Fontes para uma história do Hospital de Manguinhos

Fontes para uma história do Hospital de Manguinhos

Autores:

Maria Regina Cotrim Guimarães

ARTIGO ORIGINAL

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.26 no.4 Rio de Janeiro out./dez. 2019 Epub 28-Nov-2019

http://dx.doi.org/10.1590/s0104-59702019000400012

Abstract

The present study presents sources for a history of the Manguinhos Hospital (today the Brazilian National Institute of Infectious Diseases), which for the most part are found in the Archives and Documentation Department of the Casa de Oswaldo Cruz, but also in the administration’s own collection (in boxes which are still classified informally) as well as the collection of the Brazilian National Library, in the Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, and in the Brazilian Ministry of Culture’s Audiovisual Technical Center. It also presents a typology of these sources, and shows their analytical potential for the history of health sciences and more specifically, of clinical research, medicine, and public health in Brazil between 1918 and 2018.

Key words: history of medicine; Manguinhos Hospital; clinical research

O antigo Hospital de Manguinhos, atual Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI), foi inaugurado em 1918, após negociações entre o governo federal e Carlos Chagas, que ocupara o lugar de Oswaldo Cruz na condução da saúde pública brasileira e do Instituto de Manguinhos. Evandro Chagas, o filho mais velho de Carlos Chagas, seguiu os passos de seu pai e iniciou seus trabalhos nesse hospital, como médico, recém-formado, em 1926. Ali foi chefe do serviço de eletrocardiografia, de radiologia e de uma enfermaria do hospital do qual foi diretor. Evandro Chagas realizou inúmeras expedições ao Norte e ao Nordeste do Brasil, com interesse especial nas pesquisas sobre o que chamou de leishmaniose visceral americana. Participou da Comissão Encarregada dos Estudos da Leishmaniose Visceral Americana (Ceelva), criada em julho de 1936, que daria origem, no ano seguinte, ao Serviço de Estudos de Grandes Endemias (Sege), responsável por manter estudos sobre leishmaniose, mas acrescidos dos de outras doenças, como ancilostomíase, esquistossomose, malária e doença de Chagas. Foi também diretor científico do Instituto de Patologia Experimental do Norte (Ipen), em Belém, criado em 1936 com a finalidade de estudar o calazar e outras doenças observadas na Amazônia. O Sege, conduzido pessoalmente por Evandro Chagas, tinha uma clara filiação ao ideário do movimento pelo saneamento rural da década de 1910.1

Muitos doentes observados durante as viagens promovidas pelo Sege foram investigados no Hospital de Manguinhos, onde eram conduzidos estudos com subsequentes publicações.2 Após a morte inesperada de Evandro Chagas (um acidente aéreo em 1940), o Hospital de Manguinhos e o Ipen levariam seu nome. Em 1940, este último passaria a se chamar Instituto Evandro Chagas,3 e, em 1942, o Hospital de Manguinhos se tornaria Hospital Evandro Chagas.

O INI completa seu centenário em 2018, com algumas narrativas de historiadores e memorialistas. O hospital foi inaugurado, provavelmente, nos finais de 1918, como Hospital de Manguinhos, também citado no início do século XX como Hospital de Doenças Tropicais e Hospital Oswaldo Cruz. Desde 1942, porém, o nome de Evandro Chagas se manteve ininterruptamente em diversos contextos institucionais: Hospital Evandro Chagas (HEC), Centro de Pesquisa Clínica Hospital Evandro Chagas (CPqHEC), seguido por Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas (Ipec) e, após 2010, Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI).

O objetivo deste estudo é apresentar fontes potenciais para uma história do INI (1918-2018), reunidas, em sua maior parte, no Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz (DAD/COC), mas também no acervo constituído na Direção do próprio INI (em caixas classificadas de maneira ainda informal), assim como na Biblioteca Nacional, nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz e no Centro Técnico Audiovisual do Ministério da Cultura (CTAv), em Benfica, no Rio de Janeiro. Discutem-se brevemente uma tipologia dessas fontes e seu potencial analítico para a história das ciências da saúde, mais especificamente, da pesquisa clínica, da medicina e da saúde pública no Brasil, entre 1918 e 2018.

Descrição das fontes

Há uma vasta bibliografia especializada (Kropf, 2009; Brito, 2006; Benchimol, 1990; Edler, 2011; Stepan, 1976; Cukierman, 2007; Sanglard, 2008) que, direta ou indiretamente, contribui para a história do Hospital de Manguinhos.

As fontes aqui consideradas foram coletadas por equipes de trabalho constituídas pelo INI. Criadas em 2003, sempre envolveram historiadores dedicados a produzir uma história desse hospital. Partimos da ideia de Oswaldo Cruz sobre a necessidade da construção de um hospital para o então Instituto Oswaldo Cruz4 e de um projeto de 1907 do arquiteto Luiz de Moraes, encontrado no livro Instituto Oswaldo Cruz em Manguinhos (Instituto Oswaldo Cruz..., 1909), embora restem dúvidas de que corresponda ao hospital do instituto. O arquiteto, autor do projeto do notabilizado castelo mourisco, realizou outro projeto de hospital em 1912. Nesse ano, o debate sobre a doença de Chagas havia repercutido a ponto de Carlos Chagas receber o Prêmio Schaudinn, do Instituto Naval de Medicina de Hamburgo, o que fez crescer seu prestígio. Começamos a visualizar a concretização do hospital em diversas fotos de J. Pinto5 e em dois importantes decretos do governo federal. Um, de 1912, autorizava a verba para a construção de um hospital em Manguinhos e em Lassance (MG), especificamente para pesquisa, controle e tratamento da doença de Chagas. Outro decreto, de 1918, autorizava a verba para a conclusão do hospital de Manguinhos, para a pesquisa de doenças tropicais (não mais restrito à doença de Chagas).

Grande parte das fontes sobre o hospital que se encontram no DAD/COC datam da primeira década do século XX até o início dos anos 1980. Os projetos arquitetônicos para o Hospital de Manguinhos localizam-se no Fundo Instituto Oswaldo Cruz, Seção Serviço de Administração Geral, Série Serviço de Fotografia, Subséries Núcleo Arquitetônico, Dossiê Plantas e Projetos. Os prontuários médicos, além de diversos documentos sobre pacientes, incluindo relatórios de autópsias, são localizados no Fundo Instituto Oswaldo Cruz, Seção Hospital Evandro Chagas, Série Prontuários e Série Administração, respectivamente. Os citados decretos-lei de 1912 (n.9.346, de 24 de janeiro de 1912) e de 1918 (n.3.453, de 2 de janeiro de 1918) são encontrados no Fundo Oswaldo Cruz, Série Instituto Oswaldo Cruz, Dossiê 02 – correspondências e decretos. As listas de fornecedores e materiais dispendidas na aquisição de materiais de construção para as obras iniciais do prédio do Hospital de Manguinhos (11 documentos contendo notas fiscais e guias de importação), assim como as listas de fornecedores e quantias dispendidas na aquisição de instrumentos, medicamentos e materiais de consumo destinados à profilaxia e assistência médica em áreas assoladas pela doença de Chagas em 1912 (oito documentos, incluindo notas fiscais), e as de gastos com o Hospital de Manguinhos a partir do crédito concedido pelo Ministério da Justiça e Negócios Interiores em 1918, estão no Fundo Instituto Oswaldo Cruz, Seção Serviço de Administração Geral, Série Administração. Os ofícios diversos entre 1908 e os anos 1930, com nomeação de funcionários, solicitação de passagens de trem para doentes do interior do país serem internados no Hospital de Manguinhos, registros de gastos com transporte de doentes, médicos e enfermeiras, localizam-se no Fundo Instituto Oswaldo Cruz, Seção Direção, Dossiê 001. As fotos da construção do prédio, do prédio já concluído, as que envolvem pacientes, médicos, cientistas e políticos, na escada e diante do hospital, estão no Fundo Instituto Oswaldo Cruz, Seção Serviço de Administração Geral, Série Serviço de Fotografia, Subsérie Núcleo Arquitetônico da Fiocruz (Dossiê Construção – Pavilhão Gaspar Viana) e Subsérie Carlos Chagas – IOC. Nesta última (Dossiê Doença de Chagas – Lassance) encontram-se fotos do Hospital de Lassance.6

A divulgação de informações a respeito das pesquisas desenvolvidas no Instituto Oswaldo Cruz sobre doenças e doentes inicia-se em 1913. Também observamos que as notícias sobre o próprio hospital começaram a ser veiculadas na imprensa, em 1917, por Jornal do Brasil, Correio da Manhã, O Imparcial, Gazeta de Notícias, O Paiz, A Noite, O Fluminense, A Razão, A Rua, O Jornal, O Pharol, A Epoca, A União e Revista da Semana. O Imparcial, em 17 de agosto de 1918, destaca a inauguração do Hospital de Manguinhos como um “ataque do grande problema nacional”, pois o “Hospital Oswaldo Cruz, estamos certos, proporcionará ao Instituto de Manguinhos os meios de aperfeiçoar a terapêutica e a profilaxia das doenças que depauperam o brasileiro do interior”, problema “não só humanitário, social e político, como, e sobretudo, econômico” (Santos, 2019, p.83).

A leitura dos jornais tanto nos aproxima dos contextos político, científico e sanitário do período como nos ajuda a compreender a ausência da data da inauguração do hospital. De acordo com Santos (2019), a inauguração estava prevista para outubro de 1918, pois seria uma ocasião que envolveria, no Rio de Janeiro, personagens do campo da pesquisa médica devido ao oitavo Congresso Brasileiro de Medicina e Congresso Sul-Americano de Higiene e Microbiologia. Carlos Chagas, na época diretor de Manguinhos, pretendia “dar ao ato a maior solenidade”, e, ao lado do médico Miguel Couto, convidaria pessoalmente o prefeito da cidade do Rio de Janeiro e o presidente da República para a inauguração do hospital em 11 de outubro de 1918, segundo o jornal Última Hora (citado em Santos, 2019, p.81).

Segundo o jornal A Noite, entretanto, a inauguração seria adiada devido à epidemia de gripe espanhola que assolou a cidade (citado em Santos, 2019). Carlos Chagas, responsável pela Diretoria Nacional de Saúde Pública, estava envolvido com epidemia de altíssima letalidade. Paralelamente, temos também notícias de que o hospital comportaria de trinta a quarenta doentes. Assim, ficamos sem saber de um evento de inauguração do hospital, apesar de termos notícias de seu funcionamento. Outra novidade, encontrada em A Razão, de 5 de abril de 1919, é a menção à construção de mais cinco pavilhões hospitalares em Manguinhos (citado em Santos, 2019, p.209).

No Relatório do Instituto de 1912 (DAD/COC), observamos médicos de Manguinhos em outros hospitais da cidade do Rio de Janeiro, como a Santa Casa da Misericórdia e São Francisco de Assis, onde internavam doentes para suas pesquisas antes e durante a construção do hospital. São relatos clínicos, cartas, laudos de exames de sangue e necropsias, alguns mencionando exatamente em qual hospital foram realizados tais procedimentos. Da mesma forma, a documentação sobre pacientes encaminhados de Lassance e vizinhanças para o Rio de Janeiro nos ajuda a construir o panorama nosológico de parte do Brasil.

Muitas das observações clínicas sobre os pacientes, que remetem a Lassance e região, foram registradas em retalhos de papel recortados à mão, talvez nas residências dos próprios doentes. São relatos densos e desenhos coloridos, possivelmente realizados sobre o corpo do paciente, retratando coração, fígado e baço (o primeiro desses prontuários é de 1912). Esses registros clínicos estão reunidos em prontuários cujas capas levaram um carimbo circular onde se lê “Hospital Oswaldo Cruz – Rio”.

Figura 1 : Construção do Hospital de Manguinhos, J. Pinto, 1912. Ao fundo, o castelo mourisco e as primeiras construções, além da chaminé que mais tarde seria retirada (Acervo Casa de Oswaldo Cruz. BR RJCOC 02-10-05, caixa 3, maço 1) 

Figura 2 : Uma das várias páginas de anotações clínicas do paciente AFC, de 1912, de Maquiné, Cordisburgo (MG) (DAD/COC Fundo Instituto Oswaldo Cruz, Seção Hospital Evandro Chagas, Série Prontuários) 

Alguns artigos das Memórias do Instituto Oswaldo Cruz se baseavam nas anotações clínicas de prontuários. Ainda que a construção do hospital nem estivesse iniciada, há observações clínicas a partir de 1909, de Berenice, que protagonizou a descrição do primeiro caso de doença de Chagas, e de sua irmã, Jesuína. Na capa do documento sobre Berenice, lê-se “Caso agudo de Moléstia de Chagas”, “Primeira data de entrada – 1909” e “segunda data de entrada, 13/12/1912”. Nesta última entrada, fica-se sabendo que Berenice tinha 5-6 anos, que era natural de Santa Rita e morava à margem do São Francisco, de inteligência viva, tinha bronquite e acessos de impaludismo. Infelizmente, quase mais nada consta desse prontuário, além de uma página em branco onde foi escrito a lápis azul: “Observações e trabalhos dos Drs Eurico e Chagas”.7

Os estudos dos mesmos Eurico e Chagas (Chagas, Villela, 1922) falam do “cardiograma”, tão frequente nos prontuários, que possibilitaria diversas observações e publicações.

Figura 3 : Traçado do cardiograma de AF, 1921, com as identificações das ondas P, R, S e T (DAD/COC Fundo Instituto Oswaldo Cruz, Seção Hospital Evandro Chagas, Série Prontuários) 

Encontramos o primeiro registro eletrocardiográfico de um paciente no ano de 1921: AF, 12 anos, original de Lassance (MG), cuja data de entrada foi 9 de abril de 1921, e de saída, 19 de abril de 1921 (Guimarães, 2014) Esse exame nos fez refletir sobre a incorporação de uma tecnologia atualíssima às pesquisas clínicas da época: o cardiógrafo, aparelho caro, sofisticado, grande e pesado. Os estudos de Chagas e Villela e os depoimentos de Lobato Paraense e de Carlos Chagas Filho sobre Evandro Chagas indicam alguma chance de que o Hospital de Manguinhos possuísse um cardiógrafo desde a década de 1920:

E quando ele precisou de mexer com cardiologia, ele arranjou um aparelho francês ..., o dele e tinha lá um sistema de uns fios, mais finos que cabelo, que aquilo era delicadíssimo, aquilo enguiçava, ele consertava (Lobato-Paraense, 1988).

[Evandro Chagas] rapidamente afez-se à técnica eletrocardiográfica... No hospital fora instalado um eletrocardiógrafo de corda de fabricação Boullite, o primeiro dos instrumentos usados em todo o mundo (Chagas Filho, 1992).

A rotina do hospital encontrará pesquisadores como Evandro Chagas e Ezequiel Dias, por exemplo, assinando observações clínicas em prontuários. Estes trazem conteúdos bastante variados e são excelentes fontes para a história da pesquisa clínica; são pouco estudados devido a questões como restrições burocráticas institucionais à sua análise histórica. O historiador Cláudio Bertolli Filho (1996, 2001) discute os prontuários como expansão do território do historiador, que permite entender o “homem enfermo como personagem social que precisava ser avaliado” (Bertolli, 1996, p. 173). Também considera que a “análise histórica e sociológica da trajetória de vida do homem adoentado” teria, nos prontuários, a possibilidade “de exploração de uma fonte sintetizadora das múltiplas facetas do viver enfermado” (p.173).

À medida que o hospital se consolidava, com a chegada da luz elétrica, no início dos anos 1920, e com um número de telefone, crescia o número de ofícios de pedidos de passagens de trem, o que atesta a importância que os médicos de Manguinhos davam ao estudo de determinados pacientes e suas mazelas. Encontramos no DAD/COC cada vez mais vestígios para análise de um cotidiano da pesquisa e da prática médica, como nomeações de funcionários, cardápio de pacientes e funcionários, reclamações sobre entrega do pão e qualidade do leite e registros de setor de lavanderia e de costura. O cotidiano do hospital é vivo, e há que significar um passado trazendo atores à cena.

Pensemos a dimensão cotidiana, e aparentemente caótica, próxima do mundo de objetivações de Agnes Heller (2004): a linguagem, os hábitos e o uso dos objetos que representam o espaço de socialização dos homens. Por meio de nosso vasto material, imaginamos o dia a dia desse hospital e o papel do sujeito paciente nessa instituição. Ficamos a elucubrar as sensações dos recém-chegados, internados após longa viagem de trem, vestidos em estranhos pijamas produzidos pela costureira do próprio hospital.

O personagem Evandro Chagas faz parte desse cotidiano, na intercessão com os sertões do Brasil. O DAD/COC abriga o seu diário de 1939. Esse diário está conformado como um relatório ao industrial Guilherme Guinle, que financiou as expedições e as pesquisas do Sege (Guimarães, Santos, 2013). Documentos assim representam importante fonte sobre construção de conhecimentos, políticas de saúde e também de interpretações e representações sobre pessoas, locais e doenças.8

A primeira página do diário descreve uma grande movimentação no “Serviço” (o Sege, que teria o Hospital Oswaldo Cruz como uma de suas sedes): visitantes e várias atividades direta ou indiretamente vinculadas à medicina e à pesquisa, como fotografias e filmagens para exposições científicas. Algumas relações já podem ser analisadas nessa página, como a de Evandro com Humberto Mauro, conhecido cineasta do Instituto Nacional do Cinema Educativo (Ince). Ambos dirigiriam filmes sobre o Instituto Oswaldo Cruz e a leishmaniose visceral americana, divulgados numa exposição, em Nova York (Leishmaniose..., 1939; Instituto..., 1939).

O papel das indústrias de medicamentos e de inseticidas nas pesquisas também está sugerido nessa primeira página. A Bayer fornecia animais de laboratório e apresentou a Evandro um novo produto como tratamento para a doença de Chagas. E o convite para Evandro jantar num clube alemão (Germânia) com o representante da Bayer garantiria a venda de produtos de aspersão para insetos, indicando os processos de pesquisas e as possibilidades de análise do contexto das relações internacionais com a Alemanha às vésperas da Segunda Guerra Mundial.

Entre os anos 1940 e 1980 há um grande vazio historiográfico sobre o Hospital e mesmo sobre a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Após a morte de Evandro Chagas, o Sege se descaracterizou. O próprio hospital iria se tornar um espaço menor de pesquisa até os anos 1980; após uma reestruturação institucional nos anos 1970, o hospital passava a ser um departamento da unidade “Instituto Oswaldo Cruz”. Entre os anos 1960 e 1970, ocupou o Pavilhão 26, prédio maior e moderno, a poucos metros do antigo pavilhão, mas essa trajetória é ainda pouco conhecida.

Especificamente no início de 1986, a existência do HEC estava sub judice. Nesse ano foi constituído um grupo para elaborar, com a nova direção, o perfil necessário ao hospital. O período coincidiu com o ressurgimento da dengue no Rio de Janeiro, ao que o hospital respondeu elaborando protocolos clínicos de pesquisas sobre a doença – encontrados no acervo da Direção do INI –, formalizando um grupo de pesquisa sobre a dengue.

Os primeiros casos de HIV/Aids, epidemia que exigia uma complexidade muito maior dos serviços, valeram como uma forma discursiva para um projeto político institucional: o restabelecimento do HEC. Criou-se, assim, no HEC, o paradigma das doenças infecciosas, rompendo e convivendo com a tradição das doenças tropicais (Castro, 2014).

Em junho de 1986, o HEC recebeu os dois primeiros casos da doença. Ao analisarmos parte dos prontuários provenientes de 1986 e 1987,9 constatamos que esses pacientes vinham encaminhados, principalmente, do Instituto Estadual de Hematologia (atual Hemorio). Esses e outros encaminhamentos partiram de uma infectologista daquele instituto que mantinha contatos profissionais com o HEC, sustentando que se baseava na investigação clínica fortemente ligada à epidemiologia (nesse caso, doadores de sangue) (Foucault, 1979), uma concepção não tão nova, mas que, naquele momento, se mostrava uma novidade: uma doença pouco conhecida, um público socialmente marginalizado.

A observação desses prontuários e de seu crescimento numérico nos ajudou a contextualizar a reinvenção do HEC, só efetivada no período de transição política do país, quando Sérgio Arouca assume a presidência da Fiocruz. No acervo da Direção do INI, percebemos que o Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps) propôs a criação de diversos convênios com universidades e hospitais a fim de garantir cerca de 750 leitos para doentes com Aids em todo o país. Em 7 de abril de 1986 foi firmado um acordo de cogestão do HEC com o Inamps. Como esse acordo determinava que, em caso de diminuição da produção, o repasse seria proporcionalmente reduzido, era necessário ter ao menos um “projeto Aids” dentro da instituição, com profissionais habilitados e uma quantidade mínima de leitos. A estratégia discursiva utilizada pela então diretora do HEC ganhou força com a adesão de profissionais engajados no planejamento de assistência, prevenção e controle da doença. Em junho de 1987, a Fiocruz firmou o convênio com o Inamps e ampliou o atendimento ambulatorial e de internação para os pacientes soropositivos.

A crise do HEC não se resolveu com o financiamento do Inamps, pois em agosto de 1987 o governo federal proibiria quaisquer tipos de contratação. O decreto-lei n.94.667 forçou a Fiocruz a interromper os estágios de aperfeiçoamento, até que, em julho de 1988, o hospital foi forçado a fechar as portas para novos pacientes.

O HEC foi reaberto, apesar de vozes dissonantes. O então diretor do IOC escreveria, em 25 de novembro de 1988, uma carta para Sérgio Arouca, preocupado com o estabelecimento de novas linhas de pesquisa, como a do HIV/Aids, que fugiam às doenças tropicais. Trata-se de outra forma discursiva pontuada em três “erros táticos”:

A abertura indiscriminada do hospital para a assistência indiscriminada, a grande ambição do projeto para um Hospital tão pequeno, a falta de modéstia para aproveitar e reorientar o pessoal lá existente, alguns de elevadas qualidades profissionais e morais (Coura, 1988).

No mesmo mês em que essa carta foi divulgada, foi criado o Serviço de Epidemiologia do Hospital Evandro Chagas, chefiado primeiramente pelo doutor Antônio Paulo de Menezes Filho, responsável pelo Boletim Epidemiológico do Hospital Evandro Chagas. Com a implantação desse serviço e a circulação do boletim, a situação de epidemia de Aids foi assumida como principal discurso da direção do hospital. Esses veículos pretenderam ser os principais difusores do novo paradigma; tentavam mostrar os esforços do corpo médico e da administração para manter o hospital funcionando e aberto à sociedade. A transmissão dos novos valores era constantemente enfatizada, pois era necessário angariar simpatizantes para a manutenção da estrutura assistência-ensino-pesquisa que se pretendia sedimentar. Além dos boletins epidemiológicos, o acervo compreende textos e fitas cassete com gravação de diversos nomes da saúde pública que reforçaram a importância da nova perspectiva para o hospital.

Assim como o Hospital de Manguinhos era pensado em 1912 para uma doença específica – a doença de Chagas –, a história recente do HEC traz o surgimento de uma nova entidade mórbida, a Aids. A construção de uma conjuntura de risco – uma epidemia – pode ser estrategicamente posicionada e necessária para a estruturação de um novo fato científico. No caso do HIV/Aids, a documentação nos leva a crer que esse fato científico serviu aos interesses da pesquisa clínica. Na série de documentos da Direção do INI, percebe-se no HIV/Aids objeto de disputa política: além de recente na agenda mundial, é uma doença cuja pesquisa agencia recursos.

Contribuições para a historiografia do hospital

Os dois primeiros trabalhos – edições comemorativas de aniversários do hospital –, escritos em 2004 (Guimarães, Paula, 2004) e revistos com acréscimos (Guimarães, 2009), tiveram a perspectiva de divulgação de um estudo inicial sobre o hospital. Neles, abordamos a doença de Chagas como a pedra fundamental para a criação do hospital, sua construção, uma história de Lassance e da doença de Chagas, alguns personagens que tiveram vínculos com o hospital, até Evandro Chagas médico, o Sege e suas mortes, em 1940.

O livro Doença de Chagas, doença do Brasil: ciência, saúde e nação, 1909-1962, da historiadora Simone Kropf (2009), evoca a importância de Evandro Chagas e do Sege na continuidade dos estudos sobre a tripanossomíase americana em Bambuí, onde havia sido descoberto um foco da doença em 1930. A autora analisa o significado do Sege em Bambuí como uma iniciativa decisiva para renovar os interesses e os estudos sobre a doença, que não era fruto de uma diretriz institucional de Manguinhos, pois possuía grande autonomia administrativa e financeira em relação a essa instituição. Evandro Chagas pretendeu reproduzir o projeto de ciência de seu pai fora de Manguinhos, fato que provavelmente se relacionou ao contexto de indefinição da própria instituição e das transformações pelas quais passava a sociedade brasileira, especialmente a partir de 1930.

Em sua de dissertação de mestrado, Frederico da Costa Gualandi (2013) estuda as pesquisas de Evandro Chagas (1905-1940) e seus colaboradores sobre a leishmaniose visceral americana entre 1934 e 1940, no contexto de institucionalização da medicina tropical no Brasil. Gualandi analisa o processo de produção dos enunciados científicos sobre a nova enfermidade que Evandro Chagas, por meio dos estudos do Sege, afirma ser uma leishmaniose visceral específica da América do Sul e diferente das outras leishmanioses viscerais. Utiliza como fontes as cartas trocadas entre Evandro Chagas e os membros de sua equipe, seus diários e relatórios de trabalho, bem como seus discursos, publicações científicas e as controvérsias que tais enunciados produziram no meio científico da época.

Outra dissertação que envolve o hospital é de Danielle Barreto (2012), que analisa a trajetória científica de Evandro Chagas e seus estudos sobre as endemias rurais. Utilizando, sobretudo, o arquivo pessoal de Evandro, a autora estuda as origens e as relações familiares desse pesquisador, sua vida acadêmica e profissional, com ênfase em sua atuação à frente do Sege. Argumenta pela herança familiar e científica de Carlos Chagas, tanto em relação à sua figura como pai quanto no que diz respeito à sua imagem pública, como representante da tradição de ciência de Manguinhos. A dissertação aborda uma continuidade construída em meio a interesses entre os cientistas e os gestores da saúde pública do governo Vargas. Esse trabalho também debate biografias e trajetórias, com o objetivo de refletir sobre a intricada associação entre elementos referentes a lógicas e motivações específicas à esfera individual, e fatores relacionados ao contexto político e social mais amplo no qual se inserem essas trajetórias individuais.

Resta muito a ser pesquisado nas inúmeras fontes sobre o Hospital de Manguinhos, particularmente sobre o período citado entre os anos 1940 e 1980 (já Hospital Evandro Chagas), que ainda não passou por qualquer análise histórica, apesar de dispor de robusta documentação no próprio DAD/COC e de referências na mídia impressa.

REFERÊNCIAS

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