Frederico Simões Barbosa: uma personalidade notável da Saúde Pública brasileira

Frederico Simões Barbosa: uma personalidade notável da Saúde Pública brasileira

Autores:

Maria Fernanda Lima-Costa

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos de Saúde Pública

versão On-line ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.32 supl.1 Rio de Janeiro 2016

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311x00es11s116

O Professor Frederico Simões Barbosa é uma personalidade marcante da Saúde Pública brasileira. Foi um pensador inquieto, que produziu evidências mostrando que algumas ideias acerca do controle da esquistossomose eram equivocadas. O período mais fértil da sua produção científica foi contemporâneo ao desenvolvimento de produtos (moluscicidas e parasiticidas) que se apresentavam como promissores para o controle da endemia. Ele conduziu um importante ensaio de comunidade para avaliar a efetividade do uso de moluscicida para o controle da infecção pelo Schistosoma mansoni no Nordeste do Brasil 1 e foi autor sênior de outro ensaio sobre o mesmo tema conduzido no Egito, em área endêmica de Schistosoma haematobium2. Ambos são estudos clássicos.

Para uma melhor compreensão da relevância dos trabalhos acima mencionados, é importante contextualizá-los. A recomendação do uso de moluscicida é baseada no antigo postulado que o vetor é o elo mais fraco na cadeia da transmissão. Com base nessa premissa (e com a disponibilidade de moluscicida recentemente descoberto), o controle de caramujos foi a primeira medida utilizada para o controle da esquistossomose, iniciando-se o seu uso no Egito nos anos 1940 3. Nas décadas seguintes, a adoção dessa estratégia foi amplamente recomendada e reforçada por um estudo egípcio que reportou a sua efetividade 4.

Nos anos 1960, o então Instituto Nacional de Endemias Rurais (INERu) incentivou investigações para avaliar a efetividade do uso de moluscicidas como medida isolada para o controle da esquistossomose no Brasil. O Professor Simões Barbosa conduziu um ensaio de comunidade de longa duração em sete localidades endêmicas no Estado de Pernambuco 1. O estudo teve início em 1966 e, admiravelmente, se estendeu por 12 anos. O rigor metodológico do experimento é um dos aspectos que chamam a atenção no trabalho, sobretudo, considerando-se que a pesquisa foi delineada em meados da década de 1960. A metodologia do estudo incluiu: (1) uso de áreas endêmicas "controle" em uma época em que predominavam estudos sem grupos para comparação; (2) rigor na seleção das áreas experimentais e controle para assegurar que as suas características fossem semelhantes no início da investigação (similaridade na prevalência e na intensidade da infecção pelo S. mansoni, assim como nas suas distribuições pela idade); (3) análise de diferentes variáveis de desfecho, destacando-se medidas anuais da incidência da infecção (em detrimento do uso exclusivo das medidas de prevalência); e (4) avaliação de custo. Essa investigação bem conduzida mostrou de forma definitiva que o uso isolado de moluscida não tinha impacto na incidência da infecção pelo S. mansoni e na intensidade da infecção, uma vez que ambas diminuíram tanto nas áreas experimentais quanto nas áreas controle. Finalmente, esse trabalho mostrou que os custos financeiros da operação eram muito altos, com relação custo-benefício claramente desfavorável.

O Professor Simões Barbosa foi um líder no seu campo de atuação e uma inspiração para estudantes e pesquisadores. Um dos seus últimos trabalhos foi conceitual 3. Ele discorreu sobre os acertos e erros dos programas para o controle da esquistossomose no Brasil, concluindo pela necessidade de um novo modelo baseado: primeiro, na integração entre as agências de pesquisa e os serviços de saúde; segundo, na descentralização; terceiro, na eliminação do uso de moluscicidas e, finalmente, na ênfase no tratamento individual e melhora das condições sanitárias. Esses são somente exemplos do frescor das idéias de uma personalidade notável da Saúde Pública brasileira.

REFERÊNCIAS

1. Barbosa FS, Costa DP. A long-term schistosomiasis control project with moluscicide in a rural area of Brazil. Ann Trop Med Parasitol 1981; 75:41-52.
2. Gilles HM, Abdel-Aziz A, Soussa MH, Samaan AA, Soliman S, Hassan A, et al. Results of a seven-year control project on the endemicity of Schistosoma haematobium infection in Egypt. Ann Trop Med Parasitol 1973; 67:45-65.
3. Barbosa FS. Determination and control of schistosomiasis. Mem Inst Oswaldo Cruz 1995; 90:155-9.
4. Farooq M, Hairston NG, Samaan SA. The effect of area-wide snail control on the endemicity of bilharziasis in Egypt. Bull World Health Organ 1966; 35:369-75.
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