Ilza Veith (1912-2013) e Genevieve Miller (1914-2013): longas vidas dedicadas à história da medicina

Ilza Veith (1912-2013) e Genevieve Miller (1914-2013): longas vidas dedicadas à história da medicina

Autores:

Everardo Duarte Nunes

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.20 no.7 Rio de Janeiro jul. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232015207.10942015

O meu primeiro contato com Ilza Veith e com Genevieve Miller foi quando estava pesquisando dados biográficos de Henry Ernest Sigerist (1891-1957). A primeira informação é que ambas haviam sido alunas daquele que foi considerado o historiador da medicina mais importante da primeira metade do século XX e fizeram parte da primeira turma que se dedicou a um campo que estava se institucionalizando na Johns Hopkins University – história da medicina.

De Ilza, sabia que havia sido a primeira doutora em história da medicina e única orientanda de Sigerist, e da segunda, que havia sido auxiliar de pesquisa e secretária do historiador e organizado a sua bibliografia completa.

Posteriormente, ampliei meus conhecimentos sobre as historiadoras, em especial a partir de seus relatos autobiográficos e na leitura de alguns trabalhos1,2.

Antes de falar das historiadoras é importante que se destaque a figura de Sigerist, que irá acompanhar durante muitos anos as suas vidas. Nasceu em 7 de abril de 1891, em Paris, filho de pais suíços (Ernest Heinrich Sigerist e Emma Sigerist). Com a idade de 10 anos mudou-se para Zurich onde se formou em 1910 e, nos dois anos seguintes, fez cursos de línguas orientais em Zurich e em Londres. No período de 1911 a 1917 volta-se para a medicina cursando as universidades de Zurich e Munich, obtendo o título de Doutor em Medicina pela Universidade de Zurich. Inicia a carreira universitária que o levaria de Privatdozent (Professor Assistente) de História da Medicina em Zurich, em 1921, a Professor de História da Medicina e Diretor do Instituto de História da Medicina da Universidade de Leipzig, de 1925 a 1932. Em 1932 transfere-se para a Universidade de Johns Hopkins onde, no ano anterior, havia estado como professor-visitante, lá permanecendo até voltar para a Suíça em 1947, onde viveu seus últimos dez anos na cidade de Pura, próxima a Lugano. Faleceu no dia 17 de marco de 1957. Da sua extensa obra, que se tornou consulta obrigatória na história da medicina e em áreas das ciências sociais e humanas, podem ser citados alguns exemplares: The Great Doctors: a Biographical History of Medicine, 1933; Civilization and Disease, 1944 (há tradução para o português, editora Hucitec/Sobravime, 2011), Primitive and Archaic Medicine, 1951; Early Greek, Hindu and Persian Medicine, 1961; e centenas de artigos, como, por exemplo, The Special Position of the Sick, 19293.

Ilza e Genevieve seguiriam uma longa e bem sucedida carreira acadêmica, embora como observasse Sigerist quando llza resolveu fazer a pósgraduação e frente ao futuro de um historiador alertasse: Bem, você pode sempre ensinar alemão ou alguma outra coisa1. Isto foi em 1943. Anos mais tarde ela enfrentaria não o problema de uma carreira, mas um sério problema de doença.

Vinham de países e origens universitárias distintas: Ilza, nascida na Alemanha, na cidade de Ludwigshafen, em 13 de maio de 1912, estudou medicina em Genebra e Viena. Moss3 relata que Se ela completou seus estudos médicos, como parece provável, antes de deixar a Europa com o marido em 1937, ela nunca praticou a medicina ou usou MD depois de seu nome nos Estados Unidos.

Genevieve estava cursando o bacharelado em química, no Goucher College em Baltmore, e ficou deslumbrada ao ouvir Sigerist pela primeira vez. Isto ocorreu em 1934 e Genevieve, tinha vinte anos, havia nascido em 15 de outubro de 1914, em Butler. Um ano depois seria aceita no Institute of the History of Medicine da Johns Hopkins University, onde completou o mestrado em 19392.

Ilza e Genevieve seguiriam distintos caminhos no campo da história, mas levariam a marca da formação recebida e da experiência de trabalho com Sigerist, iniciada nas décadas de 1940 e 1930, respectivamente.

Ilza concluiu seu doutorado em 1947 e trabalhou em diversas universidades: professora associada em História da Medicina na Universidade de Chicago (1949-1963), professora de História da Medicina na Universidade da Califórnia, em San Francisco (1964-1979) e professora emérita dessa universidade. Tornou-se especialista em história da medicina chinesa, ponto principal de contato com Sigerist desde o seu primeiro encontro, quando o historiador, ao saber da sua tradução de um texto chinês, sugeriu para sua tese a tradução e a análise do Yellow Emperor's Classic of Internal Medicine4, que se tornaria uma obra de referência. Dedicou-se também à historia da psiquiatria, escrevendo um livro sobre a história da histeria5 e inúmeros artigos, dos quais citamos um sobre acupuntura6 e outro fazendo um paralelo entre AIDS, lepra e sífilis7.

Em 1964, Ilza sofreu um acidente vascular cerebral hemiplégico com sérias sequelas. Mais tarde, em 1983, ela escreveu um comovente relato sobre a sua experiência com a doença, intitulado: Can You Hear the Clapping of One Hand? Learning to Live with a Stroke8. Para Moss3, permanece como um clássico do gênero, permeado pela voz de uma historiadora, das memórias de uma estudante de medicina e de um espírito gravemente ferido. Profunda conhecedora da cultura oriental, o título do livro é tirado de um koan Zenbudista You can hear the sound of two hands when they clap together, impossível para ela após o AVC, mas Now show me the sound of one hand8. No final do seu relato ela confessa que, embora possa ter-me acostumado a minha permanente incapacidade, não acredito que tenha me reconciliado com ela e que foi bom não ter seguido os desejos de sua mãe de se tornar uma violinista e nem de ter seguido a carreira médica que havia pensando – a de cirurgiã plástica. Superando grandes dificuldades (uso de aparelho ortopédico e cadeira de rodas, não poder usar a mão esquerda e a dor crônica) a doença não impediu uma brilhante carreira acadêmica3,8.

A carreira de Genevieve foi não somente marcada pela sua produção em história da medicina, mas na pesquisa bibliográfica que também era um dos interesses do seu mentor intelectual Sigerist. Isso, certamente, fez com que em 1954, duas semanas antes do primeiro acidente cerebral que o levaria à morte três anos depois, ele a chamasse e dissesse-lhe que o melhor que podia ser feito e que mostraria que a sua vida tinha sido útil, não seria um extenso obituário, mas a publicação de sua bibliografia completa. Esse desejo Genevieve realizou num esplendido trabalho, em cujo prefácio escreve: Como discípula, ex-secretária de pesquisa e assistente de Henry Sigerist na Johns Hopkins, minha obrigação para este homem que possuía verdadeira grandeza de espírito nunca cessará9. Este pedido seria realizado, mas antes, em 1955, Genevieve defendeu o doutorado em história da ciência, com a tese intitulada The adoption of inoculation for smallpox in England and France, na Universidade de Cornnel. Além da bibliografia da obra de Sigerist, publicada em 19669 (há um exemplar dessa 1ª edição na biblioteca da FCM/Unicamp), havia organizado a bibliografia da história da medicina nos Estados Unidos e Canadá, no período de 1939-196010. Ressalte-se também que Genevieve foi a primeira diretora não médica do Dittrick Museum of Medical History, na Case Western Reserve University (CWRU), em 1967, onde desde 1953 era pesquisadora e professora assistente de história da medicina na Escola de Medicina11.

Ambas faleceram no mês de junho de 2013, Ilza faleceu com 101 anos, no dia 8 e Genevieve, no dia 23, aos 99 anos. Longas carreiras dedicadas à história da medicina, pioneiras nesse campo deixaram não somente uma obra respeitável, mas formaram inúmeros pesquisadores que têm dado continuidade aos seus trabalhos.

REFERÊNCIAS

1.  Veith I, Henry E. Sgerist: orientalist. In: Fee E, Brow TM, editors. Making medical history: the life and times of Henry E. Sigerist. Baltimore, London: The Johns Hopkings University Press; 1997. p. 81-92.
Miller G. A European outpost in America: the Hopkins Institute, 1932-1947. In: Fee E, Brow TM, editors. Making medical history: the life and times of Henry E. Sigerist. Baltimore, London: The Johns Hopkings University Press; 1997. p. 63-80.
3.  Moss S. Ilza Veith (1912-2013). Newsletter. American Association for History of Medicine 2014; 104:7-9.
4.  Veith I. Yellow Emperor's Classic of Internal Medicine. Oakland: University of California Press; 1966.
5.  Veith I. Hysteria: The History of a Disease. Chicago: University of Chicago Press; 1965.
6.  Veith I. Acupuncture-Past and Present: Verity or Delusion. JAMA 1962; 180:478-884.
7.  Veith I. Parallels Between AIDS, Leprosy, and Syphilis. Hawaii Medical Journal 1990; 51(11):300-304.
8.  Veith I. Can You Hear the Clapping of One Hand? Learning to Live with a Stroke. Oakland: University of California Press; 1988 [acessado 2014 set 10]. Disponível em: http://books.google.com.br/books?id=7bsFf3abNgC&printsec=frontcover&hl=pt-BR#v=onepage&q&f=false
9.  Miller G. A bibliography of the writings of Henry E. Sigerist. Quebec: McGill University Press; 1966.
10.  Miller G. Bibliography of the history of medicine in the United States and Canada, 1939-1960. Baltimore: Johns Hopkins Press; 1964.
11.  Edmonson JM. Genevieve Miller (1914-2013). American Association for History of Medicine 2013; 102:8-10.