Fatores sociodemográficos e econômicos associados ao tabagismo na população idosa

Fatores sociodemográficos e econômicos associados ao tabagismo na população idosa

Autores:

Dayane Aparecida Viana,
Leiner Resende Rodrigues,
Darlene Mara dos Santos Tavares

ARTIGO ORIGINAL

Jornal Brasileiro de Psiquiatria

versão impressa ISSN 0047-2085

J. bras. psiquiatr. vol.63 no.3 Rio de Janeiro jul./set. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/0047-2085000000029

ABSTRACT

Objectives

To identify smoking status of elderly and to assess socio-demographic and economic factors associated with them.

Methods

This is a quantitative, transversal, observational and analytical study with 980 elderly living in the urban area of the municipality of Uberaba (MG) – Brazil. The Mini Mental State Examination and the Brazilian Multidimensional Functional Assessment Questionnaire were used. The elderly were classified as smokers, ex-smokers and nonsmokers according to the Guidelines for Smoking Cessation. The statistical analysis were performed with SPSS-17 software. The smoking status of the elderly was described by means of simple and absolute frequencies. We employed the Cramer’s V (p ≤ 0.05) in the bivariate analyses and then test the Multiple Multinomial Logistic Regression (p ≤ 0.05) adjusted for sex and age according to smoking classification.

Results

We found 122 (12.4%) smokers, 320 (32.7%) ex-smokers, and 538 (54.9%) nonsmokers. The elderly smokers presented with 3.57, 2.36 and 1.82 greater chances of being male (p < 0.001), aged 60-69 years (p = 0.004) and single, divorced or widowed (p = 0.008), respectively. Elderly ex-smokers were also more likely (5.34) to be male (p < 0.001).

Conclusion

The results showed that sex, age and marital status are associated with smoking in the elderly population.

Key words: Aged; smoking; risk factors

INTRODUÇÃO

Com o envelhecimento populacional, novos desafios têm surgido e aumentado nos países em geral, especificamente naqueles em desenvolvimento, no qual a maioria das pessoas longevas morre devido às doenças crônicas não transmissíveis1.

Para isso, muito tem sido discutido sobre o processo de “[...] Envelhecimento Ativo, o qual trata do processo de otimização das oportunidades de saúde, participação e segurança, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida (QV) à medida que as pessoas ficam mais velhas”2.

Foi, então, elaborado o documento “Envelhecimento Ativo: Uma Política de Saúde”, o qual relata que há várias décadas vêm sendo criados programas de promoção à saúde, prevenção de doenças e acesso equitativo à assistência primária em longo prazo, incluindo os aspectos sociais, econômicos, comportamentais, pessoais e culturais, o ambiente físico e o acesso ao serviço de saúde. Dentro dessa proposta, a abstinência do tabaco é uma das maneiras que tem sido abordada para se envelhecer ativamente2.

O tabagismo é considerado uma doença e situa-se na Classificação Internacional de Doenças – 10ª revisão (CID-10), no grupo de transtornos mentais e de comportamentos associados ao uso de substâncias psicoativas. O cigarro é composto por cerca de 4.700 produtos maléficos à saúde3, a saber: nicotina, dióxido de carbono (CO2), alcatrão e outros4. As fumaças dos cigarros também possuem inúmeras substâncias nocivas e cancerígenas5. O radical livre liberado durante o fumo exerce o papel de aceleramento do envelhecimento, por meio de ações maléficas nas funções biológicas fundamentais ou então favorecendo os processos patológicos por estimulação etiopatogênica6.

Mundialmente, existem aproximadamente 22% de homens com 60 anos ou mais que são fumantes e 8% das mulheres têm esse hábito7. No Brasil, Inquérito de Saúde realizado no estado de São Paulo apresentou, diante das variáveis socioeconômicas, prevalência de idosos tabagistas do sexo masculino (17,5%), com 60 a 69 anos (15,3%), não brancos (16,8%), com renda menor ou igual a um salário-mínimo (18,5%), menores quantidades de anos de estudo (13,6%) e que ainda estão em atividade ocupacional (16,3%)8.

A cessação do tabaco traz benefícios ainda que entre os idosos, aumentando de dois a três anos a expectativa de vida naqueles que fumavam até um maço de cigarros por dia9. Vale ressaltar que existe escassez de pesquisas sobre o tabagismo direcionadas para a população idosa10.

Nesse sentido, os objetivos do estudo foram identificar a condição tabágica dos idosos e verificar os fatores sociodemográficos e econômicos associados ao hábito de fumar nessa população.

MÉTODOS

Esta pesquisa faz parte de um estudo maior e está delineada como quantitativa do tipo inquérito domiciliar, transversal, observacional e analítica. Foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (CEP/UFTM), sob o protocolo nº 2.265, de 2012.

O estudo foi desenvolvido na zona urbana do município de Uberaba/Minas Gerais (MG). A população residente no município pesquisado no ano de 2012 era de 302.623 indivíduos, e 38.202 tinham 60 anos ou mais, o que corresponde a 12,6% da população geral11.

Para o cálculo amostral, utilizou-se a técnica de amostragem estratificada proporcional, levando-se em consideração os diversos bairros do município como estratos, sendo a seleção aleatória simples. Foram considerados: 95% de confiança, 80% de poder do teste, margem de erro de 4,0% para as estimativas intervalares e uma proporção estimada de p = 0,5 para as proporções de interesse, dessa forma partiu-se do número de 3.034 idosos. Foram perdidos 266 idosos que faleceram e 275 por outros motivos e 628 foram excluídos (idosos que não foram localizados após três visitas consecutivas, encontravam-se hospitalizados, mudaram de endereço, apresentaram declínio cognitivo e aqueles que se recusaram a participar). Ao final, foram entrevistados 980 idosos que atenderam aos critérios de inclusão (indivíduos com 60 anos ou mais, sem declínio cognitivo, residentes na zona urbana do município de Uberaba-MG e que concordaram em participar da pesquisa, assinando o Termo de Consentimento Livre Esclarecido – TCLE); número esse que corresponde a 2,5% da população de idosos do referido município11.

A coleta foi dividida em duas etapas, a saber: a primeira da qual a presente pesquisa utilizou os dados foi realizada no período de junho a dezembro de 2012. Os entrevistadores foram treinados e capacitados, e abordavam o idoso no domicílio, faziam a apresentação dos objetivos e das informações necessárias e, logo após a anuência e assinatura do TCLE, conduziam-no à entrevista.

Todos os questionários foram aplicados na forma de entrevista e, quando o idoso não compreendia a pergunta, o entrevistador relia a questão na íntegra novamente. As entrevistas foram revisadas por supervisores de campo, sendo professores doutores e mestres da UFTM. Caso houvesse incompletude e inconsistência das respostas, as entrevistas eram devolvidas ao entrevistador para adequação.

Utilizaram-se os instrumentos validados e traduzidos no Brasil: O Miniexame do Estado Mental (MEEM), com a finalidade de avaliar a cognição do idoso, uma vez que no questionário havia questões subjetivas. Os escores variaram de 0 a 30 pontos, sendo o ponto de corte considerado de acordo com a escolaridade do idoso: 13 para analfabetos, 18 para os idosos que apresentarem de 1 a 11 anos de estudos e 26 para aqueles que tiverem mais que 11 anos de estudos12.

O Questionário Brasileiro de Avaliação Funcional e Multidimensional (BOMFAQ)13 foi utilizado a fim de caracterizar a população de acordo com o perfil sociodemográfico e econômico, a saber: sexo (masculino e feminino); faixa etária (60 a 69 anos, 70 a 79 anos e 80 anos ou mais); raça/cor (branca, preta, parda, amarela, indígena); estado conjugal (sem companheiro; com companheiro); arranjo de moradia [sozinho(a), acompanhado(a)]; escolaridade em anos de estudo (analfabetos, um a quatro anos de estudo, cinco e mais); renda individual mensal em salário-mínimo (ausência de renda, menos de um salário-mínimo, um a três, quatro e mais); aposentado em anos (sim/quantidade de anos; não).

A classificação tabágica foi escolhida de acordo com as Diretrizes para Cessação do Tabagismo14, sendo: tabagistas (aquele que referiu ter fumado pelo menos um cigarro por dia por, pelo menos, um mês); ex-tabagistas (aquele que não fuma há pelo menos seis meses); não tabagista (aquele que nunca experimentou o tabaco).

Todos os dados foram registrados em arquivo digital preparado especificamente para esse fim, por meio de planilhas do Excel, sendo tabulados em dupla entrada, a fim de verificar a consistência dos dados. Posteriormente, os dados foram exportados para o software Statistical Package for Social Science (SPSS) versão 17.0 para análise.

A condição tabágica dos idosos foi descrita por meio de frequências simples e absolutas. Foi aplicado o teste Cramer’s V (p ≤ 0,05) na análise bivariada, a fim de verificar quais as variáveis sociodemográficas e econômicas que seriam incluídas no ajuste de Regressão Logística Multinomial Múltipla, entre os idosos tabagistas, ex-tabagistas e não tabagistas. Utilizou-se a Regressão Logística Multinomial Múltipla (p ≤ 0,05) para verificar os fatores associados ao consumo de tabaco ajustados para sexo e faixa etária. Os idosos não tabagistas foram considerados a categoria de referência. O tabagismo foi considerado o desfecho, e os dados sociodemográficos e econômicos foram as variáveis preditoras.

RESULTADOS

Entre os 980 idosos entrevistados, 122 (12,4%) eram tabagistas, 320 (32,7%), ex-tabagistas e 538 (54,9%), não tabagistas.

Em relação aos dados sociodemográficos e econômicos dos idosos, o presente estudo verificou na análise bivariada que seriam incluídas no ajuste de Regressão Logística Multinomial Múltipla as variáveis significativas: sexo (p < 0,001), faixa etária (p < 0,001), estado conjugal (p = 0,002) e aposentadoria (p < 0,001) (Tabela 1).

Tabela 1  Distribuição das variáveis socioeconômicas e demográficas, de acordo com a classificação tabágica dos idosos. Uberaba/MG, 2012 

Variáveis Tabagista
  Ex-tabagista
  Não tabagista
  Total
V p*
N (%) n (%) N (%) n (%)
Sexo                          
 Masculino 53 15,2   188 53,9   108 30,9   349 35,6 0,371 < 0,001
 Feminino 69 10,9   132 20,9   430 68,1   631 64,4    
Faixa etária                          
 60 a 69 anos 56 19,8   77 27,2   150 53,0   283 28,9 0,104 < 0,001
 70 a 79 anos 47 9,6   170 34,7   273 55,7   490 50,0    
 80 anos ou mais 19 9,2   73 35,3   115 55,6   207 21,1    
Raça/Cor                          
 Branca 64 11,5   173 31,1   320 57,5   557 56,9 0,068 0,329
 Preta 18 15,5   41 35,3   57 49,1   116 11,8    
 Parda 39 14,2   90 32,7   146 53,1   275 28,1    
 Amarela 1 4,2   12 50,0   11 45,8   24 2,5    
 Indígena - -   3 42,9   4 57,1   7 0,7    
Estado conjugal                          
 Sem companheiro 78 13,9   158 28,1   326 58,0   562 57,3 0,114 0,002
 Com companheiro 44 10,5   162 38,8   212 50,7   418 42,7    
Escolaridade                          
 Analfabeto 32 15,1   68 32,1   112 52,8   212 21,7 0,060 0,135
 1 a 4 anos de estudo 63 11,5   193 35,2   293 53,4   549 56,1    
 5 ou mais 27 12,4   58 26,6   133 61,0   218 22,3    
Renda individual                          
 Ausência de renda 10 13,3   15 20,0   50 66,7   75 7,7 0,061 0,300
 Menos de 1 salário 2 11,8   5 29,4   10 58,8   17 1,7    
 1 a 3 salários 101 12,5   276 34,2   430 53,3   807 82,6    
 4 ou mais salários 9 11,5   23 29,5   46 59,0   78 8,0    
Aposentado                          
 Sim 81 12,2   258 38,7   327 49,1   666 68,0 0,192 < 0,001
 Não 41 13,1   62 19,8   210 67,1   313 32,0    
 Total 122 12,4   320 32,7   538 54,9   980 100    

Fonte: autora, 2013. * Cramer’s V (p ≤ 0,05).

Após os ajustes para sexo e faixa etária, observou que os idosos tabagistas têm maior risco de chance de ser do sexo masculino (IC 95%: 2,21-5,77), entre 60 e 69 anos (IC 95%: 1,30-4,26) e sem companheiro (IC 95%: 1,16-2,85). Para os idosos ex-tabagistas, também foi encontrada maior chance de risco para o sexo masculino (IC 95%: 3,76-3,78) (Tabela 2).

Tabela 2 Razão de chance e intervalo de confiança (IC) das variáveis sociodemográficas e econômicas de acordo com a classificação tabágica dos idosos. Uberaba/MG, 2012 

Variáveis Classificação tabágica
Tabagista   Ex-tabagista
Razão de chance Intervalo de confiança p* Razão de chance Intervalo de confiança p*
Sexo              
 Masculino 3,57 2,21-5,77 < 0,001   5,34 3,76-7,58 < 0,001
 Feminino  
Faixa etária              
 60 a 69 anos 2,36 1,30-4,26 0,004   0,81 0,52-1,26 0,356
 70 a 79 anos 1,13 0,73-1,56 0,678   1,07 0,73-1,57 0,707
 80 anos ou mais  
Estado conjugal              
 Sem companheiro 1,82 1,16-2,85 0,008   1,11 0,80-1,54 0,509
 Com companheiro  
Aposentado              
 Sim 0,96 0,60-1,53 0,883   1,36 0,94-1,97 0,099
 Não  

Fonte: autora, 2013.* Regressão Logística Multinomial Múltipla (p ≤ 0,05). Categoria de referência: idosos não tabagistas.

DISCUSSÃO

A literatura apresenta poucos dados concernentes à prevalência de consumo de tabaco entre idosos no contexto mundial e nacional15.

Na metanálise que incluiu 48 artigos de todos os continentes do hemisfério de Norte a Sul, houve a prevalência de 13% de idosos tabagistas7. Estudo realizado na Inglaterra verificou que 12% das pessoas com 65 anos ou mais eram fumantes16. Investigação feita na América do Norte, Estados Unidos, observou que 9,3% dos indivíduos consumiam tabaco17. A World Health Organization18 evidencia que, na população adulta, o número de fumantes se destaca naqueles países com baixa e média renda. Porém, para essa população específica de idosos, na presente pesquisa que foi realizada no Brasil, o qual é considerado um país em desenvolvimento, os percentuais foram bem aproximados dos de países desenvolvidos.

Segundo dados do Vigitel, existem no Brasil 8,7% de idosos que consomem tabaco no país, percentual esse abaixo do encontrado no presente estudo19. Já a PETab encontrou (12,9%) percentual aproximado da presente investigação20. No entanto, esses estudos fizeram uma categorização da faixa etária diferente da presente pesquisa (≥ 60 anos), a saber: Vigitel, de 55 a 64 anos e ≥ 65 anos19, e PETab, de 45 a 64 anos e ≥ 65 anos20.

Similar ao presente estudo, um inquérito realizado em quatro municípios do estado de São Paulo observou que 12,2% dos indivíduos com 60 anos ou mais têm o hábito de fumar8. Divergente da presente pesquisa, Pereira et al.21 entrevistaram 211 idosos do município de Teixeiras e verificaram que 19,4% dos pesquisados eram fumantes, percentual esse acima da média nacional.

Pesquisa realizada no Brasil com 84 indivíduos com média de idade de 33,44 anos verificou que 21,43% da amostra eram tabagistas, valores esses acima do encontrado no presente estudo22. Na literatura brasileira, em 1989, a prevalência de adultos fumantes era de 32%23. Segundo dados mais recentes, existem no Brasil 14,8% de indivíduos acima de 15 anos que têm esse hábito20. Dessa forma, mesmo que os delineamentos dos estudos não sejam equiparáveis, é possível observar intensa redução do consumo de tabaco no país.

Nesse sentido, vale ressaltar que, de acordo com o International Tobacco Control (ITC), o Brasil é líder nas Américas em relação ao controle do tabaco e está em primeiro lugar em nível mundial nas advertências sanitárias em embalagens24.

O processo antitabaco se iniciou em 1975 e vem, ao longo dessas décadas, criando diversas leis, programas e campanhas de controle para prevenção e cessação do vício25. O governo e instituições de combate ao cigarro vêm atuando em diversos segmentos, por exemplo, nos preços e impostos dos produtos derivados do tabaco; leis que proíbem o consumo de cigarro em lugares fechados; advertências sanitárias e alertas nas embalagens e nas propagandas explicativas sobre os riscos de fumar e os benefícios de quem cessa24.

Ao contrário do que discutimos acima, a redução do vício do cigarro entre os idosos não acontece na mesma velocidade que entre a população adulta, podendo esse fato ser observado ao se comparar o percentual (12,4%) de idosos tabagistas do presente estudo com a prevalência (12,8%) encontrada por Lima-Costa no ano de 200426. Dessa maneira, mesmo com metodologia diferente, é possível verificar que quase dez anos depois houve uma redução mínima do consumo de tabaco nessa população. Isso pode estar relacionado à escassez de ações de saúde que incentivam o abandono desse hábito nos indivíduos com 60 anos ou mais27.

As proporções de idosos ex-tabagistas observada no presente estudo corroboram os dados do Vigitel, o qual evidencia que 35,2% das pessoas com 65 anos ou mais cessaram o hábito do tabaco19. Divergente da presente pesquisa, Lima e Faustino28 encontraram em sua revisão integrativa prevalência de idosos ex-tabagistas que variou de 22,1% a 56,6%. De acordo com os dados coletados em 2008 pelo PNAD, 41,5% dos idosos tentaram parar de fumar no último ano que antecedeu a pesquisa29, percentual esse acima do da presente investigação.

Convergente aos dados encontrados no presente estudo, algumas pesquisas citadas a seguir também verificaram maior risco de chance de os idosos serem do sexo masculino. O The Global Adult Tobacco Survey (GATS) de 16 países verificou que a prevalência de tabagismo em idosos do sexo masculino variou de 12,6% (IC: 10,9-14,4) nos Estados Unidos e 12,6% (IC: 12,0-13,3) na Inglaterra até 40,7% (IC: 34,2-41,4) na Rússia. Já as idosas tabagistas apresentaram-se em proporção bem menor, variando de 0,00% na Ucrânia a 21,0% (IC: 16,3-26,7) nas Filipinas30. No Brasil, o Estudo Multidimensional dos Idosos de Porto Alegre (EMIPOA) encontrou prevalência significativamente maior (p = 0,004) em homens fumantes (20,8%), quando comparados às mulheres (13,0%)31. O inquérito de São Paulo também observou maior concentração de consumidores de tabaco (17,5%, IC: 10,1-14,7) entre os idosos do sexo masculino8.

Um dos fatores que tem sido discutido na literatura é que os homens apresentam mais de hábitos de vida não saudáveis como o tabagismo do que as mulheres32. Isso ocorre pelo fato de o consumo de cigarros ter se espalhado na década de 1920 do século passado, inicialmente entre os homens33.

O sexo tem sido considerado um dos fatores sociodemográficos de associação com o tabaco, mostrando que a prevalência é maior em homens do que em mulheres. Uma informação relevante é o grande número de experimentação de tabaco entre os indivíduos do sexo feminino e o consequente aumento da prevalência nos países em desenvolvimento. Nos países desenvolvidos, a redução do consumo de cigarros é mais rápida entre homens do que entre as mulheres. O contrário acontece para os países em desenvolvimento, porém essa redução acontece de forma bem mais lenta34. Portanto, a situação da prevalência de fumantes, segundo o sexo, em idosos deve ser analisada com cautela, uma vez que se observa propensão à inversão dos percentuais35,36.

Nota-se que, apesar de estarem sendo evidenciadas maiores proporções de hábito de fumar entre os homens, esses têm deixado de fumar mais do que as mulheres, de acordo com a presente pesquisa e os estudos a seguir.

Os dados da Pesquisa sobre Mortalidades Atribuíveis ao Tabagismo (Pesquisa-SAM), realizada em 16 capitais brasileiras, evidenciaram maior prevalência de ex-tabagistas no sexo masculino, variando de 30,3% em Brasília a 69,2% em Vitória, sendo este último percentual acima do encontrado no presente estudo37. Assim como na presente investigação, os resultados do Vigitel também verificaram que os homens estão deixando de fumar com o avanço da idade, e aqueles que tinham entre 18 e 24 anos apresentaram percentual de abandono do fumo de 11,4%, e aqueles que tinham 65 anos ou mais apresentaram 52,6%20.

Essa redução também acontece dentro das faixas etárias senis. No presente estudo, observou-se que os idosos tabagistas tendem a estar entre 60 e 69 anos. Os dados corroboram os resultados evidenciados na investigação realizada em Porto Alegre com 832 indivíduos com 60 anos ou mais, o qual apresentou prevalência significativamente maior (23,9%) naqueles que se encontravam na primeira faixa etária da velhice, quando comparados às outras31. Freitas et al.38 também verificaram maior proporção de idosos tabagistas com 60 a 69 anos.

Essa população costuma subestimar os riscos e superestimar os benefícios do vício10. Nesse sentido, os idosos só são encorajados a abandonar o cigarro quando surge alguma doença relacionada33, que, por sua vez, tende a aparecer com maior tempo de exposição ao tabaco e idade avançada39. Além disso, a morte precoce dos indivíduos com 60 anos ou mais que consomem cigarro é uma das características que levam à redução dessa prevalência com o avanço da idade40.

Outro fator significativamente estatístico observado no presente estudo é o maior risco de chance de os idosos tabagistas não terem companheiro, o que corrobora o estudo de Senger et al.31. Divergente da presente pesquisa, Madruga et al.41 verificaram em seu estudo que o estado conjugal não influenciou na condição tabágica dos idosos, assim como na investigação realizada por Freitas et al.38.

O parceiro é visto positivamente e negativamente, uma vez que aquele que fuma pode atrapalhar o outro a abandonar o hábito42, e aqueles companheiros que não são fumantes tendem a estimular o parceiro a cessar o vício, dando apoio nas diferentes fases de abstinência43.

Pesquisa realizada com 572 idosos residentes em 13 instituições de longa permanência verificou que os menores níveis de dependência à nicotina estavam relacionados aos indivíduos que, de alguma forma, mantinham um vínculo afetivo, independente do tipo44. Segundo Fernandes45, o tabagismo é considerado um refúgio para enfrentar a solidão. Na investigação de Carvalho et al.44, a solidão está associada à dificuldade de cessação do hábito, principalmente naqueles com idade mais avançada. De acordo com as Diretrizes para Cessação do Tabaco, o apoio familiar e de amigos é de grande relevância para a redução do tabagismo entre idosos46.

O estudo apresenta como limitação o delineamento transversal, o qual observa os preditores e desfechos apenas naquele momento, não podendo ser observada a causalidade.

CONCLUSÃO

A presente pesquisa encontrou percentual de 12,4% de idosos tabagistas e 32,7% de ex-tabagistas. Havendo 3,57 mais riscos de chance de os idosos tabagistas serem do sexo masculino; 2,36 mais riscos de chance de estarem na faixa etária de 60 a 69 anos e 1,82 mais risco de chances de não terem companheiro(a). Os idosos ex-tabagistas apresentaram 5,34 mais riscos de chance de serem do sexo masculino.

Diante dos resultados, verifica-se a necessidade da elaboração de ações que conscientizem a população idosa dos malefícios que o tabaco provoca e dos benefícios alcançados com o abandono do vício, mesmo na idade avançada.

Ressalta-se que são necessários mais estudos que envolvam o consumo de tabaco entre os idosos, objetivando esclarecer melhor outros fatores predisponentes.

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