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Florida Shock Anxiety Scale para Portadores de Cardioversor-Desfibrilador Implantável – Valorizando o Psicossocial

Florida Shock Anxiety Scale para Portadores de Cardioversor-Desfibrilador Implantável – Valorizando o Psicossocial

Autores:

Eduardo Arrais Rocha,
Ieda Prata Costa

ARTIGO ORIGINAL

Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782Xversão On-line ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.114 no.5 São Paulo maio 2020 Epub 01-Jun-2020

https://doi.org/10.36660/abc.20200262

Este trabalho apresenta uma importante escala, já em versão brasileira, com validação em nossa população, que permite avaliar o nível de ansiedade relacionada ao cardioversor-desfibrilador implantável (CDI) e aos choques aplicados pelo dispositivo.1

Esta escala, como bem ressaltada no trabalho de Silva et al.,1 não foi idealizada para avaliar aspectos da adaptação do paciente com o seu CDI ou os impactos desse dispositivo na qualidade de vida do indivíduo, existindo outra escala apropriada para este fim, como a Florida Patient Acceptance Survey (FPAS).2

Este artigo sinaliza a importância da valorização dos aspectos psicossociais dos portadores de CDI, muitas vezes, relevados a planos relevados a planos secundários. Alguns artigos já demonstraram o impacto negativo que o CDI pode trazer na vida dos pacientes, mesmo sem a ocorrência de terapias.3-5

Entretanto, sabe-se do indiscutível benefício que os CDI promovem em diversos contextos clínicos.6 Portanto, uma abordagem psicossocial deveria obrigatoriamente fazer parte dos ambulatórios de arritmia e marca-passo, tendo agora disponível em nosso meio uma ferramenta para tal análise.

Manzoni et al.7 analisaram 60 estudos e avaliaram o nível de ansiedade, depressão, qualidade de vida relacionada à saúde, síndrome do estresse pós-traumático e transtornos psiquiátricos em portadores de CDI. Eles concluíram que há uma grande heterogeneidade metodológica nos testes psicológicos utilizados.

Isto tem dificultado a análise dos dados e, consequentemente, as estratégias para a diminuição desse impacto. Vários fatores podem influenciar o grau de ansiedade e muitos não foram abordados nesses estudos, como as diferentes características demográficas, as condições clínica e psicológica pré-implante e o número de choques, se apropriados ou não.7

Uma subanálise do estudo Multicenter Automatic Defibrillator Implantation Trial-Reduce Inappropriate Therapy (MADIT-RIT), que utilizou a escala Florida Shock Anxiety Scale (FSAS), concluiu que 2 ou mais choques, apropriados ou inapropriados, e o maior número de episódios de anti-tachycardia pacing (ATP) inapropriados estariam associados a maior grau de ansiedade, em um acompanhamento de 9 meses. Por essa análise, sugeriu-se que alterações na programação do CDI podem alterar o grau de ansiedade ao diminuir o número de choques e ATP inapropriados.8

Outro tópico relevante refere-se aos cuidados com as programações do CDI. As sociedades da especialidade têm publicações sugerindo a forma ideal de programação, conforme cada fabricante. Essas recomendações devem ser implementadas tentando-se minimizar as terapias de choque, que podem elevar o grau de ansiedade e estar relacionadas a pior prognóstico.9,10

A valorização das terapias com ATP (estimulação antitaquicardia), o aumento no tempo ou a programação de um maior número de batimentos para a detecção das arritmias ventriculares sustentadas são extremamente importantes.

A programação do CDI em pacientes com com cardiopatia chagásica (CCH) deve ser diferente da realizada para outras patologias. Na CCH, observa-se um maior número de terapias, em diferentes zonas de detecção, com repercussões clínicas distintas, portanto, merecendo uma abordagem mais individualizada e especializada em centros de referência.

A correta programação das funções de discriminação das arritmias ventriculares, em relação às arritmias supraventriculares, ou mesmo para a identificação de ruídos que possam deflagrar terapias inapropriadas, merece especial atenção. Sabe-se que existem diversos fabricantes com particularidades de programações, mas todas devem ser de conhecimento obrigatório do especialista. A própria escolha do dispositivo com maior duração de bateria, evitando-se trocas precoces, também é um fator importante de proteção psicossocial.

Por fim, parabenizamos os autores pela importante contribuição ao tema no cenário nacional e pelo rigor científico adotado. A implementação da escala FSAS, traduzida e validada por Silva et al., para análise do grau de ansiedade em portadores de CDI auxiliará no tratamento psicossocial destes pacientes.

REFERÊNCIAS

1. Silva KR, Costa R, Melo SRGO et al. Evidências de validade da versão brasileira da Florida Shock Anxiety Scale para portadores de cardioversor-desfibrilador implantável. Arq Bras Cardiol. 2020; 114(5):764-772.
2. Burns JL, Serber ER, Keim S, Sears SF. Measuring patient acceptance of implantable cardiac device therapy: initial psychometric investigation of the Florida Patient acceptance survey. J Cardiovasc Electrophysiol. 2005;16(4):384-90.
3. Costa R, Silva KR, Mendonça RC, Nishioka SAO, Siqueira SF, Tamaki WT, et al. Incidence of shock and quality of life in young patients with implantable cardioverter-defibrillator. Arq Bras Cardiol. 2007;88(3):258-64.
4. Bilge AK, Ozben B, Demircan S, Cinar M, Yilmaz E, Adalet K. Depression and anxiety status of patients with implantable cardioverter-defibrillator and precipitating factors. Pacing Clin Electrophysiol. 2006;29(6):619-26.
5. Pedersen SS, Den Broek KC, Theuns DA, Erdman RA, Alings M, Meijer A, et al. Risk of chronic anxiety in implantable defibrillator patients: a multi-center study. Int J Cardiol. 2011;147(3):420-3.
6. Al-Khatib SMN, Fiedman P, Ellenbogen KA. Defibrillators: electing the right right device for the right patient. Circulation. 2016;134(18):1390-404.
7. Manzoni GM, Castelnuovo G, Compare A, Pagnini F, Essebag V, Proietti R. Psychological effects of implantable cardioverter-defibrillator shocks. A review of study methods. Front Psychol. 2015;6:39
8. Perini AP, Kutyifa V, Veazie P, Daubert JP, Schuger C, Zareba W, et al. Effects of implantable cardioverter-defibrillator shock and antitachycardia pacing on anxiety and quality of life: a MADIT-RIT substudy. Am Heart J. 2017; 189:75-84.
9. Wilkoff BL, Fauchier L, Stiles MK, Morillo CA, Al-Khatib SM, Almendral J, et al. 2015 HRS/EHRA/APHRS/SOLAECE expert consensus statement on optimal implantable cardioverter-defibrillator programming and testing. Europace. 2016;18(2):159-83.
10. Stiles MK, Fauchier L, Morillo CA, Wilkoff BL, ESC Scientific Document Group. 2019 HRS/EHRA/APHRS/LAHRS focused update to 2015 expert consensus statement on optimal implantable cardioverter-defibrillator programming and testing. Europace. 2019;21(9):1442-3.