Fatores que interferem na qualidade dos relacionamentos interpessoais de alunos de enfermagem

Fatores que interferem na qualidade dos relacionamentos interpessoais de alunos de enfermagem

Autores:

Thais Josgrilberg Pereira,
Jéssica Pereira Trentino,
Francine da Costa Alves,
Ana Cláudia Puggina

ARTIGO ORIGINAL

Escola Anna Nery

versão impressa ISSN 1414-8145versão On-line ISSN 2177-9465

Esc. Anna Nery vol.23 no.1 Rio de Janeiro 2019 Epub 21-Jan-2019

http://dx.doi.org/10.1590/2177-9465-ean-2018-0159

INTRODUÇÃO

A comunicação interpessoal é um processo pelo qual duas pessoas emitem significado, enviando e recebendo simultaneamente mensagens simbólicas. Os elementos da comunicação interpessoal são semelhantes aos outros tipos de comunicação: as pessoas trocam significado por meio de mensagens verbais e não verbais. Emissor e receptor não agem livremente no processo de comunicação interpessoal, são influenciados, positivamente ou negativamente, pelas posições que ocupam no contexto sociocultural, além da influência das características pessoais.1

O processo de relacionamento interpessoal é complexo, continuo e permanente, e se desenvolve por meio de comportamentos, pensamentos, sentimentos, reações mentais e físicas, sendo a forma mais frequente de interação humana.2

As relações interpessoais são significativas na vida dos seres humanos e são por meio destas que se formam o conjunto de sistemas que organizam a sociedade. O prejuízo nas relações interpessoais pode dar origem ao prejuízo nas relações sociais. Além disso, a forma como ocorrem essas relações definem o modo de convivência entre os indivíduos e com o meio ambiente. Sendo assim, a qualidade dessas relações pode fazer diferença entre o bem-estar e o sofrimento, por isso é tão relevante.3

Sentir-se bem em um contexto pode interferir diretamente na maneira como o indivíduo reage naquele ambiente. O bom relacionamento interpessoal em sala de aula pode ser considerado um desafio, pois existem pessoas com características e motivações diferentes em um mesmo ambiente para cumprir as obrigações acadêmicas.4A amizade no contexto da graduação é um relacionamento importante para a vida adulta, por vezes, como complemento à ausência de fortes laços familiares.5 É também um relacionamento significativo e que envolve aspectos como ajuda, confiança, autorrevelação, proximidade, autovalidação, respeito, lealdade, disponibilidade e companheirismo.4

O companheirismo é um dos aspectos mais marcantes na amizade. Os amigos têm um papel importante no ciclo vital dos indivíduos, na maior parte do tempo, para melhorias na qualidade de vida.6 Na universidade, pessoas com características, experiências e expectativas diferentes podem se unir em torno de um objetivo comum, portanto é natural que aconteçam conflitos de diferentes origens e magnitudes. Sendo assim, ações institucionais ou programas de relacionamento interpessoal podem ter efeitos positivos para melhorar as relações interpessoais e a autoestima e diminuir a depressão nos estudantes.7

Entretanto, é importante entender que o conflito faz parte da convivência humana e aparece quando os indivíduos não compartilham as mesmas ideias e não aceitam as ideias alheias, bem como, os comportamentos, porém o modo como eles são enfrentados e resolvidos é o que resulta no crescimento e amadurecimento das pessoas.2

Conflito ou aproximação entre os estudantes podem surgir a partir da exposição e da valorização das notas acadêmicas. Instituições de ensino costumam avaliar o desempenho de seus alunos por meio de notas ou conceitos pontuais. Entretanto, não é adequado minimizar a avaliação do desempenho acadêmico apenas a notas.4

Sendo assim, o objetivo deste estudo foi avaliar se sexo, idade, ano de graduação e notas acadêmicas interferem na qualidade dos relacionamentos interpessoais dos alunos de enfermagem.

MÉTODO

Estudo transversal quantitativo tendo como variável dependente a qualidade dos relacionamentos interpessoais e como variáveis independentes idade, sexo, ano vigente da graduação, proximidade com pessoas semelhantes ou diferentes e avaliação das notas acadêmicas.

O estudo foi realizado em uma instituição de ensino privada na cidade de Dourados, Mato Grosso do Sul. Os critérios de inclusão foram: (1) adulto de 18 a 60 anos e (2) alunos de enfermagem matriculados na instituição.

Foi realizado o cálculo da amostra representativa para a população de 240 alunos do curso de Enfermagem no programa estatístico STATS 2.0. Considerando a porcentagem máxima aceitável de erro de 5%, o nível de percentagem estimada de 50% e o nível de confiança de 95%, a amostra mínima para ser representativa foi de 148 alunos.

O período de coleta de dados foi de novembro de 2014 a março de 2015. Foi utilizado na coleta de dados um questionário de caracterização dos participantes e o Inventário da Qualidade dos Relacionamentos Interpessoais (IQRI) - versão amigo.8

Para caracterização dos participantes foi utilizado um questionário com as variáveis: ano que está cursando na graduação, dependência em alguma disciplina, exame em alguma disciplina, proximidade com pessoas semelhantes ou diferentes, idade, sexo. As notas acadêmicas foram avaliadas pelos participantes em relação a autoavaliação, avaliação das notas do amigo com maior proximidade e das pessoas não tão próximos em ótimas, boas, razoáveis ou ruins.

O IQRI - versão amigo tem por objetivo avaliar a percepção da qualidade das relações interpessoais de um indivíduo em relação a uma determinada pessoa, possui 24 itens distribuídos em três fatores: Suporte, Conflito e Profundidade. As respostas para os itens são mensuradas por meio de uma escala tipo likert: (1) Nunca ou Nada, (2) Poucas vezes ou pouco, (3) Bastante vezes ou bastante, (4) Sempre ou Muito. Não há codificação reversa. O escore total varia de 24 a 96 e quanto maior, melhor a qualidade dos relacionamentos com amigos.

Os dados faltantes (missing data) foram substituídos pela moda de cada afirmativa da escala, adotando-se uma técnica de input, isso porque a moda é o número que mais aparece no conjunto. A substituição pela moda feita com o critério de não mais que 20% de dados não respondidos, não compromete o escore final do instrumento. Além disso, dados faltantes podem trazer significados quando analisados em instrumentos que medem questões psicoemocionais. Participantes com mais de 10% de dados não respondidos, ou seja, mais que 2 itens do IQRI, foram excluídos do estudo.

Foram realizadas análise descritiva e inferencial das respostas. Os fatores do IQRI - versão amigo não apresentaram distribuição normal pelo teste de Kolmogorov-Smirnov, por isso foram utilizados testes não paramétricos. Para a análise da comparação dos fatores com as variáveis independentes com duas categorias foi realizado o teste Mann-Whitney e com variáveis com 3 ou mais categorias foi utilizado o teste Kruskall-Wallis. Para comparação entre variáveis numéricas foi utilizado o Coeficiente Rô de Spearman. O software utilizado para análise foi o no software IBM SPSS (Software Package used for Statistical Analysis) versão 21 e a probabilidade de erro adotada nos testes foi de p<0,05.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa sob o número de parecer 391.859 e atendeu as normas nacionais e internacionais de ética em pesquisa envolvendo seres humanos.

RESULTADOS

A amostra foi de 184 alunos de enfermagem com média de idade de 23,4 anos (±5,3) composta na maioria por mulheres (n=152; 82,6%). A distribuição dos alunos em relação ao ano letivo foi: 1° ano letivo (n=60; 32,6%), 2° (n=31; 16,8%), 3° ano (n=33; 17,9%) e 4° (n=60; 32,6%). A quantidade média de exames (prova/teste realizado para recuperação de nota não atingida pela média) foi 3,9 (±3,3), sendo que 84,8% (n=156) já realizaram exame e 65,2% (n=120) já tiveram dependência em disciplinas até o momento da coleta de dados.

Em relação aos relacionamentos, 82,6% (n=152) dos alunos referiram ter um relacionamento mais próximo com pessoas da sala de aula com notas semelhantes às suas. Fato constatado na avaliação das notas acadêmicas em que 65,8% (n=121) dos alunos avaliaram suas próprias notas acadêmicas como boas e do seu melhor amigo também como boas (n=103; 56%), entretanto com uma frequência relativa menor.

O escore médio total das respostas dos participantes em relação ao IQRI - versão amigo foi de 61,9 (±8,81), muito próximo do ponto médio do instrumento (60), demonstrando que os alunos possuem uma percepção moderada do suporte, conflito e profundidade em relação a um determinado amigo (Tabela 1).

Tabela 1 Descrição do escore total e por fatores do Inventário da Qualidade dos Relacionamentos Interpessoais – versão amigo. Dourados, 2015. 

Fator N° de itens Variação do escore Média Desvio-padrão Mediana
Suporte 7 7-28 23,2 4,3 24,0
Conflito 11 11-44 20,0 5,1 20,0
Profundidade 6 6-24 18,6 3,7 20,0
Escore total 24 24-96 61,9 8,8 63,0

A análise descritiva das respostas dos participantes em cada um dos itens do IQRI - versão amigo mostrou no fator Suporte que a maior média dos participantes foi no item que podem contar com o amigo para lhe dar uma opinião honesta, a menor média revela que eles não têm essa disponibilidade do amigo em momentos fora do contexto universitário. Em relação a profundidade, apesar dos participantes considerarem esse relacionamento importante nas suas vidas, eles não se consideram na mesma medida dependentes dessa pessoa (Tabela 2).

Tabela 2 Análise descritiva das respostas dos participantes ao Inventário da Qualidade dos Relacionamentos Interpessoais – versão amigo. Dourados, 2015. 

Questões Média DP
Suporte 4- Até que ponto pode contar com essa pessoa para lhe dar uma opinião honesta, mesmo que não queira ouvir essa opinião? 3,5 0,8
2- Até que ponto pode contar com essa pessoa para o/a ajudar quando tem um problema? 3,4 0,8
17- Até que ponto pode contar com essa pessoa para o/a ouvir quando você está bastante zangado/a com outra pessoa? 3,4 0,9
21- Até que ponto pode verdadeiramente contar com essa pessoa para o/a distrair das suas preocupações quando está sob estresse? 3,4 0,9
1- Até que ponto pode aconselhar-se com essa pessoa sobre diversos problemas? 3,3 0,8
7- No caso de um membro muito próximo da sua família falecer, até que ponto pode contar com essa pessoa para o/a ajudar? 3,3 0,9
14- Se quisesse sair esta noite e fazer algo, quão convicto/a essa de que esta pessoa estaria disposta a sair consigo? 3,0 0,9
Conflito 13- Quão crítico é essa pessoa em relação a si? 2,3 0,8
6- Até que ponto tem de “ceder” nessa relação? 2,1 0,9
24- Nesta relação, até que ponto você dá mais do que recebe? 2,1 0,9
3- Até que ponto é que essa pessoa o/a consegue pôr chateado/a? 1,9 0,8
8- Até que ponto é que essa pessoa deseja que você mude? 1,9 1,0
18- O quanto é que deseja que essa pessoa mude? 1,9 1,0
19- Até que ponto essa pessoa consegue o/a pôr zangado/a? 1,7 0,8
5- O quanto é que essa pessoa o/a consegue fazer sentir culpado/a? 1,6 0,8
20- Até que ponto discute com essa pessoa? 1,6 0,8
22- Com que frequência essa pessoa o/a faz sentir zangado/a? 1,5 0,7
23- Com que frequência essa pessoa tenta controlar ou influenciar a sua vida? 1,5 0,8
Profundidade 10- Na sua vida, até que ponto esse relacionamento é importante? 3,5 0,7
9- Quão positivo é o papel dessa pessoa na sua vida? 3,4 0,8
12- Até que ponto sentiria a falta dessa pessoa se os dois não se pudessem ver ou falar durante um mês? 3,3 0,8
11- Quão próximo será o relacionamento com essa pessoa daqui a 10 anos? 3,2 0,8
15- Até que ponto se sente responsável pelo bem-estar dessa pessoa? 3,0 0,9
16- O quanto é que depende dessa pessoa? 2,2 0,9

No fator Conflito, os participantes consideraram o amigo moderadamente crítico em relação a si e referiram nunca ou poucas vezes sentirem-se zangados ou que essas pessoas tentam controlar ou influenciar suas vidas (Tabela 2).

Foram encontrados 34 dados faltantes no IQRI - versão amigo. Neste estudo, optou-se por analisar os dados faltantes pois em estudos sobre comportamento e percepções os dados faltantes podem ser considerados resultados. Os itens 6, 14 e 16 apresentaram os maiores números de dados faltantes (n=5), indicando que os participantes preferiram não responder até que ponto eles precisam “ceder” nessa relação, quanto convictos eles estão de que o amigo estaria disponível e o quanto eles dependem dessa pessoa.

Comparando as características estudadas com as respostas dos alunos em cada um dos fatores (Suporte, Conflito e Profundidade), encontrou-se diferenças estatisticamente significantes na variável, sexo, com os fatores suporte (p-valor=0,00) e profundidade (p-valor= 0,02) demonstrando que o sexo masculino sente mais suporte e profundidade no relacionamento interpessoal com um determinado amigo (Tabela 3).

Tabela 3 Comparação das características dos participantes, proximidade nas relações e notas acadêmicas com os fatores da escala Inventário da Qualidade dos Relacionamentos Interpessoais – versão amigo. Dourados, 2015. 

Características, proximidade e notas SUPORTE CONFLITO PROFUNDIDADE
Média DP p-valor Média DP p-valor Média DP p-valor
Sexo 0,00 0,46 0,02
Feminino 21,22 4,02 20,66 5,08 17,13 4,25
Masculino 23,20 4,35 20,08 5,19 18,63 3,72
Ano 0,34 0,66 0,15
23,29 4,62 20,10 6,07 19,58 2,99
24,03 3,64 19,55 5,26 18,67 3,89
23,75 3,55 19,92 5,02 18,27 2,70
23,20 4,35 20,08 5,19 18,63 3,72
Proximidade nas relações 0,90 0,11 0,89
Semelhante 23,28 4,35 21,53 5,96 18,94 2,86
Diferente 23,20 4,35 20,08 5,19 18,63 3,72
Autoavaliação das notas acadêmicas 0,40 0,49 0,16
Ruim 23,43 4,19 19,60 5,96 18,23 4,63
Razoável 23,18 4,35 20,07 4,92 18,57 3,47
Bom 23,14 3,18 20,73 5,32 19,86 2,96
Ótimo 23,20 4,35 20,08 5,19 18,63 3,72
Avaliação das notas acadêmicas do amigo com maior proximidade 0,76 0,24 0,46
Ruim 22,59 5,10 19,44 5,12 17,52 4,83
Razoável 23,49 3,80 19,61 4,94 18,66 3,42
Bom 22,82 4,96 21,22 5,67 19,20 3,52
Ótimo 23,20 4,35 20,08 5,19 18,63 3,72

Nota: As questões utilizadas para avaliação da proximidade nas relações e das notas acadêmicas foram adaptadas do estudo de Trentino, Cavalheiro, Silva e Puggina. 4

As associações do ano em curso e as avaliações das notas acadêmicas não foram estatisticamente significantes (Tabela 3).

Na correlação dos fatores da escala com a idade não houve diferenças estatisticamente significativa. Encontrou-se diferença estatisticamente significativa na comparação entre os fatores profundidade e suporte, foi apresentado uma correlação forte e positiva, ou seja, quanto mais suporte é percebido pelo aluno mais profundo e duradouro ele considera essa relação (Tabela 4).

Tabela 4 Correlação dos fatores da escala Inventário da Qualidade dos Relacionamentos Interpessoais – versão amigo. Dourados, 2015. 

Suporte Conflito Profundidade Idade
PARES r p-valor r p-valor r p-valor r p-valor
Suporte -- -- -0,11 0,11 0,70 0,00 -0,08 0,26
Conflito -0,11 0,11 -- -- 0,19 0,80 -0,03 0,62
Profundidade 0,70 0,00 0,19 0,80 -- -- -0,16 0,24
Idade -0,08 0,26 -0,03 0,62 -0,16 0,24 -- --

Nota: Coeficiente Rô de Spearman.

DISCUSSÃO

Neste estudo, os alunos apresentaram uma percepção moderada da qualidade do relacionamento interpessoal em relação a um determinado colega de classe. Pela frequente e constante convivência dos alunos no ambiente universitário, esperava-se uma disponibilidade e um envolvimento maior de ambos nessa relação com o indivíduo classificado como melhor amigo.

Além disso, nos resultados referentes ao fator suporte e profundidade os participantes relataram que podem contar com o amigo para lhe dar uma opinião honesta, porém eles não têm essa disponibilidade do amigo em momentos fora do contexto universitário; consideram esse relacionamento importante nas suas vidas, mas eles não se consideram na mesma medida dependentes dessa pessoa.

Entretanto, quando se compara a moderada qualidade dos relacionamentos interpessoais com essa contradição entre suporte e profundidade, os resultados pareceram convergentes, pois as relações parecem intensas no período em que eles estão juntos e direcionados para o mesmo objetivo, mas essa relação se restringe ao contexto universitário, estabelecendo um espaço vazio fora do contexto universitário.

Considerando que muitos estudantes se deslocam a outras cidades ou estados em busca de formação, esse espaço vazio de relações significativas pode se tornar representativo e, em alguns casos, até insuportável. A percepção de falta de suporte fora da universidade também foi encontrada em outro estudo. Autores9 concluíram que estudantes da Universidade de Ciências Médicas do Irã perceberam pouco apoio social de familiares, amigos ou vizinhos e que isto tem um impacto importante, mas diferente, sobre os indivíduos, principalmente dependendo dos fatores contextuais e estruturais desse indivíduo. Os autores9 também relataram a importância do apoio social na redução do estresse e fracasso acadêmico e de estratégias das instituições de ensino para promoção de suporte eficiente para estudantes.

As relações interpessoais com os colegas de classe são vitais e importantes. Autores10 identificaram que os estudantes descreveram positivamente os relacionamentos com colegas, referiram perceber cooperação, amizade e vínculos que ultrapassaram as fronteiras da instituição, porém houve também avaliações negativas com o relacionamento com colegas, em função das diferenças de valores e estilos de vida, sendo essas desavenças fatores fundamentais para a evasão.

As relações sociais são importantes para a satisfação do aluno com o contexto universitário. Em um estudo11, 52% dos universitários responderam que procuram cultivar amizades, estão satisfeitos com os relacionamentos obtidos nesse contexto, e, consequentemente, posicionam-se mais flexivelmente quanto as dinâmicas sociais. Os achados dos autores11 mostraram a satisfação com os relacionamentos da maioria dos entrevistados, entretanto 52% não é uma porcentagem expressiva e pode levantar questionamentos em relação a um problema não muito explorado.

Outros pesquisadores encontraram que a qualidade das amizades de jovens adultos se correlaciona positivamente a percepção de suporte social e aos recursos de coping desse indivíduo.12

Os resultados obtidos neste estudo indicaram que muitos alunos apesar de considerarem a relação de amizade importante, também consideram essas relações passageiras e sem profundidade e envolvimento. Sendo assim, o relacionamento existente entre os alunos entrevistados parece ocorrer por uma necessidade social de interação e convivência, entretanto, ainda não há maturidade suficiente para reconhecer a real importância dessa amizade e os papéis esperados pelo outro nessa relação.

Associado a importância, a expectativa dos alunos ao ingressar na universidade em relação às novas relações interpessoais, pode ser outro fator que interfere nesse processo e predispõe a uma experiência negativa ou positiva. Pesquisadores13 descreveram as vivências acadêmicas de universitários de psicologia e as expectativas de alunos quanto a essas vivências. Os alunos que melhor avaliaram a dimensão interpessoal foram os que tiveram expectativas “muito altas” em relação a vivência acadêmica, essas expectativas podem ter influenciado na disposição desses alunos para relacionarem-se com os colegas e criarem vínculos afetivos.

Autores14 identificaram que as expectativas acadêmicas de estudantes e as habilidades sociais podem influenciar diretamente sua formação e desempenho acadêmico e que, no entanto, a inteligência fluida não se apresenta como determinante nos resultados de avaliação acadêmica.

Além disso, as relações interpessoais no contexto universitário podem interferir na formação desse indivíduo. Autores15 descobriram que quanto mais e quanto melhor a qualidade dos relacionamentos interpessoais vivenciados na vida universitária, mais habilidades sociais foram desenvolvidas pelos alunos de graduação em enfermagem que participaram do estudo. Esse achado encontrado pelos pesquisadores15 reforça a importância das relações interpessoais na formação ética e profissional do indivíduo, pois as relações interpessoais elucidam um diferente tipo de aprendizado.

Outros fatores intrínsecos foram estudados e parecem influenciar a qualidade dos relacionamentos, tais como autoestima e a maneira como os indivíduos se posicionam frente ao desempenho do outro nas atividades acadêmicas.

Pesquisadores16 estudaram a relação entre autoestima e violências que ocorrem na universidade. Os resultados indicaram que alunos com baixa autoestima se relacionam de forma pior com colegas e professores que os pares de elevada autoestima, além de se colocarem mais frequentemente na posição de vítimas de violência na escola e terem mais dificuldade de se sentir bem no espaço escolar.

Estudos realizados por outro grupo de pesquisadores17 examinam se o tipo de crítica (hostil versus não hostil) ou sexo da pessoa que percebe a crítica afetam a satisfação com o relacionamento. Participaram dos estudos estudantes de graduação e casais da comunidade. Os achados mostraram que a crítica hostil estava associada negativamente ao funcionamento do relacionamento, enquanto as críticas não hostis estavam positivamente associadas ao relacionamento. As pessoas não recebem e aceitam as críticas da mesma maneira e no contexto acadêmico esse pode ser um importante fator de conflito, por isso no planejamento das atividades o professor deve estar atento a esse potencial problema.17

Problemas de relacionamento entre estudantes de enfermagem podem desencadear estresse, má qualidade do sono, ansiedade e depressão, especialmente quando os indivíduos não conseguem lidar de maneira eficaz com a situação desconfortável. Problemas de relacionamentos são frequentes, representam fontes significativas de estresse entre os estudantes e merecem atenção especial das instituições de ensino para garantir o bem-estar no ambiente acadêmico.18

No presente estudo, os alunos referiram ter um relacionamento mais próximo com pessoas da sala de aula com notas acadêmicas semelhante as deles. Não houve interferência das notas acadêmicas na qualidade dos relacionamentos. A opção pelo semelhante reduz a possibilidade de conflito, entretanto o indivíduo não trabalha a habilidade de lidar com o diferente, são relações interpessoais mais pacíficas e estáveis. Nas relações de amizade as diferenças são mais facilmente amenizadas entre pessoas próximas, a aproximação muitas vezes se dá pela semelhança com o outro4.

Autores investigaram características dos relacionamentos de amizade de jovens adultos. Os resultados mostraram homogeneidade em relação a algumas características entre os amigos mais íntimos, especialmente para o sexo, sinalizando a existência de um filtro de similaridades. Entretanto, eles também encontraram que tal homogeneidade não se concretiza de forma tão abrangente, existindo aspectos que escapariam a essa tendência, como por exemplo a religião.6

Autores19 avaliaram os efeitos dos atributos da diversidade no meio universitário, nas relações interpessoais e no desempenho acadêmico em uma instituição de ensino superior privada. A maioria dos alunos considera importante a existência de valores comuns na educação e formação, interesse pelo estudo, hábitos e lazer na aproximação dos alunos e na formação de grupos sociais e para realização de trabalhos em sala de aula.

Neste estudo, os homens percebem mais positivamente do que as mulheres o suporte e a profundidade nos relacionamentos interpessoais com os colegas de sala.

Um estudo17 já relatado sobre o tipo de crítica e o sexo dos alunos encontrou que a crítica hostil pode estar mais fortemente associada aos processos de relacionamento negativos nas mulheres, enquanto a crítica não hostil pode estar mais fortemente associada a processos de relacionamento positivos para homens. Homens e mulheres parecem ter um envolvimento diferente nas relações interpessoais no contexto acadêmico e percebem e interpretam diferentemente as críticas, as mulheres tendem a ser mais negativas que os homens.

Frente a essas considerações, observa-se que na análise do comportamento humano, as relações interpessoais podem e, frequentemente, adquirem um elevado grau de complexidade, envolvendo inúmeros fatores. À medida em que as relações interpessoais vão se tornando mais complexas, os fenômenos psicológicos vão adquirindo novos contornos e não constituem relações específicas entre respostas e estímulos, mas conjuntos de várias relações entrelaçadas, com componentes filogenéticos, ontogenéticos e culturais.20

CONCLUSÕES

Em geral, os alunos apresentaram moderada qualidade nos relacionamentos interpessoais com o amigo de sala. Os alunos do sexo masculino percebem que podem contar mais ativamente com o amigo e avaliam esse relacionamento de maneira mais profunda, importante e duradoura.

Os alunos avaliaram suas notas acadêmicas como boas, assim como as do seu melhor amigo, essa percepção indica que notas acadêmicas influenciaram na escolha das amizades, visto que a maior parte se deu pela semelhança e, justamente por esse motivo, as notas acadêmicas não interferiram na qualidade dos relacionamentos.

O ano em curso na graduação e a idade não interferiram na qualidade dos relacionamentos.

REFERÊNCIAS

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