Gilberto Freyre: um teórico da globalização?

Gilberto Freyre: um teórico da globalização?

Autores:

Debora Gerstenberger

ARTIGO ORIGINAL

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.21 no.1 Rio de Janeiro jan./mar. 2014 Epub 24-Jan-2014

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702013005000015

ABSTRACT

Gilberto Freyre is one of Brazil’s all-time finest intellectuals and social scientists. However, unlike his famous French colleague and contemporary Fernand Braudel, Freyre is not currently considered a founder of the new ‘global history’. The article poses some questions: How valuable is Gilberto Freyre’s work to contemporary historiography? Since most of his books address such themes as colonialism, migration, and the ‘miscegenation’ of different ethnicities and cultures, do they perhaps also tell us something about what we now call globalization? As historians, within the framework of the new global history, can we use his writings to (better) understand the past? And if so, how can we make use of his work?

Key words: Gilberto Freyre (1900-1987); global history; heories of globalization; methodology; Fernand Braudel (1902-1985)

Gilberto Freyre (1900-1987) é, sem dúvida, um dos mais importantes intelectuais e cientistas sociais brasileiros de todos os tempos. O sociólogo Jessé de Souza (2000, p.69) o titulou como o “mais complexo”, “difícil” e “contraditório” de todos os pensadores brasileiros. Uma das dificuldades que analisadores enfrentam ao tentar interpretar as obras de Freyre deriva da grande disparidade de seus temas e métodos, e, talvez, também da imensa quantidade de seus escritos, que consistem em não menos que sessenta monografias e ensaios copiosos. Para Peter Burke (1997), um dos seus mais conhecidos admiradores britânicos, o trabalho de Gilberto Freyre pode ser descrito como uma “forma de ecleticismo multidisciplinar, não propriamente síntese, mas sincretismo”. Freyre, diz Burke, não somente propagava a “hibridização”, mas também a praticou por toda sua vida intelectual (p.8). O próprio Gilberto Freyre enfatizava o pluralismo de seus métodos e de suas técnicas. Orgulhosamente combinava abordagens sociológicas, psicológicas, psicossociológicas, históricas, antropológicas, além de outras, para captar o que costumava chamar da “realidade” ou da “história” do “patriarcado brasileiro” ( Freyre, 1977b, p.LXII).

Como é bem conhecido, o quadro de análise preferido de Freyre sempre foi a entidade socioeconômica da casa. Muitos de seus estudos focalizam o microcosmo de habitações típicas brasileiras – por exemplo, o engenho açucareiro em Casa-grande e senzala( Freyre, 1933) e os sobrados e mucambos na obra subsequente Sobrados e mucambos( Freyre, 1936) – em que diversos grupos étnicos (africanos, afro-brasileiros, índios, portugueses) viveram juntos em espaços limitados. Conforme essa visão, a convivência nesse microcosmo habitacional favoreceu a ‘miscigenação’ ou ‘mestiçagem’ sexual e também cultural, criando um novo tipo de sociedade, chamada de sociedade brasileira, que Freyre (1959, p.96) não considerava inferior quando comparada a outras sociedades, mas sim, ao contrário, superior e de valor especial para a civilização e para o “desenvolvimento da personalidade da humanidade no mundo moderno”. Convém lembrar que Casa-grande e senzalafoi publicado em 1933; justamente na época em que o racismo popular e científico foi capaz de causar a maior catástrofe na Europa, um pensador brasileiro tomou posição contra essa forma de pensamento, propagando uma miscigenação racial e cultural. Dessa maneira, Freyre provocou, segundo Antonio Candido, um “verdadeiro terremoto” ( Pontes, 2001, p.7), e não somente no Brasil. Na Europa, a obra-prima Casa-grande e senzalateve um sucesso enorme. Lucien Febvre escreveu o prólogo da edição em língua francesa, em 1952, e Fernand Braudel para a tradução italiana, em 1965.

Se obra e mérito de Freyre foram louvados nas décadas de 1930 e 1940 em muitas regiões deste mundo, a segunda geração de cientistas sociais, a partir dos anos 1960, o acusou de ter criado uma ideologia do nivelamento das diferenças e ter postulado uma espécie de ‘demo-cracia racial’ que, na verdade, nunca havia existido no Brasil. 1 Uma parte da tese de Freyre (1992) se baseia na ideia de uma convivência mais ou menos condizente entre senhores e escravos. Já em sua dissertação de mestrado, defendida em 1922 na Columbia University (Nova York), Freyre (1964, p.98) constatou que o sistema escravocrata no Brasil no século XIX teria sido relativamente benigno, ou seja, não teria sido “cruel” (“Na verdade, a escravidão no Brasil agrário-patriarcal pouco teve de cruel”), uma asserção depois criticada por muitos cientistas sociais brasileiros ( Souza, 2000).

Em segundo lugar, Freyre foi, e ainda é, criticado por ter apoiado o ditador português António Salazar e defendido o colonialismo português na África nas décadas de 1960 e 1970, quando os movimentos de independência se intensificaram nos territórios portugueses ( Medina, 2000). O apoio prestado a Salazar foi certamente devido à sua convicção de que o colonia- lismo português fora relativamente “benigno” e fizera surgir novas – e melhores – sociedades ( Skidmore, 2002, p.18). Sem dúvida, atualmente, muitas afirmações de Freyre soam destoantes.

No entanto, os escritos de Gilberto Freyre só podem ser analisados colocando-os sob a perspectiva de seu respectivo tempo, como fez Ricardo Benzaquen de Araújo (1994). O autor analisa a obra de Freyre nos anos 1930 (principalmente Casa-grande e senzala), ligando-a com as duas correntes intelectuais mais importantes da época, nomeadamente o modernismo e a reflexão sociológica. Segundo Benzaquen, é a proximidade da literatura moderna que faz com que a prosa de Freyre tenha um “tom extremamente envolvente, muito próximo ao de uma ‘conversa’” ( Araújo, 1994, p.185; destaque no original). Esse “tom de conversa, de bate-papo ... parece facilitar sobremaneira que ele arme um raciocínio francamente paradoxal, fazendo com que a cada avaliação positiva possa se suceder uma crítica e ‘vice-versa’, em um ‘ziguezague’ que acaba por dar um caráter antinômico à sua argumentação” (p.208; destaque no original).

O conceito da raça é um dos mais contraditórios em Casa-grande e senzala: “Gilberto realmente preserva em CGS todo um vocabulário, marcado pelo louvor à biologia, que parece muito mais compatível com o determinismo racial do século XIX que com o elogio da diversidade cultural que ele desde o início procurou endossar” ( Araújo, 1994, p.32). Por outro lado, “[ Casa-grande e senzalaé] um trabalho assolado pela mais terrível e absoluta imprecisão, visto que, como já foi sugerido, o aproveitamento da ideia de raça em momento algum tem forças para cancelar o realce que a de cultura nele também vai obter” ( Araújo, 1994, p.33). Assim, “[Gilberto Freyre] opera com o conceito de raça, mas transmite a curiosa sensação de que não quer se comprometer com o seu sentido mais usual, deixando-nos diante de um dilema ou, pelo menos, obrigando a questão a permanecer em aberto” (p.38). Indicando a falta de uma teoria consistente, Peter Burke e Maria Lucia Pallares-Burke (2008, p.17) chamaram Freyre não de um teórico, mas de um “quase-teórico”.

Não perdendo de vista a tendência básica de usar argumentos não consistentes ou até paradoxais, a questão, portanto, é: o que a obra de Gilberto Freyre, que foi traduzida em muitos idiomas e debatida mundialmente, pode dizer hoje? Qual é a importância atual da obra de Gilberto Freyre? Conforme Jessé de Souza (2000, p.69), Freyre não é somente o “mais complicado” pensador brasileiro, mas também o “mais moderno”, cujas perguntas ganharam relevância ao invés de perdê-la. Será, então, que as obras de Freyre realmente ajudam os his-toriadores modernos a entender o passado? E se assim for, como podemos tirar proveito delas?

Como disse Peter Burke (1997, p.9), “o caminho de Nova York a Paris passou por Recife”. Enquanto Burke e outros enfatizaram o trabalho pioneiro de Freyre para a ‘nova história’ ( nouvelle histoire; new history), que surgiu na França e nos EUA na década de 1960, e também a relevância de sua obra para a história cultural moderna, historiadores de outras subdiscipli-nas raramente usaram e, provavelmente com algumas poucas exceções, leram seus escritos.

Existem, de qualquer maneira, bons motivos para reconsiderar algumas de suas ideias e teses, por exemplo, sua crítica à produção histórica ‘imperial’ na Europa e nos Estados Unidos e sua reivindicação de uma história nova escrita na periferia. Além disso, em sua monografia Ingleses no Brasil, publicada primeiramente em 1948, Freyre (1977a, p.17) afirmara que “os britânicos” no século XIX haviam dominado o Brasil, mas ao mesmo tempo coloca essa dominação em perspectiva quando verifica que a cultura brasileira também influenciou a cultura britânica. Estas introspecções sobre a presença europeia em territórios não europeus com certeza combinam muito bem com as ideias pós-coloniais e contribuem para o projeto que Dipesh Chakrabarty (2000)há mais de uma década, de forma marcante, chamou de provincializar a Europa.

Em segundo lugar, a proposta e reivindicação de uma história e sociologia “transnacional” e “transregional” que ele postulava já no início da década de 1950 ( Freyre, 1951, p.477) pode muito bem soar extremamente inovadora para os europeus que ainda creem que a ‘história transnacional’ fora inventada na década de 1990 por historiadores norte-americanos e europeus (cf., por exemplo, os artigos em Budde, Conrad, Janz, 2006). Já na obra New world in the tropics, Freyre (1959), propagava a região, e não o Estado nacional, como uma categoria analítica proveitosa, quando escreveu: “Quanto à política, a região pode ser menos importante do que a nação. Mas quanto à vida e à cultura, ela é mais importante que a nação” 2 (p.94; cf. também Freyre, 1951).

Em terceiro lugar, o ponto talvez mais importante, Freyre há de ser reconsiderado por causa de sua metodologia inovadora, especialmente notável em sua perspectiva indutiva. Ele, por exemplo, se propôs a analisar os efeitos da colonização desde o século XVI, que pode ser considerado um processo da “primeira globalização”, focalizando na cultura material e nas coisas do dia a dia ( Burke, Pallares-Burke, 2008, p.54 e ss.). A fachada de uma casa, com suas misturas de estilos oriundos de diferentes épocas, para ele podia perfeitamente elucidar a história e a cultura do Brasil ( Freyre, 1959, p.235). Sua perspectiva indutiva e sua grande atenção aos utensílios, aos veículos, à alimentação das pessoas, enfim, aos microcosmos de cada ser humano foram – e isso não surpreende – acompanhadas de uma crítica à utilização de categorias analíticas como, por exemplo, “Inglaterra”, “a Igreja”, “o partido conservador”, “a opinião pública”, entre outras que chamou de “personificações fictícias” ( Freyre, 1977b, p.LXIV). No entanto, a rejeição de entidades grandes e abstratas, supostamente naturais, é hoje uma das mais importantes características da nova ‘história global’ ( global history) que emergiu simultaneamente em diferentes lugares do mundo na década de 1990 ( Sachsenmaier, 2006). Para resumir, a respeito de métodos e afirmações básicas, a obra de Freyre ainda é, ou então poderia ser, uma leitura inspiradora e, para alguns, surpreendentemente relevadora ( Gerstenberger, 2010).

Um debate entre Gilberto Freyre e Fernand Braudel

Fernand Braudel (1902-1985) é um dos historiadores – pelo menos na Europa – considerados os pais da nova história global. Ele é visto como fundador das abordagens históricas sobre grandes regiões, como o Mediterrâneo, e citado com frequência por autores que se referem ao início da nova história global, como William McNeill (2001, p.146): “O avanço que Braudel fez na história global inscreve-se nas mais impressionantes demonstrações concebidas e cumpridas de como um só autor pode criar um retrato elegante, legível, de vários séculos da história mundial” 3 (cf. também Brenner, 1998). Gilberto Freyre, por outro lado, não é percebido na Europa como alguém que tenha se dedicado a temas e processos de larga escala. Será que isso está relacionado à maneira com que Freyre se dedicou à construção da nação?

Para obter uma visão mais profunda da relação entre a produção historiográfica sobre nação e a produção historiográfica sobre entidades supranacionais, quero chamar a atenção para um debate entre Fernand Braudel e Gilberto Freyre que ocorreu nos anos 1940. O objetivo é obter respostas, mesmo que sejam apenas tentativas, à seguinte pergunta: qual é o papel da nação na obra de Gilberto Freye que, como já foi indicado, trata predominantemente dos resultados de processos ‘globais’ ou ‘globalizantes’, como a colonização europeia e a consequente ‘miscigenação’ de culturas e de grupos étnicos diversos? Dessa maneira, pretendo também responder a questão se, e se assim for, em que sentido, Gilberto Freyre pode ser considerado um ‘teórico da globalização’.

Em 1943, Fernand Braudel, que seis anos mais tarde se tornaria famoso por sua obra La mediterranée( Braudel, 1949), escreveu o artigo “A travers un continent d’histoire: le Brésil et l’oeuvre de Gilberto Freyre” ( Braudel, 1943) que foi traduzido para o espanhol em 1999 ( Braudel, 1999). Nascido em 1902 e sendo dois anos mais jovem que Gilberto Freyre, Braudel (1999, p.169) começa seu texto engenhoso com uma saudação extensiva: considerava seu colega brasileiro um “historiador privilegiado”, e a sua obra (especialmente Casa-grande e senzalae Sobrados e mucambos) “brilhante” (p.168). Sobre Casa-grande e senzala, escreveu: “Este ensaio é uma obra brilhante: é a história de um país que é um mundo, de um país que muitos historiadores vão descobrir ... lendo as páginas floridas de Gilberto Freyre” (p.168). Enfatizou, depois, o modo excepcional de encarar problemas sociais; ao invés de ver governadores, capitanias, ‘o’ açúcar, ‘as’ raças, Freyre vê homens: indivíduos, famílias, ambientes sociais, aristocracias, gentes e escravos (p.172). E continuou: “Estamos em presença de um pensamento atrevido, vivo, atento aos valores humanos, a todos os valores humanos; apaixonado e combativo, ... incapaz de não retornar aos seus testemunhos e suas teses com uma insistência teimosa, às vezes desordenada, quase proustiana, mas muitas vezes irresistível” (p.168).

Depois de seu elogio, no entanto, Braudel (1999, p.169) se concentrou nos pontos fracos, e dedicou a parte final do artigo à – no seu ver – problemática relação entre Freyre como historiador e o estado atual da nação e da sociedade brasileira.

Gilberto Freyre é brasileiro. ... Bem, ser brasileiro significa muitas coisas ao mesmo tempo, e coisas muito complicadas. Para um homem de sua classe, significa pertencer à intelligentsia[elite intelectual] de um país que está em busca de si mesmo, de um país que vive um febril exame de si mesmo; de sua essência e de seu ser, das coordenadas exatas de seu destino; de um país em que os mil pontos cruciais do passado devem ser úteis para compreender o presente e, não em menor medida, para sondar o futuro. Abuso da História? Sim, e não. Melhor, outra utilização da História, aquela em que as coisas do passado, transpostas, se convertem em multiplicidade de sinais válidos para o presente e para os homens do presente.

Na essência, Braudel, o inventor do mediterrâneo como região histórica e social de grande escala, criticou duas coisas: insistiu que o Brasil seria um país enorme, heterogêneo e contraditório. Além disso, de acordo com Braudel, dois tipos de homens compartilham os seus espaços mal delimitados e quase infinitos: uma “humanidade de sedentários vinculados às cidades e aos espaços rurais bem definidos”, e “uma outra humanidade composta por uma camada social em movimento, de nômades, seminômades e pessoas semissedentárias tão diversas que qualquer um encheria páginas inteiras somente enumerando as suas categorias” ( Braudel, 1999, p.172).

Na obra de Freyre, observou Braudel, não há bandeirante, e não há gaúchos do interior ( hinterland), não há nenhum homem se movimentando. Em vez disso, o autor brasileiro optara (devido a seus “instintos”, conforme Braudel) pela população sedentária, pelos construtores de casas, igrejas, cidades etc. ( Braudel, 1999, p.175). Por isso, na opinião de Braudel, a obra de Gilberto Freyre seria um louvor à gente arraigada, estável. O historiador francês perguntou aos seus leitores se isso seria uma versão adequada ou então simplificadora do passado brasileiro. Respondendo a si mesmo, ele concluiu que o quadro do Brasil pintado por Gilberto Freyre seria somente “um” lado do “país verdadeiro” ( Braudel, 1999, p.175).

Braudel (1999, p.185-186) ainda fez outras críticas. Enfatizou que Freyre teria subestimado as diferenças sociais e históricas entre as regiões brasileiras e escreveu:

São Paulo não é, jamais tem sido, Recife ou Bahia. ... Assim, o que é verdade para o norte, é um erro para o sul. Em resumo, eu penso que seus livros, que constituem um estudo regional vivo, vigoroso e original do Nordeste do Brasil, pecam na medida em que querem estender logo seus argumentos ao país inteiro. Não haveriam já alcançado o suficiente como estudos regionais?

Aqui fica bem claro que Braudel desgostava da tendência de Freyre de mesclar as diferentes cidades, regiões e sociedades do Brasil em nome de uma unidade nacional.

No prefácio da segunda edição de Sobrados e mucambos, publicada em 1951, Freyre (1963, p.LXXX) respondeu à crítica de Braudel, defendendo seu procedimento:

[N]ão nos parece justa a observação ... de eminente crítico francês, o Professor F. Braudel, para quem nosso estudo seria válido apenas para uma região brasileira – região de sentido geográfico; e não para o Brasil. ... [T]emos em vista o fato de que a própria área do açúcar – primeiro conteúdo decisivo do sistema patriarcal-escravocrático entre nós – não se limitou ao Norte ou ao Nordeste do Brasil ..., mas teve no Rio de Janeiro uma de suas mais ricas e vigorosas expressões ... A verdade é que foi o sistema patriarcal-escravocrático ... que, de suas bases de São Vicente, do Rio de Janeiro, do Recôncavo, de Pernambuco e do Maranhão e através daquelas ilhas ou ilhotas, primeiro deu efetivo significado econômico e importância política ao Brasil, identificado principalmente com o açúcar aqui produzido. Foi o sistema patriarcal-escravocrático que se tornou a base principal da cultura diferenciada da de Portugal que foi aqui se desenvolvendo.

Freyre (1963, p.LXXXV e ss.) acentuou que o Brasil era realmente um país vasto em termos geográficos e etnográficos, mas nem tanto em termos históricos ou sociológicos, e em grandes semelhanças:

Que existem no Brasil consideráveis diferenças de região para região e até de sub-região para sub-região ou de província para província, nenhum estudioso de Ciência Social ... é capaz de negar. ... Mas o estudo das diferenças não nos deve fazer esquecer o das semelhanças. Nem o critério do espaço físico nos deve fazer abandonar, em estudos sociais, o do espaço social, dentro do qual podem estender-se complexos sociais, ou de cultura, de configuração própria e até caprichosa. Daí grupos humanos fisicamente distantes um do outro como o situado em Rio Pardo (RS) e o situado em Penedo (Alagoas), por exemplo, poderem apresentar maiores semelhanças entre si, que Rio Pardo (RS) com São Leopoldo (RS); ou Penedo (Alagoas) com Palmeira dos Índios (Alagoas). Daí o Rio de Janeiro ser província muito mais semelhante a Pernambuco agrário, a despeito da distância física que separa uma da outra, que o Rio de Janeiro, da província vizi-nha, do Espírito Santo; ou Pernambuco agrário, do Ceará, província também vizinha.

Nesse parágrafo fica evidente que o autor brasileiro realmente tinha uma missão, a qual estava disposto a defender contra o seu colega europeu: a construção de uma nação brasileira sociologicamente e culturalmente homogênea. Apesar de os trechos acima citados ainda não documentarem definitivamente que Freyre, nas décadas de 1940 e 1950, realmente fora considerado ‘historiador nacional’, o debate entre ele e Fernand Braudel contém algumas provas que justificam essa suposição. É certo que Freyre, atualmente, é costuma ser tido como o sociólogo que em primeiro lugar tratou da sociedade brasileira, isto é, da sociedade nacional (cf., por exemplo, Souza, 2007).

Outra vez é importante ter em mente o contexto histórico da obra de Gilberto Freyre. Naquela época, a sociedade brasileira estava à procura de uma identidade própria, diferente da sociedade europeia ou estado-unidense. Como enfatizaram Peter Burke e Maria Lucia Pallares-Burke (2008, p.53):

CGS é, entre outras coisas, uma tentativa de uma cura para o que o autor uma vez chamou de ‘ansiedade de introspeção social’, sendo que a busca de uma identidade brasileira foi, nesta época, fundamental em muitos ensaios escritos por Paulo Prado, Caio Prado Junior, Sérgio Buarque e outros. O livro pode ser visto como uma maior contribuição a uma discussão sobre a interpretação do Brasil ... Esta discussão tinha importantes implicações políticas num tempo em que procedimentos da imigração eram debatidos. 4

Avaliando a obra diante da específica situação política, talvez não seja tão surpreendente a forte ênfase da nação, mas a tentativa de escrever a história do Brasil, mesmo assim, numa maneira que “acentua a extrema ‘heterogeneidade’ que caracterizaria a colonização portuguesa, ressaltando basicamente a ativa contribuição de diversos e antagônicos grupos sociais na montagem da sociedade brasileira” ( Araújo, 1994, p.53; destaque no original).

Considerações finais

Fernand Braudel e Gilberto Freyre foram dois cientistas excepcionais. Mantiveram por muitos anos uma relação amigável e admiravam bastante um ao outro. 5 Para Fernand Braudel, que considerei – com certeza de uma maneira um pouco simplista – um representante da história global, Gilberto Freyre definitivamente teria tido um ar de historiador ‘nacional’. Mais precisamente, para Braudel, Freyre era um historiador em busca de uma legitimação e unidade para a nação, um historiador que forçava regiões e cidades diferentes e realidades sociais divergentes em um quadro comum, isto é, num quadro nacional.

Braudel tinha razão, em certo sentido. Não se pode negar que um dos objetivos de Freyre (pelo menos nos textos publicados nas décadas de 1930 e 1940) era a legitimação histórica e sociológica, e por isso também a ‘construção’, da nação brasileira. Em muitas partes de suas obras mais importantes, e também na defesa em relação às críticas de Fernand Braudel acima citada, se percebe que Freyre imaginava a nação como uma entidade coesa e unificada. Desejava entender uma certa realidade da sociedade brasileira, e acreditava tê-la achado no sistema patriarcal que, do seu ponto de vista, era semelhante em todas as partes do Brasil. Evidentemente, a obra de Freyre não pode ser entendida nem interpretada sem levar em conta o clima intelectual de seu tempo no Brasil e as circunstâncias políticas que são, além do mais, caracterizadas pela política de centralização e unificação de Getúlio Vargas ( Skidmore, 2002; Burke, Pallares-Burke, 2008). Assim, embora quase todos os tópicos por ele abordados fossem relacionados à colonização portuguesa, à migração, à ‘miscigenação’ ou ‘mestiçagem’ de culturas, sendo, por isso, de uma maneira ou de outra, ligados a condições e efeitos de processos que hoje chamamos de globalização, Freyre parecia seguir uma ‘entidade imaginada’: a nação.

A relevância da obra de Freyre para os historiadores de hoje (principalmente para os que trabalham com ‘história global’) evidentemente não se encontra no objetivo nem no resultado de suas análises. Escrever a história de uma nação e, com isso, legitimá-la, com certeza tem perdido muito de sua importância desde que os enfoques transnacionais e transculturais ganharam relevância e plausibilidade. O potencial inovador de sua obra, na perspectiva de hoje, se encontra antes de tudo nos métodos que ele inventou, na abordagem indutiva, na pluralidade de perspectivas e em fontes que usou para entender certos aspectos da realidade social.

Podemos concluir que Freyre inventou (ou pelo menos promoveu) a microperspectiva na análise de processos da globalização. Para essa microperspectiva ele criou novos métodos e meios: focalizou a cultura material e, por exemplo, analisou as fachadas das casas e objetos do cotidiano dentro dessas casas; também usou anúncios de jornais e muitos outros tipos de fontes para analisar o cotidiano e as interações e a convivência de diferentes grupos étnicos e sociais.

É evidente que os métodos e meios que Freyre inventou são muito mais duradouros que a sua tese sobre a homogeneidade da sociedade brasileira. E tal reconhecimento é muito importante. Porque enquanto Freyre, em sua época, foi movido pelo desejo de achar padrões comuns em todos os habitantes do Brasil para poder criar uma nação brasileira, hoje, não são poucos historiadores que parecem ser movidos pelo desejo de descobrir padrões comuns em todas as sociedades, em uma escala global. Todavia, se o quadro do Estado nacional que dominou por muito tempo as ciências sociais ultimamente provou ser somente transitório, é muito provável que outras escalas (também o quadro global) desvanecer-se-ão ou então deixarão de ser dominantes. Simplesmente trocar o ‘contêiner’ nacional por um ‘contêiner’ universal ou global dificilmente pode ser uma solução ( Cooper, 2001).

O que podemos aprender com a obra de Freyre é que certos âmbitos e quadros de análise, junto com os resultados, mais cedo ou mais tarde, inevitavelmente, caem em desuso ou se tornam obsoletos. São os métodos e os meios, e, no caso da história, também a seleção e o tra- tamento das fontes, que sobrevivem e permanecem relevantes. Por isso historiadores de várias áreas, inclusive a área da história global, ainda podem tirar proveito dos escritos de Gilberto Freyre. Reconhecidamente, Gilberto Freyre, em sua obra, tinha em mente, antes de tudo, a construção de uma ‘nação’, a chamada nação brasileira. Enquanto trabalhou para realizar essa visão, ele inventou, talvez sem esse intuito, meios e utensílios revolucionários para a microanálise de certos processos que hoje chamamos de processos de globalização.

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