Impacto do distúrbio específico de linguagem e do tipo de escola nos diferentes subsistemas da linguagem

Impacto do distúrbio específico de linguagem e do tipo de escola nos diferentes subsistemas da linguagem

Autores:

Marina Leite Puglisi,
Debora Maria Befi-Lopes

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.28 no.4 São Paulo jul./ago. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/2317-1782/20162015242

INTRODUÇÃO

O desenvolvimento da linguagem depende tanto de fatores ambientais quanto genéticos(1). Alguns domínios da linguagem sofrem grande influência da quantidade e qualidade dos estímulos aos quais a criança está exposta(2), enquanto outros dependem mais das características genéticas do indivíduo(3,4). Ainda que haja influências independentes de cada um destes aspectos, a linguagem é uma função mental complexa que se desenvolve principalmente a partir da interação entre os fatores ambientais e genéticos(5,6).

A influência de aspectos ambientais, como o nível socioeconômico (NSE), começou a ser explorada de forma mais sistemática na década de 1990. Hart e Risley foram os primeiros a identificar que a linguagem utilizada por pais de crianças de alto NSE era quantitativa e qualitativamente mais complexa do que a de pais de baixo NSE. Estas diferenças se refletiram diretamente no vocabulário utilizado pelas crianças. Aos 3 anos de idade, aquelas de alto NSE chegaram a produzir aproximadamente 12 milhões de palavras, enquanto as de baixo NSE utilizaram apenas 3 milhões(7).

Desde então, e principalmente na última década, descobriu-se que o ambiente em que a criança vive pode influenciar até mesmo seu desenvolvimento cerebral, afetando diferentes componentes cognitivos e de linguagem(2). Os aspectos da linguagem mais afetados pelo NSE parecem ser aqueles relacionados a habilidades mais globais, como a aquisição do vocabulário(8-10) e a compreensão(11,12). Estes efeitos são muitas vezes mediados pelo ambiente escolar(13) (escolas públicas ou particulares), e sabe-se que o ingresso precoce em pré-escolas de qualidade pode inclusive contribuir para reduzir as diferenças entre os grupos(14). No Brasil, particularmente, o NSE também está relacionado a um menor uso do morfema nominal de número (plural), possivelmente por questões sociolinguísticas. Estudos realizados com crianças de 3 a 6 anos, moradoras em regiões de baixo NSE de São Paulo, indicaram que a aquisição do morfema de número foi a mais difícil(15) e tanto sua compreensão quanto seu uso só foram realmente produtivos a partir dos 5 anos(16).

Em paralelo aos estudos socioeconômicos, muitas pesquisas foram realizadas desde os anos 1980 para compreender casos em que a linguagem não se desenvolve normalmente em virtude de um funcionamento cerebral atípico, como ocorre no Distúrbio Específico de Linguagem (DEL). Estas alterações funcionais (não estruturais) no cérebro sofrem influência genética(17) e levam a importantes alterações da linguagem sem que haja comprometimento de outras áreas do desenvolvimento(18).

As crianças com DEL apresentam, em maior ou menor grau, dificuldades relacionadas a todos os subsistemas da linguagem: fonologia, léxico, gramática e pragmática(18). A despeito da grande heterogeneidade do grupo, há evidências de que as dificuldades morfológicas constituem uma das mais importantes marcas clínicas do DEL. Estas crianças tendem a utilizar as formas não conjugadas – ou conjugadas da maneira mais frequente em sua língua – por um período maior do que as crianças em desenvolvimento normal(19). A quantidade de palavras e morfemas utilizados em suas frases costuma ser equivalente à de crianças até dois anos mais novas(20). Dependendo das características da língua falada pela criança, estas manifestações podem ser mais evidentes na morfologia verbal(19,21), nominal(22,23) ou em ambas(24). As dificuldades gramaticais de crianças com DEL não se restringem apenas à morfologia, mas também se referem à sintaxe. Diversos estudos demonstraram que esta patologia é marcada por dificuldades na atribuição de papéis temáticos, especialmente quando a complexidade sintática é aumentada(25,26).

Há atualmente muitos estudos na literatura que buscaram traçar o perfil de linguagem destes diferentes grupos de crianças. Entretanto, nenhum até o momento explorou a influência dos dois tipos de efeito (ambientais e orgânicos), simultaneamente. Este estudo pretende preencher esta lacuna ao comparar o desempenho de crianças em desenvolvimento típico de linguagem de diferentes ambientes escolares (pública e particular), com o de crianças que foram diagnosticadas com DEL.

Para explorar os efeitos do tipo de escola, foram realizadas comparações entre o desempenho de estudantes de escolas Públicas e Particulares, ambos em desenvolvimento típico de linguagem. Para identificar o impacto do DEL, foram realizadas comparações entre o desempenho de crianças em desenvolvimento típico de linguagem e com DEL, ambas estudantes de escolas Públicas.

Para cada análise, o intuito foi não apenas explorar diferenças quantitativas, mas também as relações entre as diferentes áreas e o padrão de respostas de cada grupo.

MÉTODO

Esta Pesquisa foi aprovada pela Comissão de Ética da Instituição, sob o n° 226/05. Todos os participantes deste estudo tiveram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido assinado por seus pais ou responsáveis.

Participantes

A amostra deste estudo foi constituída por 204 crianças brasileiras de 4 a 6 anos. As crianças foram recrutadas para formar três grupos: 1) 63 crianças em desenvolvimento típico de linguagem, estudantes de escola particular (DTPar); 2) 102 crianças em desenvolvimento típico de linguagem, estudantes de escola pública (DTPub); e 39 crianças com diagnóstico de DEL, estudantes de escola pública (DELPub). Os sujeitos foram pareados por idade em cada grupo.

Os critérios de inclusão para as crianças em desenvolvimento típico (DTPar e DTPub) consistiram em ausência de tratamento fonoaudiológico, psicológico, neurológico e/ou psiquiátrico prévios; ausência de queixas dos pais ou professores acerca do desenvolvimento de linguagem; e desempenho dentro dos valores de referência para a idade na prova de Vocabulário Expressivo – ABFW(27). As crianças do grupo DTPar eram estudantes de escolas particulares na região sul de São Paulo, especificamente em bairros nos quais a maioria da população (48% a 64%) recebe mais de dez salários mínimos per capita(28). As crianças do grupo DTPub foram selecionadas de uma Escola Municipal de Ensino (EMEI) da região oeste de São Paulo. De acordo com os dados do SEADE(28), existe uma grande variação da distribuição de renda nessa região, mas a maior concentração da população (25%) recebe de um e meio a três salários mínimos per capita. Portanto, o tipo de escola (particular ou pública) está fortemente associado a diferenças socioeconômicas (respectivamente médio-alto e médio-baixo níveis socioeconômicos).

O grupo DEL foi constituído por crianças em atendimento no serviço de Fonoaudiologia da Universidade de São Paulo. Este serviço situa-se na mesma região da cidade de São Paulo em que as crianças do grupo DTPub foram recrutadas. Todas as crianças do grupo DELPub apresentaram desempenho abaixo do esperado para a idade em ao menos duas das provas que constituem a bateria de avaliação de linguagem: vocabulário expressivo, vocabulário receptivo, fonologia, produção de verbos, compreensão de adjetivos, compreensão e produção de preposições; e extensão média de enunciado. Todas as crianças tiveram desempenho adequado (M = 82,7) no Primary Test of Nonverbal Intelligence (PTONI), um teste que avalia a inteligência não verbal. Nenhum sujeito deste grupo tinha diagnóstico de alterações auditivas, psiquiátricas e/ou emocionais severas. Para maiores informações sobre o critério de seleção dos sujeitos, ver Puglisi(29).

Material

As crianças foram avaliadas em três medidas de linguagem que avaliam o léxico, a morfologia de número e a compreensão morfossintática. O léxico foi avaliado por meio da prova de Vocabulário Expressivo do teste ABFW(27) (a pontuação pode variar de 0 a 118). As demais provas foram criadas para os propósitos deste estudo. A morfologia de número foi avaliada a partir de uma prova que envolvia o reconhecimento do singular e do plural. A atividade consistia em apontar para a figura correta mediante frases como: “cadê o palhaço?”; “cadê as bailarinas?” (a pontuação pode variar de 0 a 20). As crianças que acertaram simultaneamente ao menos 70% dos itens no singular e 70% dos itens no plural foram classificadas como tendo domínio do morfema de número. A compreensão morfossintática foi avaliada a partir de uma prova que exigia a compreensão simultânea de informações relativas à morfologia de número e ordem das palavras. A atividade consistia em apontar para a figura correta mediante frases como: “os patos bicam a galinha preta”; “os meninos que põem o casaco abraçam a moça”. Todas as sentenças eram reversíveis e a prova continha sentenças de diferentes complexidades sintáticas (a pontuação pode variar de 0 a 40). Os desenhos em cada prancha foram criados de forma a permitir uma análise mais aprofundada sobre o tipo de erro apresentado pelas crianças. Para cada sentença da prova, havia um desenho correto e três incorretos, representando erros morfológicos (morfema de número), sintáticos (ordem das palavras) ou morfossintáticos (morfema de número e ordem das palavras). Para maiores informações sobre as provas utilizadas, ver Puglisi(29).

Procedimentos

As crianças em desenvolvimento típico foram avaliadas individualmente em uma sala silenciosa da escola. As crianças com DEL foram avaliadas individualmente em suas próprias salas de terapia no serviço de Fonoaudiologia da clínica da escola. Todas as crianças realizaram a prova de vocabulário seguida da de compreensão morfossintática e por último a de morfologia de número.

Análise dos dados

Os dados foram analisados por meio do software SPSS Statistics 20.0.

Para testar a existência de diferenças quantitativas entre os grupos para cada prova de linguagem, foram realizadas análises univariadas de variância (ANOVAs). As variáveis dependentes foram as provas de linguagem e a variável independente foi a de grupo.

Para explorar as relações entre as habilidades de linguagem para cada grupo, foram utilizadas diferentes técnicas que buscam testar a correlação ou associação entre variáveis. Inicialmente foram implementadas correlações de Pearson bivariadas e parciais usando as provas de vocabulário, morfologia de número e compreensão morfossintática, além da idade. Para as medidas de interesse a partir do resultado das correlações, foi ainda realizada a curva ROC seguida do teste do Quiquadrado. Finalmente, para analisar o tipo de erro na prova de compreensão de sentenças, foram utilizadas novas correlações de Pearson com as variáveis erros morfológicos, erros sintáticos, erros morfossintáticos e idade.

RESULTADOS

Os resultados descritivos são apresentados na Tabela 1.

Tabela 1 Estatística descritiva. Desempenho das crianças em cada prova de linguagem em função do grupo e idade 

Grupo Idade Vocabulário Morfologia de número Compreensão
Média DP Média DP Média DP
DTPar 4 anos 84,90 9,16 16,43 3,56 23,33 5,16
5 anos 90,43 6,08 17,05 3,65 25,90 5,08
6 anos 94,67 5,21 19,43 0,98 30,81 5,51
DTPub 4 anos 70,44 10,04 11,82 3,12 16,18 3,97
5 anos 81,44 8,14 15,21 4,13 22,41 5,02
6 anos 89,56 5,56 17,71 3,29 24,32 5,46
DELPub 4 anos 45,75 20,52 9,82 2,48 13,42 4,08
5 anos 61,42 20,40 10,75 2,09 16,25 6,27
6 anos 82,40 12,19 13,36 3,75 18,27 4,92

Inicialmente serão apresentados os resultados das análises quantitativas e, em seguida, os achados referentes às correlações e padrões de respostas de cada grupo.

Diferenças quantitativas entre os grupos nas provas de linguagem

A Tabela 2 mostra que houve diferença entre os grupos para todas as provas de linguagem. As análises posthoc (Bonferroni) indicaram que o padrão foi sempre o mesmo para todas as habilidades avaliadas: as crianças do grupo DELPub tiveram um desempenho pior do que as do DTPub (p<0,001), que, por sua vez, tiveram desempenho pior do que as crianças do DTPar (p<0,001).

Tabela 2 Estatística inferencial. Diferenças quantitativas entre os grupos em cada prova de linguagem 

Prova de linguagem gl F Sig. η2 Poder
Vocabulário 2 75,731 0,000 0,440 1,000
Morfologia de número 2 43,552 0,000 0,311 1,000
Compreensão 2 54,725 0,000 0,362 1,000

Legenda: Testes estatísticos utilizado: ANOVAs univariadas

Correlações entre as habilidades lexicais, morfológicas e morfossintáticas

Houve correlações positivas moderadas entre as três provas de linguagem (vocabulário, morfologia de número e compreensão morfossintática), para todos os grupos. Como o padrão de correlações foi exatamente o mesmo para os grupos, optamos por apresentar as correlações para a amostra total, a fim de aumentar o poder estatístico e a confiabilidade das análises (Tabela 3).

Tabela 3 Correlações entre as provas de linguagem e idade para a amostra total 

Correlações Pearson Vocabulário Morfologia de número Compreensão
Morfologia de número 0,575**
Compreensão 0,671** 0,647**
Idade 0,504** 0,407** 0,430**

Legenda: Foram realizadas correlações com a amostra total porque o padrão de cada grupo foi exatamente o mesmo

**Correlações significantes a p<0,001

Considerando que todas as medidas de linguagem apresentaram moderada correlação com a idade, buscamos explorar se eventualmente as correlações significantes poderiam ser espúrias, ou seja, fruto de relações indiretas (e não diretas) entre as variáveis. Para isso, realizamos correlações parciais entre as três provas de linguagem, controlando pelo efeito da idade. Os resultados indicam que todas as correlações permaneceram significantes (p < 0,001) e com força moderada (vocabulário e morfologia: r = 0,478; vocabulário e compreensão: r = 0,595; morfologia e compreensão: r = 0,571). Já o contrário (correlações entre cada medida de linguagem e a idade, controlando pelas demais provas de linguagem) foi verdadeiro apenas para o vocabulário. Quando as correlações entre idade e vocabulário foram controladas pelo desempenho nas demais provas, os resultados permaneceram significantes a p < 0,001 (r = 0,275). Mas, quando as correlações entre idade e morfologia e idade e compreensão foram controladas pelo desempenho nas outras provas de linguagem, os resultados se tornaram marginalmente significantes ou não significantes (respectivamente, idade e morfologia: r = 0,168; idade e compreensão: r = 0,079). A combinação destes resultados indica que 1) houve correlação direta e positiva entre vocabulário, morfologia e compreensão morfossintática, e 2) a idade apresentou correlação direta apenas com o vocabulário. Ou seja, para morfologia e compreensão morfossintática, houve maior correlação com o vocabulário do que com a idade.

Considerando estes resultados, buscamos compreender se poderia haver um vocabulário mínimo necessário para que a criança passasse a dominar o morfema de número, independentemente de sua idade ou grupo. Para isso, realizamos uma curva ROC tendo vocabulário expressivo como a variável contínua e o domínio do morfema de número como a variável binária. A curva ROC demonstrou índices satisfatórios (área = 0,839, erro padrão = 0,028, p < 0,001). Observamos que, para esta amostra, o ponto de corte de 83,5 no vocabulário indicou sensibilidade e especificidade de 77,1% e 76,3%, respectivamente. Utilizamos então este ponto de corte para classificar o vocabulário das crianças em “suficiente” e “insuficiente”, e implementamos uma análise do Quiquadrado para testar a associação entre vocabulário e morfologia, a partir deste critério. Conforme esperado, houve associação estatisticamente significante entre o domínio do vocabulário e o domínio do morfema de número (χ2=57,63, gl=1, p<0,001), o que pode ser ilustrado pelo Figura 1.

Legenda: A linha horizontal representa o ponto de corte gerado pela curva ROC. É possível observar visualmente que a maioria das crianças acima da linha de corte domina o morfema de número, enquanto a maioria abaixo da linha não domina

Figura 1 Domínio do morfema de número em função do vocabulário e idade, usando o critério gerado pela curva ROC 

Correlações entre os tipos de erros na prova de compreensão morfossintática e a idade, para cada grupo

Diferentemente das análises anteriores, observamos neste caso diferenças entre os padrões de respostas dos grupos, o que justifica a apresentação separada dos resultados (Tabela 4). O padrão comum demonstrado pelas correlações de Pearson indica que quanto maior a idade, menor a quantidade de erros sintáticos e morfossintáticos, para todos os grupos (correlações negativas moderadas). Entretanto, para os erros morfológicos – que demonstram uma falha na identificação do singular e do plural durante a compreensão de sentenças – houve uma tendência diferente para cada grupo. Não houve correlação significante entre estes erros e a idade para o grupo DTPub, e houve um padrão inverso para as crianças do grupo DELPub (um aumento da quantidade de erros morfológicos em função da idade).

Tabela 4 Correlações entre os erros na prova de compreensão e a idade, para cada grupo 

Correlações Pearson Idade
DTPar DTPub DELPub
Erros morfológicos -0,494** -00,184 0,576**
Erros sintáticos -0,376* -0,454** -0,694**
Erros morfológicos e sintáticos -0,500** -0,528** -0,458*

*Correlações significantes a p<0,01;

**Correlações significantes a p<0,001

DISCUSSÃO

Este estudo teve o objetivo de explorar os efeitos do tipo de escola e do DEL sobre diferentes habilidades de linguagem, tanto do ponto de vista quantitativo quanto qualitativo.

O primeiro achado deste estudo indicou que as crianças de escola pública tiveram um pior desempenho do que as crianças de escola particular para todas as medidas analisadas, e as crianças com DEL foram piores do que os dois grupos em desenvolvimento típico. Este achado reforça a presença tanto do efeito de tipo de escola(13) quanto do DEL(18) para todos os subsistemas da linguagem.

Este é um achado interessante pois indica que todos os subsistemas da linguagem foram susceptíveis tanto a questões ambientais (efeito tipo de escola) quanto orgânicas (efeito DEL). É importante pontuar, entretanto, que analisamos neste estudo apenas a morfologia nominal de número, e não outros morfemas nominais e verbais. No Brasil, existe uma grande variação linguística particularmente relacionada ao uso do plural em diferentes grupos socioecômicos e culturais(15,16). Se tivéssemos utilizado outras variações morfológicas menos relacionadas a aspectos sociolinguísticos, é possível que os efeitos do tipo de escola (DTPub < DTPar) tivessem sido menores para a prova de morfologia. Isso porque as dificuldades morfológicas costumam ser consideradas uma marca clínica do DEL(19,20) e não deveriam sofrer tanto a influência do ambiente escolar. As dificuldades lexicais e de compreensão, ao contrário, são encontradas amplamente tanto nas crianças com DEL(25,26) quanto em crianças provenientes de baixo nível socioeconômico(11,12). Desta forma, futuros estudos são necessários para investigar se crianças de escolas públicas apresentam de fato dificuldades para identificar outros morfemas nominais e verbais, além do morfema de número.

Quanto às relações entre as diferentes habilidades de linguagem para cada grupo, identificamos que todos os grupos apresentaram o mesmo padrão. Houve correlação positiva moderada entre as três medidas de linguagem (vocabulário, morfologia de número e compreensão morfossintática), mesmo quando a influência da idade foi controlada. A idade foi apenas correlacionada de forma significativa ao vocabulário, após o controle das outras variáveis. A combinação destes achados sugere duas interpretações complementares. Em primeiro lugar, quanto maior a idade da criança, maior seu vocabulário. Isso está de acordo com uma série de estudos sobre o desenvolvimento de linguagem que demonstram um aumento do vocabulário em função da idade para todos os grupos estudados, ainda que possa haver diferenças entre a velocidade de aquisição lexical(1,5,7,10). Em segundo lugar, as habilidades morfológicas e morfossintáticas dependem mais do crescimento do vocabulário do que da idade. Mais do que isso, identificamos que foi necessário um vocabulário mínimo, em torno de 83 acertos na prova do ABFW, para que as crianças conseguissem dominar o morfema de número consistentemente. Estes achados são consistentes com a visão de que o desenvolvimento morfológico depende de um vocabulário suficiente para que a criança comece a analisar os subcomponentes das palavras(18). Estas relações foram as mesmas tanto para as crianças em desenvolvimento típico, de escolas públicas e particulares, quanto para as crianças com DEL.

Já a análise dos erros na prova de compreensão morfossintática evidenciou um padrão parcialmente distinto entre os grupos, mais especificamente para os erros morfológicos. Esperava-se que a quantidade de todos os erros na prova de compreensão diminuísse em função da idade. Embora isso tenha se aplicado aos erros sintáticos e morfossintáticos, houve um aumento dos erros morfológicos no grupo DELPub com o aumento da idade. Este achado é inicialmente incompreensível considerando que as crianças mais velhas tinham melhores habilidades morfológicas do que as crianças mais novas da amostra. No entanto, a análise mais detalhada demonstra que este aumento da quantidade dos erros morfológicos no grupo DEL foi reflexo de uma melhora qualitativa das respostas. Aos 4 anos, as crianças do grupo DELPub apresentaram todos os tipos de erros em quantidades parecidas, enquanto as crianças em desenvolvimento típico já cometiam principalmente erros morfológicos. A diferença que se nota com a idade para os grupos em desenvolvimento típico é apenas quantitativa: os erros continuam prioritariamente morfológicos, mas diminuem em ocorrência. Já para o grupo DELPub, a grande mudança é qualitativa: eles passam de um padrão praticamente aleatório de respostas, com ocorrência de todos os tipos de erros, para um padrão mais sistemático semelhante ao encontrado no desenvolvimento típico (maior número de erros morfológicos).

Este padrão desviante de respostas é compatível com a noção de que o desenvolvimento de linguagem das crianças com DEL não é apenas atrasado, mas muitas vezes idiossincrático, refletindo padrões atípicos de especialização cerebral(18,30). Os padrões desviantes no DEL ocorrem principalmente em tarefas com grandes demandas de processamento linguístico(18), como é o caso da prova de compreensão morfossintática. Com o aumento da idade e a melhora das habilidades de linguagem das crianças desta amostra, estas demandas linguísticas possivelmente diminuíram, e as crianças com DEL passaram a apresentar um padrão de respostas semelhante ao encontrado no desenvolvimento típico – embora ainda quantitativamente distinto.

Os resultados deste estudo contribuem para o entendimento dos efeitos do tipo de escola sobre determinados aspectos do desenvolvimento de linguagem e ajudam a entender em que extensão estes efeitos se diferem do DEL. Mais estudos na área são necessários para cobrir uma faixa etária mais extensa (incluindo a primeira infância) e explorar estes efeitos sobre outras medidas de linguagem.

CONCLUSÃO

Este estudo demonstrou que todos os subsistemas da linguagem foram susceptíveis tanto a questões ambientais (efeito tipo de escola) quanto orgânicas (efeito DEL), sendo as dificuldades das crianças com DEL sempre mais acentuadas do que as dos demais grupos. As relações entre as medidas de linguagem foram exatamente as mesmas para todos os grupos, indicando que o aumento do vocabulário ocorreu em função da idade e se mostrou associado ao desenvolvimento das habilidades morfológicas e de compreensão morfossintática. As crianças com DEL apresentaram erros atípicos na prova de compreensão aos 4 anos, mas passaram a apresentar um padrão de erros semelhante ao do desenvolvimento típico com o aumento da idade.

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