Habituação do reflexo cócleo-palpebral no período neonatal e desenvolvimento auditivo

Habituação do reflexo cócleo-palpebral no período neonatal e desenvolvimento auditivo

Autores:

Celina Rech Maggi,
Luciane da Costa Pacheco,
Tânia Tochetto,
Maiara Santos Gonçalves,
Fleming Salvador Pedroso

ARTIGO ORIGINAL

Einstein (São Paulo)

versão impressa ISSN 1679-4508versão On-line ISSN 2317-6385

Einstein (São Paulo) vol.9 no.1 São Paulo jan./mar. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/s1679-45082011ao1498

INTRODUÇÃO

Habituação é o decréscimo ou interrupção de uma resposta depois de repetidas aplicações do mesmo estímulo(1), a qual está condicionada à integridade do sistema nervoso central (SNC)(2).

Uma das respostas que tende a habituar é o reflexo cócleo-palpebral (RCP)(3). Este é um dos comportamentos reflexos mais significativos encontrados no neonato quando submetido a estímulo sonoro intenso(4).

O processamento auditivo envolve a recepção e a interpretação de estímulos sonoros. A desordem do processamento auditivo em crianças poderia ser decorrente de desordem neurológica, desorganização morfológica ou atraso maturacional(5).

Durante o primeiro ano de vida, a habilidade de localizar a fonte sonora permite avaliar o desenvolvimento do processamento auditivo(6).

A habituação a estímulo sonoro e o processamento auditivo podem estar interligados, dado que dependem do adequado funcionamento do SNC.

Já em 1985, a ausência de habituação a estímulos sonoros repetidos foi associada a futuras alterações de processamento auditivo em pesquisa realizada com 32 recém-nascidos com audição normal e 32 que falharam na triagem auditiva, que foram reavaliados 8 anos depois(7). Em 1995, tal achado foi corroborado em estudo da habituação da reação de sobressalto em neonatos(8).

Não foram encontrados registros na literatura associando habituação do RCP no período neonatal e posterior desenvolvimento do processamento auditivo.

Dessa forma, retomando os estudos feitos anteriormente, este trabalho constituiu uma tentativa de esclarecer a relação entre o fenômeno de habituação do RCP, observado durante o primeiro mês de vida, e o posterior desenvolvimento das habilidades de processamento auditivo. Uma melhor compreensão dessa relação pode auxiliar na detecção precoce e na prevenção de déficits do processamento auditivo.

OBJETIVO

Este estudo teve por objetivo verificar a existência de associação entre a ocorrência de habituação do RCP durante o período neonatal e a adequação da etapa do processamento auditivo à idade cronológica, 6 meses depois.

MÉTODOS

Realizou-se estudo longitudinal, cuja primeira etapa foi constituída de pesquisa da ocorrência de habituação do RCP em 85 neonatos sem evidência de alteração neurológica. Para tal, o RCP foi eliciado utilizando estímulo sonoro de aproximadamente 90 dB produzido por agogô. Considerou-se que houve habituação quando a criança deixou de apresentar o RCP por três vezes consecutivas(9). Verificou-se que 56 deles habituaram-se ao estímulo sonoro apresentado e 29 não(9).

O presente estudo refere-se à segunda etapa realizada após seis meses.

Foi possível fazer contato telefônico com os pais ou responsáveis de 44 das 85 crianças estudadas na primeira etapa. Dois recusaram-se a participar do segundo estudo; seis não compareceram, mesmo após novo agendamento; três crianças não foram avaliadas por estarem chorando, sendo agendadas para nova ocasião na qual não compareceram. Assim, foram estudadas 33 crianças sendo 13 do sexo masculino. Na ocasião, suas idades variavam entre 9 e 25 meses.

A coleta dos dados foi realizada de Maio a Agosto de 2006, no Laboratório de Pesquisa em Desenvolvimento Infantil (LaPeDI) do Serviço de Atendimento Fonoaudiológico da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Obteve-se o Consentimento Livre e Esclarecido por escrito dos responsáveis pelas crianças.

Para determinar a etapa de processamento auditivo, utilizou-se a técnica da distração(10), sendo observadas as respostas comportamentais para som não calibrado produzido por chocalho de plástico com amplo espectro de frequências e intensidade aproximada de 41 dB.

Para a aplicação da técnica de distração e observação de respostas comportamentais, a criança foi posicionada sentada no colo de um dos pais ou responsável, afastada do mesmo e segura pela cintura, dentro de uma cabine audiométrica. Um examinador obteve a atenção da criança valendo-se de um estímulo visual. Imediatamente, outro examinador (fora do campo de visão da criança) apresentou o estímulo sonoro nas posições ao lado na altura do pavilhão auricular, acima e abaixo da cabeça. A resposta esperada foi a localização da fonte sonora. Foram consideradas adequadas as respostas compatíveis com a idade cronológica, conforme os parâmetros a seguir:

    –. entre 6 e 9 meses de idade: localização lateral (direita/esquerda), localização indireta para baixo;

    –. entre 9 e 12 meses de idade: localização lateral, diretamente para baixo e indiretamente para cima;

    –. entre 12 e 15 meses: localização lateral, localização direta para baixo e indireta para cima(11).

Consideram-se inadequadas as respostas fora dos parâmetros tomados como referência.

Procurou-se controlar as variáveis que poderiam gerar resultados falsos, como pistas visuais, táteis e/ou olfativas.

A associação entre as variáveis foi verificada com o teste do χ2. Quando uma das frequências esperadas foi inferior a 5%, utilizou-se o teste exato de Fischer para tabelas 2 × 2.

Para testar a associação entre gênero e etapa do processamento auditivo, e ainda frequência da habituação e etapa do processamento auditivo, utilizou-se o teste do χ2.

O teste exato de Fisher foi utilizado para testar a associação entre gênero e frequência da habituação, e também gênero e etapa do processamento auditivo. O nível de significância aceito foi de 5%.

Esta pesquisa fez parte das atividades do projeto de pesquisa intitulado “Medicina preventiva no alojamento conjunto do HUSM, baseada na detecção precoce de fatores de risco para o desenvolvimento infantil” aprovado pelo Comitê de Ética da UFSM, sob número de processo 095/04

RESULTADOS

A figura 1 mostra a ocorrência de habituação do RCP pesquisada no período neonatal segundo o gênero da criança (primeira etapa do estudo). Não se observou diferença estatisticamente significante entre meninos e meninas quanto à presença ou ausência de habituação do RCP(9).

Figura 1 Ocorrência de habituação do reflexo cócleo-palpebral no período neonatal, segundo o gênero. p = 1,00 - Teste Exato de Fisher 

Na segunda etapa do estudo, ao avaliar o processamento auditivo, também não foi verificada diferença estatisticamente significante entre os gêneros (Figura 2). Assim, os resultados obtidos para ambos os gêneros foram analisados conjuntamente. A figura 3 mostra os resultados da avaliação do processamento auditivo sem diferenciação de gênero.

Figura 2 Desempenho na avaliação do processamento auditivo segundo o gênero p = 0,515 - Teste Exato de Fisher 

Figura 3 Resultados da avaliação do processamento auditivo. 

Dentre as crianças que evidenciaram habituação do RCP na primeira etapa do estudo, houve predomínio de resultados inadequados para a idade cronológica na avaliação do processamento auditivo. Já entre aquelas que não manifestaram habituação do RCP na primeira etapa, predominou o desempenho adequado na avaliação do processamento auditivo (Figura 4).

Figura 4 Ocorrência de habituação do RCP e desempenho na avaliação do processamento auditivo. p = 0,026* - Teste do Qui-quadrado 

DISCUSSÃO

A ocorrência de habituação do RCP durante o período neonatal foi semelhante em ambos os sexos (Figura 1), embora a habituação a estímulos sonoros repetidos ocorra mais rapidamente em meninas(12).

O desempenho de meninas e meninos na avaliação da etapa do processamento auditivo não diferiu estatisticamente (Figura 2), tal qual referem outros autores(6,13).

Verificou-se ausência de associação entre a presença de habituação do RCP e respostas comportamentais adequadas para a idade cronológica, conforme esperado. Da mesma forma, crianças que não manifestaram habituação do RCP no período neonatal tiveram, predominantemente, respostas auditivas adequadas para a idade cronológica (Figura 4). Tais resultados não são compatíveis com a literatura consultada, a qual refere que a ausência de habituação a estímulos sonoros repetidos poderia predizer futuras alterações de processamento auditivo(78).

A relação entre habituação a estímulos sonoros repetidos e o processamento auditivo pode ser compreendida a partir de diversos estudos que condicionam ambas as funções à integridade do SNC, desde os primeiros dias de vida(1420).

A habituação seria uma forma básica de aprendizagem ligada à integridade do SNC(16), um fenômeno onipresente do processamento do estímulo(17). Tal fenômeno dependeria de inibição cortical ativa da resposta(14) e seria uma reação neuronal comum, envolvendo a fisiologia dos próprios neurônios, bem como das conexões interneuronais, intercorticais e, provavelmente, córtico-subcorticais(19). O fenômeno de habituação poderia identificar possíveis prejuízos no funcionamento do SNC(18). Condições que afetam esse sistema atuariam de igual maneira sobre a habituação(15).

O processamento auditivo também foi relacionado a funções auditivas centrais(7,2122).

A desordem do processamento auditivo em crianças poderia ser decorrente de desordem neurológica, desorganização morfológica, atraso maturacional(5), disfunção neuromorfológica, atraso de maturação do sistema nervoso auditivo central, e distúrbios, doenças ou lesões neurológicas e otológicas(23).

A partir dos dados da literatura, esperava-se que crianças que não evidenciaram habituação do RCP na primeira etapa do estudo apresentassem respostas auditivas inadequadas para a idade cronológica, o que não ocorreu. Considerou-se a possibilidade ter havido maturação do sistema nervoso auditivo central entre uma e outra testagem.

Anormalidades encontradas na avaliação auditiva de crianças de risco poderiam desaparecer no segundo semestre de vida. Tal fato poderia ser atribuído ao processo de maturação do SNC. Quando essa normalização não ocorresse, as alterações do processamento auditivo seriam decorrentes de comprometimento neurológico(7). Conforme alguns autores, o sistema auditivo é imaturo ao nascimento e passa por várias mudanças durante o período pós-natal(24). Outros argumentam ainda que o sistema auditivo do bebê, por ser plástico, poderia ser modificado por estímulos acústicos(25).

A habilidade de localização sonora depende de uma capacidade biológica inata e da experienciação do ambiente(26). A estimulação acústica pobre poderia ser responsável pelo elevado percentual de respostas inadequadas para a idade cronológica (54%)

É preciso considerar ainda que há ligeiras diferenças entre as etapas do desenvolvimento auditivo segundo diferentes autores(11,21,25). A amostra do presente estudo poderia diferir quanto às características ambientais e regionais da amostra tomada como parâmetro nesta pesquisa(11).

A habituação deve ser analisada na avaliação auditiva de neonatos a fim de detectar sinais precoces de alterações de processamento auditivo(7,8). Contudo, os resultados do presente estudo levam a crer que a ocorrência de habituação do RCP no período neonatal parece não ser fator preditivo do adequado desenvolvimento do processamento auditivo.

A influência das alterações do processamento auditivo sobre o desenvolvimento das habilidades de linguagem foi salientada em muitos estudos(22,2730). Dessa forma, tornam-se necessárias investigações sobre as manifestações precoces de alterações de processamento auditivo, a fim de amenizar e prevenir eventuais dificuldades linguísticas.

Outros estudos podem esclarecer as possíveis causas das alterações de processamento auditivo encontradas, atentando para eventuais diferenças de estimulação ambiental e condições de neurodesenvolvimento.

CONCLUSÃO

A partir dos resultados encontrados neste estudo, a presença de habituação do RCP no período neonatal parece não ser fator preditivo do adequado desenvolvimento do processamento auditivo entre 9 e 25 meses de idade.

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