Impacto da Substituição de Sal Comum por Sal Light sobre a Pressão Arterial de Pacientes Hipertensos

Impacto da Substituição de Sal Comum por Sal Light sobre a Pressão Arterial de Pacientes Hipertensos

Autores:

Carolina Lôbo de Almeida Barros,
Ana Luiza Lima Sousa,
Brunella Mendonça Chinem,
Rafaela Bernardes Rodrigues,
Thiago Souza Veiga Jardim,
Sérgio Baiocchi Carneiro,
Weimar Kunz Sebba Barroso de Souza,
Paulo César Brandão Veiga Jardim

ARTIGO ORIGINAL

Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.104 no.2 São Paulo fev. 2015 Epub 18-Nov-2014

https://doi.org/10.5935/abc.20140174

RESUMO

Fundamento:

Alguns estudos demostraram um efeito benéfico da restrição de sódio na pressão arterial (PA) de hipertensos.

Objetivo:

Avaliar o impacto da substituição do sal comum por sal light na PA de hipertensos.

Métodos:

Hipertensos não controlados, de ambos os sexos, com idades entre 20 e 65 anos, e usando doses estáveis de anti-hipertensivos foram randomizados para um Grupo Intervenção (GI - recebendo sal light) e um Grupo Controle (GC - recebendo sal comum). A PA sistólica (PAS) e a PA diastólica (PAD) foram analisadas usando-se medidas casuais da PA e Monitoração Residencial da Pressão Arterial (MRPA), e a excreção de sódio e potássio foi avaliada em amostras de urina de 24 horas. Os pacientes receberam 3 g de sal para consumo diário por 4 semanas.

Resultados:

Este estudo avaliou 35 pacientes (65,7% mulheres), 19 alocados no GI e 16 no GC. A idade média foi de 55,5 ± 7,4 anos. A maioria dos participantes havia completado o ensino fundamental (até a 8a série; n = 28; 80,0%), tinha renda familiar de até dois salários mínimos (n = 17; 48,6%) e praticava atividade física regularmente (n = 19; 54,3%). Dois pacientes (5,7%) eram fumantes e 40,0% consumiam álcool com regularidade (n = 14). O GI mostrou uma significativa redução tanto da PAS quanto da PAD nas medidas casuais e de MRPA (p < 0,05) e, ainda, diminuição da excreção de sódio (p = 0,016). O GC apresentou redução significativa apenas na medida casual da PAS (p = 0,032).

Conclusões:

A substituição do sal comum por sal light diminuiu significativamente a PA de hipertensos.

Palavras-Chave: Hipertensão; Sódio; Pressão Arterial; Dieta

ABSTRACT

Background:

Studies have shown sodium restriction to have a beneficial effect on blood pressure (BP) of hypertensive patients.

Objective:

To evaluate the impact of light salt substitution for regular salt on BP of hypertensive patients.

Methods:

Uncontrolled hypertensive patients of both sexes, 20 to 65 years-old, on stable doses of antihypertensive drugs were randomized into Intervention Group (IG - receiving light salt) and Control Group (CG - receiving regular salt). Systolic BP (SBP) and diastolic BP (DBP) were analyzed by using casual BP measurements and Home Blood Pressure Monitoring (HBPM), and sodium and potassium excretion was assessed on 24-hour urine samples. The patients received 3 g of salt for daily consumption for 4 weeks.

Results:

The study evaluated 35 patients (65.7% women), 19 allocated to the IG and 16 to the CG. The mean age was 55.5 ± 7.4 years. Most participants had completed the Brazilian middle school (up to the 8th grade; n = 28; 80.0%), had a family income of up to US$ 600 (n = 17; 48.6%) and practiced regular physical activity (n = 19; 54.3%). Two patients (5.7%) were smokers and 40.0% consumed alcohol regularly (n = 14). The IG showed a significant reduction in both SBP and DBP on the casual measurements and HBPM (p < 0.05) and in sodium excretion (p = 0.016). The CG showed a significant reduction only in casual SBP (p = 0.032).

Conclusions:

The light salt substitution for regular salt significantly reduced BP of hypertensive patients.

Key words: Hypertension; Sodium; Blood Pressure; Diet

Introdução

A ingestão excessiva de sal foi identificada como um importante fator de risco para doença cardiovascular (DCV). Por influenciar favoravelmente o controle da pressão arterial (PA), a restrição de sódio é uma ferramenta poderosa para a prevenção e o controle da hipertensão arterial sistêmica (HAS)1.

Vários estudos afirmam que a redução do consumo de alimentos ricos em sódio causa uma redução significativa na PA de pacientes hipertensos2-4. O Intersalt foi um dos primeiros estudos a avaliar a ingestão de sódio a partir de amostras de urina de 24 horas, tendo demonstrado uma associação positiva entre alto consumo de sódio e aumento da PA5.

A alta excreção de sódio relaciona-se ao maior risco de morte por DCV. Por outro lado, uma maior excreção de potássio implica em redução do risco de infarto do miocárdio6. Chang e cols7. detectaram uma diminuição significativa na mortalidade por DCV em indivíduos que consumiam sal com teor mais baixo de sódio e mais alto de potássio.

Estudos que avaliaram o efeito da redução do consumo de sódio na PA foram considerados importantes pela comunidade científica. Por isso, novos estudos experimentais precisam ser desenvolvidos para a obtenção de resultados complementares e mais atuais sobre a associação entre aquelas variáveis8.

Assim, a avaliação do impacto do consumo de sal com baixo teor de sódio na PA pode contribuir para melhorar seu controle. O presente estudo teve por objetivo avaliar se a substituição do sal comum por sal light poderia reduzir a PA de hipertensos.

Métodos

Este foi um estudo simples-cego randomizado controlado.

Caracterização da amostra

O tamanho da amostra foi calculado por comparação de médias, com poder estatístico de 90%, teste de hipótese bicaudal, desvio padrão de 12,7 mmHg, uma diferença esperada de 13,1 mmHg na pressão arterial sistólica (PAS)3 e nível de significância de 5%. A amostra necessária calculada foi de 20 indivíduos em cada grupo.

Hipertensos dos dois sexos, com idades entre 20 e 65 anos, foram recrutados e acompanhados regularmente em um serviço multiprofissional para tratamento de hipertensão. Os pacientes moravam na região metropolitana de Goiânia, Brasil, usavam doses estáveis de anti-hipertensivos por pelo menos 30 dias, e apresentavam hipertensão não controlada (PA ≥ 140 x 90 mmHg)9 na sua última visita.

Pacientes com doenças agudas ou subagudas (até três meses antes do início do estudo) e crônicas instáveis foram excluídos, bem como foram aqueles que faziam suas refeições em locais onde não podiam prepará-las com o sal deste estudo mais de uma vez por semana.

Seleção da amostra e randomização

Inicialmente, os pacientes foram identificados nos prontuários médicos e selecionados com base nos critérios de inclusão e exclusão. Foram então convidados a visitar o consultório de nutrição para receber orientação sobre a pesquisa e, ao concordar em participar do estudo, assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (protocolo 193/2011), tendo sido conduzido conforme a Declaração de Helsinque.

A população estudada foi designada para dois grupos homogêneos - Grupo Intervenção (GI) e Grupo Controle (GC) -, de acordo com a ordem das visitas à nutricionista: o primeiro paciente atendido foi incluído no GI e o segundo no GC, e assim por diante. Os participantes do GI receberam sal light e os participantes do GC receberam placebo (sal comum) por quatro semanas (28 dias). Todos os participantes dos dois grupos permaneceram em acompanhamento regular.

Delineamento do estudo

As variáveis coletadas na visita de inclusão foram sexo, idade, nível de escolaridade (fundamental; médio; e superior completo), renda familiar (até dois salários mínimos (SM); de dois a quatro SM; quatro SM ou mais), prática regular de atividade física (pelo menos 30 minutos, três vezes por semana), tabagismo e alcoolismo (frequência de ingestão de bebida alcoólica igual a 1 vez por mês ou superior).

As variáveis coletadas antes e após a intervenção foram: peso, altura, índice de massa corporal (IMC), sódio e potássio em urina de 24 horas (mEq/dia), PA casual e Monitoração Residencial da Pressão Arterial (MRPA).

Os pacientes foram recrutados entre maio e outubro de 2012. Duas visitas foram realizadas durante todo o estudo, sendo a primeira durante a seleção e randomização dos participantes e a segunda depois de 28 dias, no retorno após a intervenção. Na semana inicial do estudo, os pacientes foram submetidos à medida casual da PA, à MRPA por quatro dias e à coleta de amostra de urina de 24 horas. A partir daí, começaram a consumir o sal prescrito pelo período de 28 dias. Na última semana do estudo, os pacientes retornaram para sua segunda visita e foram submetidos à aferição da medida casual da PA, MRPA e coleta de urina de 24 horas, seguindo os mesmos procedimentos usados antes da intervenção.

A PA casual foi medida pelo mesmo pesquisador, pelo menos três vezes com intervalos de 1 minuto, até que as diferenças entre as medidas fossem inferiores a 4 mmHg9. A média dos dois últimos valores foi considerada para a análise.

A MRPA seguiu as III Diretrizes Brasileiras para MRPA10. Realizaram-se 24 medidas, sendo três pela manhã e três à tarde por quatro dias. Os exames com porcentagem de aproveitamento superior a 70% foram considerados adequados.

Todas as medidas de PAS e PAD foram obtidas usando-se um aparelho digital semiautomático (OMRON 705 CPINT, Illinois, EUA) e os pacientes receberam instruções de como usá-lo para MRPA.

O processo de coleta de urina de 24 horas iniciou-se na segunda eliminação de urina do primeiro dia e encerrou-se na primeira eliminação do dia seguinte, aproximadamente à mesma hora. A urina foi analisada no laboratório do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás com a técnica da membrana íon-seletiva11 para quantificar sódio e potássio urinários.

Intervenção

Todos os pacientes foram orientados a consumir apenas o sal fornecido no estudo. Além disso, foram instruídos a reduzir o consumo de alimentos ricos em sódio durante o período, sendo particularmente advertidos quanto aos alimentos industrializados12,13.

Os pacientes receberam o sal após a primeira avaliação da PA e coleta de urina. A recomendação diária adotada foi de 3 g de sal por pessoa, proposta pelas VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão9. Para se calcular a quantidade de sal consumida por paciente, considerou-se o número de pessoas que usualmente compartilhavam as refeições. Adicionou-se 10% à quantidade de sal calculada por paciente, prevendo-se um maior consumo devido a mudanças na rotina familiar nos finais de semana (maior número de pessoas).

Cada paciente recebeu 28 pequenos sacos plásticos, cada um contendo a quantidade diária de sal, com etiquetas contendo as iniciais do nome do paciente, data do respectivo uso e a quantidade de sal em cada embalagem. O sal fornecido não tinha identificação de sua composição. Portanto, os participantes não sabiam o tipo de sal que recebiam. O pesquisador era a única pessoa que conhecia tal informação, o que caracterizou o estudo como simples-cego.

A composição do sal light (por grama) era 130 mg de sódio, 346 mg de potássio e 44 mcg de iodo. O sal comum continha (por grama) 390 mg de sódio e 25 mcg de iodo.

Análise estatística

Os dados foram analisados utilizando-se o programa SPSS, versão 20.0 (SPSS Inc, Chicago, EUA). As variáveis qualitativas foram apresentadas como média e desvio padrão, de acordo com suas frequências absolutas e relativas. A normalidade dos dados foi testada com o teste Shapiro-Wilk. Na presença de distribuição normal, dados independentes e dados pareados foram comparados usando-se o teste t de Student. O teste de Wilcoxon foi usado para dados pareados quando não havia distribuição normal.

Adotou-se o nível de 5% de significância para todos os testes.

Resultados

Dos 1800 registros médicos do serviço, 265 correspondiam a pacientes com PA não controlada, dos quais apenas 56 foram elegíveis para o estudo. Isso foi atribuído ao fato de o serviço atender a uma população mais idosa e com maior incidência de doenças crônicas, considerados critérios de exclusão deste estudo.

Dos 56 pacientes elegíveis, 38 concordaram em participar, os quais foram selecionados entre maio e outubro de 2012 (19 em cada grupo). A amostra calculada de 40 indivíduos não foi alcançada, pois alguns pacientes alegaram problemas pessoais ou outras dificuldades como justificativa para não participar. Além disso, após o início do estudo e por razões pessoais dos pacientes (doença na família ou falta de tempo), houve perda de seguimento de três participantes do GC antes da intervenção, o que resultou em uma amostra final de 35 pacientes (19 no GI e 16 no GC) (Figura 1).

Figura 1 Fluxograma da randomização dos pacientes. 

No início do estudo, os grupos eram homogêneos com relação às variáveis sociodemográficas. A idade média foi de 55,5 ± 7,4 anos, e 65,7% da amostra era composta por mulheres. A maioria havia estudado até o ensino fundamental completo (n = 28; 80,0%), tinha renda familiar de até dois salários mínimos (SM) (n = 17; 48,6%) e praticava atividade física com regularidade (n = 19; 54,3%). Dois pacientes (5,7%) eram fumantes e 40,0% ingeriam álcool regularmente (n = 14).

Com relação às variáveis clínicas, os indivíduos dos dois grupos também iniciaram o estudo com características semelhantes (Tabela 1). As medidas de PA apresentaram 100% de aproveitamento.

Tabela 1 Valores médios das variáveis avaliadas antes da intervenção, de acordo com os grupos. Goiânia, Goiás, Brasil, 2012 (n = 35) 

    GC (n= 16) GI (n= 19) p*
    Média ± DP Média ± DP  
IMC 31,00 ± 5,97 29,38 ± 5,55 0,411
PA casual:      
  PAS 143,44 ± 13,99 142,95 ± 14,86 0,921
  PAD 91,19 ± 9,10 89,79 ± 9,10 0,654
MRPA:
  PAS 131,63 ± 14,36 134,47 ± 17,00 0,600
  PAD 79,38 ± 11,65 77,95 ± 10,23 0,702
  Sódio 213,56 ± 89,99 205,87 ± 131,50 0,844
  Potássio 54,41 ± 17,01 74,53 ± 76,14 0,309

*teste t de Student para amostras independentes

Após a intervenção

Sete dias antes do encerramento do estudo, um paciente do GC solicitou mais sal. Ao final do estudo, as medidas casuais da PA (PAS e PAD) e a excreção urinária de 24 horas de sódio mostraram significativas diferenças entre os grupos GI e GC. No entanto, não houve significativas diferenças quanto aos valores de IMC, medidas de MRPA e excreção urinária de potássio entre os grupos (Tabela 2).

Tabela 2 Valores médios das variáveis avaliadas após a intervenção, de acordo com os grupos. Goiânia, Goiás, Brasil, 2012, 2012 (n = 35) 

    GC GI GI x GC p*
    Média ± DP Média ± DP Diferença  
IMC 31,19 ± 6,14 29,44 ± 5,50 (1,75) 0,379
PA casual:
  PAS 137,19 ± 20,22 127,11 ± 15,64 (12,47) 0,034
  PAD 82,75 ± 12,12 75,95 ± 9,47 (7,58) 0,046
MRPA:
  PAS 131,06 ± 15,53 127,47 ± 15,33 (4,78) 0,365
  PAD 80,13 ± 11,75 73,42 ± 10,78 (7,19) 0,074
  Sódio 182,59 ± 76,74 127,11 ± 57,39 (55,59) 0,023
  Potássio 55,33 ± 18,43 48,05 ± 19,29 (7,03) 0,296

*teste t de Student para amostras independentes.

A análise intragrupo demonstrou uma redução significativa nas médias dos valores de PA nos pacientes do GI após o uso do sal light. De maneira semelhante, a excreção de sódio diminuiu significativamente neste grupo. Não houve alteração na excreção urinária de 24 horas de potássio (Tabela 3).

Tabela 3 Valores médios de PA casual e MRPA no GI (sal light) antes e depois da intervenção. Goiânia, Goiás, Brasil, 2012 (n = 19) 

    GI (antes) GI (depois) Antes x Depois p
    Média ± DP Média ± DP Diferença  
PA casual:        
  PAS 142,95 ± 14,86 127,11 ± 15,64 (-15,84) 0,002*
  PAD 89,79 ± 9,10 75,95 ± 9,47 (-13,84) 0,000**
MRPA:        
  PAS 134,47 ± 17,00 127,47 ± 15,33 (-7,00) 0,012**
  PAD 77,95 ± 10,23 73,42 ± 10,78 (-4,53) 0,003**
  Sódio 205,87 ± 131,50 127,11 ± 57,39 (-78,76) 0,016 **
  Potássio 74,53 ± 76,14 48,05 ± 19,29 (-9,40) 0,157**

*teste de Wilcoxon.

**teste t de Student para amostras pareadas.

Com relação ao GC, a única diferença significativa após o uso do sal comum foi uma redução da PAS, enquanto as demais variáveis (PAD casual, PAS e PAD na MRPA e valores de sódio e potássio urinários) permaneceram semelhantes (Tabela 4).

Tabela 4 Valores médios de PA casual e MRPA no GC (sal comum) antes e depois da intervenção. Goiânia, Goiás, Brasil l, 2012 (n = 16) 

    GC (antes) GC (depois) Antes x Depois p
    Média ± DP Média ± DP Diferença  
PA casual:
  PAS 143,44 ± 13,99 137,19 ± 20,22 (-6,25) 0,032**
  PAD 91,19 ± 9,10 82,75 ± 12,12 (-8,44) 0,055*
MRPA:
  PAS 131,63 ± 14,36 131,06 ± 15,53 (-0,57) 0,858**
  PAD 79,38 ± 11,65 80,13 ± 11,75 (+0,75) 0,587**
  Sódio 213,56 ± 89,99 182,59 ± 76,74 (-30,97) 0,175**
  Potássio 54,41 ± 17,01 55,33 ± 18,43 (+0,92) 0,796**

*teste de Wilcoxon.

**teste t de Student para amostras pareadas.

Efeitos adversos

Devido ao seu sabor peculiar, o sal light teve baixa aceitação por 89,5% dos indivíduos do GI, que se queixaram de mudança de sabor nos alimentos preparados. No entanto, os pacientes concordaram em usar aquele sal pelo período determinado. Esse efeito adverso foi considerado leve, não tendo sido necessário interromper o estudo.

Discussão

Este estudo buscou reduzir a ingestão dietética diária de sódio dos pacientes do GC para um consumo menor que os 5 g de sal (2 g de sódio) propostos pela Organização Mundial da Saúde14, considerando que os 3 g fornecidos corresponderam a um consumo de 1,2 g de sódio do sal comum.

Por outro lado, o sal light (com aproximadamente 67% menos sódio do que o sal comum) promoveu uma ingestão média de 390 mg de sódio por dia. Essa restrição de sódio foi capaz de promover controle da PA e da excreção de sódio observado no GI, sugerindo que, pelo menos em curto prazo, o uso do sal light mostrou-se uma eficiente estratégia para o tratamento de HAS.

A respeito da significativa redução da PA após a diminuição da ingestão de sal, o presente estudo mostrou valores médios de excreção de sódio maiores que 125 mEq (GI) e 180 mEq (GC), indicando que a quantidade de sódio fornecida (1,2 g a partir do sal comum e 390 mg a partir do sal light) pode não ter correspondido com precisão àquela consumida pelos pacientes. Isso demonstra a dificuldade de se mudar um estilo de vida, uma vez que o consumo de sal é um hábito arraigado em todo o mundo. Ortega e cols.15 relataram uma ingestão dietética de sal de 9 g/dia em adultos espanhóis entre 18 e 60 anos, com excreção de sódio na urina de 24 horas de 168 mmol/d. Isso reflete uma ingestão superior aos 5 g por dia recomendados, assim como no presente estudo.

Infelizmente, o delineamento deste estudo não previa o acompanhamento dos pacientes em suas rotinas para verificar se houve completa adesão com relação à sua ingestão de sódio, embora eles tenham sido bem orientados quanto à maneira de usar o sal fornecido e evitar alimentos ricos em sódio. É provável que tenham ingerido menos sódio do que o usual, mas não exatamente como recomendado, justificando a excreção de sódio acima da esperada. Além disso, os valores de excreção de 24 horas espelham apenas a ingestão de sódio e potássio do dia anterior, que pode ter sido atípica em comparação à dos demais dias, mesmo com toda a recomendação fornecida. O mesmo se aplica à não alteração da excreção de potássio no GI, além do fato de que o teor daquele mineral do sal light é baixo, insuficiente para causar uma diferença significativa na excreção urinária de potássio. Esta, por sua vez, poderia variar mais em decorrência de uma elevada ingestão de alimentos ricos em potássio acima do usual do que com a ingestão daquele sal em particular.

A resistência à mudança de estilo de vida para controlar a HAS é comum entre hipertensos16. Além disso, foi detectado outro aspecto limitante que dificulta a adesão ao controle da HAS nos pacientes do GI, já que 89,5% informaram a presença de sabor amargo nos alimentos. Embora os mesmos pacientes tenham relatado ser aceitável o período de 28 dias de dieta, foram relutantes em aceitar a sugestão de manter o sal light após a conclusão do estudo, mesmo reconhecendo o melhor controle da PA decorrente do seu uso.

A possível explicação para a alteração de gosto causada pelo sal light deve-se à adição de potássio à sua composição. Em contrapartida, a comunidade científica discute com frequência não apenas o benefício na PA causado pela redução na ingestão de sódio, mas também o impacto positivo que a ingestão de potássio possa ter no controle da HAS17,18.

Semelhante ao presente estudo, Lotaif e cols.17 utilizaram um sal com teor de sódio mais baixo e adicionaram potássio para verificar o efeito na PA. Os pacientes foram separados em um grupo controle (sal comum) e um grupo de intervenção (sal light), e foram submetidos à avaliação da PA por Monitoração Ambulatorial da Pressão Arterial (MAPA) e dosagem dos níveis plasmáticos e urinários de sódio e potássio. O grupo de intervenção apresentou redução da PA. Os níveis de sódio permaneceram constantes nos dois grupos, embora o grupo de intervenção tenha apresentado um significativo aumento apenas nos níveis plasmáticos de potássio. Os autores atribuíram o controle da PA à suplementação com potássio e não à redução na ingestão de sódio.

Entretanto, os estudos conclusivos sobre a necessidade de suplementação de potássio para controlar a PA são escassos, sendo uma dieta balanceada, rica em frutas e vegetais, a melhor fonte daquele mineral14.

Como no estudo de Lotaif e cols.17, os valores de excreção de potássio obtidos no início e no final deste estudo foram similares. Isso indica que, no presente estudo, a ingestão de sal light pode não ter influenciado o balanço total ingerido pelos pacientes, pois a necessidade diária de potássio para adultos, que contribui para o controle da PA, é de 4,7 g19.

Assim, o conteúdo de potássio consumido pelo GI pode não ter sido o responsável pela redução de PA naqueles pacientes, pois a quantidade adicional ingerida a partir do sal light foi de apenas 1038 mg. Isso reforça a hipótese de que o controle da PA obtido neste estudo deveu-se à redução de sódio, muito mais efetiva com o uso do sal light, além da confirmada significativa redução na excreção de sódio no GI.

Tal redução na ingestão de sódio é um importante fator para a diminuição de mortalidade por DCV, como mostrado no estudo com indivíduos de um lar de idosos no nordeste de Taiwan, que foram divididos em dois grupos. O primeiro grupo recebeu um sal com baixo teor de sódio e enriquecido com potássio, e o outro grupo recebeu apenas sal comum. O grupo experimental apresentou uma significativa redução na mortalidade por DCV7.

Uma revisão sistemática de ensaios randomizados sobre métodos de aconselhamento dietético para diminuição da ingestão de sódio no tratamento da hipertensão identificou uma significativa redução de PA e excreção de sódio quando houve restrição da ingestão de sódio20.

Outro estudo realizou cross-over duplo-cego e mostrou que a redução da ingestão de sódio foi eficiente no controle da HAS de 169 indivíduos, os quais foram divididos em dois grupos, um com baixa ingestão de sódio e o outro com placebo21. No presente estudo, a diminuição da PA alcançou 15,84 x 13,84 mmHg (GI) e 6,25 x 8,44 mmHg (GC), embora com significância estatística apenas no GI.

Outra meta-análise permitiu concluir que, quando comparado com as atuais recomendações, um decréscimo do consumo de sal para 3 g/dia pode ter resultados muito melhores, devendo, portanto, tal quantidade ser usada como a meta diária de ingestão mundial4. Essa conclusão reforça os resultados deste estudo para obtenção de melhor controle da PA.

Os valores de excreção de sódio encontrados no presente estudo sugerem que os pacientes podem ter consumido quantidades superiores às 3 g do sal fornecido, como já mencionado. No entanto, o controle da PA ao final da intervenção mostrou que a ingestão anterior ao estudo era provavelmente excessiva se comparada ao consumo durante o estudo. Logo, a redução do consumo de sal teve efeitos benéficos na HAS, como visto nos resultados deste estudo.

Tais dados reforçam a relevância do presente estudo, pois a restrição dietética de sódio tem sido constantemente relatada como um fator que contribui para o controle da HAS e, por conseguinte, para a diminuição da mortalidade por DCV2-4.

Logo, alterações nos hábitos alimentares propostas neste estudo, como a redução no consumo do sal adicionado e de alimentos processados, que representam mais de 75% da ingestão de sódio da dieta norte-americana22, tornaram-se uma ferramenta valiosa para o controle de HAS e a diminuição do risco de morte por DCV, a principal causa de morte no mundo.

A significativa redução na PAS casual no GC, sem alteração nos valores da MRPA, pode ter ocorrido devido à atenuação do efeito do jaleco branco no estudo.

Uma limitação deste estudo foi a alteração no gosto dos alimentos atribuída ao sal light por muitos pacientes do GI. Tal fato não interferiu com o uso de sal light durante este estudo, mas pode ser um fator limitante com relação à adesão em longo prazo. Por fim, a sensibilidade ao sal, que varia entre os indivíduos, pode ter influenciado os valores de PA dos pacientes.

Conclusão

A substituição do sal comum por sal light enriquecido com potássio foi eficiente para diminuir a PA de hipertensos neste estudo. Assim, a implementação em longo prazo dessa alteração pode ser interessante para reduzir a hipertensão na população e até a mortalidade por DCV. Os profissionais de saúde podem usar esses resultados para explicar a seus pacientes como a ingestão de sódio pode elevar a PA e encorajá-los a reduzi-la através do uso do sal light. Além disso, os hospitais poderiam controlar a PA de hipertensos usando esse sal em suas dietas durante as internações e os fabricantes de sal light poderiam criar estratégias para que seu sabor não seja um fator limitante para seu uso, visto que os benefícios do seu consumo foram evidentes.

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