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Fatores biológicos e socioculturais na avaliação do vocabulário receptivo em português oral de deficientes auditivos pós-linguais

Fatores biológicos e socioculturais na avaliação do vocabulário receptivo em português oral de deficientes auditivos pós-linguais

Autores:

Thiliê Palácios,
Letícia Neves de Oliveira,
Júlia Santos Costa Chiossi,
Alexandra Dezzani Soares,
Brasília Maria Chiari

ARTIGO ORIGINAL

Audiology - Communication Research

versão On-line ISSN 2317-6431

Audiol., Commun. Res. vol.19 no.4 São Paulo out./dez. 2014 Epub 09-Dez-2014

http://dx.doi.org/10.1590/S2317-64312014000400001414

INTRODUÇÃO

A comunicação oral predomina nas relações interpessoais, mediada pela língua, um elemento de troca para que significados e sentidos sejam veiculados às mensagens, permitindo que as pessoas compreendam e sejam compreendidas(1).

O patrimônio linguístico representa, nas negociações, durante a interação, o “capital geral” e o léxico disponível, enquanto o vocabulário representa o “capital de giro” que o indivíduo utiliza para a comunicação, atualizando conforme as demandas conversacionais.

A língua como organismo vivo é dinâmica, aberta a novas associações, conexões, adaptações, que permitem a solução de problemas e subsidiada pela aprendizagem, cognição e processos de linguagem. Sua expansão ocorre durante toda a vida, desenvolvendo-se a partir das vivências de cada indivíduo. Podemos hipotetizar que qualquer déficit sensorial pode afetar as experiências, que são matéria prima para construção do conhecimento.

Aprender a língua não se limita ao domínio das palavras e seus significados, mas também saber utilizá-las para comunicar eventos e ideias, durante a conversação. Compreender as palavras – vocabulário receptivo – surge antes de saber reproduzi-las – vocabulário expressivo(2).

Nesse contexto, envolvendo a oralidade, a audição exerce função importante. Com a monitoração da audição, as relações de equilíbrio entre forma, conteúdo e uso dos vocábulos se estabilizam, propiciando o funcionamento adequado das operações gnósicas, nas conversões entre a linguagem externa e interna(3). A linguagem, sob esta ótica, é o processo simbólico que permite a expressão do pensar, durante a comunicação, mediada pelo código linguístico, por meio da fala(4).

O impacto dos déficits de audição na linguagem oral será variável, de acordo com características biológicas e as compensações desenvolvidas por cada indivíduo.

A idade em que a perda auditiva ocorre é determinante na aquisição e desenvolvimento da linguagem oral, tendo pior impacto quando adquirido nos primeiros anos de vida. Em indivíduos com perda auditiva pós-lingual, a idade poderá influenciar a expansão vocabular, as condições de inserção escolar e o desenvolvimento do pensamento abstrato(5).

Como forma de reduzir as dificuldades acarretadas pela perda auditiva está o uso de dispositivos eletrônicos, como o aparelho de amplificação sonora individual (AASI) e o implante coclear (IC), que possibilitam a recepção de estímulos sonoros ou o aproveitamento da audição residual do indivíduo. A indicação desses recursos é feita de acordo com o tipo e grau da perda auditiva, além da idade cronológica em que são adaptados(6).

Outras formas de compensação dos déficits de audição incluem o desenvolvimento da habilidade de leitura da fala e a riqueza dos hábitos socioculturais (leitura, artes, estudo, entre outros).

A leitura da fala permite que a compreensão se estabeleça quando existe privação sensorial. Como qualquer situação de comunicação, ela não prescinde de outras pistas contextuais e corporais, mas seu foco é na palavra e nas relações entre elas. O domínio do vocabulário, aqui, pode ser a linha divisória para que a comunicação se estabeleça(7).

A escolaridade e os hábitos culturais, como a leitura, agem, por sua vez, como fatores protetores que garantem um maior número de experiências e contextos linguísticos, permitindo a manutenção da organização lexical e fonológica, antes e após a perda de audição.

Diante desses fatos, na clínica com pessoas que perderam a possibilidade de ouvir e/ou escutar por algum incidente traumático, tendo afetado seu acesso ao exercício da língua oral, surgiu a proposta desta pesquisa, com o objetivo de avaliar o vocabulário receptivo do português oral em deficientes auditivos pós-linguais, analisando a influência de fatores biológicos e socioculturais.

MÉTODOS

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), sob protocolo nº 1355/11. Todos os sujeitos maiores de idade assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Para os sujeitos menores de idade, o termo foi assinado pelos responsáveis, juntamente com um Termo de Assentimento, assinado pelos próprios indivíduos.

Esta pesquisa tem caráter transversal.

O grupo de estudo foi composto por 78 indivíduos deficientes auditivos, com idade entre 12 e 90 anos (média=51,3; DP=21,6; mediana=53), participantes de um centro de diagnóstico e acompanhamento de perdas auditivas de uma instituição pública paulistana. Os atendimentos no serviço são agendados e, a partir dos indivíduos presentes ao atendimento, foi realizada uma pré-seleção, o que favoreceu a coleta da amostra, sendo que todos os indivíduos pré-selecionados participaram desta pesquisa.

Foram incluídos indivíduos que preenchiam os seguintes critérios: deficiência auditiva neurossensorial bilateral, de grau leve a profundo e simétrica, considerando a média das frequências 500, 1000, 2000 e 4000, segundo critério da Organização Mundial da Saúde(8); ser maior de 12 anos à época da coleta de dados; ter adquirido a perda auditiva após os 3 anos de idade (pós-lingual); comunicar-se, predominantemente, pelo código linguístico oral, tendo como primeira língua o português brasileiro; ter, pelo menos, dois anos de estudo em escola regular; aceitar, voluntariamente, participar da pesquisa.

Os critérios de exclusão foram: possuir outros comprometimentos evidentes que prejudicassem o desenvolvimento da linguagem e/ou fala, tais como distúrbios neurológicos e/ou psiquiátricos; apresentar alterações visuais graves, tais como glaucoma e/ou subvisão e o não uso de lentes corretivas durante a avaliação, em caso de alterações visuais leves, como: miopia, astigmatismo, hipermetropia e presbiopia.

Para levantar o perfil da amostra, foi aplicada a Ficha de caracterização da amostra(2), visando à obtenção de informações sobre a população estudada, tais como idade, gênero, escolaridade, hábito de leitura, tipo e grau da deficiência auditiva, idade de surgimento desta, tempo de instalação da perda auditiva e uso de dispositivos auditivos eletrônicos (aparelho de amplificação sonora individual – AASI ou Implante Coclear – IC).

A anamnese foi preenchida por meio de entrevista com cada indivíduo e por consulta ao seu prontuário. Quando o participante não foi capaz de compreender a pergunta somente por meio oral, foram utilizadas estratégias facilitadoras da comunicação, como repetição e/ou apoio gráfico.

Na amostra estudada, houve prevalência de participantes do gênero masculino (51,3%). Quanto à idade, 10,3% eram jovens, 44,9% adultos e 44,9% idosos. Em relação à escolaridade, 46,8% dos sujeitos cursaram apenas o ensino fundamental, 24,7% tinham ensino médio e 28,6% cursaram o ensino superior/técnico (<11 anos de estudo). Do total, 75,3% possuíam hábito de leitura.

Em relação às características da perda auditiva, perda leve-moderada compôs 43,6% da amostra; perda severa, 16,7% e perda profunda, 39,7%. Quase metade dos sujeitos (48,7%) havia perdido a audição há menos de dez anos, sendo a média da idade em que perderam a audição de 33,5 ± 24,4 anos, e 62,8% utilizam dispositivos auditivos eletrônicos (AASI ou IC).

Para a avaliação do vocabulário receptivo, foi utilizado o Teste de Vocabulário por figura, USP-Tvfusp92o(9).

O teste foi desenvolvido para a aplicação clínica e educacional em alunos da educação infantil e ensino fundamental (7 a 10 anos), de escolas públicas e privadas. Consiste em um caderno de provas com 92 pranchas, com quatro desenhos cada. O indivíduo deveria selecionar, dentre as figuras, aquela que correspondia à palavra falada pela avaliadora. Para garantir que o participante foi capaz de identificar corretamente a palavra dita, ele deveria repetir esta palavra antes de apontar a figura. As respostas de cada individuo foram anotadas em folha de registro do teste, para posterior análise.

Para proporcionar melhor compreensão da palavra falada, o avaliador sempre se posicionou a frente do participante, permitindo que utilizasse a pista visual e/ou auditiva. Quando o participante não foi capaz de compreender a palavra, foram utilizadas estratégias de comunicação, como repetição e/ou apoio gráfico.

Considerou-se como resposta válida repetir corretamente a palavra dita pela avaliadora e apontar a figura correspondente ao estímulo dado, com e sem o auxilio de estratégias de comunicação. Caso o participante repetisse corretamente, mas apontasse outra figura, sua resposta foi considerada errada.

De forma semelhante ao proposto pelo instrumento, o número de respostas corretas, erros e omissões foram computados, mas, para facilitar a análise desta pesquisa, considerou-se lise apenas a porcentagem de acertos.

Para fins de comparação, dada a faixa etária dos participantes deste estudo, considerou-se que todos os sujeitos deveriam obter pontuação igual ou superior ao esperado para alunos do 4º ano do ensino fundamental, segundo o definido no manual do instrumento(9). Ressaltamos que, embora para a normatização do teste seus autores tenham aplicado o instrumento em alunos de escola particular, não diferenciou-se, nesta amostra, o tipo de escola referido, tendo como premissa/hipótese que o teto considerado para a avaliação, neste estudo, dá conta das aquisições rotineiras nas faixas etárias pesquisadas.

Para análise estatística, foram utilizados os testes paramétricos ANOVA e Correlação de Pearson. O grau de significância adotado foi de 0,05, com intervalos de confiança de 95%.

RESULTADOS

O desempenho médio dos deficientes auditivos no teste de vocabulário receptivo foi de 82,9 pontos (DP±26,0). Na comparação da média obtida no Tvfusp92o, segundo as características biológicas, da perda auditiva e socioculturais, foram observadas diferenças significativas em alguns parâmetros. Os participantes que utilizavam dispositivo eletrônico, que possuíam hábito de leitura e com maior escolaridade apresentaram maiores médias de acertos no Tvfusp92o (Tabela 1).

Tabela 1 Comparação entre as variáveis biológicas, o hábito de leitura e o desempenho no Teste de Vocabulário por Figuras (Tvfusp92o) 

    Tvfusp92o (%)
n (%) Média Mediana DP Mínimo Máximo IC Valor de p
Idade 12 a 18 anos 08 (10,3) 81,11 82,1 7,75 65,2 89,1 5,37 0,832
19 a 59 anos 35 (44,9) 83,74 88 12,98 52,2 98,9 4,3
Maior que 60 35 (44,9) 82,64 83,7 11,56 53,3 100 3,83

Grau da perda Leve 02 (2,6) 77,72 77,7 2,31 76,1 79,3 3,2 0,249
Moderada 32 (41,0) 82,3 82,6 11,1 53,3 100 3,85
Severa 13 (16,7) 78,59 83,7 14,22 52,2 96,7 7,73
Profunda 31 (39,7) 85,85 88 11,42 57,6 98,9 4,02

Tempo de instalação da perda auditiva Há 1-10 anos 38 (48,7) 80,17 80,4 11,45 52,2 100 3,64 0,189
Há 1- 20 anos 15 (19,2) 83,33 85,9 14,44 57,6 97,8 7,31
Há 21-30 anos 12 (15,4) 87,93 90,2 8,31 71,7 97,8 4,7
Há 31-40 anos 5 (6,4) 86,52 92,4 11,79 66,3 94,5 10,34
Há 41-50 anos 6 (7,7) 82,41 85,3 11,14 67,4 95,6 8,91
Há 51-60 anos 2 (2,6) 96,72 96,7 0,03 96,7 96,7 0,04

Utiliza AASI/IC Sim 49 (62,8) 86,21 88 10,25 57,6 100 2,87 0,001*
Não 29 (37,2) 77,51 77,2 12,42 52,2 98,9 4,52

Possui hábito de leitura Sim 58 (75,3) 84,51 85,9 10,68 57,6 100 2,75 0,023*
Não 19 (24,7) 77,51 78,3 13,58 52,2 96,7 6,1

Escolaridade Até 4 anos 15 (19,5) 74,78 76,1 12,3 52,2 93,5 6,22 <0,001*
5 a 8 anos 21 (27,3) 76,66 78,3 9,55 57,6 91,3 4,09
9 a 11 anos 19 (24,7) 86,32 89,1 9,50 65,2 97,8 4,27
12 a 16 anos 18 (23,4) 92,43 94,5 5,98 76,1 98,9 2,76
17 anos ou mais 4 (5,2) 93,18 92,9 6,69 86,9 100 6,56

*Valores significativos (p≤0,05) – Teste ANOVA

Legenda: Tvfusp92o = Teste de Vocabulário por Figuras USP; DP = desvio padrão; IC = intervalo de confiança; AASI/IC Aparelho de Amplificação Sonora Individual/Implante Coclear

Não foi observada correlação entre a idade de instalação da perda auditiva e desempenho no vocabulário receptivo, medido por meio do Tvfusp92o (Tabela 2).

Tabela 2 Correlação da idade de instalação da perda auditiva com o desempenho no Teste de Vocabulário por Figuras (Tvfusp92o) 

Idade da perda versus Tvfusp92o
Corr (r) -17,9%
Valor de p 0,116

Legenda: Tvfusp92o = Teste de vocabulário receptivo por figuras USP

Quando foi avaliado o grau de correlação do desempenho no Tvfusp92o com a escolaridade, para cada faixa de idade de instalação da perda auditiva, foram observadas correlações positivas quando a instalação da perda ocorreu até os 10 anos de idade, entre 31 e 40 anos e em idade superior a 51 anos. Assim, quanto maior a escolaridade, melhor o desempenho no teste utilizado nesta pesquisa (Tabela 3).

Tabela 3 Correlação entre a escolaridade e o desempenho no Teste de Vocabulário por Figuras (Tvfusp92o) por faixa de instalação da perda auditiva 

  Corr (r) Valor de p
Até 10 55,2% 0,008*
De 11 a 20 21,6% 0,608
De 21 a 30 57,1% 0,140
De 31 a 40 94,6% <0,001*
De 41 a 50 66,4% 0,072
Mais de 51 47,5% 0,022*

*Valores significativos (p≤0,05) – Teste Correlação de Pearson

Legenda: Corr = Correlação

Na comparação entre o desempenho dos participantes usuários e não usuários de dispositivo auditivo eletrônico no teste Tvfusp92o, por faixa de instalação da perda auditiva, os usuários apresentaram melhor desempenho no vocabulário receptivo em todas as faixas de instalação analisadas, porém, apenas na faixa etária em que a instalação da perda auditiva ocorreu após os 51 anos a diferença entre os usuários e não usuários foi significativa (Tabela 4).

Tabela 4 Comparação entre o uso de dispositivos eletrônicos e o desempenho no Teste de Vocabulário por Figuras (Tvfusp92o) por faixa de instalação da perda auditiva 

Utiliza dispositivo auxiliar Média Mediana DP n IC Valor de p
Até 10 Não 76,45 70,65 12,96 3 14,67 0,091
Sim 87,23 88,00 9,34 19 4,20

De 11 a 20 Não 84,03 80,40 10,25 3 11,60 0,485
Sim 88,69 89,13 7,58 5 6,64

De 21 a 30 Não 83,70 83,70 - x - 1 - x - 0,846
Sim 80,26 83,70 15,91 7 11,79

De 31 a 40 Não 75,65 70,65 19,55 5 17,14 0,582
Sim 83,33 91,30 14,76 3 16,70

De 41 a 50 Não 81,90 77,17 14,17 3 16,03 0,348
Sim 89,56 91,30 7,67 5 6,73

Mais de 51 Não 75,62 77,17 10,92 14 5,72 0,017*
Sim 86,41 85,33 8,67 10 5,37

*Valores significativos (p≤0,05) – Teste ANOVA

Legenda: DP = desvio padrão; IC = intervalo de confiança

Tabela 5 Número e porcentagem de sujeitos segundo a classificação do desempenho no teste de vocabulário receptivo por figuras (Tvfusp92o) 

  Nível de vocabulário receptivo - Tvfusp92o
Muito rebaixado Rebaixado Médio Elevado Muito elevado
Dados normativos TVfusp (92o) para 4ªsérie 79 a 82 83 a 86 87 a 93 94 a 98 ≥99

Sujeitos segundo o desempenho (n=78) 32 (41,0%) 10 (12,8%) 17 (21,8%) 17 (21,8%) 2 (2,6%)

 
Escolaridade Muito rebaixado Rebaixado Médio Elevado Muito elevado

2 anos Dados normativos (% acertos) 64 a 68 69 a 74 75 a 86 87 a 92 ≥93
(n=3) Sujeitos segundo desempenho 1 (33,4%) 0 (0,0%) 2 (66,6%) 0 (0,0%) 0 (0,0%)

3 anos Dados normativos (% acertos) 65 a 71 72 a 78 79 a 92 93 a 98 ≥99

(n=7) Sujeitos segundo desempenho 3 (42,8%) 2 (28,6%) 2 (28,6%) 0 0

≥4 anos Dados normativos (% acertos) 79 a 82 83 a 86 87 a 93 94 a 98 ≥99

(n=68) Sujeitos segundo desempenho 25 (36,8%) 9 (13,2%) 15 (22,1%) 17 (25,0%) 2 (2,9%)

Total* (n=78)   29 (37,2%) 11 (14,1%) 19 (24,3%) 17 (21,8%) 2 (2,6%)

*Segundo desempenho e anos de estudo Dados normativos em % de acertos

Legenda: Tvfusp92o = Teste de vocabulário receptivo por figuras USP

Na comparação entre os achados desta pesquisa com deficientes auditivos pós-linguais e os dados normativos do teste, segundo manual específico(6), foram considerados os valores estabelecidos para alunos ouvintes da 4ª série, escolaridade máxima apresentada no manual. Optamos, então, por analisar o desempenho dos participantes desta pesquisa considerando dois, três e quatro anos, ou mais de escolaridade. A maioria dos deficientes auditivos com perda auditiva pós-lingual apresentou desempenho classificado como rebaixado ou muito rebaixado (51,3%), segundo os critérios do manual. Vale ressaltar que a maior parte da amostra (87,17%) possuía, pelo menos, quatro anos de escolaridade.

DISCUSSÃO

Os principais achados deste estudo apontam para uma grande porcentagem de indivíduos deficientes auditivos pós-linguais com vocabulário classificado como reduzido ou muito reduzido. Essa diferença pode ser atribuída aos vários fatores biológicos e socioculturais aqui estudados.

A escolaridade vem sendo apontada como um fator determinante do desempenho em diferentes testes cognitivos e linguísticos, desenvolvidos tanto para a avaliação de crianças, quanto de adultos(10-12), tendo influência descrita em testes de vocabulário(9,13-15). No material utilizado, embora existam diferentes classificações por faixa de escolaridade, considera-se que no público utilizado para normatização no manual (crianças de 7 a 10 anos) há também a influência dos processos cognitivos maturacionais, de maneira que a escolaridade não pode ser apontada como fator único na determinação do desempenho nos testes.

Em uma população de jovens e adultos, que adquiriram a deficiência auditiva após a aquisição do vocabulário, a escolaridade age como um fator preponderante no enfrentamento das situações de restrição(16), refletindo na manutenção de experiências diversificadas no contínuo desenvolvimento do vocabulário. A escolaridade é também um fator protetor, que proporciona maior reserva cognitiva e de memória durante a vida adulta(15,17).

À escolaridade, une-se a alta porcentagem de sujeitos com hábito de leitura, superior à média nacional, que é de 47,1% da população com hábito de ler livros e 46,1% que afirmam ler jornais(18). A leitura reforça o dinamismo da língua, a possibilidade de lidar com contextos, favorecendo associações e adaptações com maior destreza(15). Vem, geralmente, relacionada a maiores níveis socioculturais e de escolaridade(18), influenciando, portanto, o enfrentamento dos incidentes traumáticos, como é a perda de audição.

Ao analisarmos os fatores biológicos, a idade poderia ser apontada como um fator que influencia a aquisição de vocabulário. No entanto, sabendo que grande parte do vocabulário se desenvolve até os 12 anos (quando atinge cerca de 20 mil palavras)(19,20), a faixa etária pesquisada não demonstrou correlação entre o desempenho em vocabulário receptivo e a idade. Embora se considere que o vocabulário se desenvolve continuamente, ao longo de toda a vida, graças ao dinamismo da língua(2), sua abrangência depende mais de fatores extrínsecos, como as experiências e oportunidades (variáveis, como profissão/ocupação, hábitos culturais, interação social, ambiente familiar, entre outras), do que da idade em si.

Quanto aos fatores biológicos relacionados à perda auditiva, estudos apontam que todo o tipo de deficiência auditiva, independentemente de seu grau ou configuração, tem impacto na comunicação, embora este seja variável(21-23). O impacto não ocorre apenas em nível linguístico, mas se reflete em uma reorganização cerebral, com transferência de áreas corticais auditivas para o processamento visual, mesmo em sujeitos com deficiência auditiva leve-moderada adquirida na fase adulta(24,25). Portanto, a ausência de correlação entre o grau da perda auditiva e o vocabulário receptivo, neste estudo, pode ser atribuída ao fato de que todos os sujeitos analisados eram, de alguma forma, restritos pela deficiência. Pondera-se também que, sobre esse fator biológico atuam as variáveis socioculturais e o uso de recursos que possibilitem a atenuação das restrições impostas pela deficiência, o que pode ter se refletido em maior nível de adaptação dos sujeitos com perdas auditivas mais severas. Neste estudo, a variável “grau da perda auditiva” representou um dos limites da pesquisa, porque houve apenas dois representantes com perda auditiva leve, de maneira que, para uma análise estatística mais aprofundada, seria necessário o desenvolvimento de um estudo mais abrangente, com incremento da amostra.

Considerando o efeito da perda auditiva sobre a organização cerebral, descrito anteriormente(24,25), e os fatores relacionados à restrição de participação e à redução de experiências linguísticas, seria suposto que sujeitos com perda auditiva há mais tempo tivessem maior redução do vocabulário receptivo. Não foi encontrada, no entanto, correlação entre o tempo de perda auditiva e o vocabulário receptivo. É importante considerar que este tempo independe, aqui, do uso de dispositivos auditivos eletrônicos e, portanto, não pode ser definido como um período de privação sensorial, pois a maior parte dos indivíduos possuía recursos que possibilitavam a percepção do som, ainda que com as restrições inerentes ao equipamento.

A relação entre o uso de um recurso tecnológico (AASI ou IC) e o vocabulário receptivo, demonstrada nesta pesquisa, reforça o papel imprescindível da recuperação da audição na manutenção das experiências auditivas, sendo fator determinante para a menor restrição de participação(26,27). No entanto, apenas o recurso tecnológico não é suficiente para garantir um bom desempenho no domínio de vocabulário. Outros fatores, como as possibilidades de interação, os contextos de uso da audição e os hábitos socioculturais, juntamente com o recurso tecnológico, poderão propiciar melhor prognóstico, porque, embora o equipamento dê ao indivíduo a possibilidade de ouvir, serão os processos cognitivos e interacionais que lhe permitirão escutar e extrair informações daquilo que ouve.

Foi limitação deste estudo o fato de não ter se constituído um grupo composto por indivíduos normo-ouvintes, realizando-se a comparação com um teste ainda não normatizado para a população jovem e adulta. Optou-se, aqui, por buscar definir os fatores socioculturais e biológicos que influenciam o desempenho de deficientes auditivos em provas de vocabulário receptivo, para além de apenas descrever a sua performance, uma vez que esse dado pode levar a reflexões quanto ao prognóstico e ao processo de reabilitação nesses indivíduos.

A linguagem do adulto deficiente auditivo com aquisição da perda auditiva pós-lingual ainda é um tema pouco debatido na literatura, que discorre, principalmente, sobre sua qualidade de vida, sem enfocar os aspectos de linguagem. Este estudo pretendeu contribuir para a reflexão acerca deste tema, no intuito de incentivar maiores pesquisas sobre a recepção e expressão linguística em seus diferentes aspectos, na população deficiente auditiva pós-lingual.

CONCLUSÃO

Os fatores socioculturais, escolaridade e hábito de leitura e o uso de dispositivos eletrônicos influenciam positivamente o vocabulário receptivo oral. Já os fatores biológicos idade, grau da deficiência e tempo de aquisição da deficiência auditiva não tiveram influencia sobre o mesmo. A maior parte dos participantes da amostra teve desempenho rebaixado ou muito rebaixado, quando comparados a ouvintes de 7 a 10 anos.

REFERÊNCIAS

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