Impacto das condições bucais na qualidade de vida em servidores públicos municipais

Impacto das condições bucais na qualidade de vida em servidores públicos municipais

Autores:

Maria Helena Monteiro de Barros Miotto,
Claudio Santos Almeida,
Ludmilla Awad Barcellos

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.19 no.9 Rio de Janeiro set. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232014199.12912013

ABSTRACT

The scope of this article is to verify the prevalence of the impact produced by oral health conditions on the quality of life of civil servants and the possible association with social and demographic variables, utilization of dental services, dental pain and the need for prosthetics. A cross-sectional study was conducted to assess a random sample of 286 public employees. Data was collected using four questionnaires including the Oral Health Impact Profile. The association between the variables was measured using Fisher's Exact Test; the Odds Ratio evaluated the strength of association between impact and exposure. Logistic regression models were adjusted for each dimension. Ninety-three individuals (32.5%) declared impacts. The main impact prediction was associated with age, social and economic status, education, the use of dental services, the need for prosthetics and dental pain. A considerable number of individuals declared an impact on quality of life due to oral conditions.

Key words: Oral health; Quality of life; Impact of illness on quality of life

Introdução

Os novos desafios sociais, políticos e culturais, o esgotamento do paradigma biomédico e a mudança do perfil epidemiológico da população nas últimas décadas têm ensejado o aparecimento de novas formulações sobre o pensar e o fazer sanitários1. A promoção da saúde aparece como eixo determinante no novo modo de pensar saúde, o objetivo final da promoção da saúde é a qualidade de vida da população.

Qualidade de vida é uma noção eminentemente humana, que tem sido aproximada ao grau de satisfação encontrado na vida familiar, amorosa, social e ambiental e à própria estética2.

É importante ressaltar que a busca por uma definição sobre qualidade de vida meramente pautada em indicadores quantitativos - renda, grau de instrução ou condições de moradia - mostra-se insuficiente, pois não revela dados importantes referentes aos sentimentos, julgamentos e valores que cada um possui em relação ao termo3.

No campo da Odontologia o termo saúde bucal relacionada à qualidade de vida é comumente utilizado para descrever o impacto que problemas bucais podem produzir na vida das pessoas4.

A importância de medidas relacionadas à qualidade de vida reflete o modelo atual da Odontologia não apenas direcionada à ausência ou à cura das doenças bucais, mas também focada na interferência desses problemas na qualidade de vida das pessoas. Para isso, se faz necessária a utilização de índices que valorizem a experiência subjetiva dos indivíduos como o bem estar funcional, social e psicológico5,6.

O desenvolvimento de indicadores subjetivos de saúde bucal vem permitindo capturar percepções e sentimentos dos indivíduos sobre sua própria saúde bucal e suas expectativas em relação a tratamento e serviços odontológicos7.

Os indicadores subjetivos em saúde bucal produzem maior evidência na detecção de problemas que os indicadores objetivos não detectam, tais como percepção da condição bucal, impacto na qualidade de vida e alterações na produtividade de uma sociedade8.

Sua utilização deve ser complementar à dos indicadores objetivos, permitindo uma visão mais ampla do diagnóstico e dos objetivos do tratamento, envolvendo as percepções normativas e subjetivas, que consideram a qualidade de vida do paciente de maneira igualmente importante9.

O sistema normativo hegemônico delimita necessidades que, em geral, não levam em consideração os aspectos sociopsíquicos e atribuem pouco valor à maneira como a condição de saúde afeta o cotidiano das pessoas10. Recentemente, uma progressiva valorização dos indicadores subjetivos tem servido de base para traçar medidas referentes à saúde bucal, pois captam necessidades que variam de acordo com a cultura, o comportamento social, com o conceito do indivíduo sobre o processo saúde/doença, além do grau de importância atribuído ao tratamento odontológico11,12.

Uma dor de dente, por si só, pode provocar impedimentos sociais e laborais Tais alterações afetam significativamente a qualidade de vida. Dessa forma, os indicadores subjetivos ou socioodontológicos tornam-se cruciais para se conhecer as consequências desses agravos para os indivíduos13.

Slade e Spencer 14desenvolveram e testaram um indicador de necessidade percebida, o Oral Health Impact Profile (OHIP), com 49 questões para avaliar o impacto biopsicossocial provocado por problemas bucais. O OHIP é composto por sete dimensões: limitação funcional, dor física, desconforto psicológico, incapacidade física, psicológica e social e deficiência. Posteriormente, foi desenvolvida uma versão simplificada com 14 questões, mantendo as propriedades psicométricas do OHIP 4915. O instrumento foi adaptado ao contexto cultural brasileiro e ao idioma português16.

O objetivo deste estudo foi avaliar a prevalência de impactos produzidos por condições bucais na qualidade de vida de funcionários públicos da Prefeitura Municipal de Marataízes, de acordo com variáveis relacionadas com a utilização de serviços odontológicos, dor dentária autorrelatada e necessidade de prótese.

Material e métodos

Este estudo transversal analisou uma amostra aleatória simples de indivíduos selecionados de um universo de 994 funcionários efetivos da Prefeitura Municipal de Marataízes (ES). Foi utilizada, como parâmetro para o cálculo amostral, a prevalência de impacto dos problemas bucais na qualidade de vida de 35%, nível de confiança de 95% e margem de erro de 5%. Foi obtida uma amostra mínima de 260 indivíduos. A prevalência esperada de 35% foi utilizada suportada por estudo realizado no estado do Espírito Santo7. Para ajustar para uma taxa de perda igual a 20%, foram acrescidas a esse número 52 pessoas, resultando em uma amostra de 312 funcionários, caracterizando uma quantidade superior à necessária. Os sujeitos foram selecionados utilizando-se uma tabela de números aleatórios.

A coleta de dados foi realizada por meio da técnica de entrevista padronizada entre 4 de maio e 12 de junho de 2009. Três entrevistadores treinados utilizaram quatro roteiros previamente usados em outros estudos no Brasil. Um estudo piloto ajustou os instrumentos, e os sujeitos participantes foram excluídos do estudo principal.

Um roteiro coletou dados sobre condição de saúde bucal referente à dor de dente nos últimos 12 meses e à necessidade percebida de prótese.

A classe econômica dos entrevistados foi categorizada de acordo com a posse de bens de consumo e a escolaridade do chefe da família - classe A, B, C, D e E - por meio do Critério de Classificação Econômica Brasil17.

Outro roteiro foi utilizado para coletar informações sobre a utilização de serviços de saúde nos últimos 12 meses, os profissionais procurados, o motivo e o tipo de serviço odontológico utilizado.

O roteiro "Perfil do Impacto da Saúde Bucal" avaliou a percepção dos sujeitos sobre os impactos produzidos pelas condições bucais na qualidade de vida. Foi utilizada a versão reduzida do questionário - OHIP 14. Os participantes responderam às questões em uma escala de frequência (Lickert) de cinco opções.

Optou-se, neste estudo, por utilizar o método de expressão dos resultados do OHIP como variável categórica em dois grupos: com impacto para as respostas "sempre e frequentemente" e sem impacto para "às vezes, raramente e nunca".

Para avaliar as diferenças entre os grupos, foram utilizados o teste exato de Fisher para cada variável dependente e as sete dimensões do OHIP. Para verificar a força da associação entre o desfecho e a exposição, foi calculado o odds-ratio (OR), com intervalo de confiança (IC) de 95%. Para conhecer a associação de todas as dimensões combinadas do OHIP (escore total) com as variáveis independentes, foi realizado o teste de Mantel-Haenszel que forneceu um OR combinado.

Foi realizada análise multivariável para controle dos potenciais fatores de confusão. Foram ajustados modelos de regressão logística para cada dimensão para verificar variáveis com maior poder predictivo.

O nível de significância adotado nos testes foi α = 5%. O pacote estatístico Statistical Package for the Social Sciences versão 15 foi utilizado para esta análise.

O projeto desta pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo.

Resultados

Dos indivíduos sorteados, 26 se recusaram a participar do estudo. A amostra final de 286 sujeitos superou o cálculo amostral que previa uma análise em 260 questionários válidos. O acréscimo de 20% foi suficiente para compensar possíveis perdas.

O perfil demográfico da população deste estudo registra maioria feminina e uma população jovem com indivíduos até 40 anos. O nível de escolaridade declarada de 74,2% dos sujeitos foi igual ou acima ao ensino médio completo e em relação à renda, somente 9,5% superaram seis salários-mínimos (Tabela 1).

Tabela 1 Dados sociodemográficos de funcionários municipais de Marataízes (ES), 2009. 

Característica N Percentual
Sexo  
  Masculino 103 36,0
  Feminino 183 64,0
Faixa etária  
  18 - 40 anos 186 65,0
  41 - ou mais 100 35,0
Escolaridade  
  Até Ensino médio incompleto 74 25,8
  Ensino médio completo ou mais 212 74,2
Renda familiar  
  Até 2 salários mínimos 132 46,1
  Entre 3 e 5 salários mínimos 127 44,4
  Seis salários mínimos ou mais 27 9,5
Classificação econômica  
  A/B 89 31,2
  C/D/E 197 68,8
Total 286 100,0

Questionados sobre a condição bucal, 70,6% dos sujeitos relataram perda de pelo menos um dente permanente, sendo 119 (58,9%) na região posterior e 14 (6,9%) na anterior. Em relação à necessidade declarada de prótese parcial removível (PPR), 84 (29,4%) afirmaram precisar, e com referência à prótese total removível (PTR), 25 (8,7%) perceberam essa necessidade.

A utilização de serviços de saúde bucal pôde ser considerada surpreendente. Em contrapartida, a procura por um falso profissional em área urbana de município turístico da Região Sudeste ainda se faz presente, declarada por 2,8% dos participantes (Tabela 2).

Tabela 2 Profissionais de saúde procurados nos últimos doze meses pelos funcionários municipais de Marataízes (ES), 2009. 

Característica N Percentual
Cirurgião-dentista  
  Sim 190 66,4
  Não 96 33,6
TSB  
  Sim 51 17,8
  Não 235 82,2
Dentista prático  
  Sim 8 2,8
  Não 278 97,2
Médico  
  Sim 213 74,5
  Não 73 25,5
Enfermeiro  
  Sim 121 42,3
  Não 165 57,7
Agente Comunitário de Saúde  
  Sim 166 58,0
  Não 120 42,0
Farmacêutico  
  Sim 105 36,7
  Não 181 63,3
Outros  
  Sim 5 1,7
  Não 281 98,3

Em relação ao tipo de serviço odontológico utilizado nos últimos doze meses, o respondente pôde marcar mais de uma opção: 75 (40,1%) funcionários utilizaram o serviço público municipal, 117 (62,6%) o privado e 18 (9,6%) outro tipo.

O impacto produzido por problemas bucais na qualidade de vida foi declarado por 93 indivíduos (32,5%). Ao analisar as variáveis relativas à utilização de serviço odontológicos, verificou-se que os indivíduos que não o utilizaram nos últimos 12 meses apresentaram maior impacto nas dimensões desconforto psicológico (p = 0,045; OR = 1,467, IC 95% = 1,008; 2,134), incapacidade social (p = 0,037; OR = 2,291, IC95% = 1,389; 3,776) e deficiência (p = 0,024; OR = 1,536, IC95% = 1,069; 2,206) (Tabela 3).

Tabela 3 Frequência do impacto, por dimensão, segundo a utilização de serviço odontológico por funcionários da Prefeitura de Marataízes (ES). 

  Utilizou   Não utilizou  
Dimensão %   % Sig. Odds Ratio
Limitação funcional   0,185  
  Com impacto 10 5,2   8 8,7   1,751
  Sem impacto 184 94,8   84 91,3 0,668 - 4,608
Dor física   0,313  
  Com impacto 24 12,4   14 15,2   1,271
  Sem impacto 170 87,6   78 84,8 0,624 - 2,591
Desconforto psicológico   0,045  
  Com impacto 27 13,9   21 22,8   1,467
  Sem impacto 167 86,1   71 77,2 1,008 - 2,134
Incapacidade física   0,153  
  Com impacto 11 5,7   9 9,8   1,805
  Sem impacto 183 94,3   83 90,2 0,720 - 4,525
Incapacidade psicológica   0,500  
  Com impacto 26 13,4   13 14,1   1,064
  Sem impacto 168 86,6   79 85,9 0,519 - 2,179
Incapacidade social   0,037  
  Com impacto 2 1,0   5 5,4   2,291
  Sem impacto 192 99,0   87 94,6 1,389 - 3,776
Deficiência   0,024  
  Com impacto 28 14,4   23 25,0   1,536
  Sem impacto 166 85,6   69 75,0 1,069 - 2,206
Mantel-Haenszel combinado   0,108 1,439
  0,855 - 2,427

Em relação à variável motivo da utilização, os resultados (Tabela 4) mostraram diferenças estatisticamente significantes nas dimensões incapacidade física (p = 0,027, OR = 2,117, IC 95% = 1,286; 3,485) e deficiência (p = 0,009, OR = 1,892, IC95% = 1,242; 2,883). No escore total, o resultado também foi significante (p = 0,049, OR = 1,820, IC95% = 1,010; 3,462).

Tabela 4 Frequência do impacto, por dimensão, segundo o motivo da utilização de serviço odontológico por funcionários municipais de Marataízes (ES), 2009. 

  Urgência   Rotina/prevenção    
Dimensão %   % Sig. Odds Ratio
Limitação funcional   0,402  
  Com impacto 4 6,5   6 4,5   1,448
  Sem impacto 58 93,5   126 95,5 0,394 - 5,329
Dor física   0,195  
  Com impacto 10 16,1   14 10,   1,621
  Sem impacto 52 83,9   118 89,4 0,676 - 3,887
Desconforto psicológico   0,102  
  Com impacto 12 19,4   15 11,4   1,872
  Sem impacto 50 80,6   117 88,6 0,818 - 4,285
Incapacidade física   0,027  
  Com impacto 7 11,3   4 3,0   2,117
  Sem impacto 55 88,7   128 97,0 1,286 - 3,485
Incapacidade psicológica   0,077  
  Com impacto 12 19,4   14 10,6   2,023
  Sem impacto 50 80,6   118 89,4 0,874 - 4,681
  Incapacidade social   0,101  
  Com impacto 2 3,2   0 0,0   -
  Sem impacto 60 96,8   132 100,0  
  Deficiência   0,009
  Com impacto 15 24,2   13 9,8   1,892
  Sem impacto 47 75,8   119 90,2 1,242 - 2,883
Mantel-Haenszel combinado   0,049 1,820
      1,010 - 3,462

A prevalência de dor de dente autorrelatada nos últimos 12 meses foi de 29%, suficiente para produzir impacto nas dimensões dor física (p<0,001, OR = 2,072, IC 95% = 1,432; 2,998), desconforto psicológico (p = 0,013, OR = 1,679, IC95% = 1,142; 2,470), incapacidade física (p = 0,011, OR = 2,032, IC95% = 1,305; 3,164), incapacidade psicológica (p = 0,027, OR = 1,613, IC95% = 1,080; 2,464) e deficiência (p = 0,028, OR = 1,561, IC 95% = 1,055; 2,308). O resultado do teste combinado de Mantel-Hanszel (p = 0,001) apresentou o OR = 2,446 (IC 95% = 1,437; 4,162).

Na análise da variável necessidade de prótese parcial removível, observou-se resultados estatisticamente significantes para as dimensões limitação funcional, dor física, desconforto psicológico, incapacidade física e deficiência. A Tabela 5 apresenta os valores do Odds Ratio e respectivos intervalos de confiança.

Tabela 5 Frequência do impacto, por dimensão, segundo a necessidade de PPR por funcionários da Prefeitura Municipal de Marataízes (ES). 

  Não precisa   Precisa    
Dimensão %   % Sig. Odds Ratio
Limitação funcional   0,012  
  Com impacto 7 3,7   10 11,9   2,051
  Sem impacto 184 96,3   74 88,1 1,318 - 3,190
Dor física   0,032  
  Com impacto 19 9,9   16 19,0   1,613
  Sem impacto 172 90,1   68 81,0 1,067 - 2,439
Desconforto psicológico   < 0,001  
  Com impacto 21 11,0   24 28,6   2,044
  Sem impacto 170 89,0   60 71,4   1,442 - 2,899
Incapacidade física           0,005  
  Com impacto 7 3,7   11 13,1   2,151
  Sem impacto 184 96,3   73 86,9   1,419 - 3,263
Incapacidade psicológica   0,056  
  Com impacto 21 11,0   16 19,0   1,905
  Sem impacto 170 89,0   68 81,0 0,938 - 3,876
Incapacidade social   0,484  
  Com impacto 3 1,6   2 2,4   1,529
  Sem impacto 188 98,4   82 97,6   0,256 - 9,346
Deficiência   < 0,001  
  Com impacto 18 9,4   31 36,9   2,698
  Sem impacto 173 90,6   53 63,1 1,963 - 3,707
Mantel-Haenszel combinado   < 0,001 1,566
  1,241 - 1,476

Os resultados do teste combinado de Mantel-Haenszel demonstraram que a chance de impacto nos indivíduos que precisam usar PPR é aproximadamente 1,6 vez maior (OR = 1,566 com IC95% = 1,241;2,476).

Em relação à necessidade de PTR, as diferenças estatisticamente significantes na percepção do impacto entre os indivíduos que necessitam usar PT, na maioria das dimensões foram: limitação funcional (p = 0,012, OR- 3,838 IC95% = 1,643;8,965); dor física (p = 0,002, OR- 3,664 IC95% = 1,749; 7,677); desconforto psicológico (p < 0,001, OR = 3,8628 IC95% = 1,571;7,971); incapacidade física (p = 0,015, OR = 3,611 IC95% = 1,535;8,497); incapacidade psicológica (p < 0,001, OR = 4,342, IC95% = 2,111;8,934); e deficiência (p < 0,001, OR = 5,665 IC95% = 2,733;11,743). No escore total, o teste combinado de Mantel-Haenszel (p< 0,001, OR = 2,223 IC95% = 1,249;3,958) manteve valores significantes para as dimensões combinadas; a chance de impacto nos indivíduos com necessidade declarada de PTR é aproximadamente 2,3 vezes maior.

Ainda foram incluídas na análise as variáveis sociodemográficas. Verificou-se que, para a faixa etária, o resultado das dimensões combinadas do OHIP pelo teste de Mantel-Haenszel (p <0,001) demonstrou que a chance de impacto para os indivíduos com 41 anos ou mais (OR = 1,384, IC95% 1,134; 1,689) é aproximadamente 1,4 vezes maior.

Em relação à variável escolaridade, as dimensões combinadas apresentaram uma chance de impacto 1,384 (IC 95% 1,134; 1,689) para aqueles com até ensino médio incompleto.

Com referência à variável condição socioeconômica, a razão de chances combinadas no escore total foi de 1,232 com IC 95% (1,055; 1,438), ou seja, a chance de impacto nos indivíduos pertencentes às classes C, D e E é 1,2 vezes a chance dos indivíduos das classes A e B.

Foram ajustados modelos de regressão logística para cada dimensão para controle de potenciais fatores de confusão. As variáveis que tiveram maior influência na predição de impacto foram: necessidade de PPR para as dimensões limitação funcional, desconforto psicológico e deficiência; necessidade de PTR para as dimensões limitação funcional e deficiência; e faixa etária para as dimensões desconforto psicológico, incapacidade psicológica e deficiência.

Discussão

Este estudo avaliou uma amostra aleatória de funcionários públicos do município de Marataízes, um balneário do estado do Espírito Santo.

O desenvolvimento de indicadores subjetivos na área da saúde bucal trouxe uma grande contribuição para os estudos epidemiológicos na Odontologia. Essas medidas têm sido muito úteis para subsidiar o planejamento em saúde. Existe uma compreensão inquestionável e muito bem documentada na literatura cientifica de que problemas bucais produzem impactos muitas vezes incapacitantes sobre a qualidade de vida das pessoas. Medidas de prevalência, extensão e severidade desses impactos podem ser obtidas da utilização destes instrumentos. Porém, a compreensão da forma pela qual as desordens bucais afetam a vida diária das pessoas tem sido um desafio para pesquisadores. As expectativas e as experiências individuais podem funcionar como gatilhos para a geração de impactos na satisfação ou insatisfação com a saúde bucal6. As Referências sobre quais pessoas se baseiam para a construção das percepções estão em função de uma gama de variáveis6e podem variar substancialmente em diferentes pontos do ciclo da vida18. Riscos cumulativos podem subsequentemente impactar anos mais tarde18. Estudos já têm verificado associação entre o número de irmãos ou número de pessoas na mesma residência e a qualidade de vida relacionada à saúde bucal em crianças de 12 anos19.

Embora este estudo forneça informações sobre impacto dos problemas bucais na qualidade de vida e possíveis associações com variáveis sociodemográficas, clínicas e relacionadas à utilização de serviços odontológicos, não se pode deixar de considerar algumas limitações. Devido ao desenho transversal, os resultados obtidos referenciam hipóteses relativas aos fatores associados, mas não têm o poder de inferência causal. Não houve a intenção de realizar um estudo populacional, mas apenas avaliar uma amostra representativa de uma categoria de trabalhadores, neste caso, aqueles com vínculo municipal. Variáveis comportamentais e medidas de autoestima também não foram avaliadas.

Este estudo encontrou um percentual expressivo de funcionários públicos declarando impactos produzidos por condições bucais (32,5%), resultado similar àqueles encontrados por outras pesquisas realizadas na mesma região7,20,21.

Considerando a possível influência de variáveis sociodemográficas sobre a produção de impactos, os resultados mostraram que indivíduos acima de 40 anos declararam mais impactos produzidos por condições bucais, o que corrobora outros estudos regionais7,20,21.

Em geral, a literatura tem observado um prejuízo na qualidade de vida produzido por desordens bucais em indivíduos na faixa etária de 35 a 44 anos, possivelmente em função do acúmulo de doenças bucais já verificado neste período da vida. Curiosamente, conforme os indivíduos envelhecem, tendem a aceitar a deteriorização da saúde e podem vir a considerar problemas bucais menos significantes5,6,22.

Indivíduos pertencentes às classes econômicas menos favorecidas declararam prejuizo na qualidade de vida produzido pelas condições bucais. Estes resultados são similares aos de outros estudos nacionais que utilizaram indicadores subjetivos7,20,21. Achados de estudos internacionais apontam para a mesma direção, embora a comparabilidade seja dificultada pelos diversos pontos de corte e a utilização de diferentes indicadores de classe social23.

Este estudo observou que funcionários com menor escolaridade declararam maior impacto produzido por condições bucais. Pessoas com menos anos de escolaridade podem ser consideradas um grupo de risco em termos de impactos bucais na qualidade de vida6. Escolaridade é um determinante social da saúde e a maioria desta amostra era composta por sujeitos com nível de instrução com ensino médio completo ou mais (74,2%). Curiosamente, nesta amostra estudada a escolaridade não se traduziu em renda.

Os estudos nacionais envolvendo utilização de serviços odontológicos registram taxas de utilização em torno de 30%24. Os resultados aqui encontrados mostraram uma frequência de visitas ao cirurgião-dentista surpreendente, em torno de 66%. Essas cifras chegam a causar inquietude, considerando-se a possibilidade de os serviços odontológicos minimizarem os impactos na qualidade de vida produzidos por condições bucais20,25. Dessa forma, pode-se levantar uma hipótese a ser testada em outros estudos sobre a resolutividade dos serviços ofertados a esta população em virtude da alta prevalência de impactos observada. A atenção não resolutiva, que não contempla as necessidades em saúde bucal da população adulta, pode perpetuar problemas bucais que terão impacto significativo no cotidiano, no trabalho e na vida social26. Chama a atenção também a alta utilização de serviços odontológicos privados por uma população com renda familiar de níveis baixos. Seria esperado que um significativo percentual de funcionários utilizasse o sistema público, pelo fato de fazerem parte do quadro de trabalhadores com vínculo municipal.

Uma das principais metas de todo serviço de saúde é minimizar disparidades entre subgrupos populacionais, eliminando desvantagem sistemática de acesso aos serviços. A avaliação da saúde bucal relacionada à qualidade de vida é capaz de estimar a efetividade de programas públicos de saúde bucal, revelando suas reais necessidades. Em nível populacional, estratégias delineadas para grupos que percebem mais necessidade podem alcançar máximo benefício quando recursos são limitados18. Medidas utilizadas para avaliar clinicamente a saúde bucal têm mostrado pouca correlação com os impactos produzidos sobre a qualidade de vida27. Uma análise dos dados de um estudo nacional enfatizou profundas desigualdades no acesso aos serviços de saúde bucal, revelando que os mais pobres tiveram maior dificuldade de conseguir atendimento, quando buscavam28.

A prevalência de dor de dente autorrelatada nos últimos 12 meses neste estudo foi de 29%, capaz de produzir impacto na qualidade de vida. A chance de impacto nos indivíduos que sentiram dor de dente foi 2,4 vezes maior. O estudo nacional de saúde bucal registrou, em 2010, uma prevalência de dor de dente nos últimos seis meses de 27% no grupo de 35 a 44 anos, e de 10% nos idosos de 65 a 74 anos, muito provavelmente em decorrência da perda de dentes29. Observa-se um declínio significante, comparado com o mesmo estudo realizado em 2002, que registrou uma prevalência de dor declarada de 34,8% nos adultos e 22% nos idosos30. Diferenças marcadamente regionais e econômicas ainda persistem na frequência de dor de dente que afeta profundamente a qualidade de vida das pessoas, além de gerar perdas econômicas com o absenteísmo. As diretrizes de saúde bucal propostas em 200431colocaram como prioridade o atendimento das urgências, considerando a alta frequência de dor de dente na população brasileira, especialmente a de baixa renda29. Nesse sentido, sugere-se uma maior atenção na organização da atenção primaria direcionada para a resolução efetiva dessas desigualdades.

Este estudo encontrou uma alta prevalência de dentes perdidos, pois 70,6% dos sujeitos relataram perda de pelo menos um permanente. Quanto à recolocação de dentes perdidos, 29,4% declararam necessidade de prótese parcial removível (PPR).

Essa variável esteve associada às medidas de impacto neste estudo, mostrando que indivíduos que perceberam necessidade de prótese parcial removível declararam mais impacto na qualidade de vida, marcadamente evidenciado nas dimensões limitação funcional, desconforto psicológico, incapacidade física e deficiência. Este resultado converge com aqueles encontrados por muitos estudos nacionais que utilizaram indicadores subjetivos7,12,32. Entretanto, não foram encontradas pesquisas na literatura consultada medindo essa variável em estudos internacionais. Nestes trabalhos, as variáveis selecionadas como potencialmente explicativas envolvem o número de dentes presentes, que em geral revelam maior impacto para os indivíduos que possuem menos de 20 dentes presentes na cavidade bucal18.

A utilização de serviço de saúde bucal de forma regular é capaz de melhorar a qualidade de vida da população33,34. Este estudo demonstrou uma prevalência de impactos produzidos em função da utilização de serviços odontológicos por motivo de urgência, resultado homogêneo ao de estudos nacionais e internacionais7,13,14,20,21,23-25. Assim, a atenção direcionada a usuários que têm padrão de visita sintomático poderia diminuir o peso da doença.

Esses resultados podem induzir uma reflexão profunda sobre a necessidade da oferta de próteses removíveis na atenção primária, considerando como este benefício contribui para uma melhor qualidade de vida da população.

Conclusão

Um grande número de funcionários públicos municipais declarou impacto na qualidade de vida devido a problemas bucais.

REFERÊNCIAS

1.  Carvalho SR. As contradições da promoção à saúde em relação à produção de sujeitos e a mudança social. Cien Saude Colet 2004;9(3):669-678.
2.  Minayo MCS, Hartz ZMA, Buss PM. Qualidade de vida e saúde: um debate necessário. Cien Saude Colet 2000;5(1):7-18.
3.  Moreira MMS. Qualidade de Vida: Expressões Subjetivas e Histórico-Sociais. Serviço Social em Revista 2006;9(1).
4.  Locker D, Allen F. What do measures of oral health-related quality of life measure. Community Dent Oral Epidemiol 2007;35(6):401-411.
5.  Locker D, Gibson B. Discrepancies between self-ratings of and satisfaction with oral health in two older populations. Community Dent Oral Epidemiol 2005;33(4):280-288.
6.  Kotzer RD, Lawrence HP, Clovis JB, Matthews DC. Oral health-related quality of life in an aging Canadian population. Health Qual Life Outcomes 2012;10:50-62.
7.  Miotto MHMB, Barcellos LA, Velten DB. Avaliação do impacto na qualidade de vida causado por problemas bucais na população adulta e idosa em município da Região Sudeste. Cien Saude Colet 2012;17(2):397-406.
Biazevic MGH. Indicadores subjetivos em saúde bucal: revisão sistemática [dissertação]. São Paulo: Universidade de São Paulo; 2001.
9.  Feu D, Quintão CCA, Miguel JAM. Indicadores de qualidade de vida e sua importância na Ortodontia. Dental Press J Orthod 2010;15(6):61-70.
10.  Sheiham A, Tsakos G. Avaliando necessidades através da abordagem sócio-odontológica. In: Pinto VG, organizador. Saúde bucal coletiva. 5ª ed. São Paulo: Ed. Santos; 2008. p. 287-316.
11.  Miotto MHMB, Loureiro CA. Efeito das características sociodemográficas sobre a freqüência dos impactos dos problemas de saúde bucal na qualidade de vida. UFES Rev Odontol 2003;5(3):6-14.
12.  Miotto MHMB, Barcellos, LA. Uma revisão sobre o indicador subjetivo de saúde bucal Oral Health Impact Profile OHIP. UFES Rev Odontol 2001;3(1):32-38.
13.  Biazevic MGH, Michel-Crosato E, Iagher F, Pooter CE, Correa SL, Grasel CE. Impact of oral health on quality of life among the elderly population of Joaçaba, Santa Catarina, Brazil. Braz Oral Res 2004;18(1):85-91.
14.  Slade GD, Spencer AJ. Development and evaluation of the Oral Health Impact Profile. Comm Dent Health 1994;11(1):3-11.
15.  Slade GD. Derivation and validation of a short-form oral health impact profile. Community Dent Oral Epidemiol 1997;25(4):284-290.
16.  Oliveira BH, Nadanovsky P. Psyhometric properties of the Brazilian version of the Oral Health Impact Profile-short form. Community Dent Oral Epidemiol 2005;33(4):307-314.
17.  Associação Brasileira de Estudos Populacionais (ABEP). Associação Brasileira dos Institutos de Pesquisa de Mercado (ABIPEME). Critério de Classificação Econômica do Brasil/2008. 2000. [acessado 2009 jun 12]. Disponível em: www.abep.org/codigosguias/criterio_brasil_2008r
18.  Yengprugsawan V, Somkotra S, Seubsman S, Sleigh AC. Oral Health-Related Quality of Life among a large national cohort of 87, 134 Thai adults . Health Qual Life Outcomes 2011; 9:42.
19.  Paula JS, Leite ICG, Almeida AB, Ambrosano GMB, Pereira AC, Mialhe FL. The influence of oral health conditions, socioeconomic status and home environment factors on schoolchildren's self-perception of quality of life. Health Qual Life Outcomes 2012; 10:6.
20.  Chapelin CC, Barcellos LA, Miotto MHMB. Efetividade do tratamento odontológico e redução de impacto na qualidade de vida. UFES Rev Odontol 2008; 10(2):46-51.
21.  Bombarda-Nunes FF, Miotto MHMB, Barcellos LA. Autopercepção de saúde bucal do agente comunitário de saúde de Vitória - ES, Brasil. Pesq Bras Odontoped Clin Integr 2008;8(1):7-14.
22.  Haikal DS, Paula AMB, Martins AMEBL, Moreira AN, Ferreira EF. Autopercepção da saúde bucal e impacto na qualidade de vida do idoso: uma abordagem quanti-qualitativa. Cien Saude Colet 2011;16(7):3317-3329.
23.  Slade GD, Spencer AJ, Locker D. Variations in the social impact of oral conditions among older adults in South Australia, Ontario, and North Carolina. J Dent Res 1996;75(7):1439-1450.
24.  Barcellos LA, Loureiro, CA. O público do serviço odontológico. UFES Rev Odontol 2004;6(2):41-50.
25.  Locker D, Poulton R, Thomson WM. Psychological disorders and dental anxiety in a young adult population. Community Dent Oral Epidemiol 2001;29(6):456-463.
26.  Allegretti ACV, Santos ZVDG. A vida familiar adulta. In: Moysés ST, Kriger L, Moysés SJ, organizadores. Saúde bucal das famílias: trabalhando com evidências. São Paulo: Artes Médicas; 2008. p. 230-235.
27.  Bianco VC, Lopes ES, Borgato MH, Silva PM, Marta SN. O impacto das condições bucais na qualidade de vida de pessoas com cinquenta ou mais anos de vida. Cien Saude Colet 2010;15(4):2165-2172.
28.  Barros AID, Bertoldi AD. Desigualdades na utilização e no acesso a serviços odontológicos: uma avaliação a nível nacional. Cien Saude Colet 2002;7(4):709-717.
29.  Brasil. Ministério da Saúde. Pesquisa Nacional de Saúde Bucal 2010: Nota para a imprensa. [acessado 2012 mar 03]. Disponível em: http://www.idisa.org.br/img/File/saude%20bucal-notaparaimprensa.
30.  Brasil. Ministério da Saúde (MS). Condições de saúde bucal da população brasileira 2002-2003: resultados principais. Brasília: MS; 2005.
31.  Brasil. Ministério da Saúde(MS). Diretrizes da Política Nacional de Saúde Bucal. 2004. [acessado 2010 jun 20]. Disponível em: http://www.saude.ms.gov.br.
32.  Saloto JPS, Miotto MHMB, Barcellos LA. Percepção sobre saúde bucal de usuários dos serviços odontológicos do município de Iúna - ES. UFES Rev Odontolol 2007;9(3):31-36.
33.  Camargo MBJ, Dumith SC, Barros AJD. Uso regular de serviços odontológicos entre adultos: padrões de utilização e tipos de serviços. Cad Saude Publica 2009;25(9):1894-1906.
34.  Locker D, Slade GD. Oral Health and the quality of live among older adults: the oral health impact profile. J Can Dent Assoc 1993;59(10):830-838.
Política de Privacidade © Copyright, Todos os direitos reservados.