Fernandez JCA, Campos M, Cazzuni DH, Fiorilo P. Juventude e segurança: PROTEJO Osasco. São Paulo: Editora Hucitec, Cepedoc Cidades Sustentáveis; 2010.

Fernandez JCA, Campos M, Cazzuni DH, Fiorilo P. Juventude e segurança: PROTEJO Osasco. São Paulo: Editora Hucitec, Cepedoc Cidades Sustentáveis; 2010.

Autores:

Janaína Alves da Silveira Hallais,
Nelson Filice de Barros

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.19 no.6 Rio de Janeiro junho 2014

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232014194.09842013

O livro "Juventude e segurança: PROTEJO Osasco" apresenta as experiências dos educadores e dos jovens participantes do projeto "Protejo" desenvolvido na cidade de Osasco (SP), entre fevereiro de 2009 e janeiro de 2010, em uma parceria de diferentes setores da prefeitura de Osasco, do Ministério da Justiça e da Organização Não Governamental "Cepedoc Cidades Sustentáveis".

Com 198 páginas, o livro está divido em oito capítulos que relatam a trajetória do projeto, desde seu planejamento até sua conclusão. As narrativas dos educadores e algumas falas dos jovens participantes ilustram e dão um dimensionamento de suas experiências, perspectivas e desafios durante os encontros periódicos. O principal objetivo do projeto foi o enfrentamento à violência através de ações voltadas para uma formação sociocultural e cidadã, e o público alvo foram jovens na faixa etária "dos 15 aos 24 anos egressos do sistema prisional, em cumprimento de medidas socioeducativas ou de penas alternativas, em situação de rua e vítimas da criminalidade".

O primeiro capítulo é uma apresentação do projeto em âmbito nacional, a partir da exposição das diretrizes e do público alvo. As intervenções propostas pelo Protejo visam trabalhar principalmente a cidadania e a autonomia dos jovens acolhidos, retirando-os do contexto de criminalidade em que se encontram. Faz uma breve reflexão sobre a situação de vulnerabilidade que assola os adolescentes e os jovens dos grandes centros urbanos e sobre a "violência estrutural" que atinge os bairros periféricos (e seus moradores): a má distribuição dos equipamentos públicos de saúde, educação e lazer e a falta de acesso a serviços de qualidade são apontados como causadores de violência.

O capítulo 2 discorre sobre a segurança de maneira geral e aponta as diferenças entre segurança pública e urbana, defendendo que elas sejam baseadas no respeito e não na violência. O texto é de autoria de um gestor da Guarda Civil Municipal de Osasco e apresenta as diretrizes do Programa Nacional de Segurança com Cidadania (PRONASCI), propondo que para uma ação efetiva, orientada em medidas preventivas e protetivas é preciso haver integração e articulação entre os órgãos públicos municipal, estadual e federal. Assim, defende que a segurança urbana diferencia-se da segurança pública na medida em que o poder municipal tem conhecimento do território, criando melhores estratégias para agir localmente.

Desenvolvido por profissionais da Secretaria de Desenvolvimento, Trabalho e Inclusão do município de Osasco, o capítulo 3 complementa a visão institucional trazida pelo capítulo anterior e apresenta a trajetória de implantação do "Protejo" em Osasco, desde a escolha da equipe de planejamento e execução até a seleção dos bairros participantes e a escolha dos locais onde seriam realizados os encontros do projeto. É interessante atentar para as dificuldades relatadas para encontrar espaço físico com estrutura básica para o desenvolvimento das atividades, o que mostra a falta de estrutura pública nas periferias da cidade. Com um grupo bastante heterogêneo não apenas na idade dos envolvidos, mas também em suas condições social, econômica e cultural, a proposta foi inserir o jovem na construção do projeto, fazendo-o sentir-se integrado com o grupo, com sua comunidade e com a equipe, promovendo assim a convivência, a sociabilidade e o sentimento de pertencimento ao relatar suas experiências e compartilhar suas perspectivas.

Ao tratar das escolhas, identidades e desfechos contingentes no capítulo 4, os pesquisadores do "Cepedoc" envolvidos na execução do "Protejo" discorrem sobre a ação e o discurso, pautados em Hanna Aredent - ação e discurso causam desconforto porque são imprevisíveis e irreversíveis - para explicitar a importância da abertura do diálogo entre os educadores, os gestores e os jovens. A troca de experiências e o envolvimento permitem novas oportunidades e aprendizados através de relações marcadas por cumplicidade e confiabilidade. Para tanto, as atividades desenvolvidas não foram elaboradas sem a criação de propostas ético-pedagógicas; por outro lado "mais do que o conteúdo a ser abordado e discutido, importa a possibilidade de desconstruir conceitos e preconceitos a respeito de si, do seu modo de estar no mundo, de se relacio nar com o outro e de compreender a realidade". Assim, valorizar o encontro em si, o momento de estar junto é importante e revelador: é na prática, na vivência com o grupo que novas ferramentas, recursos e estratégias podem ser repensadas e (re)criadas. Pautado na construção identitária como uma noção que é "construída, percebida, reconhecida ou afirmada por alguém, seja um indivíduo ou um grupo", o propósito maior dos encontros era fazer os jovens se reconhecerem, enfrentarem as tensões e forjarem os meios possíveis para isso. Assim, o jovem é tido como sujeito agente, sendo capaz de cuidar de si, no pleno sentido foucaultiano.

Dando continuidade ao encontro como momento de troca e formação e que permite a "emergência das subjetividades", o capítulo 5 o traz como espaço de experimentação e elaboração. O planejamento do "Protejo" teve seu momento teórico-conceitual, no qual a equipe lançou mão de discursos da psicanálise, das ciências sociais e da pedagogia, para auxiliar na formação do educador-facilitador no estabelecimento de vínculos com os jovens educandos, no sentido de estruturar e nortear a criação de espaços que permitam a construção de narrativas, de expressões de desejos e de anseios e que estimulem a possibilidade de sonharem a produção de novas realidades e a perspectiva de um "final feliz". Os autores tomam a obra de Winnicott para discutir a produção de sentidos e "permitir ao sujeito estabelecer conexões com sua vitalidade, imprimir seu estilo e definir seu self (...)".

O capítulo 6 traz as narrativas como tema principal e conclui a exposição feita pela equipe de gestores do Cepedoc. Por meio daquilo que veem e vivenciam em seus dia-a-dia, os jovens foram incentivados a construir narrativas questionadoras, desconstrutoras, significativas, transformadoras e construtoras de novos sentidos. As narrativas autobiográficas como método de trabalho serviu para acompanhar o processo de formação e transformação dos jovens, pois "ao realizar narrativas de sua própria vida o jovem apropria-se de sua história, numa perspectiva de autoformação, de construção de si". Como estratégia para estimular a participação do jovem como sujeito agente no projeto, de modo a "potencializar a capacidade [dos jovens] de interpelar o mundo - suas instituições, verdades e modos de viver", a pesquisa social foi empregada como metodologia de trabalho. Para nortear a construção desses relatos, a equipe do Protejo propôs temas (identidades, subjetividades, tolerância, culturas, promoção da saúde, pesquisa social, entre outros) que se ligavam com a realidade dos bairros onde os jovens moravam, com temáticas como território, urbanização e violência. Como os jovens veem onde vivem? O que pensam sobre o bairro e quais problemas são identificados e trazidos como preocupações ou inquietações legítimas?

Os resultados do Protejo foram diversos e ricos. Chama atenção a reflexão feita pelos jovens e educadores acerca dos processos de territorialidade, que traz a noção de pertencimento, e territorialização, que diz respeito às transformações no cenário urbano apontadas pelos jovens, norteada pelo conceito de território desenvolvido por Milton Santos. As narrativas em torno da identificação e compreensão dos espaços de lazer do bairro (ou da falta deles), do problema do lixo em terrenos e vias públicas evidenciam os sentidos e significados dados ao território.

Os capítulos 7 e 8 trazem os relatos de experiências dos oito educadores do projeto e dos jovens pesquisadores. As abordagens de trabalho e as estratégias usadas por cada educador carregam elementos importantes, aprendidos in loco, ao vivo, na prática. É interessante perceber em suas falas a abertura para mudanças na ação pedagógica empreendida inicialmente, com a sabedoria de não seguir à risca o planejamento ao lidar com imprevistos e com a criação de vínculos que não se dão em curto prazo. Cada grupo desenvolveu sua metodologia, suas abordagens e discussões, sem esquecer o objetivo principal de estimular a participação e a atuação do jovem dentro do grupo e fora dele.

Conclusivamente, o projeto desenvolveu assuntos variados, percorrendo desde a violência no ambiente escolar e doméstico, até a reflexão sobre as torcidas organizadas de futebol de grandes clubes paulistas, passando por investigações sobre o mercado profissional e o cuidado de si. Muitas delas relatam a não confirmação das hipóteses iniciais, como várias pesquisas científicas, porém todas destacam a descoberta de novos caminhos e olhares sobre o objeto em investigação, por se orientarem pela perspectiva da justiça social.

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