Ganho de peso na vida adulta: preditor da hipertensão arterial?

Ganho de peso na vida adulta: preditor da hipertensão arterial?

Autores:

Maria do Rosário Gondim Peixoto,
Mariana de Morais Cordeiro,
Vanessa Roriz Ferreira,
Camila Kellen de Souza Cardoso,
Paula Azevedo Aranha Crispim

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1414-462Xversão On-line ISSN 2358-291X

Cad. saúde colet. vol.25 no.1 Rio de Janeiro jan./mar. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1414-462x201700010023

Abstract

Objectives

Assess weight gain in adulthood, as well as influence on the prevalence of hypertension.

Methods

Cross-sectional study through a telephone interview with individuals ranging from 30-59 years old, section of the Municipal Monitoring System of Risk Factors for Non-Transmitted Chronical Diseases via Telephone Interview (Sistema Municipal de Monitoramento de Fatores de Risco para Doenças Crônicas Não Transmissíveis por Meio de Entrevistas Telefônicas (SIMTEL)). We analyzed demographic data, anthropometric and lifestyle. The independent effect of weight gain and current body mass index and 20 years of age in the prevalence of hypertension was analyzed using Poisson regression.

Results

The median age was 42 years old (CI95%, 41.0-43.0). The average relative weight gain was 18.1 ± 11.1%. In the sample, 7.0% presented zero weight gain, 19.2% low, 34.2% average, and 39.4% high weight gain. In multivariate analysis, the weight gain was not associated to high blood pressure, since the current BMI was significantly associated, with a prevalence 2.4 times higher in obese than in normal weight, while in obese at 20 years of age, the prevalence hypertension was 1.9 times higher.

Conclusions

There was a high weight gain in adulthood, but this gain was not decisive for hypertension when adjusted by the current BMI.

Keywords:  hypertension; blood pressure; body mass index; weight gain; adult

INTRODUÇÃO

A World Health Organization (WHO) caracteriza o aumento da prevalência de sobrepeso e obesidade como uma pandemia mundial, constituindo-se em grave problema de Saúde Pública1. Estima-se que, em 2014, no mundo, cerca de 1,9 bilhão de adultos estavam com excesso de peso. Desses, mais de 600 milhões eram obesos, ou seja, uma prevalência de 39% de excesso de peso e 13% de obesidade1. No Brasil, dados mais recentes do Vigitel 2014 revelam que o excesso de peso esteve presente em 53% da população adulta, sendo que 17,9% já apresentavam índice de massa corporal (IMC) para obesidade2.

O excesso de peso é um importante fator de risco para o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), incluindo diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares (DCV), acidente vascular cerebral (AVC), diversos tipos de cânceres e hipertensão arterial sistêmica (HAS)3. Segundo a WHO, as doenças DCNTs foram responsáveis por 61% dos óbitos mundiais em 2005, ou seja, 35 milhões de mortes4. No Brasil, dentre essas doenças, destaca-se a HAS com uma prevalência acima de 30%5.

Estimativas do estudo de Framingham sugerem que cerca de 70% dos novos casos de HAS poderiam ser atribuídos ao excesso de peso e que um aumento de 1kg/m2 no IMC está associado a um aumento de 12% no risco de HAS6. Embora no Brasil existam informações da prevalência de excesso de peso e hipertensão arterial sistêmica, são escassos os estudos que abordam a influência do ganho de peso, na vida adulta, sobre prevalência de hipertensão. Nesse contexto, o objetivo do presente estudo foi avaliar a influência do IMC aos 20 anos de idade e atual, bem como o ganho de peso na vida adulta sobre prevalência de hipertensão arterial sistêmica.

MÉTODOS

Trata-se de estudo transversal, realizado em 2005. Os dados apresentados foram obtidos a partir da pesquisa “SIMTEL – Cinco cidades: implantação, avaliação e resultados de um sistema municipal de monitoramento de fatores de risco nutricionais para doenças crônicas não transmissíveis a partir de entrevistas telefônicas em cinco municípios brasileiros”. Esse sistema baseou-se na aplicação de inquéritos em amostra probabilística da população adulta residente em domicílios servidos por linhas telefônicas fixas. Buscou-se alcançar um mínimo de 2.000 entrevistas, de modo a estimar, com intervalo de confiança de 95% e erro máximo de 3%, a prevalência de qualquer fator de risco para as DCNTs7. Em cada domicílio, foi selecionado um morador (≥18 anos) para responder à entrevista. No presente estudo, foram analisados os dados referentes à cidade de Goiânia - Goiás. Maiores detalhes sobre os procedimentos metodológicos empregados, tanto no processo de amostragem em Goiânia quanto na operação do SIMTEL, estão descritos em publicações anteriores8,9.

Em Goiânia, a amostra estudada constituiu-se de 2.002 indivíduos, entretanto, para o presente estudo, foram excluídos os indivíduos com idade <30 anos (558) ou ≥60 anos (293), as gestantes (5), aqueles que não informaram o peso atual (2), altura atual (29) ou o peso aos 20 anos de idade (173), ou com perda de peso superior a 3% (67), ficando a amostra analisada composta por 875 indivíduos com idade de 30 a 59 anos.

Para a coleta de dados, foi utilizado um software que permitiu agilidade e facilidade durante as entrevistas, além da gravação da ligação para controle de qualidade. O instrumento utilizado para coleta de dados era composto por 76 perguntas. O presente estudo utilizou questões referentes às características sociodemográficas (sexo, idade, escolaridade, situação conjugal e trabalho remunerado), estilo de vida (atividade física, tabagismo, ingestão de bebida alcoólica de risco e consumo de frutas, legumes e verduras) e saúde (peso, altura e diagnóstico médico de pressão alta referidos).

A variável idade, referida em anos completos, foi categorizada em três intervalos (≥ 30 a 39 anos; ≥ 40 a 49 anos; ≥ 50 a 59 anos). A escolaridade foi pesquisada em anos de estudo completos e categorizada em: ≤ oito, nove a 11, ou ≥12 anos. Quanto à situação conjugal, os indivíduos foram classificados em: solteiros, casados e separados/viúvos.

O sedentarismo foi caracterizado pela ausência de atividade física no lazer, autorrelato a esforço leve ou muito leve no trabalho, deslocamento motorizado para o trabalho e ausência de realização de atividades domésticas. Quanto ao consumo de bebida alcoólica, foi considerado consumo grave, independentemente do sexo, a ingestão de 5 doses de qualquer bebida alcoólica em pelo menos 1 dia do último mês7. Em relação ao tabagismo, os participantes foram classificados em três grupos: os que nunca fumaram, os ex-fumantes (aqueles que pararam de fumar há mais de seis meses) e os fumantes (fumam atualmente ou pararam de fumar há menos de seis meses).

Dados referentes ao consumo de frutas, legumes e verduras (FVL) foram obtidos por meio de questões diretas, identificando o consumo (não ou sim), em cinco ou mais dias da semana desses alimentos. O consumo de FVL, em pelo menos cinco dias da semana, foi classificado como consumo regular10.

As medidas antropométricas referidas (altura, peso atual e peso aos 20 anos de idade) foram utilizadas para a determinação do índice de massa corporal (IMC) atual e aos 20 anos de idade, calculado pela razão do peso (kg) pelo quadrado da altura (m). Para a classificação do estado nutricional, foi utilizada a recomendação da WHO11.

O ganho de peso foi obtido pela diferença entre o peso atual e o peso aos 20 anos de idade, sendo distribuídos em quatro categorias: nulo (perda ou ganho de peso de até 3%); baixo (ganho de 4% a 10%); médio (ganho de 11% a 20%); e alto (ganho maior que 20%). A manutenção do peso (categoria ganho de peso nulo) foi calculada utilizando a definição proposta na literatura de ganho de até 3%12.

Foram considerados como hipertensos os indivíduos que responderam “sim” para o seguinte questionamento: “algum médico já disse que o(a) senhor(a) tinha pressão alta ou hipertensão arterial?”, independentemente da data de diagnóstico.

As análises dos dados foram realizadas utilizando-se o programa Stata® versão 12.0. Foi realizado o teste de normalidade Kolmogorov-Smirnov. As variáveis contínuas com distribuição normal foram descritas sob a forma de médias e desvios padrão e para aquelas com distribuição não normal foi calculada a mediana. Para as variáveis categóricas, foram avaliados as frequências e os intervalos de confiança, considerando um nível de confiança de 5%. Foram feitas análises de associação entre as variáveis independentes e a variável desfecho (presença ou ausência de HA), por meio do teste T-student (distribuição paramétrica) ou o teste do quiquadrado de Pearson para as proporções. Realizou-se também análise de Regressão de Poisson para avaliar a associação independentemente do IMC atual, do ganho de peso e do IMC aos 20 anos com o relato de hipertensão arterial atual, em modelos ajustados pelas variáveis que na análise bivariada apresentaram significância menor que 20% (p<0,20). Considerando-se significativo p<0,05.

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Em decorrência da coleta de dados ser por entrevista telefônica, o termo de consentimento livre e esclarecido foi substituído pelo consentimento verbal obtido pelos contatos telefônicos com os entrevistados. A pesquisa seguiu todos os critérios preconizados pela Declaração de Helsinki e pela Resolução 466/12.

O estudo foi financiado pelo Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq). Edital CT – Saúde/ MCT/ MS/ CNPq nº 30/2004 – Alimentação e Nutrição. As autoras declaram não ter havido quaisquer conflitos de interesse no desenvolvimento desta pesquisa.

RESULTADOS

A amostra estudada foi composta por 875 indivíduos adultos, sendo 336 (38,4%) homens e 539 (61,6%) mulheres. A mediana de idade foi de 42 anos (IC95%; 41,0-43,0), sem diferença entre os sexos. Em relação à história de ganho de peso avaliada pelo ganho de peso relativo, observou-se, para a amostra total, que 7,0% (n=62) foram classificados como ganho de peso “nulo”, 19,2% (n=168) como “baixo”, 34,2% (n=300) como “médio” e 39,4% (n=345) como “alto”, sem diferenças entre homens e mulheres (p=0,296). A média do ganho de peso relativo foi de 18,1±11,1%.

Na Tabela 1, são apresentadas as características da amostra segundo a história de ganho de peso relativo, tanto a média de ganho de peso relativo quanto a média de ganho de peso absoluto aumentaram de forma significativa entre as categorias de ganho de peso. O ganho de peso absoluto variou de 0,2±1,2 kg, na primeira categoria, para 23,2±8,4 kg, na última categoria (p<0,001).

Tabela 1 Caracterização e distribuição do ganho de peso* segundo variáveis pesquisadas em indivíduos adultos. Goiânia, Goiás (n=875) 

Variáveis Total Ganho de Peso
Nulo
(n=62)
Baixo
(n=168)
P Médio
(n=300)
P Alto
(n=345)
P
GP relativo (%±dp) 18,1±11,1 0,4±2,0 6,7±2,1 <0,001 15,0±2,8 <0,001 29,5±6,8 <0,001
GP absoluto (kg±dp) 13,5±10,0 0,2±1,2 4,2±1,5 <0,001 10,3±2,6 <0,001 23,2±8,4 <0,001
Sexo (n%)
Mulheres 539(61,6) 69,3 64,9 0,525 58,3 0,106 61,4 0,236
Homens 336(38,4) 30,7 35,1 41,7 38,6
Idade (n%)
≥ 30-39 346(39,5) 53,2 50,6 0,590 40,0 0,116 27,8 <0,001
≥ 40-49 319(36,5) 37,1 34,5 35,3 38,3
≥ 50-59 210(24,0) 9,7 14,9 20,7 33,9
Escolaridade (n%)
0-8 anos 284(32,5) 29,0 30,4 0,966 27,3 0,877 38,5 0,349
9-11 anos 349(39,9) 43,5 41,7 42,0 36,5
≥ 12 anos 242(27,7) 27,4 27,9 30,7 24,9
Estado civil (n%)
Solteiro 147(16,8) 16,1 20,2 0,578 18,3 0,151 13,9 0,500
Casado 586(67,0) 61,3 62,5 68,7 68,7
Separado/viúvo 142(16,2) 22,6 17,3 13,0 17,4
Trabalho remunerado (n%) 319(70,7) 80,6 72,2 0,184 72,0 0,160 67,2 0,035
Sedentarismo (n%) 401(45,8) 41,9 47,6 0,443 44,3 0,729 46,9 0,465
Consumo de bebida alcoólica (n%) 151(17,2) 9,7 14,9 0,305 18,7 0,087 18,5 0,088
Tabagismo (n%)
Não 554(63,3) 72,6 64,3 0,319 65,3 0,063 59,4 0,004
Sim 102(11,7) 16,0 16,1 10,7 9,6
Ex-fumante 219(25,0) 11,3 19,6 24,0 31,0
Consumo regular FVL (n%) 443(50,6) 43,6 50,0 0,385 50,7 0,307 52,2 0,211
IMC aos 20 anos (n%)
Baixo peso 167(19,1) 4,8 13,7 0,036 16,0 0,022 26,9 <0,001
Eutrofia 662(76,7) 82,3 80,9 77,7 70,1
Excesso de peso 46(5,3) 12,9 5,4 6,3 2,9
IMC 20 anos (kg/m2±dp) 20,5±2,6 21,4±2,5 21,0±2,2 0,210 20,9±2,7 0,177 19,8±2,6 <0,001
IMC atual (kg/m2±dp) 25,4±4,2 21,5±2,5 22,5±2,4 0,005 24,6±2,5 <0,001 28,3±4,3 <0,001
Hipertensão arterial (n%) 198(22,6) 14,5 8,9 0,219 18,3 0,473 34,5 0,002

*Ganho de peso: nulo (perda de peso ou ganho até 3%); baixo (ganho 4% a 10%); médio (ganho de 11% a 20%); e alto (ganho de peso maior que 20%);

P indica o valor da diferença dos ganhos de peso baixo, médio e alto em relação ao grupo de ganho de peso nulo por meio do teste T-student ou quiquadrado. Abreviaturas: GP- ganho de peso; dp- desvio padrão; FVL- frutas, legumes e verduras; IMC- índice de massa corporal

Observou-se associação positiva entre aumento da idade e ganho de peso, sendo que a faixa etária de 50 a 59 anos apresentou frequência de alto ganho de peso três vezes maior do que a categoria de referência (ganho de peso nulo). Entre os ex-fumantes, a maioria apresentou ganho de peso médio ou elevado, sendo observada diferença significativa para o ganho de peso elevado em comparação com a categoria de referência. Observou-se também que aqueles que tiveram alto ganho de peso apresentaram IMC atual maior do que os das demais categorias de ganho de peso (p<0,001), porém apresentaram média de IMC e prevalência de obesidade menores, aos 20 anos de idade, quando comparados com a categoria de ganho de peso nulo. Além disso, a maior parte dos indivíduos com ganho de peso médio (77,7%) e alto (70,1%) já apresentavam sobrepeso aos 20 anos de idade (p 0,02 e p<0,001), revelando, possivelmente, o excesso de peso anterior à vida adulta. A frequência de HAS esteve presente em 22,6% dos indivíduos, sendo significativamente maior nos indivíduos com alto ganho de peso em relação às demais categorias de ganho de peso (Tabela 1).

Na Figura 1, observa-se a distribuição percentual dos indivíduos por categoria de ganho de peso (nulo, baixo, médio e alto) segundo faixa etária. Destaca-se o baixo percentual de indivíduos, em todas as faixas etárias, que tiveram ganho de peso nulo, ou seja, aumento de peso até 3%. A frequência de pessoas com maior ganho de peso aumenta com o decorrer da idade. Os indivíduos na faixa de 30-39 anos apresentaram o maior percentual de ganho de peso nulo (9,5%; IC95% 6,6-13,1) quando comparados com os mais velhos (2,0%; IC 95% 1,0-6,1) e menor porcentagem de ganho de peso alto (27,8%; IC95% 23,1-32,8) do que a faixa de 40-49 anos (41,4%; IC 95% 35,9-47,0) e de 50-59 anos (57,7%; IC95% 48,7-62,2).

Figura 1 Distribuição dos indivíduos em percentual segundo categorias de ganho de peso na vida adulta por faixa etária. Goiânia, Goiás (n=875) 

Na Tabela 2, são apresentadas as análises de prevalência bruta e ajustada da associação entre os indicadores nutricionais (IMC aos 20 anos, ganho de peso na vida adulta e IMC atual) e a presença atual de hipertensão. Na análise de regressão bruta, o IMC aos 20 anos, o ganho de peso e o IMC atual apresentaram associação significativa com o relato de HAS. Já na razão de prevalência ajustada pelas variáveis com p<0,20 na análise bruta, não houve associação significativa entre ganho de peso e HAS, em contrapartida, a associação permaneceu para a obesidade aos 20 anos de idade e presença atual de sobrepeso e obesidade, com a prevalência de HAS sendo 2,4 vezes maior nos indivíduos classificados como obesos em relação aos eutróficos.

Tabela 2 Razão de prevalência (RP) de hipertensão arterial a partir do índice de massa corporal aos 20 anos, índice de massa corporal atual e ganho de peso em indivíduos adultos. Goiânia, Goiás (n=875) 

RP bruta (IC 95%) p RP ajustada (IC95%) p
IMC 20 anos*
Baixo peso - -
Eutrofia 1,3 (0,9-1,9) 0,119 1,2 (0,8-1,8) 0,266
Excesso de peso 2,0 (1,2-3,3) 0,008 1,9 (1,0-3,2) 0,034
IMC atual
Eutrófico - -
Sobrepeso 2,1 (1,6-2,8) <0,001 1,5 (1,0-2,1) 0,040
Obesidade 3,9 (2,0-5,3) <0,001 2,4 (1,5-3,7) <0,001
Ganho de peso
Nulo - -
Baixo 0,6 (0,3-1,3) 0,218 0,6 (0,3-1,2) 0,158
Médio 1,3 (0,6-2,4) 0,481 1,1 (0,5-1,9) 0,955
Alto 2,4 (1,3-4,4) 0,006 1,2 (0,6-2,5) 0,569

*Modelo 1: ajustado por IMC atual, ganho de peso, idade, sexo, trabalho, sedentarismo, estado conjugal e tabagismo;

Modelo 2: ajustado por IMC 20 anos, ganho de peso, idade, sexo, trabalho, sedentarismo, estado conjugal e tabagismo;

Modelo 3: ajustado por IMC 20 anos, IMC atual, idade, sexo, trabalho, sedentarismo, estado conjugal e tabagismo

DISCUSSÃO

Os resultados deste estudo mostram que, em um intervalo de tempo que variou de 10 a 30 anos, a maioria da amostra (63,6%) apresentou ganho de peso superior a 10%, com média de ganho relativo de 18,1±11,1% (13,5±10,0 kg), ocasionando um aumento de 23,9% na média do IMC (de 20,1 kg/m2 para 25,4 kg/m2). Além disso, os indivíduos com menor média de IMC aos 20 anos de idade apresentaram maior ganho de peso em relação àqueles com médias de IMC maiores na juventude. Em estudo realizado em Florianópolis, também foi encontrado resultado semelhante, uma vez que a média do IMC aumentou 20,5% e 16,8%, nas mulheres e nos homens, respectivamente, após os 20 anos de idade13.

Outrossim, como em estudos prévios, houve associação positiva entre aumento da idade e ganho de peso. Sabe-se que o decorrer da idade favorece a perda de massa magra e aumento de tecido adiposo, além disso, a redução de atividades de maior gasto energético pode ocasionar o excesso de peso13-16. Os ex-fumantes apresentaram maior ganho de peso do que os fumantes e não fumantes, o que também foi observado por Travier et al.17, que constataram que o fim do tabagismo não só tende a ser seguido pelo ganho de peso, mas também indica que o ganho observado parece ocorrer, principalmente, durante os primeiros anos após a interrupção, devido à ansiedade e, logo, aumento do apetite. Quando comparado com os benefícios da cessação tabágica, tais achados reforçam a necessidade de promover o abandono do tabagismo por meio de orientação e apoio aos ex-fumantes, a fim de controlar o peso corpóreo17.

Existem evidências de que a prática regular de atividade física e o consumo regular de frutas, verduras e legumes (FVL) atuam como fatores de proteção contra o ganho de peso, enquanto que os hábitos sedentários e dieta pobre em FVL podem promover o aumento de peso18-22. Neste estudo, não houve associação significativa entre sedentarismo e consumo de FVL com o ganho de peso, isso provavelmente ocorreu, em parte, pelo fato de ter se avaliado o estilo de vida apenas no momento atual, bem como por não ter se avaliado a quantidade consumida de FVL e intensidade da atividade física praticada. Contudo, vale destacar que mesmo em uma população considerada naturalmente ativa como os índios, um estudo mostrou que aproximadamente 67% da amostra adulta estava com algum grau de excesso, observando ainda uma prevalência de HAS de 46,2% em ambos os sexos, sendo 3,47 vezes maior entre os obesos em comparação aos índios eutróficos23.

A prevalência de hipertensão arterial na amostra pesquisada foi de 22,6%, resultado semelhante encontrado em estudo realizado por entrevista telefônica na cidade de São Paulo, o qual apresentou prevalência de 23,0% de HAS24. Mesmo havendo diferença entre a medida referida e aferida para diagnóstico da HAS, trata-se de um método muito útil em estudos epidemiológicos e populacionais por ser de fácil aplicação e de baixo custo, além de auxiliar o desenvolvimento de ações na Saúde Pública visando à prevenção e tratamento da HAS. Chrestani et al.25 mostraram que a HAS autorreferida é uma ferramenta válida para identificar a prevalência da doença em estudos populacionais, visto que encontraram uma especificidade de 87,5%, sensibilidade de 84,3% e repetibilidade de 80%.

Já é consenso que o excesso de gordura corporal é um dos principais fatores responsáveis pelo desenvolvimento da hipertensão arterial26. Estudos anteriores já haviam observado a forte associação entre o excesso de peso e hipertensão27,28, bem como a validade do IMC na predição da hipertensão arterial28,29. Grandes estudos longitudinais internacionais, como o Minnesota Heart Survey (1980-2002), o National Health and Nutrition Examination Survey (1976-2002) e o China Stroke Primary Prevention Trial (2008-2009), mostraram que o excesso de peso é fator determinante para hipertensão arterial em adultos28,30. Na análise ajustada, no presente estudo, observou-se associação direta entre IMC, aos 20 anos e atual, e hipertensão arterial. Enquanto que, para a história de ganho de peso, observou-se que a prevalência da hipertensão aumentou com o ganho de peso na vida adulta, porém esta associação não foi independente do IMC atual.

Truesdale et al.31, ao acompanharem a história de ganho de peso de homens e mulheres durante três anos, encontraram um aumento significativo da pressão arterial daqueles que ganharam 10% a mais de peso durante este período, sendo esse aumento maior nos homens. Observaram também que a variação na pressão arterial entre indivíduos com o mesmo IMC pode ser devido à história de ganho de peso anterior ao período de acompanhamento. Bot et al.32 observaram associação direta entre ganho de peso e número de componentes da síndrome metabólica, entre eles a hipertensão arterial, porém a análise não foi ajustada pelo peso atual. Em análise ajustada pelo peso atual, Alley e Chang33 observaram que aqueles que ganharam peso entre os 25 e 47 anos tiveram o dobro de chances de desenvolver síndrome metabólica aos 50-64 anos de idade. No entanto, ao contrário dos achados para os triglicerídeos e HDL-colesterol, não observaram associação significativa entre a história de ganho de peso e hipertensão arterial ou glicemia elevada, sugerindo que o peso atual deve ser o principal fator de risco para o diabetes e hipertensão.

Este estudo apresentou algumas limitações: a natureza transversal do estudo que não permitiu avaliar em tempo real as flutuações no peso e pressão arterial dos indivíduos; a amostra estudada permite inferências apenas para a população adulta que reside em domicílios cobertos pela rede de telefonia fixa; as medidas referidas podem diferir das medidas aferidas; e a diferença de idade entre os participantes no momento da coleta de dados. Entretanto, observa-se na literatura que a hipertensão autorreferida é um indicador apropriado da prevalência da hipertensão arterial34. Assim como para peso e altura também tem sido observada alta correlação entre medidas aferidas e referidas, sendo que, em estudo de base populacional realizado em Goiânia, a correlação para o peso foi de 0,96 e para altura foi 0,8335. Já entre os participantes do Charleston Heart Study, a correlação foi de 0,98 para o peso atual, 0,93 para o peso de quatro anos atrás e de 0,82 para o peso de 28 anos atrás36. A análise estatística ajustada pela idade permitiu avaliar que o efeito do ganho de peso na prevalência da hipertensão independe da idade atual. Foram realizadas análises separadas por sexo, sendo que não foram observadas diferenças significativas (dados não apresentados).

Considera-se um ponto positivo deste estudo a avaliação dos fatores associados ao ganho de peso relativo após os 20 anos de idade, bem como apresenta inovação nos estudos de HAS ao focar os possíveis aspectos que podem ser preditores de tal enfermidade, ao invés de reportar apenas a frequência de excesso de peso atual e prevalência da doença.

Os achados deste estudo mostram que o ganho de peso na vida adulta não influenciou a prevalência de HAS, contudo, o IMC atual maior do que 25,0 kg/m2 e o excesso de peso no início da idade adulta (avaliado por meio do IMC aos 20 anos) são variáveis com capacidade preditiva do risco de hipertensão arterial para população adulta, sendo estes fatores de riscos passíveis de modificação. Dessa maneira, a prevenção primária da elevação da pressão arterial pode ser obtida por meio de mudanças no estilo de vida, incluindo o controle de peso e hábitos de vida saudáveis.

REFERÊNCIAS

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