Frederico Simões Barbosa, um mestre na Universidade de Brasília

Frederico Simões Barbosa, um mestre na Universidade de Brasília

Autores:

José Paranaguá de Santana

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos de Saúde Pública

versão On-line ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.32 supl.1 Rio de Janeiro 2016

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311xes03s116

"Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas" (Guimarães Rosa 1; p. 429).

Quando o Professor Frederico Simões Barbosa chegou à Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (UnB), em 1972, eu estava iniciando o ciclo clínico do curso de medicina. Recordo o clima de satisfação de um grupo de professores que considerava o ingresso dele no corpo docente como um alento para a preservação do projeto idealizado na fundação da faculdade. Havia uma expectativa ligada ao prestígio desse professor e pesquisador, cuja experiência mais recente fora como consultor da Organização Mundial da Saúde, em Genebra (Suíça), onde atuara em um programa de cooperação internacional, com foco especial no controle da esquistossomose no vale do Rio Nilo, na África, trabalho que influenciou a criação de um dos mais importantes programas de pesquisa em doenças tropicais das Nações Unidas 2. O foco dessa esperança era contar com o apoio de uma autoridade acadêmica reconhecida no país e no exterior, que certamente se uniria ao esforço de renovação do ensino médico, ameaçado pelo conservadorismo da área e pelo retrocesso infligido ao projeto educacional fundador da UnB, então sob intervenção do governo ditatorial.

Minha aproximação inicial com o ilustre personagem recém-ingressado em nossa faculdade foi intermediada por dois conterrâneos dele, meus orientadores como bolsista acadêmico de um programa de iniciação científica financiado pelo Conselho Nacional de Pesquisa (os professores Reginaldo Holanda e Aluísio Costa e Silva). Dessa aproximação resultou a minha opção por realizar o estágio obrigatório de internato no Programa Integrado de Saúde Comunitária 3, implantado na cidade satélite de Planaltina, Distrito Federal, a partir de 1973, por um pequeno grupo de docentes liderados por Frederico Simões Barbosa (o grupo inicial incluía os professores Antônio Carlile Holanda Lavor, Flora Guanciale e Maria José Rocha). Esse projeto foi a parte mais expressiva do legado de Frederico durante a sua passagem pela UnB, conforme ele próprio sugeriu no pronunciamento que fez ao receber o título de Professor Honoris Causa, em 1995, mais de dez anos após a sua retirada involuntária da instituição. Naquela reflexão ele disse que a alma dos acontecimentos "...está naqueles que construíram algo em momentos difíceis neste país", que "cada um de nós, nesta universidade, colocou sua pedrinha, maior ou menor, no muro da modernidade", que "...o programa pretendia influir nas estruturas dos serviços de saúde, da docência e da pesquisa" e que "...Hoje, vejo claramente os componentes utópicos de uma proposta implantada no reduto mais aguerrido da ditadura" 4.

Para mim, o renomado professor e pesquisador, de quem se esperaria distância, frieza, relação protocolar, transformou-se em amigo e orientador. Ao assumir a diretoria da Faculdade de Ciências da Saúde, em 1975, Frederico não podia manter o mesmo tempo que antes dedicava à coordenação do Projeto Planaltina. E tomou uma decisão ousada ao designar-me coordenador local daquele projeto. Foi uma experiência marcante para um médico recém-formado, que, assim, aprendeu também a ousar; um aprendizado pautado nos limites da responsabilidade e do compromisso social que emanavam do exemplo que recebia de meu mestre. Nesse período, estimulado pelo Professor Frederico, ingressei na segunda turma do primeiro programa de pós-graduação em saúde de nossa universidade, o mestrado em Medicina Tropical. Daí adveio a minha segunda lição de ousadia, ao desenvolver uma dissertação totalmente fora dos cânones dessa tradicional área de ciências médicas. Sob a orientação de Frederico, aventurei-me no que até então era uma área incipiente, designada Epidemiologia dos Cuidados de Saúde; mais afoito ainda, adotei uma abordagem questionadora da "aplicação extensiva de novos conhecimentos científicos e conquistas tecnológicas" ante "fatores ligados ao estágio de desenvolvimento econômico e ao perfil sócio-cultural das comunidades" 5. Tais ousadias seriam inadmissíveis sem o apoio e o prestígio do meu orientador.

Foto 1: Reunião de fundação da Comissão de Epidemiologia da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). Nova Friburgo, Rio de Janeiro, 1984 (Acervo: XXXXX). 

Em 1978, se agudizaram as restrições à continuidade de um projeto cujas bases educacionais e doutrinárias colidiam com a orientação conservadora do senhor reitor da UnB, o capitão de mar e guerra José Carlos Azevedo. O Projeto Planaltina foi encerrado, e Frederico, embora não demitido, viu-se dispensado de suas funções docentes nessa universidade. Voluntariamente, pedi demissão do cargo de auxiliar de ensino do Departamento de Medicina Geral e Comunitária da minha faculdade.

No final da década de 1970, Frederico afastou-se progressivamente da UnB até assumir, alguns anos depois, por concurso, o cargo de professor titular da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz. Nesse período, atuou como assessor da Coordenação de Ciências da Saúde do Departamento de Assuntos Universitários do Ministério da Educação e Cultura (atual Secretaria da Educação Superior do Ministério da Educação); foi consultor das comissões Nacional de Residência Médica e de Educação Médica do referido ministério; assessorou a implantação da área de ciências da saúde na Universidade Federal de São Carlos, no Estado de São Paulo; além de participar da direção de associações de ensino e pesquisa, como a Associação Brasileira de Educação Médica e a Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (atual Associação Brasileira de Saúde Coletiva - Abrasco).

O destino, ou a sorte, permitiu-me acompanhar o Professor Frederico em novas empreitadas, dentre as quais destaco a regulamentação e a ampliação de vagas da área de Medicina Preventiva e Social, no âmbito da Comissão Nacional de Residência Médica do Ministério da Educação, e o movimento em prol da fundação e organização da Abrasco 6. São duas experiências nítidas em minhas lembranças. A rica aprendizagem no processo de regulamentação da residência médica na área de medicina preventiva e social, concretizado simultaneamente com o projeto de expansão do ensino desta especialidade, que saltou de cerca de 30 para 200 vagas anuais (ambas as iniciativas foram promovidas no âmbito da recém-criada Secretaria da Educação Superior do Ministério da Educação). A outra experiência ocorreu durante a implantação da Abrasco, especificamente a organização de sua Comissão de Epidemiologia, formalmente instituída na Reunião Nacional de Epidemiologia, realizada em setembro de 1984, no Hotel Fazenda Garlipp, na cidade de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. Nessa época, havia um movimento visando à criação de uma sociedade de especialistas em epidemiologia, o que poderia enfraquecer o conjunto do movimento em prol da saúde coletiva. Frederico, junto com mais alguns eminentes epidemiologistas do país, posicionou-se claramente pela proposta de albergar essa área na associação já existente, com o destaque de compor a sua primeira comissão de especialistas, sem o risco de fragilizar a frente única de militância da saúde coletiva.

O legado de Frederico Simões Barbosa na UnB e em outras searas ultrapassa o que foi aqui registrado. Essas anotações refletem apenas a memória deste discípulo e admirador, que guarda com carinho cada vez maior as lembranças daquele tempo que me foram de intenso e proveitoso aprendizado. Lições que preservei e mantenho como orientações durante toda a vida profissional e também no exercício de cidadania em um mundo em que "os meios de comunicação tornam o globo cada vez menor, fazendo, paradoxalmente, com que as nações pobres se tornem mais vulneráveis. A violência, a poluição, a destruição do meio natural, a medicalização, o problema dos tóxicos que foram construções do primeiro mundo, adquiriram dimensões universais" 4. Sei que Frederico influenciou muitos alunos e colegas na minha faculdade e em várias outras instituições onde ele esteve. Eu apenas tive a oportunidade de aproveitar muito dessa influência, o mais nobre legado de um mestre.

As recordações por vezes ultrapassam os limites de um simples diletantismo memorial, pois, dentre as lições que me retornam neste momento, em que graves ameaças pairam sobre a saúde coletiva brasileira, ressalto o aprendizado no processo de criação e consolidação da associação de docentes e pesquisadores dessa área, idealizada para defender e fazer avançar o direito de todos à saúde como um dever do Estado, cujo primeiro presidente foi Frederico Simões Barbosa. Na construção dessa instituição, que hoje reúne todos aqueles comprometidos com esse ideal e não apenas os professores dessa área, Frederico também "colocou sua pedrinha".

REFERÊNCIAS

1. Guimarães Rosa J. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; 2001.
2. Morel CM. Geração de conhecimento, intervenções e ações de saúde. São Paulo Perspect 2002; 16:57-63.
3. Barbosa FS. Programa integrado de saúde comunitária: uma história de caso. Planaltina:Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico; 1981.
4. Barbosa FS. Pronunciamento do Prof. Frederico Simões Barbosa, ao receber da Universidade de Brasília o título de Professor Honoris Causa, em 7/11/1995. (acessado em 03/Mai/2016).
5. Santana JFNP. Estudo sobre atenção à saúde infantil no projeto Planaltina: Planaltina - DF, 1978 [Dissertação de Mestrado]. Brasília: Curso de Pós-graduação em Medicina Tropical, Núcleo de Medicina Tropical e Nutrição, Departamento de Medicina Especializada, Faculdade de Ciências da Saúde, Universidade de Brasília; 1980.
6. Lima NT, Santana JP, organizadores. Saúde coletiva como compromisso: a trajetória da Abrasco. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz/Abrasco; 2006.