Incidência de Arritmias Ventriculares após Terapia Celular em Pacientes com Cardiomiopatia Chagásica

Incidência de Arritmias Ventriculares após Terapia Celular em Pacientes com Cardiomiopatia Chagásica

Autores:

Adriana Sebba Barroso de Souza,
Weimar Kunz Sebba Barroso Souza,
Sandra Araujo Costa,
Elis Marra de Moreira Freitas,
Gustavo Carvalho,
Luís Antônio Batista Sá,
Salvador Rassi

ARTIGO ORIGINAL

Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.102 no.5 São Paulo maio 2014 Epub 09-Maio-2014

https://doi.org/10.5935/abc.20140053

RESUMO

Fundamento:

O tratamento com células-tronco nas diversas cardiomiopatias pode estar relacionado ao aumento nas arritmias.

Objetivos:

Determinar se a injeção intracoronária de células-tronco em portadores de cardiomiopatia chagásica está associada ao aumento da incidência de arritmias ventriculares, comparado ao Grupo Controle.

Métodos:

Estudo de coorte retrospectivo, que avaliou o prontuário de 60 pacientes que participaram de estudo transversal anterior. Foram coletados os seguintes dados: idade, sexo, medicamentos utilizados e variáveis do Holter, que demonstraram presença de arritmia complexa. O Holter foi realizado em quatro momentos: randomização, 2, 6 e 12 meses de seguimento. O Grupo Controle recebeu tratamento medicamentoso e injeção intracoronaria de placebo e o Grupo Estudo tratamento medicamentoso e implante autólogo de células-tronco.

Resultados:

Não houve diferença entre os Grupos Controle e Estudo nos critérios de arritmia analisados. Na análise intragrupo, foi encontrada diferença com significância entre os exames de Holter do Grupo Estudo na variável total de extrassístoles ventriculares comparada à basal, sendo entre de p = 0,014 entre Holter na randomização e Holter aos 2 meses, p = 0,004 entre Holter na randomização e Holter aos 6 meses, e p = 0,014 entre Holter na randomização e Holter aos 12 meses. A variável taquicardia ventricular não sustentada entre Holter na randomização e Holter aos 6 meses apresentou p = 0,036.

Conclusão:

A injeção intracoronária de células-tronco não aumentou a incidência de arritmia ventricular complexa em pacientes com cardiomiopatia chagásica, comparada ao Grupo Controle.

Palavras-Chave: Arritmias Cardíacas; Transplante de Células-Tronco; Cardiomiopatia Chagásica

ABSTRACT

Background:

Treatment with stem cells in several cardiomyopathies may be related to the increase in arrhythmias.

Objectives:

To determine whether intracoronary injection of stem cells in patients with Chagas cardiomyopathy is associated with increased incidence of ventricular arrhythmias, compared to the Control Group.

Methods:

A retrospective cohort study that evaluated the medical records of 60 patients who participated in a previous cross-sectional study. The following data were collected: age, gender, drugs used and Holter variables that demonstrated the presence of arrhythmias. Holter was performed in four stages: randomization, 2, 6 and 12 months segments. The Control Group received medical treatment and intracoronary injection of placebo and the Study Group had drug treatment and autologous stem cell implant.

Results:

There was no difference between Control Group and Study Group when analyzing the arrhythmia criteria. In the intra-group analysis, significant difference was found between the Holter tests of the Study Group for the variable total ventricular premature beats when compared with baseline, with p = 0.014 between Holter at randomization and Holter at 2 months, p = 0.004 between Holter at randomization and Holter at 6 months, and p = 0.014 between Holter at randomization and Holter at 12 months. The variable non-sustained ventricular tachycardia between Holter at randomization and Holter at 6 months showed p = 0.036.

Conclusion:

The intracoronary injection of stem cells did not increase the incidence of ventricular arrhythmias in patients with Chagas cardiomyopathy compared to the Control Group.

Key words: Arrhythmias; Cardiac; Stem Cell Transplantation; Chagas Cardiomyopathy

Introdução

Nas últimas décadas, a Insuficiência Cardíaca (IC) emergiu como problema de saúde pública. Kannel, a partir de estudos epidemiológicos obtidos no Framinghan Heart Study, estimou que, nos Estados Unidos, existam 5 milhões de portadores de IC, com aproximadamente 400 mil novos casos por ano. No Brasil, presume-se que o problema tenha a mesma magnitude1.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), ainda que a transmissão vetorial tenha sido interrompida em países como Brasil, Chile e Uruguai, a prevalência de doentes com cardiopatia chagásica crônica foi estimada entre 18 e 20 milhões de indivíduos na América Latina, com 300 mil novos casos a cada ano, e 50 mil mortes anuais associados à doença2.

A despeito do impacto amplamente favorável com as novas drogas para o tratamento da IC, essa progride e o prognóstico dos pacientes permanece reservado e com reduzida Qualidade de Vida e sobrevida. Assim, existe um enorme interesse e necessidade de se buscarem novas alternativas terapêuticas que venham proporcionar efeitos benéficos na evolução desses pacientes3.

Dos novos procedimentos terapêuticos um dos mais promissores parece ser a terapia celular.

No Brasil, estudos preliminares, com inclusão de número limitado de pacientes, demonstraram que a utilização de células-tronco da medula óssea é segura e potencialmente efetiva em pacientes com IC4 , 5.

As células-tronco apresentam um potencial intrínseco para arritmia, principalmente relacionada à sua falta comum de integração eletromecânica no miocárdio destinatário, sendo também importante reconhecer que os pacientes elegíveis para terapia de substituição de células são propensos a desenvolver arritmias devido à doença cardíaca de base6.

O estudo de Satsuki Fukushima forneceu evidências experimentais de que a injeção intramiocárdica direta de células-tronco da medula óssea pode induzir a arritmias ventriculares graves nos primeiros 14 dias após a injeção intramiocárdica em modelos insuficiência cardíaca crônica7.

O objetivo deste trabalho foi comparar a frequência de arritmia ventricular entre um grupo de pacientes que recebeu injeção intracoronariana de células-tronco com um grupo controle.

Métodos

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás, com protocolo número 179/2011.

Trata-se de uma análise retrospectiva de uma coorte de pacientes participantes de um ensaio clínico prospectivo, duplo-cego e randomizado incluídos no Estudo Multicêntrico Randomizado de Terapia Celular em Cardiopatias (EMRTCC) - braço cardiopatia chagásica, realizado no Serviço de Insuficiência Cardíaca do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás.

A amostra foi constituída por 60 pacientes incluídos no referido protocolo no período de abril de 2006 a novembro de 2009 e que tiveram seguimento de pelo menos 1 ano a partir da randomização. Esta foi uma amostra de conveniência. Os critérios de inclusão foram: ter sido incluído no estudo e ter realizado os exames de Holter durante o período de acompanhamento. Os pacientes foram divididos em dois grupos de forma duplo-cega: o Grupo Controle (GC) recebeu tratamento medicamentoso adequado e otimizado para IC e injeção intracoronária de placebo; o Grupo Estudo (GE) recebeu, além do tratamento medicamentoso adequado, o implante autólogo de células-tronco derivado de aspirado de medula óssea. Randomizaram-se 34 pacientes no GE e 26 no GC. A coleta dos dados foi realizada no período de janeiro a julho de 2012 por meio do prontuário médico. Essa randomização foi feita pelo estudo EMRTCC a nível nacional, o que justifica o fato de que, no Serviço de Insuficiência Cardíaca do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás, os grupos tenham ficado com amostras diferentes.

Foram coletados dados referentes à idade (em anos); sexo (masculino ou feminino); óbito (sim ou não); medicamentos utilizados (bloqueador do sistema renina-angiotensina, digitálicos, inibidor da enzima conversora de angiotensina, espironolactona, diuréticos, amiodarona, betabloqueadores); o número e a viabilidade das células-tronco usadas para o transplante.

A presença de arritmia foi avaliada a partir do Holter. Os exames de Holter foram realizados na randomização (basal − Holter 1) e aos 2 (Holter 2), 6 (Holter 3) e 12 (Holter 4) meses de seguimento. Os critérios avaliados no Holter foram o total de batimentos, de extrassístoles ventriculares, de extrassístoles supraventriculares, total de Taquicardia Ventricular Não Sustentada (TVNS), e de episódios de Taquicardia Ventricular Sustentada (TVS). Foi considerada como TVNS a presença de três ou mais batimentos ventriculares ectópicos consecutivos em um intervalo de 30 segundos, com frequência cardíaca acima de cem batimentos por minuto, enquanto TVS foi considerada a presença de batimentos ventriculares ectópicos por um período maior que 30 segundos ou que causasse instabilidade hemodinâmica em qualquer intervalo de tempo com frequência cardíaca acima de cem batimentos por minuto. Para efeito do estudo, foi considerado arritmia ventricular um aumento na incidência no total de TVNS e episódios de TVS.

Análise estatística

Os dados foram digitados no software Excel para Windows e analisados por meio do Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) nas versões 17.0 e 19.0.

A idade foi apresentada em média e desvio padrão e o sexo em frequência absoluta e relativa.

O teste de Fisher foi utilizado para comparar a frequência de utilização de medicamentos entre GE e o GC.

Após aplicação do teste de Kolmogorov-Smirnov para as variáveis quantitativas obtidas no Holter, foram realizados o teste de t de Student, para as variáveis com distribuição normal, e o teste de Mann Whitney, para aquelas com distribuição não normal. Esses testes foram utilizados para comparação entre grupos.

Para comparar as variáveis do Holter em diferentes momentos intragrupo, utilizou-se o teste t de Student ou Wilcoxon, para a escolha a distribuição dos dados. O teste de Wilcoxon foi usado na comparação das porcentagens dos achados em relação ao total de batimentos das variáveis: salvas de TVNS e total de episódios de TVS, em relação ao Holter em diferentes momentos intragrupos, para verificar a existência ou não de diferença significativa entre os Holter.

Para todas as análises, foi fixado o nível de 95% de confiança, ou seja, considerou-se p < 0,05 como significativo.

Resultados

Os pacientes incluídos, apresentavam a média de faixa etária de 50,7 ± 9,6 anos, sendo 70% (42) do sexo masculino e 30% (18) do sexo feminino. Ocorreram dez óbitos no GE e nove no GC durante os 12 meses de acompanhamento.

A viabilidade das células-tronco foi de 98% nos dois grupos. A quantidade de células no GC foi, em média, de 2,75 x 108 e, no GE, 2,62 x 108. Não houve diferença significativa entre os grupos.

Os dados do Holter foram apresentados na Tabela 1, também não havendo diferença entre os grupos com relação às variáveis que demonstraram presença de arritmia nos exames de Holter em nenhum dos momentos (randomização, 2 meses, 6 meses e 12 meses de seguimento).

Tabela 1 Apresentação das variáveis obtidas por melo do Holter realizado na randomização (Holter 1), 2 meses (Holter 2), 6 meses (Holter 3) e 12 meses (Holter 4) de seguimento no estudo, n = 60, Goiânia, Goiás, 2010 

Variável Grupo Estudo Grupo Controle Valor de p
Holter 1 (n = 34) (n = 26)  
Total de batimentos 81.209,33 ± 17.417,57 86.343,54 ± 17.474,21 0,189
Total de extrassistoles ventriculares 2.685,18 ± 3.052,48 2.640,06 ± 3.412,12 0,435
Total de extrassistoles supraventriculares 926,77 ± 3.659,93 2.330,33 ± 9.875,09 0,514
TVNS 5,15 ± 12,02 3,79 ± 5,68 0,744
Total de episódios de TVS 0,00 ± 0,0 0,0 ± 0,0 -
Holter 2 (n = 32) (n = 26)  
Total de batimentos 89.474,62 ± 10.906,01 88.457,09 ± 20.175,04 0,994
Total de extrassistoles ventriculares 3.764,00 ± 5.313,65 3.611,22 ± 4.549,22 0,478
Total de extrassistoles supraventriculares 1.363,07 ± 4.609,85 457,41 ± 1.703,04 0,994
TVNS 29,92 ± 135,33 14,77 ± 33,31 0,456
Total de episódios de TVS 0,0 ± 0,0 0,0 ± 0,0 -
Holter 3 (n = 28) (n = 21)  
Total de batimentos 92.394,25 ± 11.519,21 94.715,06 ± 19.856,30 0,836
Total de extrassistoles ventriculares 4.817,48 ± 6.152,71 5.072,41 ± 7.508,33 0,379
Total de extrassistoles supraventriculares 1.893,07 ± 5.341,60 2.580,45 ± 9.623,00 0,809
TVNS 30,11 ± 135,37 24,12 ± 56,53 0,956
Total de episódios de TVS 2,11 ± 10,96 0,0 ± 0,0 0,277
Holter 4 (n = 26) (n = 16)  
Total de batimentos 96.965,00 ± 10.386,72 91.487,25 ± 16.403,77 0,255
Total de extrassistoles ventriculares 9.713,17 ± 1.8607,40 4.234,29 ± 4.010,05 0,459
Total de extrassistoles supraventriculares 1.480,58 ± 2.957,37 2.477,79 ± 8.422,73 0,862
TVNS 19,17 ± 36,47 2,25 ± 4,59 0,117
Total de episódios de TVS 0,12 ± 0,61 0,0 ± 0,0 0,400

Teste de Mann-Whitney; p < 0,05. TVNS: taquicardia ventricular não sustentada; TVS: taquicardia ventricular sustentada.

Quando comparado o Holter 1 (randomização) aos demais, no GE, houve diferença significativa entre o total de extrassístoles ventriculares em todas as comparações, diferença no total de batimentos e TVNS entre os exames de Holter 1 e 3 (Tabela 2).

Tabela 2 Comparação entre os exames de Holter realizados no Grupo Estudo durante os 12 meses de seguimento, n = 60, Goiânia, Goiás, 2010 

Variável Total de batimentos* Total de extrassistoles ventriculares** Salvas de TVNS** Total de episódios de TVS**
Holter 1 vs. Holter 2 0,524 0,014*** 0,070 1,000
Holter 1 vs. Holter 3 0,024*** 0,004*** 0,036*** 0,317
Holter 1 vs. Holter 4 0,083 0,014*** 0,375 0,102

*Foi usado o teste Student;

**No total de batimentos e teste Wilcoxon;

***no total de extrassistoles ventriculares TVNS e episódios TVS e encontro significância p < 0.05 nos itens

Holter 1: realizado na randomização; Holter 2: realizado com 2 meses de seguimento; Holter 3: realizado com 6 meses de seguimento; Holter 4: realizado com 12 meses de seguimento. TVNS: taquicardia ventricular não sustentada; TVS: taquicardia ventricular sustentada.

A mesma análise foi realizada no GC (Tabela 3), porém sem apresentar significância estatística.

Tabela 3 Comparação entre os exames de Holter realizados no Grupo Controle durante os 12 meses de seguimento, n = 60, Goiânia, Goiás, 2010 

Variável Total de batimentos* Total de extrassistoles ventriculares** Salvas de TVNS** Total de episódios de TVS**
Holter 1 vs. Holter 2 0,026*** 0,239 0,984 1,000
Holter 1 vs. Holter 3 0,014*** 0,161 0,975 0,317
Holter 1 vs. Holter 4 0,015*** 0,128 0,061 1,000

*Foi usado o teste Student;

**No total de batimentos e teste Wilcoxon;

***no total de extrassistoles ventriculares TVNS e episódios TVS e encontro significância p < 0.05 nos itens

Holter 1: realizado na randomização; Holter 2: realizado com 2 meses de seguimento; Holter 3: realizado com 6 meses de seguimento; Holter 4: realizado com 12 meses de seguimento. TVNS: taquicardia ventricular não sustentada; TVS: taquicardia ventricular sustentada.

Foi realizada uma avaliação estatística no GE com as variáveis TVNS e TVS de forma percentual em relação ao total de batimentos do Holter, a qual não apresentou significância na análise intragrupo (Tabela 4). Essa avaliação foi realizada devido à observação de que o número total de batimentos, assim como a TVNS, teve aumento nos exames de Holter de seguimento.

Tabela 4 Teste de comparação das variáveis taquicardia ventricular não sustentada (TVNS) e taquicardia ventricular sustentada (TVS) de forma percentual nos exames de Holter com 2 meses, 6 meses e 12 meses de seguimento, n = 60, Goiânia, Goiás, 2010 

Comparação Controle Pesquisa
Salvas de TVNS (p) Total de episódios TVS (p) Salvas de TVNS (p) Total de episódios TVS (p)
Holter 1 vs. Holter 2 0,904 1,000 0,286 1,000
Holter 1 vs. Holter 3 0,796 0,317 0,198 1,000
Holter 1 vs. Holter 4 0,753 1,000 0,381 0,317

Teste Wilcoxon; p < 0,05. Holter 1: realizado na randomização; Holter 2: realizado com 2 meses de seguimento; Holter 3: realizado com 6 meses de seguimento; Holter 4: realizado com 12 meses de seguimento.

Não houve diferença estatística quanto às medicações para o tratamento da IC utilizadas pelos pacientes nos dois grupos, no momento da randomização (Tabela 5).

Tabela 5 Análise dos medicamentos em uso pelos pacientes no momento da randomização, n = 60, Goiânia, Goiás, 2010 

Variável Grupo Estudo (n = 34) n (%) Grupo Controle (n = 26) n (%) Valor de p
BRA 7 (25,9) 10 (30,3) 0,212
Digitálicos 14 (51,9) 14 (42,4) 0,158
IECA 8 (29,6) 10 (30,3) 0,222
Espironolactona 19 (70,4) 21 (63,6) 0,188
Diuréticos 19 (70,4) 25 (75,8) 0,206
Amiodarona 10 (37,0) 11 (33,3) 0,204
Betabloqueadores 2 (7,4) 12 (36,4) 0,171

Fonte: prontuário dos pacientes. Teste Fisher. BRA: bloqueador do sistema renina-angiotensina; IECA: inibidor da enzima conversora da angiotensina.

Discussão

No presente estudo, não foi encontrado aumento do número de extrassístoles ventriculares isoladas, quando comparado com GC, em concordância com estudos de Vilas Boas e cols.4 , 8. Os estudos de Vilas Boas e cols.4 , 8 apresentaram pacientes com perfil semelhante ao nosso. Foram estudados 28 pacientes chagásicos em classe funcional III e IV do New York Heart Association (NYHA). Vilas Boas e cols.4 , 8, tal qual este estudo, avaliaram pacientes com cardiomiopatia em estágio avançado e comprovaram a segurança quanto à gênese de arritmias nesse grupo de pacientes.

Dentro do GE, que recebeu as células-tronco, é possível perceber aumento na densidade de extrassístoles ventriculares, ao comparar o Holter basal com os realizados posteriormente com 2, 6 e 12 meses de seguimento, tendo essa diferença significado estatístico. De tal modo, é possível ponderar que houve aumento na incidência de extrassístole ventricular quando comparada com o basal do próprio grupo. Em discordância com o estudo HEBE9 realizado na Holanda, que avaliou 200 pacientes isquêmicos que receberam a terapia celular e infusão de células-tronco dentro de 12 horas do evento isquêmico, com excelente perfil de segurança, o presente estudo não apresentou eventos de arritmia grave.

Quando se analisou a presença de TVNS comparando com o basal do próprio GE, observou-se diferença entre Holter 1 e o Holter 3 com significância estatística. Tal fato está em desacordo com o estudo multicêntrico randomizado STAR-HEART10, que analisou 191 pacientes com miocardiopatia isquêmica e que, em seu seguimento, apresentaram melhora da arritmia naqueles tratados com célula-tronco.

Na análise de dados TVNS e TVS, de forma percentual em relação ao total de batimentos, ficou claro que esse aumento foi de forma proporcional e sem significância estatística, tal qual como nos estudos multicêntricos BOOST11 e TOPCARE-AMI12, que avaliaram pacientes com miocardiopatia isquêmica e não encontraram aumento no número de eventos de arritmias ventriculares.

A terapia com células-tronco tem sido usada em várias cardiopatias diferentes com um bom perfil de segurança13.

Conclusão

A insuficiência cardíaca crônica é progressiva, apesar do tratamento farmacológico intensivo, e permanece como uma doença grave em todo mundo. Por conseguinte, são necessários regimes de tratamento que, em adição ao convencional, possam melhorar a Qualidade de Vida, e aumentar o desempenho ventricular e a sobrevida.

O tratamento com células de medula óssea não cura a doença de Chagas, mas tenta reparar os danos causados durante anos ou até décadas de agressão ao miocárdio.

Nossos dados sugerem que o transplante de células-tronco da medula óssea para o miocárdio de pacientes com Insuficiência Cardíaca de etiologia chagásica, com insuficiência cardíaca classes III e IV, não apresentou aumento na incidência de taquicardia ventricular sustentada, mas apresentou aumento de taquicardia ventricular não sustentada entre Holter na randomização e no Holter aos 6 meses no Grupo Estudo, bem como aumentou a densidade de EV extrassístoles ventriculares no Grupo Estudo. Na análise percentual, não houve aumento significativo de taquicardia ventricular não sustentada e nem de taquicardia ventricular sustentada.

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