Fatores associados às complicações metabólicas e alimentação em idosos da zona rural

Fatores associados às complicações metabólicas e alimentação em idosos da zona rural

Autores:

Sara Franco Diniz Heitor,
Leiner Resende Rodrigues,
Darlene Mara dos Santos Tavares

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.21 no.11 Rio de Janeiro nov. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1413-812320152111.11592015

Introdução

A alimentação na terceira idade requer especial atenção, já que as alterações fisiológicas e psicológicas no organismo do idoso podem modificar as necessidades e o estado nutricional. Assim, esta deve despertar o apetite e o prazer em comer, ser saborosa, cheirosa, colorida, estar na textura e temperatura ideal, além de conter todos os grupos alimentares1.

Dessa forma, a alimentação adequada e saudável deve proporcionar aos indivíduos de qualquer faixa etária, práticas alimentares apropriadas à sua cultura, renda e necessidades biológicas, bem como ser sustentável ao meio ambiente2.

A dieta brasileira sofre diversas influências caracterizadas pela combinação de uma alimentação “tradicional” (arroz com feijão) com alimentos ultraprocessados (ricos em calorias, gordura, sódio e açúcar, e baixo teor de micronutrientes). Entretanto, acredita-se que com o avançar da idade o consumo destes alimentos ultraprocessados tende a diminuir, enquanto se aumenta a ingestão de frutas, verduras e legumes. E que, além disso, os moradores da zona rural possuem uma melhor qualidade da dieta quando comparada à alimentação dos residentes na área urbana2.

Uma vez que a relação da alimentação com a saúde e o bem-estar é abrangente, o Ministério da Saúde brasileiro elaborou os “10 Passos para uma alimentação saudável para pessoas idosas”3. Essa ação consta da política que objetiva assegurar atenção integral à saúde da população geriátrica, com a finalidade de promover o envelhecimento ativo e saudável, manter e reabilitar a capacidade funcional, apoiar o desenvolvimento dos cuidados informais, garantindo, inclusive, a segurança alimentar e nutricional dos brasileiros4.

Neste cenário, ressalta-se a rápida transição demográfica, que trouxe um contínuo aumento na expectativa de vida e na proporção de idosos na população brasileira, acompanhada da transição nutricional, com diminuição da fome e da desnutrição e aumento vertiginoso do excesso de peso, inclusive em idosos. Se ações de controle e prevenção do ganho de peso não forem implementadas, estima-se que em 20 anos aproximadamente 70% dos brasileiros de todas as faixas etárias e de renda estarão com excesso de peso, incrementando os fatores de risco associados2,5.

Portanto, quando se associa indicadores sociodemográficos, econômicos e antropométricos com a alimentação, presume-se que a longevidade aumentada pode determinar importantes repercussões nos campos social e econômico da sociedade, logo, os profissionais de saúde devem oferecer atendimento nutricional integrado e humanizado, levando em consideração as necessidades específicas de cada idoso, respeitando a diversidade e a cultura alimentar.

Esse atendimento deve estar fundamentado na promoção da alimentação saudável, busca da autoestima, do autoconhecimento, do prazer e do incentivo à prática de atividade física. Para tanto, a participação do nutricionista no campo da Atenção à Saúde se torna importante, pela possibilidade que este tem em conciliar conhecimentos gerais em saúde com os mais específicos, entre eles a prescrição dietoterápica, técnica dietética, e práticas educativas em nutrição1.

Diante do exposto, indaga-se nesta investigação: a dieta dos idosos da zona rural é adequada? quais fatores a afetam?

Dessa forma o presente estudo irá avaliar os fatores associados às complicações metabólicas e à alimentação em idosos da zona rural de Uberaba, Minas Gerais, norteados pelo Guia 10 passos para uma alimentação saudável para pessoas idosas do Ministério da Saúde.

Materiais e Métodos

Esta pesquisa faz parte de um estudo maior, tipo inquérito domiciliar, analítico, transversal e observacional, desenvolvido na zona rural do município de Uberaba-MG, no período de junho de 2010 a março de 2011, o qual possui 100% de cobertura pela Estratégia Saúde da Família (ESF). Para compor a população desta zona rural, obteve-se em junho de 2010, o número de idosos cadastrados nas ESF, totalizando 1.297 pessoas.

Os critérios de inclusão no presente estudo foram: ter 60 anos ou mais de idade, morar na zona rural do município, ambos os sexos e não apresentar declínio cognitivo. Dos 1.297 idosos, 833 atenderam aos critérios estabelecidos e 464 foram excluídos, dos quais: 117 mudaram de endereço, 105 apresentaram declínio cognitivo, 75 recusaram participar, 57 não foram encontrados após três tentativas, 11 haviam ido a óbito, três encontravam-se hospitalizados, nove acamados sem a possibilidade de aferir o peso e, por conseguinte, o IMC, oito não permitiram aferir a circunferência abdominal e 79 devido a outros motivos.

Os dados foram coletados na residência do idoso, por 14 entrevistadores previamente treinados. Para a localização da residência, contou-se com a colaboração dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS). Ressalta-se que a Secretaria Municipal de Saúde autorizou a coleta em parceria com a ESF. As entrevistas foram revisadas por supervisores de campo e na presença de questões incompletas ou inconsistentes foram devolvidas ao entrevistador, que entrou em contato com o idoso para o preenchimento adequado.

A avaliação cognitiva do idoso foi realizada antes da entrevista para verificar suas condições de responder ao questionário. Aplicou-se a versão do Mini Exame de Estado Mental (MEEM), traduzido e validado no Brasil. O escore do MEEM varia de 0 a 30 pontos, tendo como pontos de corte, ≤ 13 para idosos sem escolaridade, ≤ 18 pontos para 01 a 11 anos de estudo e ≤ 26 para aqueles com escolaridade superior a 11 anos6.

Para a caracterização dos dados sociodemográficos e econômicos foi utilizado parte do instrumento estruturado baseado no Questionário Brasileiro de Avaliação Funcional Multidimensional (BOMFAQ)7. As variáveis avaliadas foram: sexo (masculino e feminino); faixa etária em anos (60├ 70, 70├ 80 e 80 anos ou mais); escolaridade em anos de estudo (sem, 1├ 4, 4├ 8, oito, nove e mais anos); e renda individual em salários mínimos (sem renda, < 1,1, 1├ 3, 3├ 5, > 5).

A circunferência abdominal (CA) foi mensurada utilizando fita métrica flexível e inelástica, com extensão de 2m, dividida em centímetros e subdivida em milímetros; durante a expiração normal, com o idoso de pé, em posição ereta, vestindo o mínimo possível de roupa. A medida foi aferida numa linha média imaginária, no ponto médio do rebordo costal e a crista ilíaca, no nível da cicatriz umbilical, sem pressionar os tecidos moles. Os valores seguiram os critérios de risco de complicações metabólicas: homens – sem risco (< 94 cm), risco moderado (94 a 102 cm), alto risco ( > 102 cm); mulheres - sem risco (< 80 cm), risco moderado (80 a 88 cm), alto risco ( > 88 cm)8.

O peso (Kg) foi mensurado com os idosos descalços e vestindo roupas leves, em balança eletrônica digital portátil, tipo plataforma, marca Bioland® com capacidade para 150 kg e precisão de 100g. A estatura (m) foi aferida por meio da mesma fita métrica descrita na aferição da CA, fixada na parede em um local plano e regular, sem rodapé, com o idoso descalço, colocado em posição ortostática com os pés unidos, de costas para o marcador, com o olhar no horizonte. O IMC foi calculado em kg/m2. A classificação do peso por meio do IMC utilizou como pontos de corte: baixo peso (IMC ≤ 22 kg/m2), eutrofia (IMC entre 22 e 27 kg/m2) e sobrepeso (IMC > 27 kg/m2)9 .

A alimentação foi avaliada por meio do questionário adaptado de frequência de consumo alimentar (QFCA), construído pela equipe técnica da Coordenação Geral da Política de Alimentação e Nutrição (CGPAN) da Secretaria de Atenção à Saúde do MS10.

Os idosos relataram as quantidades de alimentos ingeridas na sua forma usual de consumo (unidades, pedaços, colheres e copo). A Pirâmide Alimentar Brasileira Adaptada foi utilizada para converter as medidas caseiras em porções11. Em seguida, avaliou-se o hábito alimentar dos idosos utilizando-se como princípio norteador o Guia Alimentar “10 passos para alimentação saudável para pessoas idosas” propostos pelo MS brasileiro. Os nove primeiros passos estão relacionados especificamente ao consumo alimentar, e o décimo, ao comportamento em direção a uma vida mais saudável3. O Quadro 1 contém a descrição dos passos e das categorias utilizadas para verificar a adequação a cada passo.

Quadro 1 Descrição dos “10 passos para alimentação saudável para pessoas idosas” propostos pelo Ministério da Saúde e categorias utilizadas para verificação da adequação. 

Os dados sobre os nove primeiros passos relativos à alimentação, o consumo de bebida alcoólica e a prática de atividade física, categorias estas que fazem parte do 10º passo, foram coletados por meio do QFCA adaptado pela CGPAN. A categoria sobre o ato de fumar, que também faz parte do passo 10, foi aferida através da pergunta: “o Sr (a) é fumante?”

Fundamentado nesses valores categorizou-se a ingestão dietética em adequada ou não.

Os dados foram digitados em dupla entrada em uma planilha eletrônica no programa Excel®. Ao término da digitação procedeu-se a consistência entre as duas bases de dados e posteriormente o transporte para o software SPSS, versão 17.0. Realizou-se análise estatística por meio de distribuição de frequências absolutas e percentuais, taxa de prevalência e análise bivariada por meio do teste qui-quadrado. O nível de significância (α) foi de 0,05, e os testes foram considerados significativos quanto p < α.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Antes da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, ou da anuência por meio da coleta da impressão digital dos analfabetos, apresentaram-se aos idosos os objetivos da pesquisa e ofereceram-se as informações pertinentes, conforme resolução nº466/12 do Conselho Nacional de Saúde.

Resultados

Cabe destacar que o índice de perdas e recusas representou 35,8%, contudo, considera-se que este fato não afetou a representatividade da população estudada, tendo em vista que todos os idosos cadastrados na ESF da área rural, que possui 100% de cobertura, foram abordados e grande número entrevistados (n = 833).

A maioria dos idosos era do sexo masculino (52,8%), com idade entre 60├ 70 anos (60,7%), tinham 4 ├ 8 anos de estudo (36,9%), renda de um salário mínimo (48,1%) e IMC dentro da faixa de normalidade (39,1%).

Quando se analisou o IMC por sexo, o sobrepeso esteve mais presente nas mulheres (54,6%) e o baixo peso prevaleceu no sexo masculino (58,3%) (χ2 = 10,316; p = 0,006). Quanto à faixa etária, observou-se que a prevalência de sobrepeso diminuiu com a idade, ao passo que o baixo peso aumentou significativamente com o passar dos anos (χ2 = 19,752; p = 0,001). O maior percentual de excesso de peso foi encontrado entre 60├ 70 anos (39,7%), e de magreza nos idosos com ≥ 80 anos (40,3%).

Quando se associou sexo, IMC e faixa etária, tendo como variável dependente a circunferência abdominal, verificou-se maior proporção de mulheres idosas com alto risco para desenvolver complicações metabólicas em relação aos homens; a maior parte dos idosos com sobrepeso estava com a CA aumentada substancialmente, enquanto que a maioria dos que tinham baixo peso não possuía risco para complicações metabólicas. Não houve associação significativa entre a idade dos idosos e a CA (Tabela 1).

Tabela 1 Prevalência de risco para complicações metabólicas associadas à circunferência abdominal segundo sexo, IMC e faixa etária na população idosa da zona rural. Uberaba. 2012. 

* Homens – sem risco (< 94 cm), risco moderado (94 a 102 cm), alto risco (≥ 102 cm) para doenças cardiovasculares e Mulheres – sem risco (< 80 cm), risco moderado (80 a 88 cm), alto risco (≥ 88 cm) para doenças cardiovasculares (WHO, 2000).

Com relação à influência das variáveis sociodemográficas e econômicas (que a partir daqui foram dicotomizadas), na adequação dos passos, a Tabela 2 descreve as prevalências dos nove passos avaliados.

Tabela 2 Prevalência de adequação aos 10 Passos para uma Alimentação Saudável para pessoas idosas na população da zona rural segundo as variáveis sexo, faixa etária, escolaridade e renda. Uberaba, 2012. 

Nota: O passo 6 não foi aferido, conforme descrito na metodologia. * Qui-quadrado de Pearson.

Verificou-se que a adequação aos passos 1, número de refeições; 5, consumo adequado de leite e carnes magras; 7, consumo de refrigerantes e doces em geral no máximo duas vezes na semana; 8, diminuir o consumo de sal e retirar o saleiro da mesa; e 10, prática de 30 minutos de atividade física/dia, não fumar e não consumir bebida alcoólica, esteve associada ao sexo feminino. Enquanto os passos 2, consumo diário de cereais; 4, consumo de feijão com arroz pelo menos cinco vezes por semana e 9, beba pelo menos dois litros de água por dia ao masculino. O passo 3, consumo de frutas, verduras e legumes; não apresentou diferenças significativas entre os sexos (Tabela 2).

Ao comparar as faixas etárias, observou-se que os idosos de 60├ 80 anos apresentavam maior adequação ao passo 9, beba pelo menos dois litros de água por dia, comparado com aqueles com ≥ 80 anos. No que tange a escolaridade, nenhum dos passos apresentou associação com esta variável e com respeito à renda, o passo que apresentou associação significativa foi o 4, consumo de feijão com arroz pelo menos cinco vezes por semana, com maior adequação pelos idosos que possuem rendimentos.

Por sua vez, na Tabela 3 encontram-se as prevalências dos nove passos avaliados segundo as variáveis IMC e CA. Verificou-se que a adequação aos passos 2, consumo diário de cereais; 4, consumo de feijão com arroz pelo menos cinco vezes por semana e 8, diminuir o consumo de sal e retirar o saleiro da mesa esteve associada ao IMC dentro da faixa de normalidade. Enquanto os passos 3, consumo de frutas, verduras e legumes e 7, consumo de refrigerantes e doces em geral no máximo duas vezes na semana, ao sobrepeso.

Tabela 3 Prevalência de adequação aos “10 Passos para uma Alimentação Saudável para pessoas idosas” na população da zona rural segundo as variáveis IMC e CA. Uberaba, 2012. 

Nota: O passo 6 não foi aferido, conforme descrito na metodologia. * Qui-quadrado de Pearson. a Homens – sem risco (< 94 cm), risco moderado (94 a 102 cm), alto risco (≥ 102 cm) para doenças cardiovasculares8. b Mulheres - sem risco (< 80 cm), risco moderado (80 a 88 cm), alto risco (≥ 88 cm) para doenças cardiovasculares8.

Ao comparar as circunferências abdominais masculinas e femininas, observou-se que nos homens o passo 1, número de refeições; associou-se à classificação sem risco e que o passo 7, consumo de refrigerantes e doces em geral no máximo duas vezes na semana; ao alto risco para doenças cardiovasculares. Por sua vez, nas mulheres, a associação se deu entre a CA sem risco e o passo 4, consumo de feijão com arroz pelo menos cinco vezes por semana (Tabela 3).

Discussão

Ao se considerar o IMC dos indivíduos estudados, o sobrepeso esteve associado ao sexo feminino tal como em duas investigações entre idosos urbanos e rurais em Santa Catarina (p < 0,001)12 e (p < 0,05)13 e outra no Rio Grande do Sul14. Diante do exposto, percebe-se que o sobrepeso e a obesidade, antes considerados um fenômeno presente em maior grau no contexto urbano, já acomete hoje populações rurais, sobretudo o sexo feminino15. Este resultado pode estar relacionado às mulheres terem maior reserva de tecido adiposo, em razão de o metabolismo feminino ser mais lento que o masculino16.

Por outro lado, o baixo peso que neste estudo acometeu em maior proporção os homens idosos, tem sérias implicações na saúde. Na Malásia, a falta de educação nutricional, restrição financeira, declínio físico e psicológico para as capacidades funcionais, isolamento social e comorbidades associadas foram razões relacionadas ao baixo peso dos idosos rurais. Os preditores da inadequação dietética entre eles foram a perda de apetite; dificuldade de mastigação; consumo irregular de frutas e consumo inferior a três refeições por dia17.

Estes achados servem de alerta aos profissionais de saúde da Atenção Básica. Assim, torna-se um desafio a eles, em especial ao nutricionista, motivar os idosos a se alimentarem de maneira adequada e saudável, tanto para eliminação da gordura corporal, quanto na recuperação de peso quando este estiver baixo, identificando determinantes modificáveis nesta população.

Quando associado à faixa etária, a literatura científica nacional corrobora a presença de sobrepeso entre os idosos urbanos e rurais mais jovens (p < 0,001)12 e a literatura internacional tem evidenciado a prevalência de baixo peso em idosos mais velhos rurais18, características estas do processo de envelhecimento, em que há acúmulo de gordura nas primeiras décadas da velhice e perda nas fases mais tardias da vida17,18.

Ressalta-se assim a importância de se monitorar o perfil antropométrico do idoso, e caso alterações sejam percebidas, encaminhá-lo à Unidade Básica de Saúde para avaliação clínica e nutricional.

Referente à associação entre sexo e CA aumentada, a maior proporção de mulheres idosas com alto risco para desenvolver doença cardiovascular foi concordante ao estudo em Pelotas (p < 0,001)19 e na zona rural da Malásia (p < 0,010)17. Entretanto, diferiu da pesquisa em Lageado (RS), em que a CA muito aumentada prevaleceu entre os homens idosos (p < 0,01)14. A provável explicação se deve ao fato de que indivíduos idosos, em especial as mulheres, sofrem mudanças na distribuição corporal com maior acúmulo na região abdominal20.

Concernente ao IMC e CA, verificou-se associação significativa entre as variáveis. Associar as duas medidas pode ser uma forma combinada de se avaliar o risco e ajudar a diminuir as limitações de cada uma das avaliações isoladas. De acordo com a WHO8, indivíduos com IMC na faixa de normalidade, mas com CA substancialmente aumentada têm predisposição para o desenvolvimento de diabetes mellitus e doenças cardiovasculares.

Essa predisposição foi evidenciada na zona rural de Jequitinhonha, em que a obesidade abdominal se mostrou como potencial preditor de resistência à insulina (que precede o diabetes mellitus), mesmo com o IMC na faixa da normalidade15. No presente estudo, mais de um terço (37,7%) dos idosos com o IMC na faixa de normalidade estavam com a CA substancialmente aumentada, demonstrando risco para complicações metabólicas.

A CA aumentada é um fator de risco evitável que pode ser submetido à intervenção médica ou nutricional. Aferi-la por meio de fita métrica deve ser parte das ações rotineiras da ESF, desde que os ACS e/ou enfermeiros estejam capacitados com a técnica padronizada. Assim, a medida poderá ser monitorada se em cada visita domiciliar for registrada na planilha de campo. No que diz respeito às orientações dietéticas e nutricionais, sugere-se aumentar o consumo de vegetais folhosos verde-escuros, legumes e frutas, preferir pães integrais aos feitos com farinhas brancas, evitar refrigerantes e açúcar de adição nos alimentos, incluir aveia no hábito alimentar diário, retirar a pele e a gordura aparente das carnes, cozinhar em pouco óleo ou banha e alimentar-se a cada três horas, condutas estas que auxiliam na prevenção e redução da CA aumentada.

Acerca da influência do sexo na adequação dos passos, pesquisa em Pelotas - RS, que investigou frequência de hábitos saudáveis de alimentação em adultos e idosos, encontrou predomínio de adesão pelas mulheres21, semelhante a este trabalho, em que o sexo feminino seguia mais passos que o masculino.

De uma maneira geral, parece existir um maior cuidado das mulheres em relação ao seu próprio corpo. Uma das razões pode ser a questão cultural, em que ao longo da vida as figuras femininas como a mãe e a companheira sejam as responsáveis por mediar esse cuidado, não estimulando os homens a se preocuparem com sua própria saúde22.

Ao comparar as faixas etárias, a idade não esteve diretamente associada com a adesão aos passos, com exceção do passo 9, beba pelo menos dois litros de água por dia; em que os idosos com menos de 80 anos apresentaram maior adequação.

Tal resultado pode estar relacionado ao mecanismo da sede ser menos eficiente com o passar dos anos. Desta forma, quanto mais velho for o indivíduo, menos sede terá e consequentemente ingerirá pouca água. Ressalta-se que a água é indispensável ao perfeito funcionamento do organismo, portanto, sua ingestão deve ser estimulada e o acesso facilitado aos idosos23, em especial aos mais velhos. O nutricionista e os profissionais de saúde da ESF devem despertar a pessoa idosa para os benefícios da água para a saúde, e orientar a família e/ou cuidador que copos, canecas e filtro devem estar ao alcance deles e que a água deve ser ofertada mesmo quando não houver manifestação da sede.

No que tange à escolaridade, acredita-se que nenhum dos passos apresentou associação com esta variável, em virtude de quase todos os idosos rurais (91,4%) possuírem nenhum ou menos que oito anos de estudo. Provavelmente, a escola não era valorizada com a devida importância pelos pais desses idosos, que os criavam para o trabalho no campo ou doméstico24,25.

Considera-se também a rápida e peculiar transição nutricional que a sociedade brasileira vivenciou. Indivíduos menos escolarizados e mais pobres consomem dietas pouco saudáveis, ricas em alimentos de alta densidade energética e baixa concentração de nutrientes, e ao mesmo tempo a população de melhor nível socioeconômico e escolaridade consome alimentos ultraprocessados, com excesso de sódio, gordura e açúcar, característica também inadequada26.

Entretanto, apesar do processo de transição nutricional estar sendo profundamente estudado desde a década de 1960 nas áreas urbanas do Brasil, suscita-se dúvidas se os seus determinantes são os mesmos para as áreas rurais15.

Cabe destacar que a dicotomização das variáveis idade e escolaridade pode ter influenciado os resultados acima descritos, sendo esta uma das limitações deste estudo.

Apenas o passo 4, consumo de feijão com arroz pelo menos cinco vezes por semana, apresentou associação com a renda, com maior adequação pelos idosos que possuem rendimentos. É provável que o fator econômico tenha despontado em apenas um passo, porque mesmo tendo rendimentos, quase metade dos idosos recebia apenas um salário mínimo, nivelando-os praticamente ao mesmo nível financeiro.

Quando se relacionou o IMC e a CA aos passos, observou-se que o consumo de feijão com arroz pelo menos cinco vezes por semana (passo 4) auxiliou na manutenção do peso adequado e da CA dentro da normalidade. O feijão é uma leguminosa rica em carboidratos complexos, vitaminas, minerais, compostos bioativos e fibras apresentando assim menor índice glicêmico1, o que contribui para o eutrofismo e para a CA adequada1,27. Acredita-se que, no meio rural, a população mantenha arraigado o tradicional hábito alimentar brasileiro, privilegiando a típica combinação de arroz com feijão.

A associação na presente pesquisa entre o sobrepeso e o consumo adequado de legumes, verduras e frutas (passo 3) e a baixa ingestão de doces (passo 7) pode estar relacionada à causalidade reversa, ou seja, em decorrência do sobrepeso, o idoso poderia apresentar melhora dos hábitos alimentares.

E, por fim, os homens que relataram seguir o passo 1 (consumo de pelo menos cinco refeições ao dia) apresentaram CA sem risco para complicações metabólicas, diferente de estudo que não apresentou associação entre o estado nutricional e o número de refeições14. Ressalta-se que independente da composição da dieta e dos fatores genéticos e ambientais, fracionar as refeições favorece o perfil lipídico e reduz o IMC, a CA e os triglicerídeos, melhorando a resistência à insulina e a síndrome metabólica28.

Diante do exposto, conclui-se que a qualidade da dieta dos idosos rurais não aparenta ser melhor que a dos urbanos, como declarado pelo MS2. Um dos exemplos se relaciona ao consumo de frutas, verduras e legumes (passo 3), já que nesta investigação apenas 14,5% dos idosos da área rural tiveram essa adequação, enquanto os dados da Pesquisa Nacional de Saúde apontaram 40,1%5.

Durante a coleta de dados, percebeu-se que muitas propriedades rurais cultivavam diferentes qualidades de frutas e verduras nos seus quintais e hortas, e isso demonstra fácil acesso dessas pessoas a estes alimentos. Entretanto, acredita-se que a ingestão diária pode não ser contínua, em decorrência do período de safra e entressafra ou do cultivo se destinar mais à comercialização do que ao próprio consumo, já que a maioria deles não são proprietários da terra, restringindo os direitos e as condições para o cultivo.

Percebe-se que os achados do presente trabalho demonstram a necessidade do manejo nutricional dos idosos que vivem na zona rural do Brasil, já que são poucos os estudos realizados nesse meio. Com esses dados, destaca-se a importância do nutricionista na atenção primária, apoiando os profissionais de saúde na organização da atenção nutricional e como responsável pelas adaptações necessárias recomendadas às condições de saúde específica de cada idoso. Realizar uma avaliação nutricional oportuna e contínua dos idosos, identificar o conhecimento nutricional entre eles e de seus familiares/cuidadores, auxiliará os serviços de saúde a desenvolver estratégias que melhorem os padrões de alimentação e nutrição, minimizando e/ou adiando o aparecimento de possíveis complicações. Sensibilizar estes idosos para atitudes de vida mais benéficas, por meio da educação nutricional continuada, com o propósito de manutenção do peso saudável, de uma vida ativa e hábitos alimentares adequados, deve ser uma das preocupações do serviço público de saúde.

E, por fim, apesar do Questionário de Frequência de Consumo Alimentar ser considerado um dos principais instrumentos utilizados para coleta de dados dietéticos em estudos epidemiológicos, já que captura a probabilidade de consumo da maioria dos alimentos, pontua-se aqui uma limitação: a dependência da memória dos entrevistados, em especial por serem idosos. Outro fator limitante é o delineamento transversal desta pesquisa que não permite estabelecer relações de causalidade.

REFERÊNCIAS

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