Formação de relações regionais em um contexto global: a rivalidade futebolística entre Rio de Janeiro e São Paulo durante a Primeira República

Formação de relações regionais em um contexto global: a rivalidade futebolística entre Rio de Janeiro e São Paulo durante a Primeira República

Autores:

Christina Peters

ARTIGO ORIGINAL

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.21 no.1 Rio de Janeiro jan./mar. 2014 Epub 24-Jan-2014

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702013005000016

ABSTRACT

The internationalization of football and the ongoing creation of a transnational sports community in the early twentieth century interacted with processes of national and regional differentiation. The article shows that, in Brazil, football served as a means for the elite of São Paulo and Rio de Janeiro to forge and express their regional identities. Adopting a global and regional perspective, an attempt is made to understand these processes of differentiation between the two cities based on the analysis of given sporting events. The text starts from the assumption that regional and national identities and spaces are constructed from transnational interaction and negotiations. In the specific case of football, the aim is to ascertain the standardizing and differentiating effects that the process of its globalization implied.

Key words: regionalism; the São Paulo identity; history of football; Brazil

O artigo trata da rivalidade futebolística entre São Paulo e Rio de Janeiro durante as últimas décadas da Primeira República não em termos clubísticos, mas por meio de sua representação simbólica, que se expressou principalmente na imprensa esportiva em torno de jogos internacionais disputados na América do Sul e na Europa. Analisa-se essa rivalidade principalmente a partir de fontes paulistas, considerando como o futebol proporcionou um meio de formular e discutir conceitos identitários regionais. O que favoreceu esse processo foi a internacionalização do futebol nas primeiras décadas do século XX, propiciada por encontros internacionais constantes, viagens de clubes e de jogadores e o desenvolvimento de um sistema internacional de administração e regulamentação uniformizador ( Eisenberg, 2001; Giulianotti, 2007; Keys, 2006; Lanfranchi, Taylor, 2001). Desenvolve-se, a partir dessas premissas, a tese de que processos como internacionalização e regionalização do futebol caminham juntos, influenciando-se mutuamente. Enquanto a literatura existente investiga o futebol a partir de um ângulo nacional ( Bocketti, 2007; Negreiros, 2003; Pereira, 2000; Souza, 2008), procura-se salientar os desafios à nação por meio de discursos regionalistas a respeito desse esporte moderno. Esses, por si mesmos, eram ancorados em um espaço que transcende a nação, fazendo parte de um processo complexo de construções e afirmações de identidades nacionais e regionais em um contexto global.

Internacionalização e ‘pioneirismo’ em São Paulo

Desde os primeiros contatos futebolísticos entre São Paulo e Rio de Janeiro, a partir de 1901 ( Franzini, 2003; Pereira, 2000), desenvolveu-se uma relação contínua e preferencial que forjou e acentuou a rivalidade entre as duas cidades. Em ambas, elites esportivas, jornalistas, presidentes de clubes e educadores da nascente área de educação física autoclassificavam-se como os centros do movimento esportivo que poderia e deveria ‘civilizar’ outras regiões do Brasil em termos esportivos ( Sant’Anna, 26 abr. 1918). 1

Em um contexto mais abrangente, global, os dois centros encaixaram-se em uma escala de ‘civilização esportiva’ da qual faziam parte países vistos como ‘civilizados’ – Inglaterra, França, EUA, Argentina e Uruguai – e regiões vistas como ‘atrasadas’ dentro do próprio país. Essa inserção em uma ordem internacional-regional de estágios de civilização aconteceu também entre São Paulo e Rio de Janeiro. As elites esportivas das duas cidades competiam não somente nos próprios campos de jogo, mas também em um campo mais amplo, discursivo, pela soberania e pelo direito de representar a nação esportiva dentro do Brasil e no exterior. O futebol não escapou a essa lógica, ajudando a enfatizar esta imagem: os paulistas usavam-no para construir a identidade de uma São Paulo moderna, adiantada e civilizada.

Enquanto outras regiões não dispunham de um discurso tão poderoso que pudesse rivalizar com o dos paulistas no que tange à suposta superioridade no futebol, esportistas do Rio de Janeiro questionaram-no cada vez mais, construindo a rivalidade entre ambas as cidades. Na capital do estado cafeeiro, o futebol foi edificado como uma prática cultural pertencente, quase que ‘naturalmente’, aos hábitos dos moradores de uma São Paulo moderna, que se encontrava à frente das demais regiões do país em termos culturais, políticos e econômicos ( Sevcenko, 1992). Isso não significa, contudo, que ele tenha sido carregado apenas de sentidos de outras esferas sociais supostamente mais importantes, como a política e a economia. O futebol, em si, servia também como uma forma de construir e difundir esses discursos, o que significa que ele pode ser pesquisado também como um “mundo próprio” ( Eisenberg, 1999, p.12-16; Eisenberg, 2005); que não é somente um retrato de processos sociais e culturais mais amplos, podendo ser analisado a partir de suas próprias lógicas e regras.

A difusão do futebol em São Paulo ocorreu em um momento anterior à fundação dos clubes de elite e à chegada do conhecido esportista Charles Miller. A partir da década de 1880, uma reforma educacional em nível nacional introduziu práticas esportivas nas escolas tomando como exemplo as instituições de ensino europeias. Nos anos 1890, regras muito similares às do futebol moderno já haviam sido introduzidas a jovens estudantes. Junto com imigrantes trabalhadores das ferrovias, eles passaram a praticar o esporte em espaços abertos, como nas linhas de trem em construção ( Santos, Neto, 2002). Assim, mesmo o Rio de Janeiro sendo uma cidade esportiva pelo menos desde o último quarto do século XIX, o movimento de criação do futebol de forma organizada, governado por uma liga formada por clubes, começou em São Paulo ( Melo, 2001; Pereira, 2000; Neto, 2002).

Os primeiros clubes, como o Internacional, composto de imigrantes de diferentes nacionalidades, o clube alemão Germânia, o Clube Athlético Paulistano e o clube do colégio Mackenzie, foram fundados por volta de 1900. No Rio de Janeiro, o entusiasmo pelo futebol só começou em 1901, a partir dos encontros com esses pioneiros paulistas ( Pereira, 2000). A capital do país passou a ser o centro administrativo do futebol nacional depois da configuração de uma forte ligação entre dirigentes dos clubes locais e o governo federal ( Caldas, 1990; Sarmento, 2006). Mesmo assim, São Paulo reclamava para si o pioneirismo da introdução do futebol no Brasil, baseado nos contatos com a comunidade internacional esportiva, passando a exigir a representação administrativa do esporte.

Obviamente, rivalidades entre duas cidades que funcionam como centros políticos, econômicos e culturais em um país são até certo ponto normais. Mesmo assim, é interessante atentar para a forma como essa rivalidade foi estabelecida, uma vez que ela aponta para construções identitárias que se sobrepõem às identidades nacionais, ao passo que são inspiradas e construídas dentro de um contexto mais amplo. O futebol, nesse sentido, pode servir para analisar conceitos e processos de diferenciação.

Regionalismos na administração do futebol

Desde os primeiros anos do século XX, cariocas e paulistas enfrentaram-se em jogos e construíram uma rivalidade, sobretudo entre clubes de elite como o Paulistano e o Fluminense F.C. Nesse momento ainda prevalecia o espírito de fair-playentre os gentlemenque entravam em campo. Tal cenário alterou-se apenas durante o entreguerras, quando houve uma verdadeira internacionalização esportiva. Com a valorização internacional do futebol como meio de diplomacia e representação no âmbito da Primeira Guerra Mundial, a rivalidade entre paulistas e cariocas acabou ganhando outro significado.

A Primeira Guerra Mundial não representou apenas uma desilusão com valores europeus e a intensificação de nacionalismos, mas também afetou o futebol internacional de forma mais concreta. Depois da guerra, governantes e diplomatas passaram a reconhecer esse esporte como uma forma de diplomacia cultural ( Arnaud, 1998a; Keys, 2006). Desde então, os governos passaram a promover festivais esportivos e começaram a investir em uma infraestrutura esportiva para levar o esporte às escolas com o intuito de formar recrutas para os exércitos nacionais ( Keys, 2006). Alguns países chegaram a fundar, nessa mesma época, ministérios esportivos ou a promover de forma significativa o esporte ( Arnaud, 1998b; Pope, 1997). Até o governo britânico, que tradicionalmente recusava qualquer envolvimento com os esportes, passou a interessar-se por ele como instrumento alternativo de diplomacia ( Beck, 1999). O Brasil não escapou desse processo mais amplo, adotando práticas semelhantes às dos demais países, mesmo que aqui isso tenha sido algo menos contínuo e planejado e mais arbitrário ( Terret, 2009).

Facilitaram o internacionalismo do esporte nessa época, entre outros fatores, as melhorias no setor de transportes ( Lanfranchi, Taylor, 2001). Isso é visível sobretudo no caso de São Paulo e Rio de Janeiro. As duas cidades eram os centros esportivos dessa época no Brasil, simplesmente porque, até os anos 1930, os times que participaram em jogos internacionais eram compostos basicamente por jogadores dos grandes clubes de ambas as cidades. Os times estrangeiros que excursionaram para a América do Sul visitaram preferencialmente os dois estados, graças a uma vantagem geográfica e ao maior apoio financeiro e político recebido pelos clubes de elites desses centros ( Caldas, 1990). Foram, portanto, esportistas e diretores de clubes e associações esportivas dessas duas cidades que definiram, por meio da seleção de jogadores, como o Brasil seria representado mundo afora. É importante enfatizar a importância de eventos e locais esportivos que no olhar dos autores contemporâneos funcionaram como pequenos palcos efêmeros para demonstrar o ‘estado civilizatório’ de uma nação. Eram, a um só tempo, palcos para um internacionalismo esportivo de um mundo próprio e palcos de um nacionalismo cada vez mais forte, em que as nações poderiam exibir ideias e elaborar discursos ( Dyreson, 2003; Eisenberg, 2001).

A internacionalização do esporte ocorreu principalmente pela necessidade de criação de órgãos independentes, não partidários, que poderiam interpretar e vigiar as regras do esporte nas competições internacionais. Chefes de associações nacionais da Europa continental, sobretudo franceses, belgas, holandeses, suíços e dinamarqueses, fundaram a Fifa (Fédération Internationale de Football Association) em 1904, com o objetivo de que dela fizessem parte todas as associações nacionais de esporte do mundo, para futuramente criar um campeonato mundial de futebol. Desde o início a Fifa funcionou pelo princípio ‘uma nação, um voto’. Dessa forma a entidade interferiu diretamente na política esportiva de vários países que tinham associações esportivas concorrentes, exercendo um efeito uniformizador sobre elas ( Eisenberg, 2006; Keys, 2006).

Tanto a criação da Fifa como, mais tarde, a Primeira Guerra Mundial, tiveram um efeito não só uniformizador, mas também de regionalização no âmbito da América do Sul. Em 1915, enquanto as relações esportivas internacionais com países europeus estavam temporariamente barradas pela guerra, as já existentes associações esportivas nacionais do Uruguai e da Argentina esforçaram-se para organizar um campeonato sul-americano de futebol e fundar uma associação sul-americana no ano seguinte. Para que o Brasil pudesse participar e associar-se ao órgão continental, ele deveria apresentar um time selecionado por uma entidade oficial nacional.

Aproveitando-se de uma cisão entre as diversas entidades esportivas de São Paulo, que enfraqueceu um posicionamento coeso dos paulistas, os cariocas souberam fortalecer sua hegemonia nacional no que tange à administração esportiva. Foi a partir dessas novas constelações locais e exigências internacionais que paulistas e cariocas começaram a lutar para poder representar o Brasil diante da comunidade internacional. Tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro, as elites fundaram associações esportivas com a pretensão de representar o esporte nacional e poder associar-se à Fifa, ao Comitê Olímpico Internacional e à Confederação Sul-americana de Futebol. A fundação de uma associação esportiva nacional virou um conflito que ultrapassou as fronteiras do país, visto que agentes dos dois partidos fizeram valer seus contatos com a comunidade esportiva internacional ( Caldas, 1990; Sarmento, 2006). Embora as tentativas locais não tenham obtido sucesso, as negociações políticas em torno da fundação da Confederação Brasileira de Desportes (CBD), inaugurada com a fusão das associações paulistas e cariocas, mostram o quanto a organização política do futebol deixou de ser um assunto nacional, ficando restrita ao eixo Rio-São Paulo. Todavia, esse acordo entre as duas cidades não pacificou a rivalidade. Pelo contrário: a CBD foi dirigida pela elite esportiva carioca, enquanto os paulistas, encorajados por muitos sucessos esportivos, estavam cada vez mais seguros de seu papel como representantes legítimos do futebol nacional, ainda que prescindissem de uma instituição formal, de âmbito nacional, como seus rivais.

A partir da instalação do Campeonato Sul-americano em 1916, foram formadas seleções brasileiras, compostas por jogadores cariocas e paulistas. O processo de seleção, no entanto, causou repetidos conflitos entre as associações rivais. O direito de escolher ficava com a CBD e, portanto, os cariocas foram várias vezes acusados de ter excluído os paulistas das seleções por motivos políticos e por um sentimento de ‘bairrismo’. Entre 1920 e 1921, a Associação Paulista de Esportes Atléticos (Apea) retirou seus jogadores da seleção que representou o Brasil nos campeonatos sul-americanos sediados respectivamente no Chile e na Argentina. O ocorrido foi resultado de uma decisão da entidade paulista após um longo conflito entre as associações esportivas de São Paulo e Rio de Janeiro em torno de um campeonato interestadual, a Taça Ioduran. Logo, a imprensa carioca interpretou a atitude dos paulistas como um ato que demonstrava falta de patriotismo de seus rivais:

S. Paulo esportivo está mesmo fora do mapa do Brasil, proclamou-se independente, passando a viver sob o domínio da política de uma força de desfibrados que abdicaram os seus melhores sentimentos em favor de uma causa ingrata, contra o crédito esportivo brasileiro, perante as nações do continente sul-americano que, em Valparaíso, vão disputar o título de campeão do football( Sejamos brasileiros…, 21 ago. 1920, p.6). 2

Até altas personalidades políticas, como o governador do estado de São Paulo, Washington Luís, intervieram para que a Apea mudasse de opinião. As medidas, contudo, não obtiveram sucesso ( Para o Chile, 24 ago. 1920). 3

Quando a seleção brasileira-carioca que estava no Chile sofreu uma derrota de zero a seis contra os uruguaios, a reação dos paulistas foi de pouca surpresa. Nos comentários que redigiram sobre o ocorrido deram a entender que haviam duvidado, desde o começo, que esse time poderia demonstrar “a força média do futebol brasileiro, quanto mais a sua força máxima, que podia, que devia representar” ( Uruguayos..., 19 set. 1920, p.6). Um jornalista, ante a derrota do time nacional carioca, constatou que “[é] sempre preferível que um quadro regional triunfante honre as cores da nação do que um combinado nacional fraquejante desmoralize o nosso esporte lá fora”. Esse comentário expressou o pensamento geral dos paulistas com referência à sua relação com os demais estados. O mesmo autor até sugeriu a fundação de uma associação de futebol nacional a partir de São Paulo, “pois, organizando, nós, uma Federação estaremos livres e desimpedidos para honrar melhor o nome do nosso país” ( Fundemos…, 4 set. 1920, p.2).

A imprensa carioca, ao contrário, culpou ainda mais a falta de patriotismo paulista pela derrota, como expôs um jornalista do jornal O Paiz:

S. Paulo esportivo, a estas horas também canta a sua ‘Aída’, num coro que há de repercutir lá no estrangeiro, não com aplausos, mas sim como um brado de revolta ante a mesquinhez e ambição deles, negando-se a dar jogadores para a representação brasileira, colocando os seus interesses regionais acima da Pátria, onde nasceram, onde vivem e onde gozam dos seus proveitos. … Mas a vitória moral, essa sim, é nossa, unicamente nossa, quer eles, paulistas, queiram, quer não. Pela derrota dos brasileiros os nossos parabéns a S. Paulo esportivo ( Campeonato..., 19 set. 1920b).

Em suma, os paulistas teriam favorecido, na opinião de seus rivais, a região ante uma causa nacional, sobretudo diante da aproximação bem-vinda com as demais nações sul-americanas ( Campeonato…, 19 set. 1920a, p.6). As coisas repetiram-se, em 1921, por ocasião do Campeonato Sul-americano na Argentina, quando uma nova retirada de jogadores paulistas acentuou ainda mais a rivalidade entre as duas cidades.

São Paulo como ‘centro de emanação’

Os sentimentos de rivalidade entre São Paulo e Rio de Janeiro acumularam-se diante de vários eventos esportivos internacionais e nacionais nos anos 1920. Um deles foi a visita do rei belga, Alberto, e sua esposa ao Brasil. O casal permaneceria no Rio de Janeiro durante a maior parte de sua visita e, para homenageá-los, foi organizado um festival esportivo pelo Fluminense F.C. O desfile de esportistas frente ao rei foi visto como uma demonstração de um novo Brasil ( Pereira, 2000) e de um novo homem brasileiro, como deixa a entender o jornal O Paiz:

[É] o Brasil de amanhã, altivo, de peito aberto e moço, mostrando nos braços os músculos educados, e no corpo o perfil esbelto da sadia robustez, quem desfilará diante dos soberanos da grande Bélgica, quem dirá a suas majestades que somos um povo em evidente evolucionar esportivo e que o sportentre nós já se tornou um ídolo, senão uma religião ( A apotheose…, 26 set. 1920).

Os jornalistas paulistas, por seu lado, duvidaram de que os cariocas pudessem representar a nação brasileira da melhor forma. Na esteira da exclusão dos jogadores paulistas promovida pela Apea, ocorrida pouco antes, os paulistas pensavam em organizar a sua própria forma de honrar os soberanos belgas em 1920. A justificativa dada para tal residia no fato de que:

[o]s cariocas são fracos, estão agravados agora com a ausência de seus melhores elementos [que se achavam no Chile para a disputa do Campeonato Sul-americano]. Não é S. Paulo portanto (agora ainda mais do que sempre) o legítimo representante do futebol pátrio? Não está em condições de fazer realizar uma luta belíssima? ( Pró-estadio, 27 set. 1920).

As afirmações em relação à representação fraca promovida pela CBD se referiam também à viagem de uma delegação esportiva para os jogos olímpicos na Antuérpia no mesmo ano, pouco antes da visita dos soberanos belgas. Essa delegação não foi composta por jogadores de futebol, mas por alguns atletas. A CBD tinha programado mandar uma delegação de vários ramos de esporte para essa edição dos jogos olímpicos, mas sofreu com a falta de dinheiro para esse empreendimento. Afinal, a delegação teve que pedir ajuda ao Comitê Olímpico Internacional para custear a viagem dos atletas brasileiros à Europa. Os paulistas condenavam essa postura e achavam o pedido de ajuda um gesto vergonhoso. Sua imprensa denominou as delegações brasileiras “embaixadas de fome”. Além disso, definiram a CBD como uma organização à qual faltava um sentido de organização, característica tida como tipicamente carioca, mas agora representando o Brasil inteiro. Dessa forma, os paulistas se posicionaram contra o Rio de Janeiro, colocando-se como “modernos” e “progressivos”, dignos de representar o verdadeiro esporte nacional ( Para Anvers..., 6 jul. 1920, p.7). 4 De nada havia adiantado o Rio ter tomado medidas para mostrar um Brasil ‘civilizado’, moderno e progressista ( Caulfield, 2005), pois, de acordo com a imprensa paulista, os cariocas não alcançariam resultados práticos se continuassem apresentando um Brasil ‘decadente’, ‘atrasado’ e ‘desorganizado’.

Se a cidade do Rio de Janeiro foi caracterizada dessa forma também no futebol, São Paulo, ao contrário, foi designada como a vanguarda do Brasil no que dizia respeito ao esporte. Um jornalista, relatando a derrota do Fluminense contra um clube paulista em 1920, expressou muito bem a posição geral de uma parte dos paulistas em relação à superioridade cultural e até racial de São Paulo:

E aí assim é, se o footballno Brasil alcança esse grau de cultura reveladora das ótimas disposições e aptidões físicas da nossa raça, é inegável que isso devemos aos paulistas, os perpétuos defensores da bandeira do país. ... [E]m football– como aliás em tantas outras coisas – S. Paulo é o campeão, o orientador, a corrente preponderante, o expoente máximo ( O Paulistano…, 29 mar. 1920).

Com base nessas posições, não surpreende que os paulistas tenham construído, desde os primórdios do futebol, um discurso que colocava São Paulo como a cidade esportiva da qual emanava, por excelência, o conhecimento futebolístico para as regiões ‘atrasadas’ do país. Tal ideologia foi expressa em uma canção de futebol intitulada “Marcha Brasil”, que torcedores do C.A. Paulistano compuseram na ocasião da derrota da seleção no Chile, da qual os paulistas não fizeram parte.

Salve os campeões

Verdadeiros gloriosos Sul-americanos

No ano em que os Paulistas

Fez que o Brasil, tomasse nome nas revistas [sic]

Paulistas aventureiros

Sempre guerreiros, jamais falhou, [sic]

No Chile, nós lá não fomos

O campeonato por lá ficou.

Brasil perdeu o nome

Serviu à Capital de lição

O 19 campeonato é nosso [sic; referência ao Campeonato Sul-americano de 1919, ganho pelos brasileiros no próprio país]

Paulistas heróis e campeão [sic]

São Paulo, o grande nome

Paulista baluarte da nação

Tudo por tudo primeiro São Paulo

Que dá a civilização

(O football…, 30 out. 1920).

Do ponto de vista do jornalista esportivo paulistano Leopoldo Sant’Anna (26 abr. 1918), os paulistas iriam sair da “metrópole do país” para que por “toda parte, pelo norte como pelo sul do continente, os nossos patrícios nos representam e honram, tanto pela sua perícia e esforço – como pela sua encantadora gentileza”. Os paulistas levariam a “civilização esportiva” ao resto do Brasil e, naturalmente, representariam o Brasil no mundo inteiro. Consequentemente, o futebol como “meio civilizador”, como formularam várias outras fontes, iria realizar “em alguns dias, o que levam anos para realizar as formalidades protocolares de toda uma diplomacia”, ajudando a conseguir um “estreitamento fraternal” de regiões geograficamente distantes. Isto é, os paulistas tinham o desejo e a pretensão de difundir o futebol “correto”, com o intuito de unir a nação sob a liderança do estado tido como o mais adiantado.

Ao longo do contato futebolístico entre as duas cidades, a rivalidade entre Rio de Janeiro e São Paulo baseou-se, em grande parte, em uma diferenciação cultural que elites e jornalistas fizeram entre ambas. Os cariocas, por exemplo, foram relacionados pelos paulistas a características como a indolência e a desorganização. Isso ocorreu principalmente no contexto da realização do Campeonato Sul-americano, por ocasião da comemoração do centenário de independência no Rio de Janeiro, em 1922 ( A Gazeta, jan. 1922). 5 Nesse, que pode ser visto como um dos anos esportivos mais significativos da Primeira República pela forte aliança dos discursos esportivos aos discursos políticos e sociais reinantes, a rivalidade alcançou o seu auge. Isso está diretamente relacionado, no campo discursivo, a uma disputa pela representação histórica da Independência e, consequentemente, da unidade nacional do Brasil ( Ferreira, 2002), expressando-se também em competições nos campos de jogo.

Dos pavilhões e objetos da exposição internacional em comemoração ao centenário da Independência, um dos mais importantes foi o esporte. A CBD, o Comitê Olímpico Internacional e a Associação Cristã dos Moços organizaram jogos olímpicos regionais e convidaram outras nações esportivas da região, como Argentina e Uruguai, para participar das atividades. Com a importância de eventos esportivos internacionais em função de questões diplomáticas, esses jogos eram avaliados como um dos acontecimentos mais importantes em torno das comemorações. Mas também aqui, por diferentes motivos, principalmente a falta de verbas, a CBD deixou a organização para o último momento ( Torres, 2006). Os paulistas, então, voltaram a duvidar do potencial de organização da entidade carioca, sobretudo depois de seu pedido de apoio financeiro ao estado de São Paulo: “O Rio esportivo”, observou um jornal, “quando se vê em sérios apuros apela para S. Paulo. Isso já é muito velho, coisa cediça no esporte nacional” ( A Gazeta, 9 fev. 1922).

Em 1922 o autor e jornalista esportivo Leopoldo Sant’Anna precipitou o que mais tarde viria a ser narrativa em seu livro Decadência e supremacia do esporte paulistano( 1925). Segundo o autor:

[t]ornamo-nos, em política, o estado leader, como também o somos em comércio, em indústria, em artes. Nossa vontade tem sido respeitada no cenário nacional. Nossos representantes junto ao parlamento, onde se erguem as vozes de 21 estados, sabem o segredo de tornar aceitos os seus ideais, de fazer vencer todos os seus pensamentos e todos os seus planos. Somos uma potência política. Não nos curvamos ( Sant’Anna, 13 set. 1922).

Mesmo assim, comentou Sant’Anna (13 set. 1922), essa supremacia política, econômica e cultural não correspondia ao papel de São Paulo na administração do esporte, que “não representa nas suas relações externas a sombranceria dos bandeirantes”.

Figura 1 : Semana dos símbolos da nação (Semana..., 26 set. 1922) 

A superioridade e autopercepção de São Paulo como o centro de emanação do futebol do Brasil se expressou também em várias ilustrações. Uma delas foi publicada logo depois do sucesso dos paulistas no primeiro campeonato brasileiro em 1922. 6 A imagem com o subtítulo “O globo vai representar a supremacia de S. Paulo nos campos de futebol” demonstra o quanto a autoclassificação paulista de ser superior no futebol estava ligada a acontecimentos políticos. Aqui, a superioridade na indústria, na economia e no futebol é simbolizada por diferentes componentes da bandeira nacional. Assim, os paulistas demonstraram simbolicamente a universalidade das suas pretensões e de novo localizavam-se não apenas no âmbito nacional, mas também no global.

Mesmo com os sucessos nos Campeonatos Sul-americanos, os representantes de uma vertente para a internacionalização do esporte acharam vergonhoso que o Brasil não tivesse sido capaz de formar equipes de futebol para mandá-las para os jogos olímpicos de 1924 e 1928, quando os futebolistas do Uruguai e, no último, também da Argentina, obtiveram grandes sucessos. Esse sentimento de inferioridade teve ampla repercussão sobre os paulistas, que passaram a adotar iniciativas privadas de demonstração do potencial esportivo do Brasil a partir de São Paulo.

“Diplomacia do chute”: negociação de identidades raciais e étnicas na Europa

É importante levar em consideração o papel dado ao esporte nessa fase da hierarquização da identidade nacional pelos paulistas. Um jornalista da época considerou o século XX o século do esporte, no qual atletas e jogadores de futebol tomaram o lugar de diplomatas – questões internacionais poderiam ser decididas em partidas de futebol, em vez de em banquetes e encontros formais de alguns poucos estadistas. Essa “diplomacia de chute”, como ele denominou os encontros internacionais de futebol, representaria o Brasil também como potência econômica ( Cordovil, 21 mar. 1925). Tanto que, em 1925, um dos patrocinadores mais importantes da comunidade esportiva de São Paulo, Antônio Prado Júnior, organizou a visita do C.A. Paulistano à Europa. Não é por acaso que o clube visitou a França, já que Prado Júnior vinha de uma das famílias mais importantes da elite cafeeira de São Paulo, que tradicionalmente dispunha de contatos muito fortes com elites francesas ( Levi, 1987), a ponto de Prado Júnior ter entrado pessoalmente em contato com líderes das principais organizações esportivas da França. A visita do clube ao país europeu foi um sucesso enorme. No Brasil, na Argentina, no Uruguai e na França, ela foi interpretada como se o clube tivesse sido uma seleção nacional e até uma representação de toda a América do Sul.

Já no começo do trajeto, a delegação paulista, composta de jornalistas dos principais periódicos da cidade e de jogadores, ficou muito convencida da missão patriótica da viagem. Tanto que ficou desiludida com a recepção desinteressada do barco Zeelândia – no qual haviam embarcado em Santos rumo à Europa – pelos pernambucanos no porto de Recife, última parada antes do Velho Mundo.

Havia no cais uma multidão compacta, que supusemos, a princípio, tivesse vindo por nossa causa. Nada disso, entretanto. Nós éramos como se não fôssemos brasileiros, como se não saíssemos da pátria, para representá-la no estrangeiro. Sabíamos já da descortesia que haviam feito com a delegação atlética de 1924 [que viajou para as Olímpiadas de Antuérpia], não a procurando, nem lhe dando sinal algum de interesse ou de simpatia. Julgávamos, porém, que se tivesse tratado de uma falta de informação, devido ao fato da delegação de atletismo ter ido à Europa com discrição muito propositada. Mas não imaginávamos que com o Paulistano, cuja saída de S. Paulo para a Europa tem sido largamente anunciada e comentada há meses, se fosse reproduzir um esquecimento que, no caso, seria, como foi, inominável falta de polidez, até mesmo de patriotismo ( Atravessando…, 23 mar. 1925).

Tamanha falta de patriotismo surgiu mais algumas vezes como acusação contra brasileiros de outros estados em relação à recepção das notícias do sucesso dos paulistanos. Antes da viagem, as intenções eram ainda modestas, como Prado Júnior reconheceu:

não somente para o europeu, em geral, a América do Sul é uma espécie de nebulosa geografia em que se não distinguem muito bem os países com ainda [sic] porque, no caso de que se trata, a turma em questão não representa uma instituição nacional senão apenas um conjunto de província ali pouco conhecida ( O C.A. Paulistano…, 21 jan. 1925).

No entanto, a partir dos primeiros sucessos da equipe na Europa, as intenções se tornaram mais ambiciosas. O reconhecimento e elogio feito pela comunidade internacional levou os paulistas a se sentir como os legítimos representantes tanto do Brasil como da América do Sul. Ao mesmo tempo, em Paris, faziam questão de querer demonstrar um Brasil paulistano para o público europeu, isto é, um Brasil próspero, civilizado, moderno e branco, como fizeram em diversos outros momentos ( Weinstein, 2003, p.243). A delegação paulista parecia estar consciente de que os interesses envolvidos na viagem não eram apenas esportivos: a delegação levou folhetos do Ministério da Agricultura e rolos de filmes que mostravam a região de São Paulo, provavelmente com o intuito de fazer propaganda do café brasileiro na Europa.

Mas a imagem que eles queriam projetar foi sensível a qualquer crítica. Nos jornais, os franceses comparavam os brasileiros constantemente aos jogadores uruguaios, que haviam ganho as Olimpíadas na França, em 1924, e percorreram a Europa, em 1925, com o clube Nacional. Diferenciando os brasileiros de seus vizinhos pelo fenótipo e pelo estilo de jogar, os franceses associavam os primeiros aos etíopes e chamaram atenção pelo fato de a equipe ser composta por “mulatos e mestiços” ( Galsán, 2 abr. 1925). Noções culturais e raciais foram usadas para descrever o estilo brasileiro, relembrando seu passado colonial e escravista e relacionando-o diretamente a seus vizinhos sul-americanos:

Da vitória esportiva do Brasil, que veio logo após à do Uruguai, no musculoso jogo de futebol, não me parece exagerado dizer, como Goethe depois da batalha de Valmy: “Um novo mundo começa...” Mas temos que ela transforma nossa concepção de uma América do Sul onde os plantadores indolentes, deitados numa rede balançada por uma negra, fumando preguiçosamente na sombra das palmeiras. … E olho esses rostos jovens, alinhados por volta da mesa como um mural de cabeças latinas, ligeiramente mais dourados pelo sol, que não seriam as de uma equipe de Bayonne ou de Perpignan. Nenhum deles jamais veio à Europa. Todos falam francês. É o suficiente para evocar o contraste para com uma equipe escandinava ou inglesa, para sentir que a latinidade não é um sonho. … Eles são atletas, mas atletas latinos, isto é, ardentes. Eles me confessam que é o caso de acabar com os jogos entre São Paulo e Rio de Janeiro lá [no Brasil], tanto é a paixão com que lá os apoiam jogadores e espectadores arriscando incitar pequenas guerras civis. Mas com Uruguai, Argentina e Chile, a competição é constante. Esses três países e o Sul do Brasil compõem juntos aquilo que se pode chamar de a América fria, onde o boxe e o football, esportes viris, se juntam aos esportes da América quente, que são a dança e o amor. Eles ainda não terminaram de nos surpreender ( Waleffe, 18 mar. 1925). 7

Vale a pena mencionar que os próprios franceses, no principal jogo contra os brasileiros, sofreram uma crise identitária por terem incluído jogadores argelinos no seu time. Sua derrota em casa foi interpretada pela imprensa local como uma oprobiosa demonstração de uma nação não coesa, atribuindo-se a culpa pelo resultado adverso aos jogadores norte-africanos que faziam parte do time ( Le miracle…, 17 mar. 1925). 8 A vitória dos paulistanos no estádio Buffalo, em Paris, forneceu-lhes tanta autoestima que até surgiu uma caricatura em um jornal paulista ironizando o fato de os franceses terem que recorrer a jogadores das colônias para enfrentar os brasileiros fortes, comparando isso ao recrutamento pelo exército francês na Primeira Guerra Mundial ( Como…, 17 abr. 1925).

Mas a comparação dos brasileiros com africanos, o apontamento para a composição do time de ‘mulatos e mestiços’ e a narrativa de uma vitória alcançada com um pouco de “feitiçaria” fez com que os brasileiros ficassem bastante inseguros em relação ao resultado, como fica evidente em um artigo da revista Dom Quixote:

Figura 2 : Como na Grande Guerra: para sustar a marcha triunfal do Paulistano na Europa, será preciso apelar para as colônias (Como..., 17 abr. 1925) 

‘com todas as regras de arte’… realmente os nossos campeões são verdadeiros artistas da ‘pelota’. Isso mesmo atesta a falta de senso de considerar como resultado de uma feitiçaria uma vitória conseguida ‘com todas as regras, etc…’ Dir-se-ia que os franceses, depois de nos taxarem de mestiços, queriam fazer crer que os nossos jogadores fossem ‘pais de santos?…’ Ou é simplesmente a falta do hábito da cortesia esportiva e polidez social que se faz sentir nos arquicivilisados povos da terra de Landrú? ( Abalisões…, 13 maio 1925). 9

Nem a imprensa nem a comunidade esportiva no Brasil estava satisfeita com essas imagens deixadas. Houve receio de que o esporte não fosse uma expressão cultural adequada para integrantes da elite paulista ( O Paulistano…, 26 mar. 1925). Ainda assim, os paulistas chegaram a se portar como os ‘civilizadores’ esportivos dos franceses, como se estivessem ensinando aos europeus o comportamento condizente em termos culturais, tal qual escreveu o escritor Benjamin Constallat (19 mar. 1925)depois da vitória do Paulistano contra os donos da casa:

os franceses continuaram a chamar os foot-ballersbrasileiros de ‘brasileirinhos’ – de petits brésiliens... Brasileirinhos! Isso dito em tom pejorativo … Brasileirinhos, sim, mais uns brasileirinhos que sempre tiveram mais elegância moral do que vocês; brasilerinhos que nunca vaiaram um adversário caído; brasileirinhos que ensinarão a vocês o dia que aqui vierem, como se pratica ainda o velho e antigo dever da hospitalidade; brasileirinhos que ensinarão a vocês muita coisa, inclusive de serem educados e a jogar foot-ball. Brasileirinhos, sim, mas filhos de uma pátria dezessete vezes maior que a França! Só se somos pequeninos porque nossa terra é grande!

Contrariando as imagens da imprensa francesa, o sucesso do time na Europa foi posteriormente apresentado e recebido pela imprensa e pela comunidade esportiva em geral como representante de um espírito bandeirante, sendo conceituado como uma façanha corajosa e heróica, ao mesmo tempo moderna e indicadora de progresso.

O futebol, dessa forma, ajudou a construir o mito do paulistano como o povo brasileiro por excelência, representante do Brasil moderno, completando-o com uma imagem corporal e discursiva, própria do esportista do século XX. Esse, por seu turno, tinha seus ascendentes nos bandeirantes. Portanto, ele foi construído como uma personalidade progressista que se baseava ao mesmo tempo na tradição. Com essa composição, ele era visto como ainda mais completo do que qualquer outro esportista de outra região no Brasil, uma vez que seria a base para a criação de um novo homem brasileiro, até uma ‘nova raça brasileira’ que emanasse de São Paulo. 10

Considerações finais

A internacionalização do futebol e a contínua construção de uma comunidade esportiva transnacional no começo do século XX fizeram com que a diferenciação regional e a internacionalização desse esporte ocorressem de forma concomitante e interdependente. No Brasil, o mesmo processo pode ser visto: o futebol serviu para as elites de São Paulo e Rio de Janeiro construírem e expressarem suas identidades regionais. Neste texto, buscou-se analisar esses processos de diferenciação entre ambas as cidades a partir da análise de determinados eventos esportivos sob uma perspectiva global e local.

A maioria da literatura existente trata da história do futebol de um ângulo nacional, mas vale a pena ancorar o referido esporte em seu contexto global de desenvolvimento. Assim vemos que a construção de identidades regionais foi desenvolvida discursivamente em contexto mais amplo que as fronteiras nacionais, ao mesmo tempo em que teve a nação como foco. Como a última parte do texto mostra, as elites paulistas precisavam, para reforçar a sua autoestima no âmbito nacional, do reconhecimento europeu. A interação e a negociação transnacional condicionavam uma diferenciação e uma demarcação no âmbito nacional. Depois dos sucessos na Europa, os paulistas entraram ainda mais confiantes nos campos de jogo e consideraram comprovada uma superioridade cultural-étnica do Brasil em relação à Europa. Os paulistas tentaram propagar uma ‘brasilidade’ com jogadores que correspondiam a um conceito de modernização da nação. Uma nação que era incorporada por eles através do jogo de futebol, forma de expressão globalmente difundida.

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