Ingestão de bateria: uma causa incomum de mediastinite

Ingestão de bateria: uma causa incomum de mediastinite

Autores:

Rosana Souza Rodrigues,
Fátima Aparecida Ferreira Figueiredo,
César Augusto Amorim,
Gláucia Zanetti,
Edson Marchiori

ARTIGO ORIGINAL

Jornal Brasileiro de Pneumologia

versão impressa ISSN 1806-3713

J. bras. pneumol. vol.40 no.5 São Paulo set./out. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S1806-37132014000500016

Ao Editor:

Um menino de 18 meses de idade, apresentando tosse seca e febre, foi levado ao serviço de emergência. A mãe relatava início dos sintomas há cerca de 3 dias. Negava náuseas, vômitos, recusa em comer e outros sintomas. Ao exame físico, não foi observada nenhuma alteração.

Radiografias de tórax demonstraram a presença de um objeto redondo e opaco alojado no esôfago superior. A identificação de uma sombra radiopaca circular com dupla borda periférica ou efeito auréola na radiografia em incidência anteroposterior (AP; Figura 1A) e de uma sombra em declive na radiografia em perfil (Figura 1B) permitiu o diagnóstico de ingestão de bateria botão (BB).

Figura 1 Em A, radiografia de tórax em incidência anteroposterior revelando uma sombra radiopaca circular com dupla borda periférica ou efeito auréola, e, em B, radiografia em perfil mostrando uma sombra em declive, o que permitiu o diagnóstico de bateria botão alojada no esôfago. 

A esofagoscopia mostrou a presença de uma BB de lítio corroída de 20 mm de diâmetro alojada no esôfago, com lesão corrosiva da mucosa. O corpo estranho foi removido 80 h após a ingestão. A TC mostrou focos de material com alta densidade localizados posteriormente à traqueia (restos de corpo estranho) e sinais de perfuração esofágica e mediastinite (Figura 2).

Figura 2 TC mostrando alargamento do mediastino superior com áreas de baixa atenuação em torno da traqueia e das artérias supra-aórticas e veias, bem como gás extraluminal e fragmentos metálicos (restos de corpo estranho), sugestivos de perfuração esofágica e mediastinite. 

Realizada consulta cirúrgica imediata, decidiu-se por tratamento conservador (observação, antibióticos e alimentação por sonda nasogástrica). Após 30 dias de internação, a esofagoscopia de controle demonstrou fechamento completo da lesão, sem nenhum sinal de estenose.

Uma BB alojada no esôfago pode causar graves danos teciduais e complicações tardias, como perfuração esofágica, fístulas traqueoesofágicas, mediastinite e óbito.( 1 - 4 ) Diagnósticos errôneos ocorrem com frequência quando as baterias ingeridas são erroneamente identificadas nas radiografias como sendo outros objetos, especialmente moedas. Porém, existem diferenças sutis nas características radiográficas das BB e das moedas. Uma auréola de densidade reduzida se faz presente em torno da circunferência de uma BB (dupla borda ou efeito auréola) na radiografia em incidência AP, e uma imagem em declive pode ser observada na radiografia em perfil.

Uma bateria alojada no esôfago deve ser tratada como emergência médica em razão de sua rápida ação corrosiva; uma BB pode causar queimaduras graves em apenas duas horas.( 1 - 4 ) Pacientes com bateria no esôfago podem ser assintomáticos inicialmente. Prefere-se a remoção endoscópica porque ela permite a visualização direta da lesão tecidual.( 1 )

REFERÊNCIAS

1. Litovitz T, Whitaker N, Clark L, White NC, Marsolek M. Emerging battery-ingestion hazard: clinical implications. Pediatrics 2010;125(6):1168-77.
2. Bernstein JM, Burrows SA, Saunders MW. Lodged oesophageal button battery masquerading as a coin: an unusual cause of bilateral vocal cord paralysis. Emerg Med J. 2007;24(3):e15.
3. Soccorso G, Grossman O, Martinelli M, Marven SS, Patel K, Thomson M, et al. 20 mm lithium button battery causing an oesophageal perforation in a toddler: lessons in diagnosis and treatment. Arch Dis Child. 2012;97(8):746-7.
4. Litovitz T, Whitaker N, Clark L. Preventing battery ingestions: an analysis of 8648 cases. Pediatrics. 2010;125(6):1178-83.
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