ, 2013. 

Características N %
Relação entre as mães envolvidas
Parente 115 56,4
Amiga ou vizinha 52 25,5
Desconhecida 12 5,9
Parente (e/ou) amiga (e/ou) desconhecida 25 12,3
Motivações
Cuidar do bebê 105 51,5
Mãe com pouco leite 51 25,0
Curiosidade 7 3,4
Necessidade da nutriz 6 2,9
Mãe estava doente 5 2,5
Mais de uma motivação 30 14,7
Total 204 100,0

Entre as mães entrevistadas, 22,7% eram adolescentes, 73,5% se autodeclararam de cor não branca e 77,6% tinham ensino fundamental incompleto (Tabela 2). Fizeram o pré-natal em unidade básica de saúde 79,1% das mães, 78,7% foram orientadas sobre aleitamento materno, 41,7% dos partos foram operatórios e 16,3% dos bebês ficaram internados em unidade neonatal (Tabela 3). Em relação aos hábitos maternos, 11,1% das mães fumavam (pelo menos um cigarro por dia), 11,7% consumiam bebida alcoólica (em geral, ocasionalmente) e 17,4% percebia sua saúde como ruim ou regular. Foram orientadas sobre a ordenha manual das mamas 18,7% das mães. A grande maioria das mães (89,5%) era a principal cuidadora de seu filho, 8,9% delas estudavam e 63,2% não trabalhavam (Tabela 4).

Tabela 2 Prevalência e razão de prevalência bruta de aleitamento cruzado segundo características maternas e contextuais. Município do Rio de Janeiro, 2013. 

Características N % % AC RP p-valor
Idade da mãe
20 anos ou mais 537 77,3 25,5 1
13 a 19 anos 158 22,7 42,4 1,662 < 0,001
Cor da pele
Branca 184 26,5 25,0 1
Não branca 510 73,5 31,0 1,239 0,127
Escolaridade materna
8 anos completos ou mais 539 77,6 27,8 1
Até 7 anos completos 156 22,4 34,6 1,244 0,101
Renda materna
1 salário mínimo ou mais 202 29,3 20,3 1
Menos de 1 salário mínimo ou sem renda 487 70,7 33,3 1,639 0,001
Paridade
Primípara 328 47,2 30,8 1
Multípara 367 52,8 28,1 0,911 0,431
Experiência com AM
Nunca amamentou antes 347 49,9 30,3 1
Amamentou menos de 1 ano 176 25,3 29,5 0,976 0,866
Amamentou mais de 1 ano 172 24,7 27,3 0,903 0,489
Local de moradia
Bairro 252 36,3 23,0 1
Comunidade 443 63,7 33,0 1,432 0,006
Vive com companheiro
Sim 547 78,7 28,2 1
Não 148 21,3 33,8 1,200 0,182
Chefe da família
Outros 594 85,5 28,5 1
Própria mulher 101 14,5 34,7 1,218 0,206
Mora com mãe ou sogra
Não 538 77,4 28,4 1
Mãe ou sogra ou ambas 157 22,6 32,5 1,142 0,327
Número de moradores
Até 4 moradores 437 62,9 29,1 1
De 5 a 11 moradores 258 37,1 29,8 1,027 0,827
Total 695 100,0 29,4 - -

* RP = razão de prevalência; AC = aleitamento cruzado; AM = aleitamento materno.

Tabela 3 Prevalência e razão de prevalência bruta de aleitamento cruzado segundo características do pré-natal, do parto, do recém-nato e da assistência hospitalar. Município do Rio de Janeiro, 2013. 

Características N % % AC RP p-valor
Consultas de pré-natal
6 ou mais consultas 614 88,5 30,1 1
0 a 5 consultas 80 11,5 23,8 0,788 0,239
Local de realização do pré-natal
Unidade básica do SUS 545 79,1 31,2 1
Outro serviço 144 20,9 22,9 0,735 0,053
Orientação sobre AM no pré-natal
Sim 547 78,7 27,8 1
Não 148 21,3 35,1 1,264 0,082
Hospital de nascimento
Não credenciado 490 71,0 30,2 1
Hospital Amigo Criança 200 29,0 27,0 0,894 0,401
Tipo de parto
Normal 405 58,3 30,6 1
Cesariana 290 41,7 27,6 0,901 0,387
Idade gestacional
A termo 624 89,8 29,5 1
Pré-termo 71 10,2 28,2 0,955 0,817
Peso ao nascer
2500g ou mais 652 93,8 29,1 1
< 2500 g 43 6,2 32,6 1,117 0,634
Internação do bebê
Não 582 83,7 29,4 1
Sim 113 16,3 29,2 0,994 0,970
Primeira mamada
Após a primeira hora 300 43,2 27,0 1
Na primeira hora 395 56,8 31,1 1,153 0,235
Tipo de AM na alta
AME 549 79,0 28,6 1
Não AME 146 21,0 32,2 1,126 0,397
Total 695 100,0 29,4 - -

* RP = razão de prevalência bruta; AC = aleitamento cruzado; AM = aleitamento materno.

Tabela 4 Prevalência e razão de prevalência bruta de aleitamento cruzado segundo hábitos e atividades maternas, assistência na unidade básica e características do bebê. Município do Rio de Janeiro, 2013. 

Características N % % AC RP p-valor
Fuma
Não 617 88,9 27,2 1
Sim 77 11,1 46,8 1,717 < 0,001
Bebida alcoólica
Não 614 88,3 26,7 1
Sim 81 11,7 49,4 1,849 < 0,001
Percepção da sua saúde
Boa 574 82,6 26,8 1
Ruim ou regular 121 17,4 41,3 1,540 0,001
Estudante
Não 632 91,1 30,1 1
Sim 62 8,9 22,6 0,751 0,217
Trabalho materno atual
Não trabalha 439 63,2 32,3 1
Trabalho formal 177 25,5 15,8 0,466 < 0,001
Trabalho informal 79 11,4 43,0 1,559 0,005
Percepção de ajuda para amamentar
Sim 360 51,8 26,1 1
Não ou regular 335 48,2 32,8 1,258 0,052
Orientação sobre ordenha manual
Sim 130 18,7 25,4 1
Não 565 81,3 30,3 1,192 0,271
Cuidador
Outra pessoa 73 10,5 27,4 1
Mãe 621 89,5 29,6 1,081 0,692
Bebê na creche
Não 683 98,3 29,6 1
Sim 12 1,7 16,7 0,564 0,330
Alimentação adequada
Não 350 50,4 35,4 1
Sim 345 49,6 23,2 0,655 < 0,001
Uso de mamadeira
Não 295 42,4 23,1 1
Sim 400 57,6 34,0 1,475 0,002
Uso de chupeta
Não 384 55,3 28,6 1
Sim 310 44,7 30,3 1,059 0,630
Sexo do bebê
Feminino 323 53,5 27,9 1
Masculino 372 46,5 30,6 1,100 0,422
Idade do bebê
0 a 5 meses 429 61,7 23,8 1
6 até 12 meses 266 38,3 38,3 1,613 < 0,001
Total 695 100,0 29,4 - -

*RP = razão de prevalência bruta; AC = aleitamento cruzado

Na análise bivariada, mostraram-se associadas ao aleitamento cruzado as variáveis distais, idade, cor da pele, escolaridade e renda maternas, local de moradia e viver com companheiro (Tabela 2), as intermediárias, local de realização do pré-natal e orientação sobre aleitamento materno durante o mesmo (Tabela 3), e as proximais, hábito de fumar, consumo de bebida alcoólica, percepção da própria saúde, trabalho materno atual, percepção de ajuda para amamentar, alimentação adequada, uso de mamadeira e idade do bebê à época da entrevista (Tabela 4).

No modelo múltiplo hierarquizado, mostraram-se diretamente associados ao aleitamento cruzado: ser mãe adolescente (RP = 1,595), hábito de fumar (RP = 1,396), consumo de bebida alcoólica (RP = 1,613), regime inadequado de alimentação do bebê (RP = 1,371) e a idade deste em meses (RP = 1,066). O trabalho materno formal mostrou-se inversamente associado à prática (RP = 0,579) (Tabela 5).

Tabela 5 Fatores associados ao aleitamento cruzado em mães assistidas por unidades básicas de saúde. Município do Rio de Janeiro, 2013. 

Características RPa p-valor IC95%
Idade da mãe
20 anos ou mais 1
13 a 19 anos 1,595 < 0,001 1,276-1,993
Hábito de fumar
Não 1
Sim 1,396 0,021 1,051-1,854
Consumo de bebida alcoólica
Não 1
Sim 1,613 0,001 1,228-2,119
Trabalho materno atual
Não trabalha 1
Trabalho formal 0,579 0,004 0,400-0,838
Trabalho informal 1,272 0,082 0,970-1,668
Alimentação adequada
Sim 1
Não 1,371 0,007 1,089-1,726
Idade do bebê
Idade do bebê em meses 1,066 < 0,001 1,032-1,100

* RPa = razão de prevalência ajustada.

Discussão

Embora desaconselhado no Brasil pelo Ministério da Saúde há duas décadas, quase um terço das mães entrevistadas praticou o aleitamento cruzado13. Esta prevalência foi próxima à encontrada em estudo transversal conduzido em 2008 com 120 mães que tiveram seus filhos em maternidade pública do município de Horizonte/Ceará (32,0%) e inferior à encontrada em usuárias do SUS de duas cidades de médio porte do Rio de Janeiro em estudo de coorte conduzido de 2008 a 2010 (39,5%)18,19.

Observou-se que, na maioria das vezes, as mães praticantes eram parentes ou amigas e o aleitamento cruzado ocorria por ocasião do cuidado do bebê por uma nutriz que não a sua mãe. Estudos em outros cenários também observaram tal comportamento. Entre as mais de 70% das mães que praticaram o aleitamento cruzado em Horizonte/Ceará, este ocorreu entre parentes ou amigas e em ocasiões em que a mãe estava distante e o bebê sob os cuidados de outra nutriz18. Thorley8 verificou que, dentre 43 australianas praticantes do aleitamento cruzado captadas pela internet, 45,3% realizavam a prática com irmãs ou cunhadas e 34,0% com amigas. No trabalho de Krantz e Kupper7 três mães americanas praticantes do aleitamento cruzado entre si relataram que a prática geralmente ocorria quando uma delas estava cuidando do bebê de uma das amigas, aliviando a preocupação com a alimentação da criança no caso da ausência materna.

No Brasil, vem sendo desenvolvida uma política de promoção ao aleitamento materno há mais de 30 anos, que vem sensibilizando as mães sobre a importância da amamentação e do leite materno para a saúde de seus filhos4. Como nem sempre as mães conseguem estar próximas de seus filhos ou adquirir as habilidades necessárias à ordenha do leite materno para a sua administração por outra pessoa, é possível que o aleitamento cruzado, para elas, pareça ser uma forma viável de manter a amamentação e o fornecimento de leite humano ao bebê, possivelmente pelo seu desconhecimento do risco de transmissão vertical de HIV e outras doenças pelo leite humano20.

Na análise múltipla, a prevalência de aleitamento cruzado aumentou 6,6% a cada mês de vida do bebê. Também se mostraram diretamente associados ao aleitamento cruzado: adolescência, hábito de fumar, consumo de bebida alcoólica, não dispor de trabalho materno formal, e oferecer a seus filhos um regime alimentar inadequado. Logo, o aleitamento cruzado parece estar relacionado a uma maior vulnerabilidade materna, pela idade das mães que o praticam, pela ausência de direitos trabalhistas e por estas não seguirem as orientações preconizadas pelo Ministério da Saúde quanto a hábitos de vida e de alimentação do bebê.

Adolescentes costumam ter relações de amizade bastante estáveis, passando boa parte do seu tempo em atividades de socialização com os amigos, compartilhando sentimentos e experiências, sendo a confiança uma característica bastante valorizada21. Mulheres jovens costumam procurar redes de apoio informal para lidar com os desafios da gravidez e da maternidade, tanto proporcionando apoio quanto o recebendo22. Estas características da mãe adolescente podem ter contribuído para a prevalência de aleitamento cruzado 60% superior a encontrada nesta faixa etária, possivelmente vivenciada enquanto uma prática de interação social e de ajuda mútua.

Quanto aos hábitos de vida, diversos traços de personalidade do indivíduo fumante contribuem para o início e a manutenção do hábito de fumar: Rondina et al.23 verificaram que fumantes tendem a ser mais extrovertidos e sociáveis, mas também ansiosos, inseguros, vulneráveis e até mesmo depressivos. O consumo de bebidas alcoólicas é um comportamento presente na maioria das culturas, estando associado a celebrações, situações de negócio e sociais, cerimônias religiosas e eventos culturais24. Embora tal consumo seja contraindicado durante a gestação e a lactação, Oliveira e Simões25 observaram que 10% das gestantes frequentadoras de unidade de saúde no Estado do Rio de Janeiro ingeriam bebidas alcoólicas moderadamente, especialmente em festas. Tanto as mães fumantes quanto as que ingeriam bebidas alcoólicas apresentaram uma maior prevalência (40% e 60%, respectivamente) de aleitamento cruzado, apontando, da mesma forma, para a dimensão social e de suporte mútuo da prática.

Em resultados preliminares de estudo de coorte realizado em dois municípios do Rio de Janeiro, o trabalho informal aumentou a prevalência do aleitamento cruzado em 25%19. No presente estudo, esta categoria de variável sinalizou o mesmo tipo de efeito, porém não alcançou significância estatística. Já o trabalho materno formal reduziu a prática do aleitamento cruzado em 42%, provavelmente porque estas mulheres dispõem de licença maternidade e de outros direitos trabalhistas que protegem o aleitamento materno.

Em estudo realizado em Porto Alegre, práticas recomendadas de aleitamento materno e de alimentação complementar saudável foram mais frequentes entre mães que seguiam as recomendações dos profissionais de saúde e que entendiam a importância da alimentação adequada para seus filhos, porém cerca de 50% das mães não seguiam estas recomendações26. Embora as orientações dadas por profissionais de saúde sejam consideradas importante fonte de informação pelas mães, também podem se mostrar difíceis de entender ou conflitantes. As atitudes maternas em relação ao tipo de alimentação a ser oferecida aos seus filhos são fortemente influenciadas por familiares, amigos e parceiros27,28. No presente estudo, o aleitamento cruzado foi mais praticado por mães que não seguiam as recomendações preconizadas quanto à alimentação de seus filhos, possivelmente por não receberem e/ou não compreenderem as informações fornecidas pelos profissionais de saúde ou por darem preferência a conselhos fornecidos por familiares e amigos.

Foi interessante observar que nenhuma variável relativa à assistência pré-natal, ao parto ou à díade mãe-bebê se mostrou associada ao aleitamento cruzado. O presente estudo não investigou se as mães entrevistadas foram orientadas pela equipe de saúde sobre a contraindicação à prática do aleitamento cruzado. No entanto, estas orientações parecem ser pouco frequentes e pontuais. Vieira et al.29, em estudo qualitativo com 17 puérperas internadas em hospital filantrópico de Ribeirão Preto/SP, encontraram que nenhuma delas havia sido orientada sobre o tema no pré-natal.

Não foi encontrada associação entre o aleitamento cruzado e as características do bebê, como o nascimento pré-termo e o baixo peso ao nascer, indicando que não foi a vulnerabilidade da criança que se associou a esta prática, e sim as características maternas. As atitudes de uma mulher frente à amamentação estruturam-se a partir da interação com o recém-nascido, a comunidade, seus familiares e suas atividades diárias, sendo a amamentação socioculturalmente condicionada, impregnada por ideologias e determinantes que resultam das condições concretas da vida30,31. A mera transmissão de informação dos profissionais de saúde para as mães não costuma ser suficiente para determinar as ações destas em relação às práticas alimentares de seu filho26. Portanto, é possível assumir que cartazes e instruções esporádicas contraindicando o aleitamento cruzado podem não ser suficientes para impedi-lo, enquanto prática social impregnada pela cultura.

É importante ressaltar que o presente estudo apresenta limitações. Pelo seu delineamento transversal, não se dispõe de informação sobre o momento de início e de término da prática do aleitamento cruzado, impossibilitando o estabelecimento de relação causal entre o desfecho e a maior parte das variáveis proximais investigadas. Além disso, a única fonte de informação disponível sobre a prática foi a entrevista materna, o que inviabiliza a estimação de possível viés de informação, uma vez que não existem registros oficiais sobre o aleitamento cruzado e o mesmo não foi observado diretamente. A escassez de dados sobre a prática na literatura também limita a possibilidade de comparação com outros contextos, uma vez que mais estudos sobre o aleitamento cruzado enriqueceriam a discussão do tema.

Conclui-se que, embora contraindicada pelo Ministério da Saúde e negligenciada pela literatura, a prática do aleitamento cruzado tem prevalência relevante entre mães assistidas pelo SUS no contexto da cidade do Rio de Janeiro e ocorre especialmente entre mães próximas e na ocasião do cuidado do bebê por outra nutriz. Tal prevalência aumenta com a idade do bebê e é maior entre mães mais vulneráveis: jovens, adeptas de hábitos não saudáveis e não trabalhadoras formais.

É importante que futuros estudos investiguem o conhecimento materno sobre aleitamento cruzado e a cobertura e o teor das orientações prestadas sobre o tema na assistência pré-natal, ao parto e à díade mãe-filho em diferentes contextos e cenários. Sugere-se, também, que sejam conduzidos estudos longitudinais que aprofundem a investigação de fatores associados ao aleitamento cruzado e que explorem aspectos não abordados no presente trabalho, como a duração da prática do aleitamento cruzado e a sua extensão para além das frequentadoras do Sistema Único de Saúde.

Recomenda-se, portanto, que a prática do aleitamento cruzado seja mais estudada e se torne objeto de reflexão pelos profissionais das instituições de saúde e pela sociedade como um todo, seja para desestimulá-la de forma efetiva, por meio de aconselhamento, seja para reavaliá-la e aceitá-la em determinadas circunstâncias e contextos, como sugerido pela OMS.

REFERÊNCIAS

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