HIV/Aids, os estigmas e a história

HIV/Aids, os estigmas e a história

Autores:

André Felipe Cândido da Silva,
Marcos Cueto

ARTIGO ORIGINAL

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.25 no.2 Rio de Janeiro abr./jun. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/s0104-59702018000200001

Em abril de 2018, em meio às brumas em que mergulha o Brasil, do arbítrio, da intolerância, do sectarismo, preconceito e autoritarismo, vem a lume mais um número de História, Ciências, Saúde – Manguinhos, com conjunto de trabalhos que mostra o dinamismo da pesquisa em história da medicina e das ciências da vida nos últimos anos. A expressão “vir a lume” ganha conotação sugestiva por insinuar o papel que a divulgação do conhecimento pode e deve assumir na discussão dos rumos da sociedade que queremos ser, com perspectivas de futuro fomentadas por escolhas do presente, feitas a partir de uma administração consciente do passado. Manter o vigor da pesquisa acadêmica é um ato de resistência para um debate claro, aberto e democrático de ideias.

Em meio a tantos retrocessos recentes, o Brasil deu um passo à frente na política de prevenção do HIV com a adoção da chamada PrEP (Profilaxia pré-Exposição), que desde dezembro de 2017 está presente em 36 centros de tratamento de 11 estados brasileiros. É indicada pela Organização Mundial de Saúde desde 2012 a populações mais expostas à infecção, como homens que fazem sexo com homens, população trans e trabalhadores do sexo. A PrEP baseia-se no uso de medicamento antirretroviral, neste caso o Truvada – sozinho ou associado a outros –, por pessoas não infectadas que compõem os segmentos mencionados. Embora esse seja um motivo para se comemorar, não pode nos deixar desatentos com as ameaças que pairam sobre o sistema de tratamento universal e gratuito, como as notícias de problemas na distribuição de medicamentos. A sustentabilidade dos programas de prevenção e a retomada das alianças com a sociedade civil são pontos que merecem atenção em momento de defesa do contingenciamento de recursos e de alinhamento com pautas conservadoras.

A recepção e a divulgação da nova estratégia preventiva evidenciaram, no entanto, a persistência de velhas “metáforas” estigmatizantes que se associaram ao HIV e à Aids desde o seu surgimento, quando ganhou a conotação de “peste gay” (Sontag, 2007). Associar a infecção aos gays, caracterizando-os como inclinados à promiscuidade, é o que fez a recente reportagem “A outra pílula azul” publicada na revista Época (Thomaz, 2 abr. 2018), ignorando vários resultados acumulados sobre a PrEP, no Brasil e no exterior. O artigo prestou desserviço, ao sugerir que somente os gays deveriam estar atentos à prevenção do HIV e não ressaltar que a PrEP faz parte de uma estratégia preventiva integrada que comporta outras abordagens. Encorajou, com isso, o estigma contra aqueles que contraíram o vírus. O uso da expressão “grupo de risco”, abandonada desde os anos 1990, denota desconhecimento e também preconceito contra a comunidade gay, que luta para se livrar do estigma de “vetor” do vírus.

O subtítulo da matéria da revista Época – “O novo medicamento que está fazendo os gays abandonar [sic] a segurança da camisinha” – já evidencia equívoco e desinformação, uma vez que não existem dados que sustentem essa afirmação. Com base nisso, afirma que os gays estão contribuindo para o aumento de outras infecções sexualmente transmissíveis. A matéria ainda ignora os níveis de segurança relacionados à PrEP (de 99%) e atribui a esta a responsabilidade pelo aumento nos níveis de infectados, quando a adoção muito recente da abordagem não autoriza essa inferência.

O teor sensacionalista do texto e tais equívocos foram devidamente denunciados por indivíduos e instituições comprometidos com o controle do HIV e com a defesa dos direitos LGBT. Além das informações e concepções equivocadas, foi criticado o tom moralista e preconceituoso por meio do qual o texto retratou os homossexuais. Não passou despercebida a afinidade desse tipo de discurso com o avanço do conservadorismo e do fundamentalismo que ocorre no Brasil recente (Abia, 3 abr. 2018; Anaids, 2 abr. 2018; Brasil, 2 abr. 2018; CRT DST/Aids-SP, 2 abr. 2018; Foaesp, 2 abr. 2018; INI, 2 abr. 2018; Super Indetectável, 2 abr. 2018; Vasconcelos, 31 mar. 2018; Wyllys, 3 abr. 2018).

A polêmica suscitada pela PrEP e a reportagem da revista Época nos diz tanto sobre a sociedade em que vivemos atualmente quanto sobre as percepções e os imaginários que o HIV/Aids aciona. Mesmo tendo passado por modificações significativas em sua “configuração” na curta trajetória histórica – de sentença de morte à doença crônica –, ainda permanece responsável por alto índice de óbitos em nível global, por razões como políticas públicas insuficientes, fatores culturais, instabilidade política e pobreza em áreas nas quais a infecção grassa em grandes proporções. Conforme advertiu a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia, 3 abr. 2018), uma política de prevenção eficaz requer estratégias bem elaboradas tanto quanto um ambiente sociocultural favorável, o que significa livre de estigmas, moralismo e desinformação. A adesão ao tratamento, o bem-estar físico e mental dos diagnosticados e sua inserção social ficam mais comprometidos com o reforço do estigma. Isso torna evidente que as doenças, morbidades e infecções não se restringem a investigações laboratoriais, ensaios clínicos, protocolos de diagnóstico, inovações terapêuticas e estudos epidemiológicos restritivos. Quando adquirem um nome e assumem significados, as doenças desdobram signos e percepções culturais arraigadas, manifestando-se nas vidas particulares de indivíduos, que, diagnosticados, adquirem uma outra “cidadania” (Sontag, 2007). Comportamentos e identidades são enquadrados e formulados a partir desses atos de definição, dando sequência a processos intrincados e complexos de negociação entre os diversos segmentos direta ou indiretamente associados à doença em questão. Isso levou o eminente historiador da medicina Charles Rosenberg (1992) a qualificar as doenças como “atores sociais”, na medida em que, nomeadas e definidas, passam a atuar como fatores estruturantes de circunstâncias sociais. Como mostra a polêmica recente, o processo de negociação não é pacífico, como o termo sugere, mas envolve disputas de sentido, conflitos e oposição de interesses dos vários coletivos que competem por autoridade e legitimidade no discurso sobre a doença.

A controvérsia evidencia as complexas e muitas vezes difíceis interações entre os diversos tipos de conhecimento e demandas acerca do HIV. A “tradução” do conhecimento “autorizado” para o público leigo, ou públicos, visto a heterogeneidade das audiências implicadas nesse discurso, não é uma via linear. Pelo contrário, desde seu surgimento dramático na esfera pública, o HIV e a Aids trouxeram inflexões significativas no modo como os “pacientes” e ativistas participam de definições e enunciados. O discurso científico não foi acolhido de forma passiva. Os componentes morais nele presentes foram explicitados e denunciados por grupos avessos à circunscrição de seus comportamentos pelo dispositivo médico. O caso recente guarda semelhanças com o histórico das epidemias tradicionais, como febre amarela, cólera e peste bubônica, quando em diversos contextos a imprensa contribuiu para acentuar o pânico social e veicular discursos morais acerca da saúde.

A formulação e recepção de medidas de saúde reafirmam atitudes culturais e valores sociais. No caso do HIV/Aids e da PrEP, observa-se a persistência de preconceitos arraigados no imaginário social, a sanha de segmentos sociais hegemônicos por punir grupos e padrões taxados como “anormais”, a responsabilização de comportamentos individuais. As modificações na abordagem da infecção e nas campanhas educativas ainda não promoveram mudanças substantivas nesse sentido. É uma das muitas áreas em que a luta contra a doença deve continuar, enriquecida por decisões positivas como tornar a PrEP acessível no Brasil.

Nas páginas de História, Ciência, Saúde – Manguinhos, os leitores encontram trabalhos que ajudam a pensar sobre o estigma entre os indivíduos diagnosticados com certas patologias, possibilitando aproximações com o HIV/Aids. Também há artigos que refletem sobre o lugar do discurso médico no enquadramento de comportamentos e identidades, incluindo aqueles referidos a sexualidade e papéis de gênero. Nosso periódico também já publicou estudos sobre o lugar do discurso midiático no debate público sobre ciências, doenças e terapêuticas. Não é de hoje que jornais e revistas de grande circulação influenciam as discussões e percepções sobre os dramas sociais, entre os quais as doenças costumam ganhar destaque. Convido-os a visitarem nossas edições de maneira a se municiarem de instrumental crítico para exame dos eventos e processos que nos atingem. É dessa forma que História, Ciências, Saúde – Manguinhos pode cumprir a função de veículo vivo de conhecimento, em vez de acúmulo de escritos cuja visita valeria apenas por interesses estritos de pesquisa. Por ingênua ou datada que possa soar a crença no poder transformador do conhecimento, vale reafirmar a convicção de que ele representa componente seguro para entrevermos na penumbra.

REFERÊNCIAS

ABIA. Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids. Matéria “A outra pílula azul” da revista Época é preconceituosa e peca na fundamentação. Disponível em: . Acesso em: 6 abr. 2018. 3 abr. 2018.
ANAIDS. Articulação Nacional de Luta contra a Aids. Nota Pública Anaids – Reportagem PrEP, Revista Época. Disponível em: . Acesso em: 6 abr. 2018. 2 abr. 2018.
BRASIL. Ministério da Saúde. Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais. À revista Época. Nota de repúdio. Disponível em: . Acesso em 6: abr. 2018. 2 abr. 2018.
CRT DST/AIDS SP. Centro de Referência de Tratamento de DST/Aids-São Paulo. Nota conjunta sobre a reportagem da revista Época sobre PrEP. Disponível em: . Acesso em: 6 abr. 2018. 2 abr. 2018.
FOAESP. Fórum das ONGS/Aids do Estado de São Paulo. Nota sobre a reportagem da revista Época. Disponível em: . Acesso em: 6 abr. 2018. 2 abr. 2018.
INI. Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas. Nota de repúdio. Disponível em: . Acesso em: 6 abr. 2018. 2 abr. 2018.
ROSENBERG, Charles. Framing disease: illness, society and history. In: Rosenberg, Charles. Explaining epidemics and other studies in the history of medicine. Cambridge: Cambridge University Press. p.305-317. 1992.
SONTAG, Susan. A doença como metáfora: Aids e suas metáforas. São Paulo: Companhia de Bolso. 2007.
SUPER INDETECTÁVEL. A Rede Mundial de Pessoas Vivendo e Convivendo com HIV... Disponível em: . Acesso em: 6 abr. 2018. 2 abr. 2018.
THOMAZ, Danilo. A outra pílula azul: o novo medicamento que está fazendo os gays abandonar o uso da camisinha. Época, n.1031, p.34-42. 2 abr. 2018.
UNAIDS. Terminologia. Disponível em: . Acesso em: 6 abr. 2018.
VASCONCELOS, Rico. Eu me arrependi de ter dado entrevista à revista Época. Disponível em: . Acesso em: 6 abr. 2018. 31 mar. 2018.
WYLLYS, Jean. O desserviço da revista Época para o debate sobre HIV/Aids. Disponível em: . Acesso em: 6 abr. 2018. 3 abr. 2018.
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