Grau de melhora do zumbido com estapedectomia - uma revisão

Grau de melhora do zumbido com estapedectomia - uma revisão

Autores:

Aliciane Mota G. Cavalcante,
Isabella Monteiro de Castro Silva,
Bianca Jessica Neves,
Carlos Augusto Oliveira,
Fayez Bahmad Jr

ARTIGO ORIGINAL

Brazilian Journal of Otorhinolaryngology

versão impressa ISSN 1808-8694versão On-line ISSN 1808-8686

Braz. j. otorhinolaryngol. vol.84 no.4 São Paulo jul./ago. 2018

http://dx.doi.org/10.1016/j.bjorl.2017.12.005

Introdução

A otosclerose é uma osteodistrofia do osso temporal, caracterizada por reabsorção e neoformação óssea desordenadas em indivíduos geneticamente predispostos. Toda a cápsula óptica pode estar envolvida, embora a área próxima da fissula ante fenestram (anterior à janela oval) seja o local mais comumente afetado.

Clinicamente, a otosclerose é caracterizada por perda auditiva progressiva condutiva e/ou mista e por zumbido. Eventualmente, perda auditiva neurossensorial, plenitude auditiva e vertigem podem ocorrer.

O zumbido é uma sensação de som anormal que alguns pacientes com perda auditiva experimentam. Pacientes com otosclerose podem apresentar graus variáveis ??de zumbido associados à perda auditiva. Gristwood et al.1 relataram, com base em uma revisão de 1.014 casos consecutivos de otosclerose clínica, que 65% dos pacientes com perda auditiva devido à otosclerose tinham zumbido.

Subsequentemente, Deuyer et al. relataram que a prevalência de zumbido é estimada em 65% a 85%.2 Estudos anteriores indicaram que o zumbido diminui com a melhoria da audição após a estapedectomia.2 Vários estudos têm relatado a alta prevalência de zumbido e o grau de desconforto em pacientes com otosclerose e a melhoria após a cirurgia. No entanto, somente alguns estudos descreveram o prazo da melhoria ou quantificaram a melhoria do zumbido com o uso de um instrumento de avaliação de zumbido validado de forma prospectiva. O objetivo desta revisão sistemática foi avaliar o resultado das publicações que relataram o grau de melhoria do zumbido com a estapedectomia, com ênfase no tipo de método usado e no período de avaliação.

Método

As pesquisas foram feitas nas bases de dados PubMed, com os descritores extraídos do Medical Subject Headings (MeSH) que caracterizaram o assunto: otosclerosis AND stapes surgery OR stapedotomy AND tinnitus.

Os critérios de inclusão dos estudos foram: artigos na língua inglesa; publicados nos últimos 20 anos; estudos prospectivos e estudos clínicos em adultos com ênfase na otosclerose, estapedectomia e escalas para medir o grau de melhoria do zumbido. Estudos retrospectivos foram excluídos.

Resultados

Foram revisados resumos de 12 artigos que preencheram os critérios de inclusão da pesquisa e oito artigos foram incluídos no estudo de acordo com os critérios de inclusão. A figura 1 mostra o diagrama PRISMA de fluxo para inclusão.

Figura 1 Diagrama PRISMA mostrando a seleção e o tipo de escala utilizados na revisão. 

Características dos estudos

Esta revisão encontrou oito estudos que investigaram o grau de melhoria do zumbido com a estapedectomia, com o uso de diferentes escalas. As estapedectomias foram estapedectomia e estapedotomia. Os artigos usaram diferentes escalas: Tinnitus Functional Index-TFI, Escala Visual Analógica-EVA, TFI e EVA, EVA e "questionário sobre o zumbido", método de Newman e Tinnitus Score Advocated, da Sociedade Audiológica do Japão (Japan Audiological Society).

No primeiro mês de avaliação pós-operatória, os resultados variaram entre 75% e 88% de melhoria no zumbido. No sexto mês, entre 85% e 88,3%.

Sakai et al. não mencionaram o período de avaliação. Neste artigo, o grau de melhoria foi de 68%.

Sanchez et al. informaram que a melhoria em torno do terceiro mês foi de 95,7%, esse foi o período de maior grau de melhoria observado entre todos os artigos.

Em estudos nos quais a avaliação foi feita entre quatro e 10 meses; quatro e 14 meses e 14 e 48 meses, o grau de melhoria do zumbido variou de 90 a 91%.

O total das amostras dos artigos avaliados foi de 254 participantes (tabela 1).

Tabela 1 Artigos, tipo de escalas, tempo de avaliação no pós-operatório e resultados 

Título Autor/ano de publicação Tipo de escala Tamanho da amostra Tempo de avaliação no pós-operatório Grau de melhoria do zumbido
Stapedectomy effects on tinnitus: relationship of change in loudness to change in severity2 Dewyer et al., 2015 TFI e EVA
35
1 e 6 meses 1 mês-75%
6 meses-88%
Tinnitus modulation by stapedectomy3 Chang et al., 2014 TFI 16 1 e 6 meses 1 mês-88%
6 meses-85%
Characteristics and postoperative course of tinnitus in otosclerosis4 Ayache et al., Earally, Elbaz, 2003 TFI 62 1 e 6 meses 1 mês-83,4%
6 meses-88,3%
Outcome of stapes surgery for tinnitus recovery in otosclerosis5 Rajati, Poursadeg, Bakhshaee, Abbasi, Shahab, 2012 Método de Newman 29 1 mês 82,8%
The effect of stapedotomy on tinnitus in patients with otospongiosis6 Sanchez, Bento, Lima, Marcondes, 2005 EVA 23 3 meses 95,7%
Long-term follow-up of tinnitus in patients with otosclerosis after stapes surgery7 Sobrinho, Oliveira, Venosa, 2004 Questionnaire asking about tinnitus, EVA 48 4 a 14 meses;14 a 48 meses 4 a 14 meses-91%;
14 a 48 meses-91%
How does stapes surgery influence severe disabling tinnitus in otosclerosis patients?8 Oliveira CA; 2007 EVA 19
4 a 10 meses 4 a 10 meses-90%
The effect on tinnitus of stapes surgery for otosclerosis9 Sakai, Sato, Iida, Ogata, Ishida, 1995 Tinnitus score advocated by the Japan Audiological Society 22 Não mencionado 68%

Discussão

Embora o zumbido esteja frequentemente relacionado à otosclerose, ele tem sido pouco discutido na literatura. No entanto, ele representa uma grande fonte de desconforto para alguns pacientes, os quais são com frequência inquisitivos sobre o curso desse sintoma.2

Não foi observado zumbido pós-operatório em pacientes que não apresentavam zumbido pré-operatório, mas esse fator não parece ser estatisticamente significante como indicador preditivo do curso do zumbido. Esse achado também foi observado por Kersley e Gray,10 mas Del Bo et al.11 mencionaram que o zumbido ocorreu tardiamente após a cirurgia, em 7% dos pacientes que não apresentavam zumbido no período pós-operatório imediato.

Shea12 e Causse e Vincent13 tentaram correlacionar o tom do zumbido pré-operatório em pacientes com otosclerose e a diminuição desse sintoma após a estapedectomia. Ambos declararam que apenas o zumbido em tom grave é afetado pela estapedectomia. Causse e Vincent indicaram que esse tipo de zumbido está relacionado à elasticidade do mecanismo da janela oval, que é corrigida pela estapedectomia.

Em um estudo do osso temporal em busca de uma correlação histopatológica para o zumbido, Oliveira e Schuknecht14 encontraram hidropsia endolinfática em 18% dos ossos estudados, histopatologia normal em 11% e otosclerose em 11%. Esses foram os principais diagnósticos histopatológicos encontrados em pacientes com zumbido. Se considerarmos que o zumbido começa com uma alteração bioquímica nos fluidos da orelha interna, a qual no início não é detectável por microscopia óptica, mas subsequentemente será vista como hidropsia endolinfática, e que os focos otoscleróticos na cóclea provocam essas alterações bioquímicas na endolinfa e perilinfa, esses principais diagnósticos histopatológicos encontrados nos ossos temporais de pacientes com zumbido estão intimamente ligados. Se a explicação acima for verdadeira, a única maneira pela qual a estapedectomia pode influenciar o zumbido em pacientes com otosclerose é alterando a parte condutora da equação.

Novamente, Oliveira e Schuknecht14 encontraram uma melhor preservação das estruturas sensoriais e neurais em pacientes com zumbido do que em pacientes com o mesmo diagnóstico histopatológico, mas sem zumbido. Possivelmente, o zumbido é um sinal muito precoce de lesão coclear e tende a diminuir à medida que a lesão piora. É claro que as ideias apresentadas nos parágrafos anteriores estão longe de ser comprovadas, mas acreditamos que elas compõem uma hipótese interessante a ser investigada.

Conclusão

Esta revisão sistemática de 254 casos de otosclerose mostrou, através de diferentes escalas e em diferentes momentos, que a estapedectomia foi de grande valor na melhoria do zumbido, observada em 85,52% dos pacientes com zumbido pré-operatório.

A indicação primária para a estapedectomia é a melhoria da audição.4

Portanto, ao decidir sobre a indicação cirúrgica em pacientes com otosclerose, a presença e o nível do zumbido devem ser considerados, bem como o nível de audição, já que concluímos que a estapedectomia também pode aliviar o zumbido na maioria dos pacientes com otosclerose.

REFERÊNCIAS

1 Gristwood RE, Venables WN. Otosclerosis and chronic tinnitus. Ann Otol Rhinol Laryngol. 2003;112:398-403.
2 Dewyer NA, Kiringoda R, Kram YA, Chang JL, Chang CYJ, Cheung SW. Stapedectomy effects on tinnitus: relationship of change in loudness to change in severity. Otolaryngol Head Neck Surg. 2015;153:1019-23.
3 Chang CJ, Cheung SW. Tinnitus modulation by stapedectomy. Otol Neurotol. 2014;35:1065-9.
4 Ayache D, Earally F, Elbaz P. Characteristics and postoperative course of tinnitus in otosclerosis. Otol Neurotol. 2003;24:48-51.
5 Rajati M, Poursadegh M, Bakhshaee M, Abbasi A, Shahabi A. Outcome of stapes surgery for tinnitus recovery in otosclerosis. Int Tinnitus J. 2012;17:42-6.
6 Lima Ada S, Sanchez TG, Marcondes R, Bento RF. The effect of stapedotomy on tinnitus in patients with otospongiosis. Ear Nose Throat J. 2005;84:412-4.
7 Sobrinho PG, Oliveira CA, Venosa AR. Long-term follow-up of tinnitus in patients with otosclerosis after stapes surgery. Int Tinnitus J. 2004;10:197-201.
8 Oliveira CA. How does stapes surgery influence severe disabling tinnitus in otosclerosis patients?. Adv Otorhinolaryngol. 2007;65:343-7.
9 Sakai M, Sato M, Iida M, Ogata T, Ishida K. The effect on tinnitus of stapes surgery for otosclerosis. Rev Laryngol Otol Rhinol (Bord). 1995;116:27-30.
10 Kersley JA, Gray AJ. Stapedectomy: a review with a preliminary report on the piston operation. J Laryngol Otol. 1964;78:374-83.
11 Del Bo M, Zaghis A, Ambrosetti U. Some observations concerning 200 stapedectomies: fifteen years postoperatively. Laryngoscope. 1987;97:1211.
12 Shea JJ. Otosclerosis and tinnitus. J Laryngol. 1981;0101(Suppl 4):149-50.
13 Causse IB, Vincent R. Poor vibration of inner ear fluids as a cause of low tone tinnitus. Am J Otol. 1995;16:701-2.
14 Oliveira CA, Schuknecht HF, Glynn RJ. In search of cochlear morphologic correlates for tinnitus. Arch Otolaryngol Head Neck Surg. 1990;116:937-9.
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