Fernandes Figueira e o saber médico sobre amamentação

Fernandes Figueira e o saber médico sobre amamentação

Autores:

Rita de Cássia Marques

ARTIGO ORIGINAL

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.25 no.4 Rio de Janeiro out./dez. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/s0104-59702018000500017

A amamentação é um processo biológico natural entre os mamíferos; porém, entre os humanos, não é generalizado, e nem sempre por impossibilidades biológicas. Amamentar é também um ato cultural, e, como tal, varia dependendo do lugar e do contexto. Investigando sobre a amamentação e a infância na passagem do século XIX para o XX, Gisele Sanglard (2016), pesquisadora da assistência à saúde no Brasil, organizou uma reedição fac-símile da segunda edição do Livro das mães: consultas práticas de higiene infantil, do médico Antônio Fernandes Figueira, de 1920. Trata-se de um exemplo de sucesso da popularização da ciência, onde o doutor Figueira responde a 107 consultas práticas de higiene infantil, especialmente sobre a amamentação.

Em torno do fac-símile, Sanglard reuniu pesquisadores que se debruçaram sobre a temática da amamentação e da infância, produzindo cinco artigos originais e fundamentais, a saber: “Alimentação na primeira infância: médicos, imprensa e aleitamento no fim do século XIX” (Karoline Carula); “Fernandes Figueira e a política de assistência à infância: Estado, filantropia e aleitamento materno” (Gisele Sanglard); “Salvando o esteio da nação: Moncorvo Filho e o Instituto de Proteção à Assistência à Infância no Rio de Janeiro” (Maria Martha de Luna Freire); “Entre a assistência e a higiene: saúde pública e infância no Rio de Janeiro e na Bahia – 1921-1933” (Luiz Otavio Ferreira e Lidiane Monteiro Ribeiro); e “Embaixadores da academia: puericultura, congressos da criança e a repercussão multinacional da medicina brasileira” (Okezi T. Otovo). Completa o elenco de textos relacionados ao fac-simile a reedição de uma carta aberta de Antônio Fernandes Figueira, escrita em 1905, intitulada “Bases científicas da alimentação da criança: suas consequências sociais” , e um bloco de imagens de importantes acervos sobre a Policlínica das Crianças. Pela excelência da publicação organizada por Sanglard, foi premiada em 2017 pela Associação Brasileira de Editoras Universitárias (Abeu), na seção Ciências da Vida.

O principal público do Livro das Mães , nas palavras de Afrânio Peixoto, eram as “mães estreantes no suave milagre de criar”. A importância da publicação estava em divulgar conselhos e noções que a medicina vinha produzindo como conhecimento sobre a infância. Essa perspectiva nos remete às ideias de Ludwig Fleck (2010) sobre o desenvolvimento do conhecimento científico. De nada valeriam os estudos médicos sobre as crianças se esse conhecimento não chegasse até as mães. Somente quando elas passam a compartilhar a maneira de pensar dos médicos sobre como criar os filhos e adotam as práticas preconizadas a pediatria se estabelece. Médicos e público leigo estruturados em torno do novo conhecimento formam o coletivo de pensamento. A pediatria não teria como crescer e não haveria como divulgar os procedimentos da puericultura sem que o médico conquistasse o apoio das mães.

A pediatria brasileira começa, especialmente, com o trabalho feito por médicos como Carlos Artur Moncorvo de Figueiredo (1846-1901), Carlos Artur Moncorvo Filho (1871-1944) e Antônio Fernandes Figueira (1863-1928) para estruturar e divulgar a nova especialidade, estabelecendo as diretrizes de como tratar a infância. Mais que uma especialidade, esses pioneiros estavam estabelecendo pilares de uma política de proteção à infância, conforme nos apresenta Sanglard e Luna Freire. Esse novo conhecimento foi bem recebido, pois surgiu no momento em que a sociedade brasileira passava por uma mudança significativa com o fim da escravidão, que afetou a relação com as amas de leite, a mão de obra predominante no cuidado das crianças.

O século XX chegou sem os escravos e com a medicina definindo padrões para os novos tempos e a nova mãe que deveria amamentar, e, para isso, Fernandes Figueira teceu argumentos convincentes sobre os benefícios do aleitamento materno. No capítulo escrito por Carula, as razões médicas para o aleitamento materno são elencadas e contextualizadas. Era necessário afastar a ama de leite da cena da amamentação assim como discutir sobre os outros tipos de leite, inclusive os artificiais que começavam a chegar ao país. No Livro das mães , as 107 perguntas e respostas servem tanto para as mães como para os médicos que não tiveram formação sobre o assunto. Era nítido que a medicina queria assumir a liderança na mudança de padrões culturais sobre a amamentação.

As recomendações fornecem uma clara ideia do processo de institucionalização da medicina no início do século XX. No capítulo de Ferreira e Ribeiro, é possível ver como, em um contexto favorável aos preceitos da higiene, a institucionalização se materializa na Diretoria Nacional de Saúde Pública (DNSP) e chega a um outro estado, a Bahia. Os conselhos médicos sobre amamentação, banho do bebê, creches, amas de leite e seus filhos, o desenvolvimento físico e mental da criança, doenças infantis etc. ganham novos espaços e defensores. Com a clara intenção de divulgar os novos conhecimentos, Figueira utiliza uma linguagem mais popular e abre espaço para revelar as inquietações femininas perante a maternidade e a amamentação. Em um tempo no qual a mulher não tinha voz, e são poucos os relatos onde é possível saber o que ela pensava e fazia, algumas perguntas são reveladoras: “Ontem, me transmitiu meu marido a infalível sentença do doutor: terei que amamentar o filhinho que aguardo. Perderei então os divertimentos? Persistirei atada à boca do algozinho?”. Figueira minimizou o problema indicando que a mãe podia se divertir no intervalo entre as três horas que separam uma mamada da outra.

Atualmente, a amamentação continua precisando de estimulo e esclarecimentos. Para mulheres que trabalham fora de casa, têm menos amparo familiar e de babás e são muito suscetíveis à ação da mídia, as políticas públicas sobre amamentação e infância reforçam muitos argumentos utilizados por Figueira do Livro das mães (Brasil, 2015).

Os textos introdutórios, para além dos conselhos médicos, analisam o impacto da produção de conhecimentos sobre a infância na sociedade, na cultura e na política. Otovo, ao apresentar os congressos Pan-americanos da Criança, mostra como a puericultura torna-se um tema multinacional. Inserido no debate, além da puericultura, Fernandes Figueira dominou a cena da filantropia no Rio de Janeiro, criando dispensários e policlínicas, um modelo seguido em muitos outros estados. A popularização desse tipo de filantropia quebrou com o paradigma da assistência aos pobres prestada pelas Santas Casas e tornou-se determinante na criação de políticas para a infância no Brasil. A Constituição de 1988 estabeleceu que saúde é um direito de todos, e o governo brasileiro assumiu grande parte das tarefas da filantropia, responsabilizando-se pela criação e manutenção de bancos de leite, creches, a contratação de profissionais que ajudam na defesa do aleitamento materno e da assistência à infância. Por tudo isso, O Livro das mães merece a reedição que teve, e o livro de Sanglard é leitura obrigatória.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Saúde da criança: aleitamento materno e alimentação complementar/Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. 2.ed. Brasília: Ministério da Saúde. Disponível em: < . Acesso em: 17 out. 2018. 2015.
FLECK, Ludwig. A gênese do desenvolvimento de um fato cientifico . Belo Horizonte: Fabrefactum. 2010.
SANGLARD, Gisele (org.). Amamentação e políticas para a infância no Brasil: a atuação de Fernandes Figueira, 1902-1928. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz. 2016.
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