Influência do grau de escolaridade no teste de Identificação de Sentenças Dicóticas em Português Brasileiro

Influência do grau de escolaridade no teste de Identificação de Sentenças Dicóticas em Português Brasileiro

Autores:

Adriana Neves de Andrade,
Mariane Richetto da Silva,
Maria Cecilia Martinelli Iorio,
Daniela Gil

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.27 no.5 São Paulo set./out. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/2317-1782/20152014205

INTRODUÇÃO

A avaliação comportamental do processamento auditivo é realizada com testes auditivos especiais elaborados para inferir sobre o desempenho dos indivíduos em situações adversas de escuta. O bom desempenho nessas situações podem refletir a integridade dos mecanismos fisiológicos auditivos, que por sua vez, são fundamentais no processamento acústico da informação auditiva, na percepção da fala, no aprendizado e na compreensão da linguagem1.

Os estudos realizados para a investigação das habilidades auditivas centrais identificaram que os testes auditivos podem sofrer influência de alguns fatores, entre os quais, destacam-se o comprometimento auditivo periférico2 3 4, idade3 4 5, o grau de escolaridade e recursos cognitivos6, dominância manual7, habilidades de atenção sustentada8 e processamento linguístico.

Para tentar minimizar o impacto de algumas dessas variáveis, vários testes auditivos foram concebidos, dentre eles, o teste de identificação de sentenças dicóticas (DSI)2. O teste DSI é um teste de escuta dicótica de alta redundância e previsibilidade, que foi elaborado com o intuito de avaliar indivíduos com perda auditiva periférica. O DSI possui três versões: inglês2, inglês australiano9e português brasileiro10.

Os testes especiais são utilizados para investigar as habilidades auditivas, e quando ocorre uma dificuldade em realizar esses procedimentos, pode-se dizer que há um distúrbio de processamento auditivo (DPA). O DPA pode surgir como uma entidade única ou coexistir com outras alterações, tais como os distúrbios de aprendizagem, cujo acometimento das habilidades para o aprendizado não se restringe apenas às habilidades auditivas11.

Atualmente, a maioria dos testes auditivos utilizados para a avaliação do processamento auditivo apresenta critérios de normalidade estabelecidos para a idade edominância manual12. No entanto, como o nível educacional pode influenciar diretamente os resultados obtidos nesses testes, faz-se necessária uma análise criteriosa segundo essa variável. Sendo assim, o objetivo deste estudo foi comparar o desempenho na versão em português brasileiro do teste DSI entre: as orelhas direita e esquerda, e o grau de escolaridade em indivíduos audiologicamente normais.

MÉTODOS

Este estudo foi analisado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa sob o n° 0322/07 e recebeu apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).Os indivíduos foram voluntários, recrutados para a participação da pesquisa a partir de folhetos, divulgação na web e/ou convite verbal dos pesquisadores. Para a participação na pesquisa foram elencados os seguintes critérios de inclusão: faixa etária entre 13 e 49 anos de idade, ambos os gêneros, leitura fluente independente do grau de escolaridade, preferência manual direita (pontuação no teste de dominância manual de Edinburgh13 14≥50), limiares auditivos tonais até 25 dBNA em todas as frequências sonoras avaliadas (250 a 8000 Hz), curva timpanométrica do tipo A (valores de compliância entre 0,3 e 1,6 ml e pico de pressão entre ±100 daPa), presença de reflexos acústicos estapedianos contralaterais (diferença entre 70 e 90 dB), adequação nos testes de localização sonora (4/5 acertos), memória para sons verbais e não verbais em sequência (2/3 acertos) e dicótico de dígitos (≥95% de acertos). Foram excluídos os indivíduos que apresentaram dificuldades de leitura, pontuação <50 pontos no teste de dominância manual de Edinburgh13 14, perda auditiva, alteração na mobilidade tímpano ossicular e/ou nos testes para avaliação do processamento auditivo.

Participaram da pesquisa 200 indivíduos (adolescentes e adultos jovens), destros, normouvintes, pareados por genêro (100 homens e 100 mulheres), na faixa etária de 13 a 49 anos de idade (média de idade de 29,7 anos), habitantes da região metropolitana de São Paulo - SP.

Todos os sujeitos responderam questões referentes ao nível de instrução formal, e a partir destas informações foram distribuídos em sete grupos considerando os anos de escolaridade concluídos: 3 a 7 anos (n=14), 8 anos (n=10), 9 a 10 anos (n=10), 11 anos (n=42), 12 a 15 anos (n=64), 16 anos (n=36), 17 anos ou mais (n=24). Essa distribuição dos grupos foi realizada segundo o modelo metodológico adotado pelo IBGE para a realização do censo demográfico brasileiro15.

Após estes procedimentos, o teste DSI10foi aplicado a 50 dBNS, em quatro situações: treino, integração binaural, escuta direcionada direita e escuta direcionada esquerda.

Em todas as etapas do teste, o sujeito avaliado ouviu duas frases simultâneas, uma em cada orelha. Para as etapas de integração binaural (treino e integração binaural), o indivíduo foi solicitado a apontar ambas as frases apresentadas, para as etapas de escuta direcionada (direita e esquerda) o sujeito deveria apontar apenas a sentença apresentada na orelha que deveria prestar atenção.

A aplicação do DSI foi realizada em cabina acústica, utilizando os seguintes equipamentos: audiômetro da marca Grason-Stadler modelo GSI-61, fones supra-aurais modelo TDH-50P e discman com MP3 modelo Expanium da marca Philips volume 30.

Para a análise estatística dos resultados foram utilizados como instrumentos: Minitab versão 15, SPSS versão 11 e adotado o teste de hipótese com nível de significância de 0,05. Os resultados foram analisados com medidas descritivas e análise inferencial (análise de covariância e variância com medidas repetidas, coeficiente de correlação de Spearman , teste de Kruskal-Wallis e método de Bonferroni ).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os indivíduos do estudo apresentaram médias de idade e escolaridade de 29,7 anos e 13,1 anos, respectivamente. A análise de covariância, realizada no teste DSI, apontou que a escolaridade apresentou relação de dependência com a diferença entre as porcentagens médias de acertos em cada etapa do teste (p=0,000*) e com a orelha avaliada (p=0,009*). Houve correlação positiva estatisticamente significante entre a escolaridade e a porcentagem de acertos para todas as etapas do teste DSI, nas orelhas direita e esquerda (Tabela 1).

Tabela 1: Correlação entre escolaridade e porcentagem de acertos no teste DSI por orelha 

Legenda: OD = Orelha Direita; OE = Orelha Esquerda

A curva lowess apresentou uma configuração ascendente com inclinação mais íngreme na orelha esquerda e as porcentagens de acertos aumentaram com o aumento do grau de escolaridade (Figuras 1, 2 e 3).

Figura 1: Diagramas de dispersão das porcentagens de acertos no treino por orelha e grau de escolaridade 

Figura 2: Diagramas de dispersão das porcentagens de acertos na integração binaural por orelha e grau de escolaridade 

Figura 3: Diagramas de dispersão das porcentagens de acertos na escuta direcionada por orelha e grau de escolaridade 

A diferença de desempenho encontrada entre as orelhas direita e esquerda na aplicação de testes de escuta dicótica, pode ocorrer devido à influência dos núcleos do tronco encefálico na regulação eferente de outras estruturas corticais altas. Durante a apresentação dicótica de um sinal de fala, os sinais projetados para o hemisfério não dominante são parcialmente degradados pelos circuitos do hemisfério dominante16, demonstrando assim as diferenças hemisféricas funcionais17 existentes.

Houve efeito de interação entre as etapas do teste e orelha segundo a escolaridade para os graus de escolaridade de 8 anos, 11 anos e 12 a 15 anos (Tabela 2).

Tabela 2: Valores de p obtidos na comparação entre as etapas do teste e orelhas por grau de escolaridade 

ANCOVA com medidas repetidas

A ausência de significância entre a etapa do teste e orelha nos sujeitos com maior nível educacional leva a crer que indivíduos com alto grau de letramento utilizam de maneira mais eficiente os recursos de memória e habilidades cognitivas. Sendo assim, a boa percepção do sinal de fala, independentemente da etapa do teste, seria o resultado da recepção, armazenamento e recuperação da informação auditiva apresentada18.

Os indivíduos, em média, apresentaram menor desempenho na etapa do treino seguidos da integração binaural e da etapa de escuta direcionada. Além disso, houve efeito, estatisticamente significante, dos graus de escolaridade nos resultados obtidos na etapa do treino e de integração binaural para as orelhas direita e esquerda e na etapa de escuta direcionada apenas na orelha esquerda (Tabela 3).

Tabela 3: Valores de p obtidos na comparação dos efeitos de grau de escolaridade nos resultados de etapa do teste em cada orelha 

Teste de Kruskal-Wallis

O elevado desempenho nas etapas de escuta direcionada nos testes de escuta dicótica, quando comparadas à etapa de integração binaural, foi reportado anteriormente19. Os estudos demonstraram que as dificuldades observadas nas etapas de integração binaural, em testes de escuta dicótica, podem ocorrer devido às alterações nas habilidades atencionais e/ou de memória operacional20. A influência do nível educacional no desempenho do teste já era prevista, pois em geral, indivíduos com elevado grau de escolaridade ocupam altos níveis profissionais que demandam uso extensivo da atenção e de outros processos cognitivos e essa demanda no processamento da informação poderia também ser refletida nas habilidades auditivas.

Embora o processamento auditivo seja amplamente estudado em crianças, adolescentes e adultos com sensibilidade auditiva adequada e queixas na percepção auditiva1, verifica-se a escassez de estudos que abordam a relação entre o desempenho dos indivíduos e o nível de instrução, sobretudo em adultos.

No contexto desta lacuna, e observando evidências indiretas sobre indivíduos com dificuldades escolares, distúrbio de aprendizagem21e alteração de processamento auditivo, o presente estudo, ao utilizar valores de referência elaborados para o DSI, a partir do grau de escolaridade, pretende contribuir na detecção de inabilidades auditivas em indivíduos com diferentes níveis de instrução e queixas de dificuldade de processamento da informação auditiva. Pesquisas futuras, com enfoque no desempenho de acordo com o grau de escolaridade, com os testes já utilizados na prática clínica devem ser realizadas a fim de tornar a avaliação comportamental do processamento auditivo mais sensível para detectar pequenas alterações no processamento das informações auditivas, mesmo em indivíduos com alto grau de letramento. Por outro lado, o estabelecimento de critérios de normalidade considerando o nível de escolaridade pode também beneficiar indivíduos com baixo nível de escolaridade que poderão ter o seu processamento auditivo avaliado sem influência dessa variável.

CONCLUSÃO

Na comparação do desempenho considerando as variáveis estudadas no teste DSI pôde-se concluir que, há vantagem da orelha direita e quanto maior o nível educacional, melhor o desempenho dos indivíduos.

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