Floriano de Lemos no Correio da Manhã, 1906-1965

Floriano de Lemos no Correio da Manhã, 1906-1965

Autores:

Raquel Discini de Campos

ARTIGO ORIGINAL

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.20 supl.1 Rio de Janeiro nov. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702013000400013

ABSTRACT

This article covers the life and work of Rio de Janeiro-born doctor and journalist, Floriano de Lemos, bringing to light his extensive output as a columnist in the Correio da Manhã newspaper, which had a significant impact on Brazilian history in the first half of the twentieth century. It presents recurring themes discussed by this intellectual – a figure who could be described as multifaceted and modern – as expressed in his column, “Scientific Chronicle”, published every Sunday in the newspaper’s literary supplement. It also analyzes Lemos’s career, highlighting its historical significance not just because of its singularities, but primarily for what it reveals about the intellectual culture at the time.

Key words: Floriano de Lemos (1885-1968); Correio da Manhã; intellectuals; Brazil

Nos dias 20 e 21 de novembro de 1968, o jornal carioca Correio da Manhã, à época um dos mais lidos do país, noticiava com destaque no Primeiro Caderno a morte e o sepultamento de um antigo colaborador: o “velho jornalista” e “grande figura do Rio”; “estimado professor” e “reconhecido médico” Floriano de Lemos.

A história dessa “grande figura” se misturava tanto à vida cultural da cidade quanto à trajetória daquele jornal. Justamente por isso, o cortejo fúnebre, acompanhado por grande número de pessoas até o cemitério do Caju, foi perpetuado por meio de fotografia e texto, em espaço de destaque na diagramação. 1

Floriano fazia parte do corpo de redatores desde 1906. No entanto, a partir de 1938, além de ser contratado como médico da empresa jornalística da família Bittencourt, passou a escrever uma coluna fixa, intitulada inicialmente “Boletim científico” e posteriormente “Crônica científica”, no prestigiado Suplemento que circulava aos domingos.

Para vislumbrar a importância desse caderno na vida cultural brasileira ao longo do século XX, basta lembrar que estiveram ao lado de Lemos intelectuais do porte de José Veríssimo, Álvaro Lins, Aurélio Buarque de Holanda, Graciliano Ramos, Otto Maria Carpeaux, Carlos Drummond de Andrade, Luiz Edmundo, Antônio Callado e muitos outros.

Não por acaso, Oswald de Andrade escolheu o Correio para publicar o seu Manifesto da poesia pau-brasil, em 1924. Se o objetivo do modernista/polemista era o de ser lido pelos grupos urbanos que então se consolidavam, e, além disso, causar impacto no maior número possível de leitores, nada mais útil do que as páginas desse jornal.

A respeito da importância do Correio na vida cultural brasileira ao longo do século XX, o jornalista Ruy Castro relembra em texto publicado originalmente n’O Estado de S.Paulo:

O Correio da Manhã protagonizou na imprensa brasileira uma história gloriosa, começada no dia 15 de junho de 1901. Uma história que, durante boa parte dos 74 anos seguintes, iria alterar várias vezes a vida política do país, inspirar a vocação de milhares de jornalistas e dar aulas diárias de como fazer jornal. Era um jornal do Rio, que o país inteiro lia ... Tornei-me jornalista por causa do Correio da Manhã. Era o jornal em que, desde as calças curtas, eu sonhava em trabalhar (Castro, 9 jun. 2001).

Com uma trajetória que se misturou à própria história brasileira do século XX, o Correio se estruturou como um periódico de longa tradição legalista, desde a fundação, em 1901, por Edmundo Bittencourt. 2 Em 1924, foi fechado por longo período pelo governo de Arthur Bernardes, por fazer-lhe oposição. Apoiou Getúlio Vargas em 1930, mas o combateu ao longo do Estado Novo, colaborando decisivamente para o fim daquele governo em 1945. Apoiou a posse de Juscelino Kubitschek contra a União Democrática Nacional, passando, logo em seguida, para a oposição. O mesmo aconteceu com relação a João Goulart e aos militares que o depuseram: todos foram alvo de ferrenhas críticas editoriais.

Castro (9 jun. 2001) relembra a força política do Correio da Manhã, afirmando que ouvia dizer, desde menino, que o cargo de redator-chefe tinha o peso de um ministério. Leal (s.d.) assegura, por sua vez, que a ‘ortografia da casa’ foi estruturada a partir do mais autêntico liberalismo político. Um liberalismo que justificava o célebre legalismo do jornal, levando-o “alternadamente à oposição e à situação, ainda que, mesmo em defesa do governo, mantivesse sempre uma posição crítica”. Da fundação ao fechamento definitivo, podemos identificar quatro fases do jornal. Primeira fase: de 1901 a 1929. O Correio nasce pelas mãos de Edmundo Bittencourt juntamente com a Nova República. Caracteriza-se por ser um ‘jornal de opinião’, contrário à República oligárquica. No entanto, em sua redação, convivem colaboradores de diferentes opções políticas, monarquistas incluídos. Uma das mais famosas exceções é Lima Barreto, desafeto declarado do proprietário do jornal – a quem, aliás, o autor dedicou parágrafos ácidos no romance Recordações do escrivão Isaías Caminha. Segunda fase: de 1929 a 1963. Paulo Bittencourt, filho de Edmundo, assume a direção, em que permanece por décadas. Período áureo do Correio. Terceira fase: de 1963 a 1968. Com a morte de Paulo Bittencourt, Niomar Muniz Sodré Bittencourt, segunda mulher de Paulo, passa a comandar o jornal. Início do fim. Quarta fase: de 1968 a 1975. Niomar, juntamente com outros membros da direção, é presa no Rio de Janeiro em 1969. Com a grave crise financeira pela qual passa o jornal, em função de sua evidente oposição à ditadura militar, dá-se seu arrendamento por um grupo de empresários ligados a Maurício Nunes de Alencar. Pela primeira vez na sua história, o jornal defende uma posição governista oficial: a da ditadura militar.

Ironicamente, o acidente vascular cerebral que matou Floriano de Lemos já em idade avançada (ele tinha na época 83 anos) e deixou entristecida parte da intelectualidade e da boemia da capital, também o poupou de assistir às cenas derradeiras da lenta e trágica agonia do jornal, iniciada com o golpe militar de 1964 e potencializada com a institucionalização do AI-5, em 1968.

Ainda conforme relato do jornalista Ruy Castro, empregado do jornal no período em questão, bastou que o fim dos direitos constitucionais dos brasileiros fosse comunicado pelos militares, via televisão, para que os agentes da Delegacia de Ordem Política e Social, vizinha da redação, andassem poucos metros e dessem continuidade ao desmonte do jornal, colocando-o sob forte censura.

Mas o desmantelamento já havia sido encetado violentamente uma semana antes do anúncio do AI-5, quando a explosão de uma bomba levou pelos ares a agência de anúncios. A explosão anunciou de forma estrondosa os tempos de silenciamento sombrio que de fato vieram.

A explosão foi tão forte que arrancou vidraças, lambris, mármores e esquadrias de lojas e escritórios em dez andares do prédio. Três toneladas de vidro caíram na calçada da Rio Branco. No solo da agência, totalmente destruída, a bomba abriu uma cratera de mais de um metro de diâmetro, revelando até os ferros da laje. Quem quer que a tenha posto, sabia o que queria: impedir que o jornal continuasse respirando pelos classificados. Isto porque o grosso da publicidade já se reduzira a zero: o governo federal cortara a sua e pressionava os empresários para que não anunciassem no Correio da Manhã. Queriam silenciá-lo por asfixia (Castro, 9 jun. 2001).

O golpe derradeiro se deu em 1975, por meio de um melancólico leilão. Máquinas, móveis e parte do acervo que havia sobrevivido às chamas da explosão de 1968 – e à grave crise financeira que sobreveio em função da queda de anúncios e diminuição dos leitores – foram postos à venda. O Correio fora, enfim, emudecido.

Da mesma forma que a extinção de um jornal desse porte representava os momentos difíceis pelos quais passava a imprensa livre no Brasil em tempos de ditadura militar, a morte de Floriano de Lemos, um de seus mais fiéis e assíduos colaboradores, também simbolizava o fenecimento de um tipo de intelectual característico da virada do século XIX para o XX, e cada vez mais raro nas décadas que se seguiram: o pensador polivalente, erudito e autodidata.

Assim era Floriano de Lemos, o velho que morria em 1968, juntamente com o jornal. Um intelectual marcado por uma atuação multifacetada na vida pública, como médico, jornalista e educador. Um sujeito que acreditava poder reformar não só o país, mas o próprio brasileiro, por intermédio de seus escritos na imprensa periódica. Um homem das letras e um cientista viajante – ou um moderno descobridor do Brasil – que percorreu as estradas nacionais com um olhar ao mesmo tempo curioso e antropológico.

Salienta-se que a noção de sujeito levada em conta neste estudo diz respeito tanto ao sujeito tecido na linguagem, no caso, o discurso do jornal, como ao sujeito instalado na história, posto que se configura como reflexo e refração do que se dá como acontecimento do tempo contextualizado na própria obra. Se falamos em reflexo, pensamos não em espelhamento do que acontece ‘lá fora’, naquilo que está escrito, mas em um sujeito que, como sistema de crenças e aspirações sociais, responde a discursos contemporâneos, anteriores e até posteriores aos seus, nas relações dialógicas que constituem esse mesmo sujeito, do que resulta a refração do que é dado como acontecido ‘lá fora’ do texto (Bakhtin, 1988; Discini, 2003).

Floriano, por meio de um discurso com inclinação para se instalar no campo da educação, procurava persuadir o leitor, levando em conta a mudança do comportamento desse leitor, conforme ideais compartilhados pelos intelectuais de seu tempo.

As páginas do Correio da Manhã contam sobre esse sujeito (representativo da cultura intelectual de um dado tempo), sobre esse momento (a primeira metade do século XX) e este lugar (um país chamado Brasil).

Itinerário formativo e profissional

Lemos só passou a frequentar oficialmente a escola em 1900, quando já era adolescente. Foi alfabetizado em casa, com a ajuda de parentes, pois, em idade escolar, foi proibido de cursar o primário por recomendação médica, em função de um grave problema ocular. Aos 14 anos ingressou no colégio Paula Freitas, propriedade do famoso engenheiro e professor da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, Alfredo de Paula Freitas. Naquele mesmo ano, o ginásio fora equiparado ao Pedro II, adquirindo o direito de receber as juntas examinadoras oficiais ao final do período letivo para encaminhar os alunos aprovados nos exames para os cursos superiores existentes no país. Naquele espaço, Floriano realizou o curso preparatório e os exames parcelados. De lá, partiu para o ensino superior, em 1904.

Em um tempo em que as instituições de formação de médicos eram relativamente raras, Floriano de Lemos graduou-se, em 1908, e lecionou, entre 1908 e 1914, justamente na mais prestigiada delas: a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Essa escola, juntamente com a Faculdade de Medicina da Bahia, foi uma das primeiras a existir no Brasil, e sua fundação remonta aos tempos coloniais.

Entretanto, anteriormente ao período de formação como médico, já emergia em nosso personagem um traço biográfico particularizante que é, também, coletivo: a heterogeneidade de interesses e a diversificada atuação na vida pública. Tal característica revela muito sobre a geração de intelectuais da qual ele fazia parte.

Membro da classe média urbana carioca, que então se consolidava, Lemos se aproximou também do teatro, da literatura, da música popular e, sobretudo, da imprensa. Se inegavelmente ele trazia em si a marca do especialista em puericultura e ginecologia, sem dúvida, ao longo da vida, ainda circulou com habilidade por outras áreas de conhecimento.

A esse respeito, vale salientar, juntamente com Miceli (2001) e Sevcenko (1999), que Floriano de Lemos foi um intelectual polígrafo, ou seja, que atuou de forma híbrida no espaço cultural brasileiro da primeira metade do século XX. Além de jornalista do Correio, foi também conferencista, cronista, declamador, poeta, dramaturgo, músico, inspetor escolar e professor. Na juventude, fez parte da primeira geração de intelectuais assalariados que transformou o jornalismo em atividade regular que lhes proporcionava renda fixa.

Muitos dos que pertenceram a essa geração chegaram, aliás, a elaborar sonetos para publicidade, como foi o caso, por exemplo, de Olavo Bilac, que ajudou a vender fósforos; Emílio de Menezes, que propagou as qualidades das cervejas nos impressos cariocas; ou Hermes Fontes, que fez propaganda de xaropes (Miceli, 2001).

Sevcenko chamou os polígrafos também de assimilados, em oposição aos engajados da geração de 1870, pois com a proclamação da República eles se inseriram com desenvoltura na nova ordem estabelecida, transformando-se, por meio da atuação na imprensa, em espécie de guias do gosto do público urbano. Uns mais, outros menos, obtiveram inegável sucesso e prestígio social. Esse foi o caso, por exemplo, de Coelho Neto e Olegário Mariano, colegas de redação de Floriano no Correio, de Afrânio Peixoto, que, além de amigo, prefaciou o livro de contos Páginas vivas, escrito por Lemos em 1911, e de Jônatas Serrano, companheiro de infância do autor que, vez ou outra, era citado em suas crônicas memorialísticas.

Conforme nomeou Gomes (2010, p.12), os polígrafos moveram-se “entre as fronteiras fluidas de diversos campos disciplinares”, produzindo “tanto bens culturais que se servem de suportes duradouros e valorizados (basicamente livros), como um conjunto de outros produtos, que eram difundidos em suportes ‘efêmeros’, até hoje pouco considerados pela academia (discurso, artigos de jornais e revistas, etc).”

O próprio Floriano de Lemos, já idoso, em crônica intitulada “A vida que levei”, de finais de 1958, se identificava como um escritor “polígrafo” e “enciclopedista”, recuperando o sentido original deste último termo, relacionado a sua prática jornalística, tanto à tentativa de abranger todos os ramos do conhecimento quanto ao intuito de esclarecer e instruir o leitor em relação a uma grande variedade de assuntos. Aqui interessa observar, especialmente, que o autor se identifica como um dos derradeiros ‘abencerragens’ que, conforme indica o Dicionário Houaiss da língua portuguesa (Houaiss, 2009), denota o “último defensor, o derradeiro paladino”. Tal adjetivação deriva do sinônimo abencerrage, “linhagem moura que dominou Granada no século XV”.

Felizmente, no mundo do jornalismo e das letras, ainda florescem alguns abencerragens. O caso mais brilhante é Luiz Edmundo, meu colega e companheiro, além de cliente, vai para meio século... Na redação do Correio, quase todos os velhos companheiros foram substituídos, mas o Silva Pinto, que ainda é da fundação do jornal, aí está como outrora, consolando-me no seguinte: uma certa melancolia deve assaltar-me o espírito nas horas em que preciso pedir a alguém, com a necessária intimidade, que me ajude naquilo que não sei ou não tenho... E agora calcule-se o que isso é, quando tive em moço, na imprensa, a mania de ser polígrafo ou enciclopedista... (Bem feito!) E eis que, embora não aceite facilmente que “estou na fila”, não posso deixar de sentir profundamente a odisseia de quem já muito viveu (Lemos, 9 out. 1958). 3

Mas se Floriano se via como um enciclopedista que procurava a tudo abarcar e a todos educar; ou como um dos últimos abencerragens quase sem interlocutores no fim da vida; ele também foi, concomitantemente, um intelectual moderno. Integrou diversos movimentos associativos defendendo a distinção do campo médico em relação às outras áreas da saúde, particularmente da farmácia. Combateu, por intermédio de suas crônicas e artigos, a falta de normatização do campo, observada principalmente nas viagens que empreendeu pelo interior do país nas décadas de 1910 e 1920, tempo em que atestava ser rotineira a atuação de curandeiros, charlatães e parteiras sem habilitação junto aos habitantes dos estados do Mato Grosso, São Paulo e Minas Gerais.

Entre os anos de 1913 e 1914, e 1924 e 1925, morou em Minas Gerais. Naquele estado, além de trabalhar como médico e professor ginasial, também fundou o Jornal de Caxambu (1913) e dirigiu a Revista de Caxambu (1924). Entre 1917 e 1920, viajou pelo interior do Mato Grosso, fixando residência em Cuiabá. Lá, atuou como médico, mas foi também diretor da tipografia oficial e inspetor federal de ensino. De 1926 a 1930, fixou residência no interior do estado de São Paulo. No noroeste paulista, transformou-se, em curto espaço de tempo, em uma das figuras públicas mais atuantes da vida cultural da região, fundando jornais como A Cultura, em São José do Rio Preto, e participando ativamente, ora como colaborador fixo, ora como editor, dos periódicos A Noticia e O Municipio, editados naquela cidade (Campos, 2011a, 2011b).

Da mesma forma que fazia a defesa da técnica e da especialização médica – prática característica dos autointitulados modernos cientistas – também se envolveu em projetos políticos e científicos relacionados tanto à sua área de formação, a medicina, quanto às suas especialidades, a puericultura e a ginecologia. A esse respeito, Herchmann e Pereira (1994, p.20) indicaram que o discurso dos cientistas modernos, oriundo de um saber que se especializava nas primeiras décadas republicanas, harmonizou-se “perfeitamente com os interesses da camada dominante (industrial e agroexportadora), legitimando a intervenção autoritária do Estado junto à sociedade”. Não foi à toa que Floriano ocupou cargos de projeção tanto no Mato Grosso quanto em São Paulo.

Fundou e dirigiu, em 1926, a Sociedade de Medicina e Cirurgia de São José do Rio Preto, por exemplo, entidade da qual emanavam as mais importantes políticas públicas de saneamento de toda a região noroeste paulista. Na imprensa, mobilizou os conhecimentos produzidos no campo médico para sustentar, como era comum entre seus pares, ações de intervenção social junto à população, como as campanhas de vacinação, aleitamento materno, controle epidêmico, assistência e proteção à infância, entre outras (Campos, 2004, 2009, 2011a, 2011b).

No entanto, independentemente das classificações generalizantes de intelectual polígrafo ou de cientista moderno – as generalizações são sempre imperfeitas, bem sabemos –, interessa destacar que Lemos foi um importante mediador cultural da primeira metade do século XX. Esteve no limiar entre a esfera jornalística da comunicação, da ciência e da educação. Foi um indivíduo que atuou tanto no centro político, econômico e cultural do país na primeira metade do século XX, o Rio de Janeiro, quanto nos sertões do Mato Grosso, São Paulo e Minas Gerais. É um personagem que, a partir de um microuniverso de experiências, nos remete a problematizações amplas, que envolvem as contradições de um tempo e de um lócus representativos das relações entre sujeitos e o mundo em certo tempo de nossa história.

Na referida crônica publicada em 1958, cheia de reminiscências sobre os tempos de juventude, ele elencava os falecidos parceiros da imprensa, da música (particularmente do choro), da botânica e da pediatria. Bem poderiam figurar em tais lembranças outros atores depreensíveis da biografia de Floriano: os companheiros do teatro, das sociedades médicas, dos ginásios, grupos escolares e diversos outros espaços pelos quais circulou Brasil afora.

Quando eu decifrava charadas ainda menino, achei em Jônatas Serrano, também menino, meu vizinho de casa e também fanático dos livros, um perfeito companheiro; assinava seus versos e quebra-cabeças com o pseudônimo de Petrus, como eu usava o de Bizô. Hoje, vive apenas em saudade. Os compositores de música popular, como Aurélio Cavalcanti, Garcia Cristo e tantos outros, dormem há muito o eterno sono. Na ciência das plantas, o último que me deixou foi o professor Kuhlmann. Na medicina infantil, adeus Fernandes Figueira e Nascimento Gurgel... E quando mais tarde me adensei com todo o amor pela criminologia, tive sempre ao meu lado as figuras de Evaristo de Morais e de Magarinos Torres, ambos tão cedo afastados para sempre do meu convívio... (Lemos, 9 out. 1958). 4

Como demonstrado por Oliveira (1990); Gomes (2010) e outros historiadores brasileiros, a onipresença no espaço público dos membros da geração de Floriano de Lemos, nascida em finais do XIX, se fez sentir, principalmente, por meio da atuação na imprensa periódica, da ocupação de cargos políticos e da fundação de associações científicas. Floriano relembrava, já no final da vida, sua performance híbrida como médico e homem de imprensa, ao relatar reportagem feita, no início de sua carreira de médico/jornalista, nos idos de 1908, com Oswaldo Cruz:

Indo eu, em 1908, fazer uma reportagem em Manguinhos para publicar o que pensava o diretor de Saúde Pública sobre a epidemia que assolava o Rio de Janeiro naquela época, ouvi de Oswaldo Cruz apenas isto:

– ‘Só tem varíola quem quer’. Assim, havendo a vacina de Jenner 5 à disposição do público, não se compreende que alguém ainda contraia uma enfermidade tão fácil de ser evitada (Lemos, 9 fev. 1964, destaques no original).

Neves (2010) destaca alguns membros famosos daquela geração; uns mais, outros menos reconhecidos na contemporaneidade. Médicos, como Oswaldo Cruz, Carlos Chagas e Afrânio Peixoto; engenheiros como Lauro Müller e Paulo de Frontin; literatos e folcloristas como Mário de Andrade e Câmara Cascudo. A eles poderíamos acrescentar, ainda, Monteiro Lobato e Edgard Roquette-Pinto, entre outros (Luca, 1996; Lima, Sá, 2008).

Sobre as práticas comuns a esses intelectuais, que atuaram decisivamente na vida cultural brasileira do século XX, Neves (2010, p.34) indica:

A ação desses cientistas, que a historiografia recente, sensível à autorrepresentação desses agentes e ao horizonte de sentido que imprimem à ciência que fazem, já denominou de missionários do progresso, tão polifônica quanto são diferentes os lugares políticos e ideológicos ocupados por cada um deles, apresenta, no entanto, alguns denominadores comuns expressivos, entre os quais certa tendência à onipresença em múltiplas trincheiras intelectuais, e à proximidade ou mesmo à identificação com as estruturas do Estado.

No entanto, diferentemente do que acontecia com muitos dos seus pares, parte oriunda de antigas ou emergentes famílias abastadas de todo o país, que acorriam à capital, a fim de estudar medicina, Lemos precisava trabalhar para pagar os estudos. O pai, Zeferino José da Silva Lemos, era professor ginasial no Rio de Janeiro. Apesar do prestígio social usufruído pelos professores do ensino secundário no período, os que se dedicavam apenas a essa função não eram ricos, pelo contrário. Por isso, Lemos acabou sendo criado pelos padrinhos, Antonio Cardoso e Maria Cândida. Não obstante, os irmãos se tornaram médico otorrinolaringologista (Eurico Ernesto); funcionário da Central do Brasil e do Ministério da Saúde (José Augusto, João Baptista); militar (Caio Graccho) e advogado (Pedro Paulo).

No caso de Floriano, enquanto era jovem estudante, além de futuro médico e jornalista, tornou-se, também, músico e compositor profissional da noite carioca, tocando piano em bares, cafés, clubes e grêmios da cidade. Em crônica intitulada “A ciência do samba” relembrava: “Na minha meninice dediquei-me muito à música. Fiz mesmo profissão de pianista, que só deixei quando entrei a lecionar na Faculdade de Medicina e a escrever no Correio da Manhã” (Lemos, 20 nov. 1943). 6

Luiz Edmundo, em suas famosas memórias sobre a boemia carioca do início do século XX, relembra em O Rio de Janeiro do meu tempo que, nos bares da Lapa, antes do processo de ‘regeneração’ pelo qual o (mal) afamado bairro passaria nas décadas posteriores, os pianistas em ação, entre um trago e outro, tocavam entusiasticamente uma “valsinha de Aurélio Cavalcante, uma schotisch do jovem Floriano de Lemos, um maxixe de Ernesto Nazareth ou uma polkinha de Francisca Gonzaga” (Edmundo, 1938, p.496). 7 O mesmo autor nos dá pistas sobre o ambiente boêmio ao qual ele e Lemos pertenceram nos tempos de juventude:

Quem acreditará que o Rio de Janeiro do começo do século teve uma vida noturna, relativamente muito mais ativa, muito mais ruidosa e, sobretudo, muito mais alegre que a de nossos dias? ... Não nos faltavam, pelo tempo, excelentes espetáculos em teatros, em music halls, em restaurantes e outros lugares públicos de reunião e convívio, com música, com alegria, com mulheres. Somente, por essas noites de espairecimento e alívio, em qualquer desses lugares, diga-se de passagem, bebia-se muito, bebia-se demais, bebia-se como talvez não haja ideia de se haver bebido no Brasil. Bebia-se pelas compoteiras! No calor, para refrescar, no frio para aquecer... (Edmundo, 1938, p.417).

Luiz Edmundo referia-se a um tempo em que parte significativa do Brasil, e em especial o Rio de Janeiro, passava por um amplo processo de transformações de toda ordem, iniciadas com o advento da República, em 1889, e que se multiplicaram de maneira frenética em diversos rincões do país, mas especialmente na “capital do arrivismo”, o Rio de Janeiro daqueles tempos, conforme nomeada pelo historiador Nicolau Sevcenko (1999).

O padrão burguês argentário se difundia pela antiga cidade, enquanto fortunas mudavam de mãos rapidamente e novos cargos surgiam na administração pública. Não apenas as ruas, mas toda a arquitetura urbana passava por um processo de remodelação. Conforme indicam as pesquisas dedicadas ao tema, as transformações ocorridas no espaço urbano, com a edificação de parques, praças, teatros, ruas largas, avenidas e prédios monumentais, buscavam difundir o conjunto de valores e modelos que então se procurava disseminar, sobretudo via imprensa, como ideais para a construção de uma nova sociedade. Para Herschmann e Pereira (1994, p.27):

A cidade, com sua organização físico-espacial, seus rituais de ‘progresso’ – como nos casos das exposições nacionais e internacionais – passa a ter um caráter pedagógico. Torna-se símbolo por excelência de um tempo de aprendizagem, de internalização de modelos. Assim, quando estes especialistas-cientistas se propunham a reformar, a organizar, mesmo que em nível superficial, a esperança que tinham era de que essa projeção externa, pública, citadina, pudesse atingir e orientar os indivíduos (destaque no original).

O carnaval se reconfigurava, após a desclassificação do popular entrudo e a valorização do carnaval de Veneza, conforme demonstrado por Sevcenko (1999). As referências a Paris se disseminavam, sobretudo por meio da imprensa de variedades, da qual Floriano de Lemos e Luiz Edmundo eram importantes artífices. Costa e Schwarcz (2000) identificam como símbolo desses novos tempos a avenida Central, no Rio de Janeiro, repentinamente reurbanizada conforme modelo francês e transformada em verdadeiro cartão-postal nacional.

Lá estavam as novas edificações erigidas sob fachadas art nouveau e adornadas com mármores e cristais. Lá estavam também os modernos lampiões abastecidos com luz elétrica, onde antes havia casebres e cortiços.

Assim o cosmopolitismo chic e smart da emergente burguesia urbana triunfava – às vezes violentamente, como verificado no episódio da Revolta da Vacina (1904) – sobre a tradição. Em tempos de vitória da modernidade na “capital do arrivismo”, os pianistas da memória de Luiz Edmundo, aqueles que tocavam schotisch enquanto bebiam e fumavam noite adentro, deveriam dar lugar aos que tocavam música clássica no Theatro Municipal, trajando meio-fraque.

Nesse vórtice de transformações de toda ordem, o jovem médico recém-formado galgou postos nas prestigiosas instituições científicas que então nasciam ou se consolidavam, indo muito além da boemia. Ele se transformou em um homem que circulava com desenvoltura pelos múltiplos espaços científicos recém-abertos para a intelectualidade de então.

Em 1909, recém-formado, já era membro efetivo da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, instituição cuja revista editava e cujo museu dirigia. A sociedade localizava-se na capital, mas serviu de modelo para outras agremiações de medicina que naqueles tempos também se disseminaram pelos diversos estados brasileiros. Elas buscavam ampliar as ações de seus associados para além do mundo acadêmico, estimulando o comprometimento de seus profissionais nas questões políticas e de saúde pública (Ferreira, Maio, Azevedo, 1997). Assim foi com a Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, à qual Lemos também se integrou em 1911, tornando-se membro correspondente em 1912. O mesmo sucedeu com a Sociedade de Medicina e Cirurgia de São José do Rio Preto (SP), idealizada e fundada por ele em 1926, quando lá residia. Nesses espaços de aglutinação de pessoas e elaboração de políticas públicas, era ainda produzida, debatida e divulgada a nascente produção científica brasileira (Teixeira, 2001).

A historiografia nacional vem mostrando, nos últimos anos, o quanto tais espaços de convivência e de produção foram importantes para a edificação da imagem dos intelectuais brasileiros das primeiras décadas do século XX como cientistas cuja missão era a de auxiliar o país, por meio do monopólio da razão, a superar as suas contingências históricas e culturais (Schwarcz, 1993; Neves, 2010). Neles, os especialistas criam agir em nome do bem comum, formulando perguntas e dando respostas aos mais diferentes dilemas que se apresentavam.

Além da participação efetiva nas sociedades aqui referidas, Lemos também foi membro da Academia Nacional de Medicina a partir de 1919, da qual se tornou sócio emérito em 1944. Destaca-se que, diferentemente da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, a Academia Nacional de Medicina exigia “uma referência institucional importante e uma atuação pública reconhecida como condições para ingressar no quadro de associados” (conforme verbete “Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro”, no 13).

Nos anos 1920, ainda compôs os quadros da Sociedade Brasileira de Pediatria, fundada em 1910 na sede da Academia Nacional de Medicina. Foi também professor de clínica propedêutica, na Faculdade de Medicina Homeopática do Rio de Janeiro, e de medicina legal, na Faculdade Livre de Direito, nas décadas de 1930 e 1940.

Nos tempos do Correio

Michel de Certeau (1988) lembrou que a prática historiográfica caracteriza-se pelo deslocamento e produção de fontes. O historiador isola e rearticula fragmentos do vivido, montando uma nova série inteligível de vestígios. Inaugura sua ação não apenas dando voz a materiais antes adormecidos, mas fazendo falar aquilo de que não se espera ouvir a voz.

A operação histórica se dá nesse deslocamento. “O historiador trabalha sobre um material para transformá-lo em história”, advertiu o pensador francês (Certeau, 1988, p.29). Manipulando vestígios do passado, sob a obediência às regras compartilhadas pelo campo, o historiador compõe sua narrativa.

Assim vimos fazendo com a farta produção de Floriano de Lemos no Correio da Manhã. Por quase sessenta anos, nosso intelectual escreveu naquele jornal. Suas crônicas foram por nós mapeadas, organizadas e selecionadas por temas. Buscamos, especialmente, dar sentido a essas crônicas – o que significa tentar empreender a ‘operação historiográfica’ nomeada por Michel de Certeau.

Como já observado, as crônicas eram publicadas quase todos os domingos, no Suplemento do Correio. Como gênero narrativo, elas formavam um híbrido entre literatura e informação, entre memória e história, entre análise de fatos cotidianos e relatos de viagem. Nelas se misturavam tanto o dia a dia do Rio de Janeiro quanto o presente/passado do autor. Ali se combinavam as visões de mundo de Floriano, de seus pares intelectuais e dos próprios leitores dominicais.

Partindo do pressuposto de que os escritos são, ao mesmo tempo, literatura, informação e fonte sobre um dado período, acreditando que tais escritos podem iluminar fragmentos da cultura intelectual do século XX, fizemos um agrupamento em torno dos temas mais recorrentes.

Relatos de viagens e história da medicina

Como Lemos se formou na capital, mas atuou como médico e jornalista nos estados de Mato Grosso, Minas Gerais e São Paulo até os anos 1930, proliferam os relatos sobre sua passagem pelo interior do país nas décadas de 1910 e 1920, período de verdadeiro redescobrimento do Brasil, conforme indicaram Oliveira (1990); Luca (1996); Gomes (2010) e outros.

Sabemos que, no período em questão, o liberalismo político, que facilitaria a inserção do Brasil no complexo arranjo econômico e político internacional, esbarrava nas próprias limitações da estrutura oligárquica emergente pós-proclamação. Destacavam-se, notadamente, o analfabetismo generalizado e a falta de uma estrutura educacional que respondesse ao enorme desafio posto à nação – o de escolarizar a vasta população –, dificultando, sobremaneira, o processo de reconstrução do Brasil nos moldes imaginados por aqueles que, assim como Floriano de Lemos, sonhavam com um país diferente: mais educado, culto e saudável, se comparado com o existente até então.

Especialmente por isso, nas crônicas sobre o sertão, espaço distante das cidades e tido como antítese do progresso verificado nas capitais, emerge a contradição entre as expectativas sonhadas pela geração de Floriano e a realidade cotidiana, marcada por carências de toda ordem.

Tais crônicas se caracterizam como relatos de verdadeiras aventuras antropológicas em meio a uma espécie de ‘Brasil profundo’ onde o homem de ciência, nascido e criado na capital, obrigatoriamente se deparava com um universo tão longínquo e tão real.

Era pela manhã, cedo. Vindo da usina, em canoa, saltei mais ou menos na barra do Aricá, a fim de começar a jornada por terra cerca de 15 léguas, quando cinco homens postados à margem do rio Cuiabá, me pediram para ver um doente numa casinha de telha, erguida em meio a uma colina distante uns 50 metros. Fui. Entrei na casa. E só nesse passo pude certificar-me de que não se tratava senão de uma cilada do proprietário daquelas terras, o qual me devia uma conta, e, sabendo que eu ia passar por ali, mandou seus camaradas arrancar-me o recibo de quitação da dívida. Com efeito, fechada a porta, logo após o meu ingresso na choça, o chefe do grupo mostrou-me um papel escrito à máquina e estampilhado, e disse estas palavras: Assina ou morre! (Lemos, 13 jun. 1954).

Ao mesmo tempo em que proliferam nos textos de Floriano assuntos tão espinhosos quanto o ‘mal do analfabetismo’ ou o ‘cancro das desigualdades sociais’, deparamo-nos com a celebração ininterrupta dos signos da modernização em curso, principalmente na cidade do Rio de Janeiro: teatros, bares, cafés, luz elétrica, bondes etc.

As ferrovias e locomotivas que cortavam o território nacional de ponta a ponta, a eletricidade que iniciava seu império também pelos confins do país, a socialização do uso dos automóveis, a expansão da moda dos motores a combustão e dos aviões, todos esses eram ineditismos sempre presentes nos textos do nosso cronista.

Estou muito habituado com a clínica do sertão. Logo que me formei passei uns tempos no interior de Minas, onde de dia e de noite vivia sobre o lombo de cavalos, no desempenho do meu ministério. Mais tarde, no hinterland paulista, comia a extensão das estradas em automóveis, atendendo a chamados não raro a horas mortas (Lemos, 18 ago. 1946).

História da ciência e da sua institucionalização

Sem dúvida, um dos aspectos mais interessantes da obra de Lemos reside nas reflexões sobre os espaços de produção e divulgação científica pelos quais passou; e também nas histórias sobre os personagens com os quais interagiu. As faculdades, particularmente as de medicina e direito do Rio de Janeiro, os alunos e professores, bem como as agremiações médicas, têm o seu cotidiano dos anos de 1910, 1920 e 1930 narrados pelo autor.

Em crônica publicada pelo Correio, em 1948, ano em que comemorava, juntamente com os amigos de faculdade, quarenta anos de formatura, encontramos pistas sobre seu itinerário de formação; um percurso, acima de tudo, afetivo.

Mais do que notar a identificação, tão comum desde aqueles tempos e além, do médico ao mártir que sacrifica a própria vida em nome da medicina, e deste campo de saber a uma espécie de sacerdócio que mistura arte e ciência, evidencia-se no excerto a seguir a sensibilidade do aluno em relação aos professores nos tempos de graduação.

Tivemos Mestres que nos ensinaram os princípios da togada ciência e da arte divina de sedar as dores alheias. Alguns deles deixaram em nossos espíritos lições que devem ter influído decisivamente no modo pelo qual amamos e pudemos exercer dignamente a nossa tarefa generosa, através de todos os obstáculos da jornada. Quero dizer, da minha parte, que três grandes luminares da medicina, mais do que os outros, constelaram para todo o sempre a minha psique de adolescente, contribuindo desse modo para a formação da minha mentalidade médica. Foram Pizarro, Rocha Faria e Moura Brasil ...

Pizarro sabia tudo. E sabia em aula dizer as suas lições como ninguém: claro, elegante, cheio de verve, como se não fosse um velho de cabeça prateada. Cada preleção sua valia por uma página de enciclopédia. Falava para pensar, em vez de pensar para falar – e o que dizia encantava, de surpresa em surpresa, o mais exigente auditório. Memória estupenda, eloquência espontânea, erudição genial – tal a fórmula que os discípulos davam para a estruturação daquela cabeça privilegiada de expositor. Fui seu aluno durante não um ano, mas todo o tempo que ele viveu enquanto cursei a faculdade – a velha faculdade da rua da Misericórdia. Tornei-me livre-docente da sua cadeira desde 1904. Mas nunca foi essa cátedra a concurso. A reforma de 1911 deu-a a outro professor ...

Rocha Faria foi, na expressão de Miguel Couto, a maior envergadura clínica do Brasil no seu tempo. Ninguém jamais examinou um doente, no hospital ou em domicílio, com maior dignidade e competência. Ninguém jamais encarou o caso clínico com mais felicidade, para prescrever uma medicação útil e certa ...

O velho Moura Brasil, eu o conheci antes de entrar para a faculdade ... Tinha eu 16 para 17 anos, estava terminando os meus preparatórios para o curso superior, quando meus olhos sofreram a terrível ameaça de um glaucoma. Glaucoma é cegueira. Minha mãe levou-me a Moura Brasil e ele propôs uma operação. Aceitamos. Uma semana passei na maior agonia depois da intervenção, até que o curativo oclusivo foi retirado e o operador esfregou as mãos, muito contente, com o resultado obtido. Então perguntei-lhe:

– Posso estudar a minha medicina?

Ele sorriu e respondeu:

– Com estes olhos que pude consertar, você poderá ver todas as belezas da medicina (Lemos, 1948).

Vale destacar ainda que, ao longo das décadas nas quais escreveu no Correio, Floriano sempre advogou o conhecimento mais detalhado da flora brasileira, visando tanto à cura de doenças quanto à democratização do acesso aos medicamentos. Discutia rotineiramente a superioridade da homeopatia em relação à alopatia, combatendo o que chamava de ‘moda’ ou ‘mania’ de prescrição indiscriminada de remédios verificada em seu tempo.

27-1-954. Batem-me na porta. É um senhor de 66 anos de idade. Sofre dores generalizadas, inchação nos tornozelos, sensação de fraqueza e desânimo. Palidez acentuada. Diz que transpira pouco e urina ainda menos. Completando as informações que espontaneamente prestou, diz que tem consultado vários médicos, sem resultado; o último receitou-lhe umas injeções caríssimas, das quais já tomou quatro, que lhe deixaram os braços com dores e calombos. Como nenhuma melhora acusasse, veio à consulta. ... Que se deve fazer, em primeiro lugar, para iniciar um tratamento racional? Claramente desintoxicar o organismo, com um regime alimentar que venha em auxílio dos fígados e dos rins. Como o enfermo é pobre, as frutas são as bananas e as laranjas. Pão, massas, pouco temperadas, com o mínimo de sal. E os remédios das farmácias? Penso que podem ser perfeitamente dispensados. ... As melhoras virão, por certo, até mesmo para as dores que tanto afligem o nosso homem (Lemos, 31 jan. 1954).

Memória/história do Rio de Janeiro

Em texto clássico, Jacques Le Goff (2003) afirmou que as memórias são, simultaneamente, individuais e coletivas. Estão invariavelmente condicionadas aos processos de seleção, esquecimento e reinterpretação relacionados ao grupo social de pertencimento daquele que lembra. Peter Burke (2000), do mesmo modo, destacou que determinado fato será mais bem lembrado – ou não – segundo o grau de relevância do acontecimento para determinado grupo social.

Ressalte-se que os textos de cunho memorialístico disseminados de forma espantosa pelo Brasil dos séculos XIX e XX, e entre os quais as crônicas de Lemos sobre o Rio de Janeiro são exemplares, eram em grande parte autobiografias misturadas a fórmulas e saberes do senso comum. Não por isso as narrativas memorialísticas de Floriano são menos perscrutáveis pelo historiador. Há tempos entendemos que a compreensão do ‘lugar social’ (Certeau, 1988) daquele que fala determina irremediavelmente não apenas o que é dito, mas também como e por que é dito.

A atual metrópole brasileira em nada se parece com o Rio Antigo. O carioca jovem que houvesse saído da sua terra em 1902 e só agora regressasse da viagem, não a poderia reconhecer naquilo que porventura os olhos lhe pudessem mostrar. As avenidas abertas no coração da cidade e à margem da Guanabara, pelo gênio de Passos e de Frontin, criaram um mundo novo no nosso meio urbano, até então acanhado, colonial. E nesse mundo diferente, foram aparecendo tantas coisas novas, que custa crer como tão depressa o tílburi teve substituição no táxi de praça, o fraque e a cartola cederam lugar ao blusão e ao sem-chapéu, ao mesmo tempo que sumiam da circulação aqueles flagrantes que faziam parte da fisionomia das ruas, como, por exemplo, a carrocinha que vendia caldo de cana tocando música, o português que apregoava os seus perus de “toda boa”, o amolador que se anunciava por um silvo agudíssimo (precursor dos silvos do falecido Estado Novo) e mais ainda – o moleque que pulava nos bondes de burro, na estação do Mangue, cantando o seu “tem balas de ovo, alteia, chocolate; hortelã-pimenta, lima, rosa; baunilha, abacaxi, ó neném! Cereja, côco e as queimadas...” (Lemos, 22 jul. 1956).

Patriotismo e perfis dos ‘grandes vultos’

O fato de que Floriano de Lemos se chame na verdade Eduardo de Lemos é evidência da sua verve nacionalista. Ainda adolescente, se tornou florianista convicto, e, justamente por isso, adotou o pseudônimo em homenagem ao marechal. Das crônicas em tributo a Floriano Peixoto, mas não apenas delas, emergem elementos típicos do discurso nacionalista dos séculos XIX e XX, quais sejam: a valorização da instrução pública, a necessidade do desenvolvimento de obras de infraestrutura em todo o país, a importância da industrialização atrelada ao urgente resgate moral e econômico do homem do campo (particularmente por meio do ensino rural), a legitimidade inconteste do serviço militar, bem como a necessidade de construção conjunta (via escola, imprensa, quartel, campanhas, postos de saúde etc.) de uma verdadeira consciência cívica nacional.

O Brasil-República, senhores, nada fica a dever, no panorama histórico da América, às outras nações irmãs que se orgulham de ter, no panteão das suas nacionalidades, as figuras imortais de Bolívar, de San-Martín ou de Washington, porque esse Brasil quando deixou o regime monárquico para enfrentar a obra republicana, construindo a sua vida democrática, teve a fortuna ou boa estrela de ser norteado, durante os longos anos de toda a sua primeira e tormentosa infância republicana, por uma vontade que era uma paixão, e por uma paixão que era afinal somente o Brasil – Floriano Peixoto (Lemos, 6 jul. 1941).

Puericultura, combate e profilaxia de doenças

As questões relativas à regulamentação do exercício profissional, às regras de conduta, à crítica ao charlatanismo e às parteiras são recorrentes em seus escritos. Ele se sentia totalmente à vontade, ‘médico de senhoras e de crianças’ que era, para falar sobre e para as mulheres de seu tempo.

Estamos diante de uma época em que inúmeras e inéditas representações acerca do gênero feminino passaram a ocupar a imaginação das pessoas, não apenas por intermédio da imprensa e da propaganda, mas também via teses médicas e jurídicas, leis, códigos, sermões, encíclicas e mais um bom número de documentos e produtos culturais em voga no período. Coquettes, operárias, namoradeiras, andróginas, feministas, virgens, ‘perdidas’, emancipadas e, especialmente, as mães serão alvo do interesse e do escrutínio tanto de Floriano quanto daqueles que buscavam reconstruir o país nos moldes do projeto de modernidade republicana, que se consolidava, sempre articulado à ideia de progresso. Seus ensinamentos deixavam claro que as mulheres deveriam ser as maiores aliadas dos médicos na construção de um novo lar e de um novo país e, justamente por isso, elas eram (muito bem) vistas como parceiras ideais dessa empreitada.

De um modo geral, qualquer criança é igualzinha às demais: todas fazem as mesmas artes, sentem os mesmos prazeres, aceitam a mesma educação. E se é o exemplo de bondade materna que faz feliz o filho rico, será esse exemplo que poderá fazer feliz o infante desprotegido da sorte. E ainda aí, em tal lance, a assistência subjetiva à criança deve operar-se antes do parto: consiste na proteção precoce à gestante. Então, o principal é ensinar a mãe a querer muito bem ao filho, para recebê-lo um dia – não como castigo ou provação, mas como um bebê comum, que será feliz se tiver mãe que o ame muito, faça dele a própria vida e, dentro desse amor, saiba educá-lo para o bem. ... No dia em que toda mulher, por inspiração divina, pensar e fizer assim, a grande causa da infância estará cuidada, os seus problemas maiores resolvidos. Desaparecerá a delinquência infantil. A criança será realmente feliz (Lemos, 2 fev. 1936).

Se ao falar sobre puericultura Lemos estava em seu território, desse lugar ele também discorria com ampla autoridade sobre a cura e profilaxia de doenças: câncer, diabetes, neurastenias, cardiopatias, alcoolismo, poliomielite, febre tifoide, doenças ligadas à falta de higiene e à má alimentação etc. No entanto, sua frente de batalha mais evidente no Correio esteve indubitavelmente ligada ao combate relativo à tuberculose, à sífilis e à hanseníase. Para esta última moléstia, aliás, reservou dezenas de artigos buscando esclarecer a população quanto às formas de contágio e, principalmente, procurando combater o estigma relacionado à doença, tão arraigado na cultura nacional desde tempos imemoriais (Tronca, 2000).

Em verdade, é o lázaro um doente como qualquer outro; seu mal permite longa vida, curando não raro por si mesmo, outras vezes após demorado tratamento. Assistido convenientemente o seu poder de contágio é praticamente nulo. Formas graves, logo deformantes, ou de mau prognóstico, figuram hoje excepcionalmente na casuística clínica porque o diagnóstico já se faz precocemente e há uma terapêutica de êxito absoluto numa consoladora percentagem. Só uma coisa estacionou na história da infecção pelo micobacterium de Hansen: o preconceito social contra as suas vítimas (Lemos, 24 mar. 1946).

Artes (poesia, música, literatura)

As crônicas valorizavam as expressões da música popular brasileira. Floriano mesmo, além de pianista e compositor de polcas, xotes e choros, viajou na década de 1920 pelo interior do estado de São Paulo acompanhando o músico Ernesto Nazareth em uma série de concertos. Lemos também produziu, na década de 1930, programas infantis para a famosa Rádio Sociedade do Rio de Janeiro (atual rádio MEC), emissora de Roquette-Pinto.

Embora fossem contemporâneos ao modernismo brasileiro, seus textos sobre literatura e poesia estão certamente muito mais identificados à forma e ao conteúdo das ‘belas-artes’ francesas do que a esse movimento que buscava redescobrir, recriar e valorizar a cultura genuinamente nacional, de modo peculiar, com pendor iconoclasta. Lemos jamais se aproximou daqueles que se perguntavam, de forma irônica e festiva, se afinal seríamos ou não tupis. Sua poesia e literatura, de orientação parnasiana, supervalorizando a forma, a rima e a estética, além de utilizar linguagem rebuscada e vocabulário refinado, imprimiam às temáticas sociais um tratamento distinto da ‘irreverência’ modernista.

O beijo que tu me deste,

Naquela tarde de amor,

De certo era azul celeste,

Se acaso os beijos têm cor (Lemos, 2 maio 1950).

Vive! Embora na vida andes sozinho.

Luta! Enquanto energia tu tiveres.

E crê! Para que sempre em teu caminho

Floresçam lírios entre os mal-me-queres (Lemos, 1 o jan. 1950).

À moda de quadrinhas folclóricas, temos o sujeito radicado junto do povo, para que um modo professoral de presença não perca o tom de aconselhamento: “Vive! Embora na vida andes sozinho”. Nessa dimensão, o autor se afasta também dos preciosismos da estética parnasiana, para corroborar um modo Floriano de Lemos de ser no mundo.

Direito e criminologia

As questões referentes às leis brasileiras, especificamente os debates em torno do Código Civil de 1916 e do Código Penal de 1940 foram alvo de grande interesse da parte de Lemos, não por acaso, pois nas décadas de 1930 e 1940 foi professor da Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro. As reformas dos mais importantes códigos da nação passavam pela modernização do país. Especialmente em relação ao código civil, a preocupação do autor coligava-se a um dos temas mais recorrentes em seus escritos: a proteção das mulheres (da sua honra, saúde e moral) e das crianças. Em relação a estas últimas, a temática da ‘prote-ção da infância’ era construída a partir das críticas sobre o trabalho infantil, da constatação da necessidade do acesso à educação formal e da medicina preventiva, entre outros tópicos.

Em relação às mulheres, vale destacar que a definição do conceito de honra era verdadeira obsessão dos letrados brasileiros do início do século XX, conforme demonstrou Caulfield (2000). A boa reputação feminina construía-se a partir da ideia de honestidade sexual da mulher. Essa mulher, por sua vez, iria ser o sustentáculo da família e da pátria brasileira. Em plena ditadura varguista, tempo em que a honra sexual misturou-se à honra nacional, não causa espanto depararmo-nos com os excertos reproduzidos a seguir.

Uma das minhas mais velhas campanhas tem sido a da proteção à honra da moça. No Congresso de Criminologia, há pouco tempo reunido aqui no Rio, bati-me por um resguardo jurídico e legal mais amplo ou, pelo menos, mais eficiente, à menina virgem (Lemos, 17 ago. 1941).

Ora, não é possível aceitar que todo crime ocorrido entre cônjuges ou amantes tenha forçosamente como causa uma explosão de ciúmes. Os indivíduos mal educados, habituados a atitudes autoritárias, do mesmo modo que ofendem com palavras grosseiras a esposa, podem agredi-la gravemente, num momento de maior exaltação, sem que intervenha a mais leve parcela de ciúme (Lemos, 13 abr. 1947).

Considerações finais

Antoine Prost (2008, p.136) relembrou recentemente que o estudo da vida e obra de um indivíduo só faz sentido se esse sujeito for “representativo de um grande número de outros homens”. Observada a singularidade de Floriano, chega-se “às normas e aos hábitos de um grupo em determinada época” (p.136). Além disso, conforme o mesmo autor, esse olhar para o indivíduo justifica-se, desde que nosso objeto de estudo “tenha exercido uma verdadeira influência sobre a vida e o destino dos outros” (p.136).

Por outro lado, Sirinelli (2003, p.241) demonstrou, a respeito da difícil definição do qualificativo intelectual, que esse deve ser entendido como “uma questão de qualidade humana”. Se apreendido em acepção ampla, relaciona-se diretamente aos mediadores culturais: jornalistas, escritores, professores e estudantes, quer sejam criadores ou receptores de cultura. Em acepção restrita, está ligado aos tipos engajados, aos especializados, aos atores declaradamente políticos. O autor destaca, entretanto, que uma definição não exclui a outra, cabendo ao historiador “partir da definição ampla sob a condição de, em determinados momentos, fechar a lente no sentido fotográfico do termo” (p.243).

Buscou-se demonstrar, ao longo do presente artigo, que o estudo da vida e obra de Floriano de Lemos contempla as categorias elencadas por Prost e Sirinelli. Lemos é um indivíduo representativo de seu tempo, e com lugar garantido de certa autoridade simbólica em seu tempo. Suas crônicas, publicadas em um dos jornais mais lidos do país, inegavelmente faziam ecoar os projetos, anseios e memórias de seu grupo social. Procuramos postular, ainda à luz das reflexões de Jean François Sirinelli (2003), que Lemos pode ser identificado como um ‘intelectual médio’, que nos dias de hoje se transformou em um sujeito praticamente desconhecido, no entanto, ao longo de décadas, traduziu para um público amplo os debates científicos, políticos e culturais que ocorriam em seu meio.

A constatação do sociólogo francês de que o historiador que se aventura a contar a história dos intelectuais deve ter um verdadeiro ‘dom papívoro’ fez algum sentido no nosso trato do caso de Floriano de Lemos. É gigantesca a proporção de vestígios encontrados no Correio da Manhã concernentes à ‘passagem’ de Floriano de Lemos na totalidade discursiva da imprensa de então. Segundo o mesmo Lemos, tal produção era a sua mais nobre tarefa, já que vinculada a um ‘papel educador’ e emparelhada a uma instrução enciclopédica:

A imprensa, hoje em dia, tem um papel educador das massas. Pelo poder de sugestão dos artigos lidos por toda gente, não existe melhor escola do que o jornal. Nas folhas diárias, colaboram os estudiosos de todos os assuntos, e quem lê os bons órgãos de publicidade recebe verdadeira instrução enciclopédica (Lemos, 13 abr. 1947).

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