Glomeruloesclerose nodular em paciente fumante não diabético, hipertenso e dislipidêmico: relato de caso

Glomeruloesclerose nodular em paciente fumante não diabético, hipertenso e dislipidêmico: relato de caso

Autores:

Liliane Silvano Araújo,
Alessandro Alves Queiroz,
Maria Luíza Reis Monteiro,
Crislaine Aparecida Silva,
Lívia Helena de Morais Pereira,
Mariana Molinar Mauad Cintra,
Claudia Renata Bibiano Borges,
Juliana Reis Machado,
Marlene Antônia dos Reis

ARTIGO ORIGINAL

Brazilian Journal of Nephrology

versão impressa ISSN 0101-2800versão On-line ISSN 2175-8239

J. Bras. Nefrol. vol.38 no.4 São Paulo out./dez. 2016

http://dx.doi.org/10.5935/0101-2800.20160076

Introdução

A glomeruloesclerose nodular idiopática (GNI) é uma entidade rara associada ao tabagismo, à hipertensão1-4 e mais recentemente com dislipidemia, obesidade e síndrome metabólica.5-8 Acomete principalmente homens, idosos, brancos, normoglicêmicos, fumantes, hipertensos, dislipidêmicos, com complicações vasculares periféricas e que apresentam azotemia, insuficiência renal e proteinúria significativas.3 A GNI mostra um padrão histológico de lesão glomerular caracterizada por expansão nodular da matriz mesangial (MM), hialinose arteriolar (HA), ausência de depósitos de imunocomplexos, e, em alguns casos, formação de microaneurismas.4,9,10

O diagnóstico dessa entidade é de exclusão, após terem sido afastadas outras causas de esclerose nodular intercapilar, que antes era característica da classe III da nefropatia diabética (ND).11 O mesmo padrão morfológico é observado à biópsia renal na glomerulonefrite membranoproliferativa, nas disproteinemias, amiloidose, doenças de cadeias leve, doenças de depósitos organizados e, ainda, nas condições de hipóxia ou isquemia crônica, como arterite de Takayasu com estenose de artéria renal, dentre outras.3,10

O cigarro tem sido associado com mais veemência ao desenvolvimento da GNI, sendo responsável por lesão vascular renal e hipertensão crônica.12 A distinção das glomerulopatias é facilitada pela biópsia renal com a realização de microscopia de luz (ML) e eletrônica (ME), imunofluorescência (IF) e a coloração de Vermelho Congo. Diante dessa entidade pouco descrita, o objetivo desse estudo é relatar o caso de um paciente com características típicas da doença, tanto nos achados clínicos como morfológicos.

Relato de caso

Paciente do sexo masculino, 64 anos, leucodermo, hipertenso há 5 anos, dislipidêmico, obeso, portador de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) secundária a tabagismo importante. Não apresentava história de diabetes e não havia antecedentes familiares de nefropatia.

Na admissão apresentava quadro de exacerbação da DPOC, anasarca e hipertensão. Apresentou perda progressiva de função renal, com necessidade de hemodiálise. Foi introduzida prednisona 60 mg/dia, mas sem melhora (clearance de creatinina < 10 ml/min). Exames complementares da admissão incluíam: creatinina = 2,1 mg/dL; ureia = 189 mg/dL; glicemia = 83 mg/dL; colesterol total = 363 mg/dL; LDL = 162 mg/dL; triglicerídeos = 99 mg/dL; albumina sérica = 2,6 g/dL; proteinúria de 24h = 1,8 g; urina I = proteinúria 4+; complemento total, C3, C4, ANCA, ASLO, anti-DNA = negativos; sorologias para HIV, HCV e HBV foram negativas.

O paciente foi submetido à biopsia renal, a amostra foi processada e foram feitas as seguintes colorações: Hematoxilina-Eosina (HE) (Prancha 1A), Prata Metenamina (PAMS) (Prancha 1B), Tricrômico de Masson (TM) (Prancha 1C), Picro-Sírius (PS), (Prancha 1D) e Vermelho Congo (Prancha 1E e 1F) (Figura 1).

Figura 1 Alterações histológicas da Glomeruloesclerose Nodular Idiopática. Prancha 1. Cortes histológicos de biópsia renal com diagnóstico de Glomeruloesclerose Nodular Idiopática (GNI). ML mostrando: expansão mesangial difusa em (A) HE; (B) PAMS; (C) TM; (D) Picro-Sírius; (E) Vermelho Congo sem Permanganato de Potássio com Amiloidose negativa, (F) Vermelho Congo sob luz polarizada não refringente. Imunofluorescência positiva para anti-IgM (G). ME mostrando áreas preservadas (seta menor) e áreas de apagamento (seta maior) dos processos podocitários (H) (12000x). 

Pela ML, foram observados três glomérulos totalmente esclerosados; três com esclerose segmentar com aumento da MM, colapso das alças capilares adjacentes e aderência à cápsula de Bowman; em dois havia expansão mesangial com formação de nódulos intercapilares com capilares abertos na periferia do eixo; e em um deles aparente formação de aneurisma.

A membrana basal glomerular (MBG) apresentava-se duplicada em algumas alças capilares. O compartimento tubular e intersticial apresentava fibrose intersticial moderada acompanhada de túbulos atróficos, focos discretos com infiltrado inflamatório mononuclear e alguns túbulos com tubulite discreta e dilatação. Pequeno foco com calcificação e alguns cilindros hialinos.

No compartimento vascular havia uma arteríola com depósito hialino acentuado na parede e espessamento fibroelástico intimal acentuado em artéria interlobular. Não havia artéria arciforme para ser analisada. Na avaliação pelo Vermelho Congo o resultado foi negativo, confirmado pela não refringência na luz polarizada (Prancha 1F) (Figura 1).

Na IF os resultados foram: 1) Soro anti-IgA negativo nos glomérulos e positivo em cilindros; 2) Soro anti-IgG negativo; 3) Soro anti-IgM (Prancha 1G) (Figura 1): aprisionamento segmentar irregular em três glomérulos e nos glomérulos esclerosados, além da parede vascular; 4) Soro anti-C1q: aprisionamento segmentar irregular discreto em um glomérulo e nos glomérulos esclerosados, na cápsula de Bowman e na parede vascular; 5) Soro anti-C3: aprisionamento segmentar irregular moderado em um glomérulo e nos glomérulos esclerosados, também na parede vascular e focal peritubular; 6) Soro anti-Kappa positivo segmentar irregular discreto em um glomérulo, positivo em cilindros; 7) Soro anti-Lambda positivo segmentar irregular discreto em um glomérulo e em cilindros; 8) Soro anti-Fibrinogênio negativo.

Na ME (Prancha 1H) (Figura 1) não foram encontrados depósitos estruturados (fibrilares) no mesângio ou nas alças capilares, seja subendotelial, subepitelial ou intramembranoso. Em uma alça capilar havia material eletrondenso subendotelial de aspecto inespecífico. Realizou-se a morfometria automatizada da espessura da MBG, medindo a distância entre a membrana citoplasmática do endotélio até a membrana citoplasmática do pedicelo/podócito, com 40 medidas, resultando em média = 409,06 ± 86,41nm e mediana = 375,63 (295,12 - 650,50) nm. Havia alterações no citoplasma dos podócitos, tais como não formação dos pedicelos ou alargamento deles ou ainda aproximação dos pedicelos, no entanto, havia pedicelos preservados.

Discussão

O quadro clínico deste paciente é compatível com uma síndrome nefrótica, com comorbidades importantes e perda rápida da função renal, com necessidade de suporte dialítico. Essa apresentação clínica poderia ser encontrada na maioria das glomerulopatias relacionadas como diagnóstico diferencial, no entanto, os achados na ML evidenciam um padrão idêntico à ND, na qual se percebem nódulos de esclerose de natureza colágena, bem corados pela TM e PS, e caracteristicamente argirófilos. Como não há evidências clínicas e laboratoriais de DM, o diagnóstico dado é de GNI.4,8

Na IF não há depósitos típicos; pode-se perceber depósitos inespecíficos de C3 em vasos e áreas de esclerose, e IgG por vezes com padrão linear fraco no glomérulo. A ME evidencia uma MBG espessada, com aumento importante da MM e áreas de perda da arquitetura do podócito e seus prolongamentos; não há depósitos organizados ou com características específicas. Há grande semelhança com a ND, inclusive com achados como capuz de fibrina (fibrin caps) e gota capsular (capsular drops).13

Estudo clínico-patológico de 15 pacientes com GNI relatou a HA combinada nas arteríolas aferente e eferente, porém sem casos com a lesão gota capsular. Embora o mecanismo de formação de arteriolosclerose nessas arteríolas seja incerto, acredita-se que a HA possa ter um papel significativo na progressão para a formação nodular da GNI.2

Outro trabalho descreve alterações semelhantes às nossas, mostrando 10 pacientes com histórico de tabagismo e hipertensão de longa data, mais proteinúria. As lesões foram de glomeruloesclerose mesangial difusa (seis casos), glomeruloesclerose mesangial nodular (quatro casos) e HA (oito casos), havia espessamento da MBG e perda dos processos podocitários.12

A patofisiologia do desenvolvimento da GNI mais aceita é a associada ao tabaco, e envolve mecanismos de indução de estresse oxidativo, formação de Produtos Finais de Glicação Avançada (AGE), angiogênese, e alteração da hemodinâmica intrarrenal.3,12 O estresse oxidativo pode ser causado pelos radicais livres que estão no fumo do cigarro. A lesão causada aumenta a produção da MM via ativação do fator de crescimento tumoral β (TGFβ) e fator de crescimento semelhante à insulina.3

A ligação do receptor específico (RAGE) ao AGE também pode induzir estresse oxidativo indiretamente pela regulação positiva celular de enzimas oxidativas. No rim, o RAGE é expresso predominantemente nos podócitos, e quando ocorre a junção dele ao ligante há ativação de múltiplas cascatas de sinalização através do NF-κB, proteínas quinases, vias JAK/STAT e via SMAD, o que promove a proliferação de células mesangiais e a síntese de citocinas fibrogênicas, como o PDGF e o TGFβ. Produtos reativos de glicação estão em extratos aquosos e no fumo do tabaco e podem reagir rapidamente com proteínas para formar AGE.3,5

A nicotina parece ativar a angiogênese por meio da ligação direta com receptores de acetilcolina localizados nas células endoteliais. Essa ativação, que leva à vasodilatação, associada à desregulação na produção de colágeno tipo IV, promove espessamento da MBG e induz albuminúria.3

Estudos têm demonstrado que o cigarro aumenta a excreção de albumina urinária na população em geral, mesmo em pacientes não diabéticos e normotensos.5,14 No entanto, a maioria das pesquisas da função renal em fumantes de longo prazo relata uma alta prevalência de hipertensão e DM.15

Um trabalho descreveu o caso de uma mulher de 70 anos com histórico de longa data de hipertensão e tabagismo grave (60 anos-maço) interrompido há 20 anos. Não tinha história de DM, mas teve DPOC grave e insuficiência renal crônica. Ela possuía um perfil muito semelhante ao paciente deste caso e, segundo os autores, estas são características clínicas fortemente sugestivas de "glomeruloesclerose nodular associada ao fumante", designação proposta pelos autores para substituir o termo GNI.3

A hipertensão concomitante ao tabagismo, além da suscetibilidade genética e ambiental, pode auxiliar no desenvolvimento da lesão renal crônica.12 A hipóxia induzida em pacientes com DPOC, também parece contribuir com a GNI. A redução dos níveis de oxigênio pode ativar o sistema nervoso simpático e o sistema renina angiotensina, que induzem a remodelação vascular, com hipóxia tecidual, lesão endotelial e queda da taxa de filtração glomerular. Esse mesmo mecanismo de hipóxia induzido pela DPOC pode explicar a alteração hemodinâmica intrarrenal causada pelo cigarro.3

A GNI é uma morbidade rara, de patogênese pouco conhecida, contudo, novos relatos de casos têm auxiliado no entendimento da doença e no traçado do perfil desses pacientes. O tabagismo tem se firmado cada vez mais como causa da GNI, sendo até considerada a mudança na designação dessa entidade. Entretanto, não há como afastar outras vias de desenvolvimento da GNI, visto que diversos mecanismos parecem colaborar com a formação da glomeruloesclerose nodular. Torna-se necessário aprofundar as pesquisas e avaliar de forma mais específica os fatores causais da entidade.

REFERÊNCIAS

1 Halmai R, Degrell P, Szijártó IA, Mátyás V, Molnár GA, Kovács T, et al. Smoking as the potential link between Kimmelstiel- Wilson lesion and non-diabetic nodular glomerulosclerosis in male patients - a single center retrospective. Clin Nephrol 2013;80:23-8. DOI:
2 Li W, Verani RR. Idiopathic nodular glomerulosclerosis: a clinicopathologic study of 15 cases. Hum Pathol 2008;39:1771-6. DOI:
3 Nasr SH, D'Agati VD. Nodular glomerulosclerosis in the nondiabetic smoker. J Am Soc Nephrol 2007;18:2032-6. DOI:
4 Markowitz GS, Lin J, Valeri AM, Avila C, Nasr SH, D'Agati VD. Idiopathic nodular glomerulosclerosis is a distinct clinicopathologic entity linked to hypertension and smoking. Hum Pathol 2002;33:826-35. DOI:
5 Lópes-Revuelta K, Abreu AA, Gerrero-Márquez C, Stanescu RI, Marín MI, Fernández EP. Diabetic Nephropathy without Diabetes. J Clin Med 2015;4:1403-27. DOI:
6 Predosa AF, Gomes dos Santos WA, Filho MA, Farias FT, Modesto dos Santos V. Nodular glomerulosclerosis in a non-diabetic hypertensive smoker with dyslipidemia. An Sist Sanit Navar 2011;34:301-8.
7 Souraty P, Nast CC, Mehrotra R, Barba L, Martina J, Adler SG. Nodular glomerulosclerosis in a patient with metabolic syndrome without diabetes. Nat Clin Pract Nephrol 2008;4:639-42. DOI:
8 Müller-Höcker J, Weiss M, Thoenes GH, Grund A, Nerlich A. A case of idiopathic nodular glomerulosclerosis mimicking diabetic glomerulosclerosis (Kimmelstiel-Wilson type). Pathol Res Pract 2002;198:375-9. PMID: 12092775 DOI:
9 Alpers CE, Biava CG. Idiopathic lobular glomerulonephritis (nodular mesangial sclerosis): a distinct diagnostic entity. Clin Nephrol 1989;32:68-74. PMID: 2766585
10 Herzenberg AM, Holden JK, Singh S, Magil AB. Idiopathic nodular glomerulosclerosis. Am J Kidney Dis 1999;34:560-4. PMID: 10469869DOI:
11 Tervaert TW, Mooyaart AL, Amann K, Cohen AH, Cook HT, Drachenberg CB, et al.; Renal Pathology Society. Pathologic classification of diabetic nephropathy. J Am Soc Nephrol 2010;21:556-63. DOI:
12 Salvatore SP, Troxell ML, Hecox D, Sperling KR, Seshan SV. Smoking-related glomerulopathy: expanding the morphologic spectrum. Am J Nephrol 2015;41:66-72. DOI:
13 Kinoshita C, Inoue Y, Kanda Y, Kanda C. A case of idiopathic nodular glomerulosclerosis with fibrin caps. Clin Exp Nephrol 2011;15:937-41. DOI:
14 Hillege HL, Janssen WM, Bak AA, Diercks GF, Grobbee DE, Crijns HJ, et al.; Prevend Study Group. Microalbuminuria is common, also in a nondiabetic, nonhypertensive population, and an independent indicator of cardiovascular risk factors and cardiovascular morbidity. J Intern Med 2001;249:519-26. DOI:
15 Ejerblad E, Fored CM, Lindblad P, Fryzek J, Dickman PW, Elinder CG, et al. Association between smoking and chronic renal failure in a nationwide population-based case-control study. J Am Soc Nephrol 2004;15:2178-85. DOI: