versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561
Ciênc. saúde coletiva vol.19 no.5 Rio de Janeiro maio 2014
http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232014195.21392013
The scope of this study was to evaluate the frequency of adherence to "10 Steps to Healthy Eating" of the Ministry of Health in adolescents from high schools in Pelotas in the state of Rio Grande do Sul, Brazil. A school-based cross-sectional study was conducted, including 1233 adolescents (13-19 years of age). The frequency of each step was evaluated through a questionnaire on food frequency and other issues included in the "10 Steps." The average number of steps achieved was 1.8. It is noteworthy that none of the subjects achieved entirely all the recommended steps. The highest frequency of compliance was found in step 4, referring to the consumption of the rice and beans. Lower frequencies of adherence were found for step 7, related to consumption of soft drinks, processed juices, sweets and snacks, and also step 3 on the consumption of fruit/vegetables/greens. Adherence to the "10 steps to Healthy Eating" by adolescents was very low. Considering the importance of healthy eating in adolescence, greater investment in public policies in the area of food and nutrition is strongly recommended.
Key words: Eating habits; Healthy food; Adolescents; Dietary behavior
Nas últimas décadas, tem ocorrido aumento significativo na prevalência de doenças crônicas não transmissíveis, como consequência das alterações nos padrões alimentares e de atividade física, associadas ao hábito de fumar e ao consumo de bebidas alcoólicas1 , 2. Evidências indicam aumento na prevalência de excesso de peso e o aparecimento de doenças crônicas em idades cada vez mais precoces2. Padrões alimentares inadequados de consumo durante a infância e a adolescência estão ligados não só com a ocorrência da obesidade na juventude2, mas também com o risco subsequente de desenvolvimento de doenças como o câncer3, diabetes4 e doenças cardiovasculares5 na idade adulta.
Estudos em diversos países6 - 8 vêm demostrando a baixa adesão de jovens às recomendações nutricionais de seus países. Em 2011, Diethelm et al.6 verificaram que adolescentes europeus consomem metade da quantidade recomendada de frutas e legumes e menos de dois terços da quantidade recomendada de leite e derivados. Por outro lado, o mesmo estudo6 constatou elevado consumo de carne, gorduras e doces entre os jovens. Resultados semelhantes foram observados na China em 2012, onde apenas 9%, 14% e 6% dos adolescentes pesquisados atingiram os níveis mínimos diários recomendados de ingestão de legumes, frutas, produtos a base de soja e nozes8.
No Brasil, apesar do constante investimento do Ministério da Saúde no incentivo à alimentação saudável e do aumento dos níveis de atividade física9 , 10, poucos estudos11 avaliaram a adesão a essas recomendações.
Em 2005, o Ministério da Saúde elaborou o Guia Alimentar para a População Brasileira9 no âmbito das diretrizes da Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN), que se consolidou como elemento brasileiro para implementação das recomendações da Organização Mundial da Saúde12, guia esse sintetizado nos "10 Passos para uma Alimentação Saudável"10.
Dessa forma, considerando os altos riscos associados à alimentação inadequada na adolescência e a escassez de estudos avaliando a adesão de jovens às recomendações do Ministério da Saúde do Brasil, o presente trabalho teve por objetivo avaliar a frequência de hábitos alimentares saudáveis, baseado nos "10 Passos para uma Alimentação Saudável" e identificar fatores associados a essa adesão em adolescentes matriculados nas escolas de ensino médio da cidade de Pelotas (RS).
Foi realizado um estudo transversal de base escolar com adolescentes de 13 a 19 anos cursando o ensino médio diurno em Pelotas (RS), no perío do de junho a setembro de 2009. O levantamento de dados abrangeu vários assuntos relacionados à saúde, tais como alimentação, atividade física, doenças crônicas, entre outros.
Todos os 25 estabelecimentos com alunos do ensino médio da cidade de Pelotas foram visitados para estabelecer o número de estudantes, turnos e séries existentes em cada local. Uma das escolas recusou-se a participar do estudo. Dessa forma, 24 escolas (15 instituições estaduais, seis particulares, duas federais e uma municipal) foram incluídas no cálculo amostral. A amostra foi selecionada aletoriamente, com probabilidade proporcional ao tamanho, totalizando 12 escolas para participar do estudo. O cálculo do tamanho amostral foi realizado a partir de dados do estudo piloto onde se trabalhou com a diferença média de pontos (escore dos dez passos) segundo as variáveis independentes. Dentre as variáveis de associação avaliadas, a que necessitou maior tamanho de amostra foi escolaridade da mãe (n = 324), considerando poder de 90% e nível de confiança de 5%. A este número foram acrescidos 10% para perdas e recusas e 15% para controle dos eventuais fatores de confusão, resultando em um total de 410 adolescentes. Também foi realizado o cálculo para a prevalência de alcance dos dez passos, o qual determinou uma amostra de 483 adolescentes. O estudo avaliou um número superior de adolescentes, uma vez que este fez parte de um estudo de consórcio no qual os demais desfechos a serem estudados necessitaram de maior tamanho de amostra para suas avaliações.
Os passos do Ministério da Saúde incluem:
Passo 1 - Faça pelo menos 3 refeições e 2 lanches saudáveis por dia. Não pule as refeições.
Passo 2 - Inclua diariamente 6 porções do grupo do cereais, tubérculos como as batatas e raízes como a mandioca nas refeições. Dê preferência aos grãos integrais.
Passo 3 - Coma diariamente pelo menos 3 porções de legumes e verduras como parte das refeições e 3 porções ou mais de frutas.
Passo 4 - Coma feijão com arroz todos os dias ou, pelo menos, 5 vezes por semana.
Passo 5 - Consuma diariamente 3 porções de leite e derivados e 1 porção de carnes, aves, peixes ou ovos. Retirar a gordura aparente das carnes e a pele das aves antes da preparação.
Passo 6 - Consuma, no máximo, 1 porção por dia de óleos vegetais, azeite, manteiga ou margarina. Fique atento aos rótulos dos alimentos e escolha aqueles com menores quantidades de gorduras trans.
Passo 7 - Evite refrigerantes e sucos industrializados, bolos, biscoitos doces e recheados, sobremesas e outras guloseimas.
Passo 8 - Diminua a quantidade de sal na comida e retire o saleiro da mesa. Evite consumir alimentos industrializados com muito sal (sódio) como hambúrguer, charque, salsicha, linguiça, presunto, salgadinhos, conservas de vegetais, sopas, molhos e temperos prontos.
Passo 9 - Beba pelo menos 2 litros (6 a 8 copos) de água por dia.
Passo 10 - Pratique pelo menos 30 minutos de atividade física todos os dias e evite as bebidas alcoólicas e o fumo. Mantenha seu peso dentro dos limites saudáveis.
Para a coleta dos dados sobre os passos relativos à alimentação, foi utilizado um quadro que permitiu verificar a frequência de consumo dos alimentos que compõem as recomendações dos 10 Passos para a Alimentação Saudável, utilizando-se o período recordatório de um ano. A pergunta inicial do instrumento foi: Pense sobre sua alimentação no último ano e responda qual o número de vezes, por dia, semana, mês ou ano, que você normalmente come estes alimentos, desde [mês] do ano passado? A seguir uma lista de alimentos era lida ao entrevistado.
A partir do problema encontrado na elaboração do instrumento, que esteve relacionado à subjetividade dos termos utilizados no passo 7 (evitar) e no passo 8 (diminuir), optou-se por utilizar como critério de adesão ao passo os mesmos pontos de corte utilizados por Vinholes et al.11: "evitar" (2 vezes ou menos por semana) e "diminuir" (1 vez por semana ou menos).
Para os passos 5, 6 e 8 foram elaboradas questões adicionais ao questionário de frequência para que se alcançasse a adesão de forma integral ao passo. No passo 10, para avaliar o nível de atividade física, aplicou-se um instrumento13 com questões sobre a prática de atividades físicas no lazer nos últimos sete dias, e utilizou-se a recomendação de tempo igual ou superior a 300 minutos/semana para classificar o adolescente como ativo14. No que se refere ao hábito de fumar, considerou-se fumante o adolescente que utilizou pelo menos um cigarro nos últimos 30 dias. A avaliação do consumo de bebidas alcoólicas foi feita através de uma questão de frequência de consumo de bebidas no último ano, e considerado como positivo, para adesão parcial ao passo 10, a ingestão de bebidas em, no máximo, uma vez por semana. Os adolescentes foram pesados e medidos por nutricionistas treinadas e para avaliação do estado nutricional utilizou-se o índice IMC/idade/sexo e a classificação foi dada a partir da referência da Organização Mundial da Saúde, 200715.
O Quadro 1 descreve as categorias utilizadas para verificar a adesão a cada passo. Foi estabelecido que, para o cumprimento do passo, todos os critérios listados deveriam ser atendidos.
Quadro 1 Quadro descritivo das categorias utilizadas para análise da adesão aos "10 Passos para uma Alimentação Saudável".
As variáveis independentes analisadas foram sexo, idade (anos completos), cor da pele (branco, não branco), nível econômico conforme classificação da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP)16 [em classes sociais A (maior), B, C, D e E (menor)], escolaridade dos pais (anos completos de estudo), rede de ensino dos adolescentes (federal, estadual, municipal e particular) e autopercepção de saúde (excelente, muito boa, boa, regular ou ruim).
A coleta de dados foi realizada utilizando um questionário autoaplicado testado previamente em estudo piloto, realizado em uma escola não selecionada para o estudo. A aplicação dos questionários foi agendada previamente com as escolas e o questionário preenchido pelo adolescente em sala de aula.
Para a coleta das medidas antropométricas foram utilizados uma balança digital marca SOEH NLE 7755 com capacidade de 150 Kg e preci são de 100 g e um estadiômetro tipo trena com 200 cm e precisão de 0,1 cm, ambos sistematicamente calibrados ao longo do trabalho de campo.
Os questionários foram revisados e codificados e, posteriormente, duplamente digitados no programa Epi Info 6.0. A análise dos dados foi realizada no programa estatístico STATA 10.0, e utilizados os recursos da estatística descritiva: média, desvio padrão (DP), frequência relativa e intervalo de confiança 95%, seguida de análise bivariada através do Teste de Qui-quadrado. O nível de significância adotado foi de 5%.
O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Escola Superior de Educação Física da Universidade Federal de Pelotas. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido foi assinado pelos pais ou responsáveis pelos adolescentes.
Dos 1350 adolescentes selecionados para o estudo, foram entrevistados 1233, perfazendo um total de 8,7% de perdas ou recusas. A idade média foi de 15,9 anos (DP = 1,2) e 54% dos adolescentes eram do sexo feminino. A maioria da população estudada era de cor da pele branca (79%) e cerca de 90% pertenciam às classes econômicas B e C. Quanto à escolaridade dos pais, em torno de 26% das mães e 23% dos pais dos adolescentes possuíam mais de 12 anos de estudo (Tabela 1).
Tabela 1 Descrição da amostra de escolares adolescentes cursando ensino médio diurno nas escolas da cidade de Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil (n = 1233).
Variável | N | % |
---|---|---|
Sexo | ||
Masculino | 567 | 46,0 |
Feminino | 666 | 54,0 |
Idade (anos completos) | ||
13 - 14 | 156 | 12,7 |
15 - 16 | 678 | 54,9 |
17 0 19 | 399 | 32,4 |
Cor da pele | ||
Branco | 949 | 79,0 |
Não Branco | 252 | 21,0 |
Nível econômico (n=1036) | ||
A | 82 | 7,9 |
B | 563 | 54,4 |
C | 368 | 35,5 |
D | 23 | 2,2 |
Escolaridade da mãe(anos completos de estudo) | ||
0 a 8 anos | 448 | 37,4 |
9 a 11 anos | 433 | 36,2 |
12 ou mais | 316 | 26,4 |
Escolaridade do pai (anos completos de estudo) | ||
0 a 8 anos | 483 | 42,4 |
9 a 11 anos | 389 | 34,2 |
12 ou mais | 267 | 23,4 |
Escolaridade do adolescente | ||
1º ano ensino médio | 470 | 38,1 |
2º ano ensino médio | 397 | 32,2 |
3º ano ensino médio | 366 | 29,7 |
Rede de ensino | ||
Federal | 244 | 19,8 |
Estadual | 695 | 56,4 |
Municipal | 132 | 10,7 |
Particular | 162 | 13,1 |
Nível de atividade física | ||
Insuficientemente ativos | 788 | 63,9 |
Suficientemente ativos | 445 | 36,1 |
Estado Nutricional (IMC/idade) | ||
Baixo Peso | 9 | 0,7 |
Eutrófico | 828 | 69,1 |
Sobrepeso | 267 | 22,3 |
Obeso | 95 | 7,9 |
Tabagismo | ||
Nunca/ex fumante | 1150 | 94,2 |
Fumante | 71 | 5,8 |
Auto-percepção de saúde | ||
Excelente | 233 | 18,9 |
Muito Boa | 460 | 37,3 |
Boa | 430 | 34,9 |
Regular ou Ruim | 110 | 8,9 |
A frequência de cada um dos "10 Passos para uma Alimentação Saudável", de acordo com os critérios estabelecidos pelo estudo como marcadores da recomendação atual é apresentada na Tabela 2. O passo que apresentou maior frequên cia foi o 4, sendo que 66,5% dos adolescentes relataram consumir a combinação de arroz e feijão pelo menos cinco vezes por semana. O passo 1 (realizar cinco refeições ou mais por dia) foi o segundo mais frequente com adesão de 24,4% dos adolescentes. O passo que obteve a menor frequência foi o 7 (consumo de refrigerantes, sucos industrializados, doces e guloseimas, menor ou igual a duas vezes por semana) no qual somente 1,6% dos adolescentes atingiram a recomendação. Frequência similar foi encontrada no passo 3, referente ao consumo de três porções de legumes ou hortaliças e três de frutas diariamente, sendo alcançada por apenas 1,7% dos adolescentes.
Tabela 2 Frequência dos 10 Passos da Alimentação Saudável em adolescentes do Ensino Médio da cidade de Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil.
10 passos | % | IC95% | |||
---|---|---|---|---|---|
Passo 1 | 24,4 | 22,0 | - | 26,8 | |
Número de refeições | |||||
Passo 2 | 21,0 | 18,7 | - | 23,4 | |
Consumo total de cereais, raízes, tubérculos e integrais | (arroz, massa, | ||||
raízes, pão, bolacha salgada, cereais | integrais) | ||||
Passo 3 | 1,7 | 1,0 | - | 2,5 | |
Legumes e hortaliças | |||||
Frutas | |||||
Passo 4 | 66,5 | 63,8 | - | 69,1 | |
Arroz e Feijão | |||||
Passo 5 | 2,3 | 1,5 | - | 3,3 | |
Carne, aves ou ovos | |||||
Leite e derivados | |||||
Hábito de retirar a gordura da aparente da carne e pele de aves | |||||
Passo 6 | 23,9 | 21,5 | - | 26,4 | |
Margarina | |||||
Utilização de óleos, margarina, manteiga nas preparações | |||||
Leitura dos rótulos dos alimentos | |||||
Evita* gorduras trans | |||||
*(escolha de alimentos com menores quantidades de | gorduras trans) | ||||
Passo 7 | 1,6 | 0,9 | - | 2,4 | |
Refrigerantes | |||||
Sucos industrializados | |||||
Bolos, bolachas doces ou recheadas | |||||
Doces, balas, chocolates e guloseimas | |||||
Passo 8 | 5,2 | 4,0 | - | 6,6 | |
Alimentos industrializados: Hambúrguer, linguiça, charque... | |||||
Salgadinhos: Chips ou batata chips | |||||
Alimentos enlatados e conservas: ervilha, milho, pepino... | |||||
Hábito de colocar mais sal nas preparações prontas | |||||
Presença de saleiro na mesa | |||||
Passo 9 | 19,2 | 17,0 | - | 21,4 | |
Consumo de água | |||||
Passo 10 | 19,4 | 17,2 | - | 21,8 | |
Prática de atividade física | |||||
Fumo nos últimos 30 dias | |||||
Ingestão de bebidas alcoólicas | |||||
Estado Nutricional (IMC/ idade e sexo) | |||||
“Todos os 10 passos” | 0 | - |
A média de passos atingidos foi de 1,8 (DP = 1,2). A maioria da população atingiu entre um e dois passos (62%) e somente 1,7% atingiu mais de cinco, sendo que o número máximo foi de seis, somente por dois indivíduos (0,2%). Ressalta-se que neste estudo nenhum adolescente aderiu a todos os "10 Passos para uma Alimentação Saudável".
A Tabela 3 analisa a adesão aos 10 passos segundo variáveis de exposição. Em relação ao passo 1, os resultados mostraram maior adesão por adolescentes do sexo masculino, de classes econômicas mais altas, com pais de maior escolaridade e que apresentam melhor percepção de saúde, com diferenças estatisticamente significativas. A adesão ao passo 2 foi mais frequente entre os meninos (p = 0,001). Ainda, observa-se que as meninas realizavam menor número de refeições diárias (passo 1) e menor consumo de carboidratos (passo 2). No passo 4, verificou-se uma maior adesão por adolescentes de menor nível econômico, de cor da pele não branca, aqueles cujos pais apresentaram menor escolaridade, de maiores idades (17 a 19 anos) e com melhor percepção sobre sua saúde. O passo 5 foi mais frequente entre adolescentes de escolas federais e com mães de maiores escolaridades. Um maior nível econômico e escolaridade dos pais estiveram associados positivamente ao passo 6, assim como uma maior frequência desse passo esteve associado a cor da pele branca. O passo 9 foi mais frequente entre os indivíduos não brancos. O sexo masculino e uma melhor percepção de saúde pelos adolescentes estiveram associados à maior frequência do passo 10.
Tabela 3 Frequências de adesão dos 10 passos da alimentação saudável segundo as variáveis de exposição estudadas. Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil.
Variável | Passo | Passo | Passo | Passo | Passo | Passo | Passo | Passo | Passo | Passo |
---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | |
Sexo [valor p*] | 0,02 | 0,001 | 0,71 | 0,10 | 0,49 | 0,06 | 0,88 | 0,08 | 0,06 | < 0,001 |
Masculino | 27,6 | 25,1 | 1,8 | 68,9 | 2,0 | 21,4 | 1,6 | 3,9 | 21,5 | 24,7 |
Feminino | 21,6 | 17,5 | 1,5 | 64,5 | 2,6 | 26,1 | 1,5 | 6,2 | 17,2 | 15,0 |
Idade (anos) [valor p**] | 0,44 | 0,85 | 0,49 | 0,02 | 0,29 | 0,44 | 0,65 | 0,78 | 0,38 | 0,41 |
13-14 | 27,1 | 25,3 | 2,0 | 65,0 | 3,3 | 25,9 | 0 | 3,3 | 22,6 | 22,3 |
15-16 | 24,2 | 19,2 | 1,8 | 63,6 | 2,4 | 22,0 | 2,1 | 5,8 | 16,5 | 19,2 |
17-19 | 23,6 | 22,2 | 1,3 | 72,0 | 1,8 | 26,5 | 1,3 | 4,8 | 22,5 | 18,7 |
Cor da pele [valor p*] | 0,55 | 0,08 | 0,12 | 0,01 | 0,08 | 0,02 | 0,58 | 0,40 | 0,01 | 0,98 |
Branco | 25,2 | 20,0 | 1,4 | 64,5 | 2,7 | 25,2 | 1,7 | 5,3 | 17,5 | 19,6 |
Não branco | 23,4 | 25,2 | 2,8 | 73,2 | 0,8 | 17,9 | 1,2 | 4,0 | 24,9 | 19,5 |
Nível socioeconômico | ||||||||||
[valor p**] | < 0,001 | 0,73 | 0,22 | < 0,001 | 0,20 | < 0,001 | 0,63 | 0,91 | 0,13 | 0,38 |
A | 39,0 | 20,0 | 5,0 | 50,6 | 1,2 | 35,9 | 1,2 | 3,8 | 14,8 | 15,2 |
B | 25,6 | 21,7 | 1,1 | 62,8 | 2,9 | 26,3 | 1,5 | 5,2 | 17,4 | 22,1 |
C | 15,8 | 21,0 | 1,7 | 75,4 | 1,1 | 20,2 | 1,4 | 5,2 | 19,2 | 17,4 |
D | 17,4 | 13,6 | 0,0 | 73,9 | 0,0 | 21,7 | 4,2 | 0,0 | 30,4 | 13,6 |
Escolaridade da mãe | ||||||||||
[valor p**] | < 0,001 | 0,44 | 0,37 | < 0,001 | 0,03 | 0,01 | 1,00 | 0,72 | 0,50 | 0,50 |
0 a 8 anos | 18,8 | 23,1 | 1,1 | 73,6 | 1,36 | 21,2 | 1,1 | 5,2 | 19,7 | 19,7 |
9 a 11 anos | 25,9 | 18,8 | 1,7 | 68,7 | 2,10 | 23,6 | 2,6 | 5,8 | 18,5 | 20,3 |
12 ou mais | 30,8 | 21,2 | 1,9 | 54,0 | 3,83 | 29,6 | 1,0 | 4,5 | 17,8 | 17,5 |
Escolaridade do pai | ||||||||||
[valor p**] | < 0,001 | 0,57 | 0,29 | < 0,001 | 0,13 | < 0,001 | 0,33 | 0,69 | 0,22 | 0,71 |
0 a 8 anos | 19,1 | 22,3 | 1,3 | 73,5 | 1,7 | 20,6 | 1,3 | 5,6 | 20,6 | 19,2 |
9 a 11 anos | 27,6 | 20,7 | 1,8 | 66,9 | 2,9 | 23,1 | 1,3 | 5,2 | 18,1 | 20,8 |
12 ou mais | 31,2 | 20,7 | 2,3 | 53,0 | 3,4 | 33,3 | 2,3 | 5,0 | 17,1 | 17,5 |
Autopercepção de saúde | ||||||||||
[valor p**] | 0,03 | 0,20 | 0,40 | 0,047 | 0,10 | 0,96 | 0,69 | 0,29 | 0,69 | < 0,001 |
Excelente | 30,0 | 24,6 | 1,7 | 2,0 | 1,7 | 22,1 | 0,4 | 5,2 | 19,3 | 29,1 |
Muito Boa | 24,4 | 21,0 | 1,5 | 65,8 | 1,8 | 24,8 | 2,9 | 5,9 | 19,5 | 20,4 |
Boa | 21,7 | 18,8 | 1,0 | 66,2 | 2,6 | 24,7 | 0,2 | 5,2 | 19,6 | 14,1 |
Regular ou Ruim | 22,7 | 21,7 | 4,7 | 58,9 | 4,6 | 20,8 | 3,7 | 1,9 | 16,4 | 15,1 |
* Teste do qui-quadrado para heterogeneidade
**Teste do qui-quadrado para tendência linear.
Um aspecto a ser destacado nesse estudo é que a amostra é representativa dos adolescentes de 13 a 19 anos matriculados nas escolas públicas e privadas de Pelotas, e tem poder para avaliar as associações, tendo em vista o cuidadoso processo de seleção, o grande número de entrevistados e o baixo índice de perdas e recusas. Além disso, esse é o primeiro estudo de base escolar que teve por objetivo avaliar a frequência de adesão aos "10 passos para uma Alimentação Saudável" do Ministério da Saúde do Brasil em adolescentes. Uma possível limitação foi o fato de termos considerado que o "porcionamento" dos alimentos seria o número de vezes que o adolescente ingeriu determinado alimento em alguns passos (2, 3, 5 e 6). Essa limitação pode ter resultado em um valor subestimado da frequência de consumo dos alimentos, considerando que, a cada vez que o indivíduo ingeriu determinado alimento, tenha consumido uma porção ou mais.
Os resultados revelaram que o passo 4 (consumo de arroz e feijão) apresentou a maior frequência de adesão. Esse achado corrobora aqueles encontrados na última Pesquisa de Orçamentos Familiares-POF 2008-2009 brasileira17 que indicou o feijão e o arroz como sendo os alimentos mais consumidos no Brasil. No entanto, essa mesma pesquisa evidencia menor consumo de feijão para adolescentes quando comparados aos adultos e idosos. Outros autores18 - 21 também verificaram em seus estudos que cerca de 60% dos jovens relatavam consumo semanal regular de feijão. Considerando a importância desse tradicional hábito alimentar brasileiro, principalmente no que se refere ao aporte de fibra alimentar22, a não adesão por cerca de 30% dos adolescentes a esse importante passo deve ser olhada com atenção. Estudos recentes23 , 24 enfatizam ainda a importância do consumo regular de arroz e feijão como fator protetor a doenças cardiovasculares23 e a síndrome metabólica24 em adultos. Uma vez que os hábitos alimentares da infância e adolescência tendem a se manter na idade adulta25 políticas públicas que incentivem o consumo de "feijão com arroz" por adolescentes devem ser permanentemente desenvolvidas.
No que se refere ao passo 1, verificou-se que apenas um quarto dos adolescentes realizava pelo menos cinco refeições diárias. Similarmente, estudo de bases populacional26 e escolar18 observaram em adolescentes o não seguimento dessa recomendação. Recente estudo de coorte finlandês27 mostrou que o padrão de cinco refeições ao dia esteve fortemente associado com o menor risco de sobrepeso/obesidade em adolescentes de 16 anos. Metanálise realizada em 201028, analisando 13.998 crianças e adolescentes dos Estados Unidos, Alemanha e Portugal, verificaram em três dos cinco estudos analisados uma redução significativa do risco de obesidade, com o aumento do número de refeições, que persistiu após o ajuste para fatores de confusão, enquanto os dois outros estudos encontraram uma tendência não significativa para a mesma direção. Dada a associação consistente de pular refeições com um risco aumentado de obesidade em crianças e adolescentes, parece prudente promover um padrão regular, com cinco refeições por dia, com composição adequada para as crianças e suas famílias.
A recomendação de evitar o consumo de refrigerantes, doces e guloseimas foi aquela menos seguida pelos adolescentes. No mesmo sentido, estudos nacionais17 , 20 e internacionais6 , 7 têm evidenciado o alto consumo desses alimentos pela população jovem. Analisando dados da Pesquisa Nacional de Nutrição Escolar, Levy et al.19 observaram que 92% dos adolescentes haviam consumi do guloseimas pelo menos uma vez na última semana e que cerca de 40% consumiram refrigeran tes mais do que cinco vezes por semana. Em 2008, estudo de revisão mostrou que a chance de crianças tornarem-se obesas aumentava em 1,6 vezes para cada copo adicional de bebida açucarada consumida além de sua ingestão diária habitual. A elevação do consumo desses alimentos caracteriza, em parte, o processo de transição alimentar e nutricional em curso em diversos países1 , 2.
Em relação ao consumo de sal e alimentos industrializados, constatou-se que apenas uma pequena parcela dos adolescentes aderiu totalmente à recomendação. Embora a maioria dos jovens tenha relatado não adicionar sal aos alimentos já preparados, estudos recentes29 , 30 indicam que grande parte do sal ingerido vem de alimentos processados. Uma metanálise de ensaios controlados29 mostrou que a ingestão excessiva de sal na dieta afeta a pressão arterial mesmo em crianças e adolescentes. Em 2011, Libuda et al.30 verificaram ainda que elevada ingestão de alimentos processados, ricos em sal, teria impacto negativo na composição corporal de crianças e adolescentes, independente de seu consumo de bebidas açucaradas.
Quanto à ingestão diária de verduras, legumes e frutas (passo 3), observou-se frequência de consumo muito baixa entre os jovens. Similarmente dados nacionais indicam que menos de 10% da população atinge tais recomendações para consumo de frutas, verduras e legumes17. Um estudo com escolares do 9º ano de capitais brasileiras19 evidenciou frequência de consumo inferior a uma vez por semana de frutas e hortaliças por mais de 20% dos jovens estudados. Outros autores20 , 31 têm encontrado resultados semelhantes, mostrando adolescentes consumindo frutas, verduras e legumes em quantidades e frequências muito aquém das recomendações. A Organização Mundial da Saúde2 vem sistematicamente alertando os países sobre a importância do consumo de pelo menos 400g diárias desses alimentos, considerando seu comprovado papel protetor em relação às doenças crônicas não transmissíveis.
Analisando a frequência total de adesão aos "10 passos para uma Alimentação Saudável" na população adulta de Pelotas, estudo11 encontrou que apenas 1,1% dos indivíduos seguiram todos os passos integralmente, e apresentaram, em média, adesão de seis passos. Os resultados do presente estudo mostram uma situação ainda mais preocupante, visto que nenhum adolescente aderiu a todos os passos, e a média de adesão foi de 1,8 passos. Esses resultados são alarmantes diante do aumento da prevalência de sobrepeso e obesidade na adolescência e por ser este um período de formação e consolidação dos hábitos alimentares.
Na análise estratificada, observou-se que poucos passos apresentaram diferenças estatisticamente significativas em relação às variáveis analisadas. A maior adesão às recomendações parece estar associada a adolescentes do sexo masculino, de maior nível econômico, com pais de maior escolaridade e àqueles jovens com melhor autopercepção sobre sua saúde. A exceção ficou por conta do passo 4 (consumo regular de feijão e arroz), que foi mais frequente em adolescentes de menor nível socioeconômico e com pais menos escolarizados.
No que se refere ao sexo, outros estudos18 , 32 têm evidenciado a omissão de refeições e um maior risco de sobrepeso e obesidade em jovens do sexo feminino. Essa omissão de refeições entre as meninas pode estar relacionada a dietas restritivas, a ditadura da magreza propagada pela moda e influenciada pela mídia, e a insatisfação corporal frequentemente evidenciada entre adolescentes do sexo feminino32.
No que diz respeito ao nível econômico, os adolescentes mais ricos omitiram menos refeições e ingeriram com maior frequência alimentos ricos em gorduras. Aqueles de menor nível econômico ingeriam mais feijão com arroz. Similarmente, o estudo de Neutzling et al.20 verificou que a frequência de consumo diário de feijão nos jovens de menor nível econômico foi quase o dobro daquela observada nos mais ricos. A mesma tendência foi verificada na POF 2008-200917, na qual foi observado consumo maior de itens alimentares considerados saudáveis, como feijão e preparações à base de feijão nas faixas de menor renda. Enquanto que esta mesma pesquisa17 evidenciou uma relação positiva entre maior renda familiar e consumo de alguns itens alimentares, tais como leite e derivados, frutas, verduras, e refrigerantes.
Dados da PeNSE19 indicam uma associação entre menor escolaridade da mãe e maior consumo de feijão entre adolescentes. Esses resultados mostram que hábitos alimentares de adolescentes sofrem uma grande influência do nível econômico das famílias, assim como aspectos culturais nas escolhas dos alimentos.
Uma melhor autopercepção de saúde esteve associada a uma menor omissão de refeições, maior consumo de arroz e feijão e a uma maior frequência de adesão ao passo 10, que se refere a menores prevalências de excesso de peso, de sedentarismo e de consumo de fumo e álcool. Esses resultados sugerem a relação entre comportamentos saudáveis, como prática de atividade física, alimentação e saúde na vida dos indivíduos. Resultados semelhantes foram encontrados em um estudo realizado nos Estados Unidos em 2007: tabagismo, sedentarismo e práticas alimentares inadequadas estiveram diretamente associados a um consumo mais frequente de fast food 33. Estudo nacional com escolares do 9º ano do ensino fundamental, verificou uma associação negativa entre tabagismo e comportamentos saudáveis, tais como a prática de atividade física34.
Conclui-se que a frequência de hábitos alimentares saudáveis nos escolares adolescentes de Pelotas foi muito baixa, salientando-se que nenhum jovem aderiu totalmente aos "10 Passos para uma alimentação Saudável". Considerando a complexidade da determinação econômica, psicológica, cultural dos hábitos alimentares é necessário maior investimento em políticas públicas que visem intervir nos determinantes desses hábitos. A ação intersetorial da área de produção de alimentos, educação nutricional e atividade física, além do controle de propagandas que incentivem o consumo de alimentos pouco saudáveis, e uma maior divulgação das recomendações sobre alimentação entre os adolescentes, poderiam contribuir substancialmente para uma maior adesão da população aos 10 passos preconizados pelo Ministério da saúde do Brasil.