Formação profissional e/ou educação universitária: de onde viemos, para onde vamos?

Formação profissional e/ou educação universitária: de onde viemos, para onde vamos?

Autores:

Mirelle Finkler

ARTIGO ORIGINAL

Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.21 no.61 Botucatu abr./jun. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1807-57622016.0753

Lançado em maio de 2016 pelo Editorial UOC de Barcelona, o livro ¿Quo Vadis, Universidad? é resultado da tese de doutorado em Filosofia do psicopedagogo e doutor em Pedagogia, Francisco Esteban Bara, professor do Departamento de Teoria e História da Educação da Universidade de Barcelona e membro do Grupo de Investigación en Educación Moral (GREM). A obra foi escrita em parceria com a professora Begoña Román, filósofa e doutora em Filosofia, docente da Faculdade de Filosofia da mesma universidade, e membro do Grupo de Investigación de la Generalitat de Cataluña Aporía: Filosofía Contemporánea, Ética y Política.

A provocação dos autores está relacionada ao fato de que, ano após ano, um grande número de alunos, independentemente do curso, tenha passado pela universidade como se fosse uma corrida de obstáculos, sem de fato a terem vivenciado. Nesse sentido, estimula a empatia do leitor, que, enquanto professor universitário, reconhece, com familiaridade, a emergência desses problemas na vivência acadêmica. Partindo do pressuposto de que a educação universitária forja os estudantes e que deve estar preparada e disposta para algo além do se adaptarem à realidade profissional, econômica e social, os autores tomam, como fio condutor de suas ideias, a educação moral do estudante – alguém que está convocado a conhecer e a se conhecer, a se aperfeiçoar e a ser um agente de transformação social.

Assumindo, desde o princípio da obra, a universidade como uma comunidade moral, os autores analisam os antecedentes e a evolução da universidade a fim de recuperarem os aspectos e circunstâncias que permitem vislumbrar a fundamentação filosófica que sustenta o seu surgimento, institucionalização e desenvolvimento. Neste percurso evolutivo, cujo germe conta com uma pré-história (escolas jônica, grega, persa e árabe), abordam os dois grandes modelos de organização universitária no período medieval que acabam por influenciar o destino da maioria das instituições ocidentais.

A obra relata como as faculdades se converteram na unidade essencial da instituição que orquestra a vida universitária, e como os colégios se transformaram em comunidades autônomas de professores e estudantes que conviviam – juntos buscavam a educação dos estudantes enquanto pessoas. Os autores discutem, então, as diversas ideias de universidade, analisando-as em relação às tensões com o restante da sociedade por sua missão e seu controle/liberdade. Destaca-se a importante influência do humanismo como uma nova atitude frente à tarefa e à finalidade da universidade medieval. Por fim, analisam como o iluminismo levou à substituição do intelectual pelo científico, alterando organicamente a função da universidade, que acaba se consolidando na preparação de funcionários ou profissionais.

Este percorrido culmina com a análise de diferentes concepções sobre a universidade em nosso imaginário social e acadêmico: uma universidade progressista que prioriza a eficácia e a eficiência na ‘formação profissional’ a serviço da comunidade social e política, e uma universidade clássica que busca a excelência por meio da ‘educação universitária’ ou formação humanística, que deveria orientar a sociedade sobre o que necessita e sobre o que lhe deveria interessar. Concepções estas complementares, que se retroalimentam, ainda que o equilíbrio entre elas seja realmente difícil, como comprovamos cotidianamente.

É oportuno ressaltar a distinção que assinalam a partir do pensamento alemão entre ‘formação’ (bildung) e ‘educação’ (erziehung), a primeira vinculada a conteúdo em seu sentido instrutivo, e a segunda, à vontade da pessoa e à valoração moral da realidade e de si mesma. Tal diferenciação merece atenção porque os níveis educativos anteriores ao universitário converteram-se em estandartes da educação moral e cidadã, ainda que o desenvolvimento moral também ocorra (ou deveria ocorrer) ao longo da formação/educação universitária. Tais modos de se entender a função da universidade – atribuindo um peso maior ou menor à formação profissional e à formação humanística – influenciam sobremaneira algumas das características essenciais que conformam a sua própria concepção.

No segundo capítulo, Esteban e Román analisam a tensão entre o que é e o que deveria ser a missão da universidade, a partir do ponto de vista filosófico de Wilhelm von Humboldt, John Henry Newman e José Ortega y Gasset – autores entre os de maior importância no que se conhece hoje como universidade moderna, base e fundamento da instituição contemporânea. Seus escritos conformam filosofias da educação universitária que transcendem a realidade que vivenciaram, posto que suas vozes seguem presentes não apenas na realidade europeia, foco dos autores, mas, também, em outras instituições universitárias.

Em comum, consideram que as ações da universidade deveriam estar voltadas para a educação integral da pessoa – de sua humanidade, personalidade e caráter – buscando convertê-la em um pensador livre, independente, responsável e crítico. Isto implicaria um tipo particular de vínculo entre professores e estudantes e a valorização da influência educativa dos primeiros sobre os segundos. Tratar-se-ia, portanto, de um lugar de educação para a vida, além da instrução ou formação profissional. Esta deveria ser adequadamente reposicionada após uma formação filosófica e humanística.

… el vivir no consiste en entregarse a la ciencia, la cultura o la profesión, sino al revés, consiste en convertirlos en instrumento para la vida, porque el fin último es construirse uno mismo en la circunstancia en la que se encuentra. La educación universitaria, pues, consiste en no dejarse llevar y, por lo tanto, es una educación creadora y transformadora, ese es su fin radical. (p. 135)

Mas o devir da educação universitária mudou de identidade. A formação profissional tem sido a tônica da universidade contemporânea que atribui à educação moral e cultural menor valor. Um fato particularmente incontestável na área da saúde, por parte dos pesquisadores, é a dedicação dispensada aos estudos da dimensão ética desse processo formativo/educativo no Brasil. Apesar disso, a formação de excelentes profissionais e comprometidos cidadãos é uma demanda repetidamente presente nos diferentes documentos oficiais que construíram o Espaço Europeu de Ensino Superior, assim como nas Diretrizes Curriculares para os Cursos de Graduação em Saúde brasileiros.

Os filósofos selecionados também convergem na concepção do que seria um saber tipicamente universitário – aquele que desenvolve o intelecto e a moral, que considera a ciência aberta e a cultura viva e que não conjuga com os saberes profissionais, mas com o saber filosófico. Significa dizer que o saber caracteristicamente universitário consistiria no livre filosofar, contrastando, radicalmente, com a tendência de veicular conhecimentos concretos e específicos, muito bem delimitados atualmente como competências profissionais a partir das quais se reestruturam os projetos político-pedagógicos. Os autores discutem, ainda, a problemática da autonomia universitária em Humboldt, Newman e Ortega y Gasset, que não se daria tanto pelo ponto de vista burocrático, econômico ou de relação com o mercado de trabalho, mas, sobretudo, ideológico. Em suma, são propostas que se alinham ao recuperarem a essência da universidade e da educação que lhe é própria: um processo autêntico de compreensão pessoal e de realização humana.

A terceira parte do livro está dedicada à crítica comunitarista da instituição universitária em seus discursos que atentam contra a educação moral. Discursos provenientes do utilitarismo, pragmatismo, relativismo e, especialmente, do liberalismo moral que governa o imaginário social nos últimos anos: um projeto que tenta esconder a responsabilidade social sob a bandeira da autonomia pessoal (a exemplo do atual projeto de lei conhecido como ‘Escola sem Partido’). Desenvolve, então, uma competente análise da controvérsia liberal-comunitarista em relação à questão da identidade, dos recursos da moral e de sua orientação, com base em autores que se mostraram críticos com alguns dos postulados liberais de John Rawls, como: Michel Sandel, Alasdair MacIntyre, Charles Taylor e Michael Walzer. Segundo estes pontos de vista, o liberalismo rawlsiano se engana por considerar que os valores morais não são parte fundamental do processo de construção identitária; e por não reconhecer que os indivíduos são seres comunitários, assim como seus valores. A inter-relação destas questões com as filosofias da educação universitária justifica a escolha da teoria comunitarista como referencial teórico adequado para se pensar a universidade de hoje – objeto da última parte da obra.

Rememorando Kant, para quem a educação universitária era per se uma realidade em tensão permanente por forças opostas, Esteban e Román situam que tais forças a mantêm viva justamente porque está permanentemente tensionada. De um lado, as que compartilham da ideia de que a educação universitária deva ser, sobretudo, uma questão de adaptação ao meio (a universidade, portanto, refletindo a realidade na qual se encontra); e, do outro, as que comungam do entendimento que deva servir, fundamentalmente, para dar forma e vida a uma atividade humana especial, orientando a realidade ao provê-la de cidadãos e profissionais eticamente competentes e socialmente comprometidos. O primeiro conjunto de forças puxa em direção ao futuro e o segundo, ao passado, porque a utilidade tem sido nosso parâmetro:

… aquello que es útil se convierte automáticamente en bueno y verdadero, no se duda de la bondad y veracidad de la educación universitaria si esta demuestra rentabilidad [..] resulta difícil defender la autenticidad de aquello que no transpira eficacia y excelencia. Es más, parece apostarse por una educación universitaria que produzca beneficios aquí y ahora, en poco tiempo. (p. 206-7)

A tese defendida pelos autores é a de que ambas as forças nos são igualmente caras e que o ótimo desenvolvimento da educação universitária depende de que nenhuma delas exceda a outra. Suas implicações incluem o reconhecimento do estudante como sujeito de aprendizado moral (e todos os problemas resultantes de como desenvolver e avaliar este aprendizado) e da educação universitária como educação na moral da corporação universitária. Isto implica, por sua vez, recuperar a influência ético-pedagógica dos docentes sobre os discentes, partindo da vinculação pessoal, promovendo modos de viver e atuar que potenciem a condição humana em direção à excelência moral.

Os argumentos empreendidos nos chamam a viver a universidade plenamente, estimular e orientar nossos estudantes a compreenderem o mundo desde uma determinada perspectiva, e se autocompreenderem nesse processo à medida que refletem sobre questões fundamentais, como: quem são, quem poderão ser e quem vão querer ser quando formados. Precisamos refletir com eles sobre a educação universitária e sobre o que é ser um estudante universitário. Encorajá-los a planejarem sua carreira, buscando recuperar o sentido educativo das atividades esportivas, culturais e políticas que complementam e enriquecem as meramente acadêmicas. Ainda, devemos apostar em uma cultura ética da vida universitária, o que exige o compromisso de trabalho em equipe por parte de todo o corpo docente.

¿Quo vadis, Universidad? é uma leitura que nos afeta profundamente, porque nos desassossega ainda mais ao levantar questões que permanecem reverberando: como tenho influenciado meus estudantes de fato? Em que medida e de que maneiras conseguiria entusiasmar meus colegas a nos reposicionarmos em relação à educação universitária? Devemos continuar tratando-a como ‘formação profissional’? Quais valores têm sido priorizados e quais temos desmerecido no âmbito acadêmico? Quais problemas atravessam nossa tarefa docente e cidadã? Quais nossas fortalezas para fazerem frente a elas? O caráter ético – porque nos convoca à reflexão –, político – porque nos interpela intervenção –, e estético – porque nos incita à recriação e transformação do já dado, é mais do que suficiente para considerar que a obra deva ser amplamente conhecida na educação universitária brasileira, e, em particular, na área da saúde, que urge ser alimentada pela filosofia e pela pedagogia para orientar e justificar sua prática educativa.

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