Ferreira J, Fleischer S, organizadoras. Etnografias em serviços de Saúde. Rio de Janeiro: Garamond; 2014.

Ferreira J, Fleischer S, organizadoras. Etnografias em serviços de Saúde. Rio de Janeiro: Garamond; 2014.

Autores:

José Miguel Rasia

ARTIGO ORIGINAL

Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão impressa ISSN 1414-3283versão On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.20 no.57 Botucatu abr./jun. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1807-57622015.0241

Etnografias em serviços de Saúde: desvendando laços e sentidos

Pensar a saúde e a doença é pensar o corpo, a ciência e a cultura. Pensar esses elementos é inscrevê-los em suas formas concretas, suas existências reais, seus modos de ser, suas dimensões vividas. É pensar a articulação, as determinações mútuas entre si. É das articulações entre corpo, ciência e cultura que trata o livro, articulações estas marcadas pelos estados de saúde ou doença de indivíduos concretos, vivendo cada um a seu modo e ancorado em seus limites; gente com nome próprio e histórias muito particulares. Estas questões, tão sensíveis e tão caras à Antropologia e à Sociologia da Saúde, abordadas neste livro é que o tornam importante para todos os que buscam compreendê-las.

Se nome próprio e histórias particulares são a marca dos estudos que compõem o livro, quem o habita são: os Ranulfos, as Solanges, as Áureas e os Gustavos. Nos estudos etnográficos aqui reunidos, os indivíduos são tomados em sua dimensão humana, concreta, diária. Não se trata de um discurso geral e generalizante sobre a saúde, a doença, o corpo, a cultura e a ciência; trata-se, sim, de pôr à descoberta indivíduos situados e suas histórias particulares, suas biografias, suas formas de ser. Esta é uma riqueza que somente a etnografia nos permite ter acesso. O livro é composto por etnografias primorosas, um exemplo de como se faz Antropologia na sua melhor expressão.

Sentir-se bem ou sentir-se mal não é uma condição que só a biomedicina permite identificar, nomear, classificar e tratar a partir de seus métodos, suas técnicas é, antes de tudo, uma condição que afeta o indivíduo em sua vida. Se os métodos da biomedicina, bem como sua intervenção são necessários para tratar ou manter o indivíduo bem, eles, porém, não são suficientes para compreendê-lo nas dimensões que estão para além do biológico, da possível intervenção e do discurso médicos. É da vida miúda, raiz de todo o bem e de o todo mal que o indivíduo possa experimentar, e de sua interlocução com a biomedicina em seus espaços e suas práticas, que trata o conjunto de etnografias selecionadas por Jaqueline Ferreira e Soraya Fleischer. É a busca pelo significado desses espaços e suas práticas o motivo dos estudos aqui reunidos.

Quando considero que são rigorosas as etnografias apresentadas, estou chamando atenção para o uso do método etnográfico em sua mais pura concepção e tradição. Etnografar não é tarefa fácil, e etnografar serviços de saúde é um desafio que poucos aceitam, dadas a situação e as condições que marcam o campo. A tensão, os conflitos, o poder, muitas vezes, afastam o pesquisador de objetos tão difíceis quanto sensíveis, como: a saúde e a doença, o sofrimento e a dor, encarnados no corpo do outro. Enfrentar a condição desse outro enquanto pesquisador, cobra deste último o preço de confrontar-se com a condição humana nos limites da alteridade.

Estranhar, reconhecer, tornar familiar, estranhar outra vez, é o movimento que marca os textos deste livro, ou seja, o método etnográfico revelado em sua plenitude. Neste sentido, é um livro não só para antropólogos e de antropólogos experientes, com forte domínio do método, mas, também, um livro para todos os que se interessam pelo humano e seus limites. É um livro que revela as exigências do método, as dificuldades e as tensões ao manejá-lo, mas escrito numa linguagem compreensível, revelando muitas vozes e feito a muitas mãos.

Para além do rigor do método, muitas são as contribuições para a compreensão da saúde, da doença e do corpo, por meio dos espaços, das práticas e, sobretudo, da relações entre os indivíduos nele considerados; do Prefácio de Cynthia Sarti ao texto final de Ruy Harayama, tudo nos desafia e transborda em rigor. O que importa aqui é, portanto, que, mesmo em situações e espaços muitas vezes estigmatizados ou considerados desimportantes para o trabalho científico – como o balcão da drogaria –, o que o etnógrafo nos ensina com seu ofício é que a dignidade de um objeto reside mais na sensibilidade do pesquisador e no correto uso do método do que em sua amplidão. É no ordinário que se revela, muitas vezes, a grandeza do objeto. A coisa miúda, corriqueira, quase despercebida ao olhar, é o melhor teste para o exercício da imaginação e do saber antropológicos. Dar dignidade ao que aparentemente é desprovido dela, exige o domínio do ofício: disposições, habilidades e o manejo de suas ferramentas e da matéria empírica.

Feitas essas observações, não gostaria de deixar passar em branco duas questões que me assaltam na leitura deste livro e, tantas vezes, relegadas nos estudos sobre serviços de saúde. Falo aqui da posição do etnógrafo e a relação deste com os indivíduos “doentes”, bem como com as equipes profissionais. O que se pode observar é a forma do tratamento dado aos espaços em que ocorrem as ações que têm como alvo aquele que necessita de algum tipo de cuidado. Nesse sentido, as etnografias apresentadas vão além da compreensão pura e simples das assimetrias estabelecidas entre “o doente” e o “profissional”; e, para além, portanto, da fórmula simplista que reduz o encontro desses indivíduos à tão desgastada relação saber-poder. Para além do micropoder que se constitui nestes locais, o etnógrafo pode revelar uma nova compreensão dos espaços terapêuticos e das interações ali vividas, desnuda, em sua plenitude, formas de sociabilidade e socialização. Pautam essas trocas as demandas de uns e de outros, o reconhecimento e a diferença entre indivíduos em posições distintas, assimétricas, porém, sempre em movimento pendular, como nos ensina Elias. Não se trata, portanto, de apagamento de diferenças ou de simples exercícios de poder, mas, sim, de reafirmação e reconhecimento do eu e do outro, da alteridade e do laço social. O mínimo gesto, a palavra aparentemente sem significado, inventada ao acaso nos espaços de tratamento psiquiátrico, o chiste na aula de ginástica, o rabisco e o desenho no papel ou no muro, nos falam de um movimento em direção ao outro. O gesto e a voz captados pelas etnografias nos mostram aqui estes espaços e as relações neles estabelecidas como lugares de busca de significação para si, para a vida; revelam-nos o humano.

Se falo acima de reconhecimento e do estabelecimento de laços, as etnografias apresentadas no livro nos permitem compreender – porque desvelam – os processos de socialização entre os que “habitam” os serviços de saúde. São claros e muito precisos os exemplos apresentados: do simples balcão da drogaria, onde pesquisadoras observam o atendimento de mulheres em busca de Contraceptivos de Emergência (CE), ao trabalho dos Médecins du Monde (MDM), em alguma rua de Paris, atendendo imigrantes clandestinos e moradores de rua. Sem esquecer, é claro, das mulheres etnografadas em preparação para o parto humanizado, os “doentes mentais” nos Centros de Atenção Psicossocial. Todos têm em comum a dimensão da sociabilidade, da relação entre humanos, em que pesem as condições sociais muitas vezes tão desiguais e adversas.

Em todas as situações estudadas, nos encontramos diante daquilo que Strauss expõe de forma simples, mas rigorosa: a “socialização na vida adulta”. Trata-se, assim, de pensar, com as etnografias apresentadas, que um projeto humano é sempre possível. E, dessa forma, partindo da sociabilidade em situações-limite, com identidades muitas vezes rompidas, o indivíduo caminha no sentido da socialização não só possível, mas desejada, e da reconstrução de si. Se a fragmentação do sujeito é ponto de partida na maioria dos trabalhos apresentados, produzir significados está na raiz das situações tomadas para estudo. Revelar estes significados é o que fazem as etnografias. Os limites da velhice, no estudo sobre uma academia de ginástica ao ar livre – também com muitos limites –, nos revelam a possibilidade a que me referi acima. Os velhos em movimento encarnam o desejo de nova vida, de mais vida, o desejo de reinventar-se para si e para o mundo. É assim com todas as etnografias bem construídas, desvendar o desejo pela reinvenção de si e do cotidiano para quem o vive e para quem o etnografa. E, por que não, para quem as lê?

Assim, Etnografias em Serviços de Saúde tece, com muita habilidade e rigor etnográfico, os meandros das vidas que atravessam os serviços de saúde. Aí reside sua importância, seu valor, ao testemunhar e dar voz a sujeitos emudecidos pela racionalidade científica que os relega à condição de indivíduos sem direito à alteridade.

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