Homens e violência conjugal: uma perspectiva psicoantropológica

Homens e violência conjugal: uma perspectiva psicoantropológica

Autores:

André Luiz Machado das Neves

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.22 no.9 Rio de Janeiro set. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232017229.16752016

A violência conjugal é um fenômeno de causalidade complexa, controverso e de mensuração problemática. O reconhecimento de sua ocorrência envolve análises de valores e práticas culturais, como também seus componentes causais históricos, econômicos e subjetivos1. Assim, o fenômeno da violência, no âmbito social, tornou-se uma preocupação tanto da saúde pública quanto das ações governamentais2.

Tendo em vista a complexidade do fenômeno, é necessário analisar seus componentes. O gênero é um desses componentes e torna-se um elemento constitutivo na compreensão da relação da violência conjugal, uma vez que esta é manifestada a partir das relações de poder historicamente desiguais entre homens e mulheres3. É nesse sentido que o livro-alvo, desta resenha, visa apresentar discursos dos homens tidos como autores de violência conjugal e, assim, poder “ajudar a desvendar características da violência conjugal e padrões culturais que sustentam os posicionamentos entre os parceiros, e ainda os masculinos diante de si mesmos”.

A obra “Homens e violência conjugal: uma perspectiva psicoantropológica”, publicada em 2015, apresenta a pesquisa de doutorado da Psicóloga Kátia Lenz César de Oliveira defendida no programa de pós-graduação em Saúde da Mulher e da Criança da Fundação Oswaldo Cruz. A pesquisadora entrevistou homens que viveram conjugalidades violentas. Os resultados da pesquisa apontaram que, embora apareça nos discursos dos homens os modelos hierárquicos de gênero, as conjugalidades violentas são bem distintas e suscitaram a proposição de que nem todos os homens são iguais.

O livro apresenta conjecturas entre a psicologia e a antropologia e discute o tema violência conjugal a partir de reflexões que se “sustentem para além do individualismo de direitos”. Ou seja, a noção de autonomia individual absoluta. Essas conjecturas foram tecidas a partir dos autores Luís Cláudio Figueiredo, um psicanalista que trabalha numa perspectiva antropológica, e Gergen, um dos psicólogos precursores do construcionismo social. Ainda em torno do campo epistemológico adotado pela autora, visando pensar alternativas para o liberalismo, o estudo é permeado pelo conceito de serenidade. A obra distribui-se em 05 partes e está assim estruturada: “Introdução”, “Marco teórico-conceitual”, “Metodologia”, “Resultados e discussão”, “Considerações finais-Sobre políticas, intervenções e novas pesquisas”.

A proposta do livro impacta já em sua introdução. O trabalho inicia-se em torno de reflexões da pertinência em discutir violência e saúde. A autora destaca a importância de estudar “homens adultos e violência conjugal dentro de um programa de pós-graduação que tem como foco a saúde da mulher, da criança e do adolescente, porque eles fazem ou podem fazer parte do sistema relacional familiar que compõe, comportamentos, sentimentos e sentidos da mulher/esposa/mãe e das crianças”.

Kátia aponta que estudos dessa natureza podem contribuir para a atuação dos movimentos de combate à violência contra a mulher. Um dos pontos mais potentes da obra é quando ela provoca o leitor afirmando por meio de outros estudos que, “além do mais contrariando as expectativas dos movimentos de combate à violência contra a mulher, mais do que punições para seus parceiros, as mulheres vítimas de violência conjugal têm demandado por uma ajuda que os estimule e ensine o cessar da violência contra elas”.

Destaca-se, portanto, a importância da educação e atenção psicossocial a homens autores de violência conjugal a partir de ações que favoreçam a criação de espaços de vinculação, dialogicidade e construção conjunta entre esses homens sobre metodologias de intervenção além da punição, que possibilite a reformulação dos sentidos de masculinidade, gênero e relação conjugal4.

No capítulo 1, “Marco-teórico-conceitual” a autora apresenta dados da produção de conhecimento, com destaque no Brasil, dos homens considerados autores de violência conjugal. Essa primeira parte encontra-se também publicada na revista Ciência e Saúde Coletiva5. A autora destaca três polos de polêmicas sobre relação conjugal que indicam o posicionamento dos autores. E, por unanimidade, as produções pensam a problemática da violência conjugal como questão relacional de gênero. Posteriormente, a autora utiliza o referencial de gênero e das masculinidades e relaciona saúde mental e ética tomando como referência o conceito de serenidade. Kátia, ainda convoca seus leitores a produzir conexões entre os cenários dos padrões sociais e as conjugalidades violentas. A obra destaca os pactos de violência (no âmbito simbólico) que se desenham a partir da influência de valores pós-modernos entre os casais.

Adiante, no capítulo 2 “Metodologia”, o livro aborda o aspecto metodológico da pesquisa, em que a autora problematiza que buscou encontrar “apenas um grande/central sentido (que chamo aqui “eixos de argumentação”) para cada entrevistado”. Kátia compreende que desse modo é possível entender de modo subjetivo o posicionamento desse homem.

No terceiro capítulo, “Resultados e discussão”, a autora contextualiza os 14 homens entrevistados. Kátia salienta a perspectiva complexa e o cuidado para a não homogeneização da sua discussão em torno desses homens. Ela, por sua vez, destaca que cada um apresentou posicionamentos e explicações que impedem de universalizar os “homens que vivem relações conjugais violentas”. A obra evidencia que cada um possui diferenças de contexto entre eles. A autora apresenta o desenvolvimento dos eixos de argumentação e os padrões culturais emergidos a partir dos discursos desses homens. Os discursos se configuraram “em meio a acusações contra as parceiras e/ou autoanalises ou ainda negação de que perpetraram a violência denunciada”. Kátia elaborou as seguintes questões centrais de violência (ou possível violência) deles e/ou delas: “a) o machismo como causa da violência; b) a violência (masculina) como resposta corajosa (ou desvairada) frente ao mundo injusto; c) a estreita relação entre a traição das parceiras e/ou a possível a violência deles; d) homens educados em contraposição às mulheres violentas; e) a violência como fruto de dificuldades emocionais”.

A obra faz perceber que a violência conjugal envolve complexas configurações de relações de gênero. Tais configurações caracterizam-se como complexas por contemplarem a dinamicidade entre os aspectos sociais, culturais e históricos que constituem os sujeitos e são constituídos por estes no desenvolvimento das relações como processos psicossociais.

No capítulo “Sobre políticas, intervenções e novas pesquisas” ou considerações finais, a autora confirma o que a maioria dos estudos apontam: que seria a hierarquia e a complementariedade de gênero um fator de produção de violência masculina, com destaque ao segundo eixo, que seria uma forma de performance de gênero a partir da noção relacional de honra da masculinidade hegemônica. Sobre as políticas e as intervenções diante das relações conjugais violentas, a autora propõe que se evite “definir os homens como ‘agressores’ ou até mesmo como autores de violência conjugal”. Sugere-se ampliar para ‘homens vivendo relação conjugal violenta’. Sua tese é que os cônjuges são igualmente agressores e vítimas. A autora sugere tópicos que possam fomentar novas pesquisas no âmbito da violência conjugal. Os argumentos que sustentam a tese de Kátia colocam em cheque a naturalização do “homem autor de violência”.

Pode-se considerar que a obra se caracteriza como uma produção que apresenta uma discussão com ênfase na mudança de paradigmas que apenas culpabilizam o homem como agressor. O livro produz reflexões em torno da necessidade de cruzamentos de diversos campos científicos para compreensão e elucidação de respostas frente à noção relacional e dos pactos simbólicos de modos de violência conjugal defendidos na obra.

Em especial, o livro traz reflexões frente ao desafio de trabalhar a violência conjugal de maneira interdisciplinar. Por isso a obra é muito cara às áreas de conhecimento no âmbito da saúde pública e coletiva. Ela (a obra) sinaliza o surgimento de uma nova abordagem na psicologia social sugerindo uma psicoantropologia. É uma obra que merece ser tomada como referência para profissionais e pesquisadores da saúde, assistência social e educação que visam inovar suas intervenções frente à violência conjugal.

REFERÊNCIAS

1. Minayo MCS. Laços perigosos entre machismo e violência. Cien Saude Colet 2005; 10(1):23-26.
2. Giffin K. Violência de gênero, sexualidade e saúde. Cad Saude Publica 1994; 10(Supl. 1): S146-S155.
3. Carreira D, Pandjiarjian V. Vem pra roda! Vem para rede!: guia de apoio à construção de redes de serviços para o enfrentamento da violência contra a mulher. São Paulo: Rede Mulher de Educação; 2003.
4. Silva FA, Silva FPP, Tavares ES, Oliveira HSG, Neves ALM, Silva IR, Oliveira KNL. Atenção psicossocial a homens autores de violência conjugal contra a mulher: uma construção participativa. Pesquisas e Práticas Psicossociais 2015; 10(1):177-190.
5. Oliveira KLC, Gomes R. Homens e violência conjugal: uma análise de estudos brasileiros. Cien Saude Colet 2011; 16(5): 2401-2413.