Inhalation of surgical smoke: cohort of signs and symptoms in residents

Inhalation of surgical smoke: cohort of signs and symptoms in residents

Autores:

Nathanye Crystal Stanganelli,
Aryane Apolinario Bieniek,
Amanda Salles Margatho,
Maria José Quina Galdino,
Karoline Hyppolito Barbosa,
Renata Perfeito Ribeiro

ARTIGO ORIGINAL

Acta Paulista de Enfermagem

Print version ISSN 0103-2100On-line version ISSN 1982-0194

Acta paul. enferm. vol.32 no.4 São Paulo July/Aug. 2019 Epub Aug 12, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/1982-0194201900053

Resumen

Objetivo

analizar las señales y síntomas presentados por médicos residentes de clínica quirúrgica y anestesiología expuestos al humo quirúrgico.

Métodos

estudio de cohorte prospectivo realizado con médicos residentes expuestos al humo quirúrgico en un hospital universitario. Hubo un seguimiento durante 17 meses de los residentes que ingresaron en 2015 y 2016, que cumplían los criterios de estar regularmente matriculados en la residencia de clínica quirúrgica o anestesiología y no ser fumadores. El instrumento de recolección de datos fue compuesto por datos sociodemográficos y académicos y por señales y síntomas relacionados con la inhalación de humo quirúrgico, citados en la literatura. El análisis de datos se realizó de forma descriptiva e inferencial, por pruebas estadística y medidas de efecto.

Resultados

la muestra fue compuesta por 39 residentes, cuya mayoría era de sexo masculino (56,4%) y menores de 30 años (74,3%). Prevalecieron residentes de ginecología y obstetricia (30,8%), seguidos de cirugía general (28,2%) y anestesiología (20,5%). Ardor de faringe (p=0,030), náuseas y vómitos (p=0,018) e irritación de ojos (p=0,050) incidieron en el primer año de residencia. El riesgo de desarrollar ardor de faringe fue 7,765 veces (p=0,019) en el sexo femenino con relación al masculino.

Conclusión

las señales y síntomas analizados incidieron hasta 12 meses desde el inicio de la residencia y el riesgo de presentar ardor de faringe fue mayor en el sexo femenino, lo que indica una exposición a los riesgos de inhalación de humo quirúrgico y, por lo tanto, la necesidad de adoptar medidas de protección individuales y colectivas.

Palabras-clave: Humo, Electrocirugia; Signos y sintomas; Riesgos laborales; Cuerpo médico de hospitales; Quirófanos

Introdução

O uso do eletrocautério diminui o tempo cirúrgico e sangramento, facilitando a visualização do campo operatório.1 Por outro lado, a combustão incompleta da cauterização de tecidos e vasos sanguíneos, gera a fumaça cirúrgica composta por vapor de água, resíduos de tecidos, compostos biológicos e químicos que podem ser carcinogênicos.2,3

Entre os compostos biológicos, estudos demonstraram a presença de DNA viral da Hepatite B e o Papiloma Vírus Humano na fumaça cirúrgica, porém não foi confirmada a viabilidade desses agentes para o desenvolvimento de doenças nos trabalhadores expostos a essa fumaça.4-6

A composição química da fumaça é influenciada pelo tecido no qual a energia é dispersada e o tempo de exposição à cauterização.7,8Todavia, em geral, ela é composta de substâncias, como hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPA),9,10 formaldeídos, cianeto de hidrogênio, benzeno, monóxido de carbono e nitrilas,5,8,11 sendo o benzeno e o cianeto os principais responsáveis pela característica mutagênica e/ou carcinogênica,8,11 e o furfural e o estireno, os que podem causar danos ao sistema nervoso central.12

Trabalhadores que atuam nas salas operatórias estão expostos aos riscos que esta fumaça representa e esses danos acumulados durante a vida.5A fumaça cirúrgica é rapidamente dispersada nas salas operatórias após a sua formação, sendo que na altura respiratória dos cirurgiões, a concentração de HPA pode ser de 40 a 100 vezes maior que no restante do ambiente.13

Apesar dos agravos à longo prazo serem o objeto dos estudos, a fumaça cirúrgica também possui efeitos a curto prazo, assim, a incidência de uma sintomatologia relacionada à sua exposição está descrita na literatura como: sensação de corpo estranho na garganta, congestão nasal, ardência na faringe, náuseas,1 vômitos, cefaleia, irritação dos olhos e de outras mucosas, espirros, fraqueza, tontura e inflamações crônicas do trato respiratório, como asma e bronquite.8

Médicos residentes das especialidades cirúrgicas e de anestesiologia estão em treinamento e permanecem grande parte das horas dedicadas a prática da residência nas salas operatórias, sendo expostos aos riscos inerentes a inalação da fumaça cirúrgica, assim como, os trabalhadores que atuam nessa área.

Médicos residentes das clínicas cirúrgicas expostos a fumaça cirúrgica apresentavam maior prevalência de sinais e sintomas respiratórios como: sensação de corpo estranho na garganta, ardência na faringe, náuseas e congestão nasal.1 Em outro estudo com enfermeiras e médicos constatou maior prevalência de cefaleia, irritação dos olhos, tosse e ardência na garganta, além da percepção do mau cheiro que a fumaça cirúrgica deixava nas salas operatórias.14

A fumaça cirúrgica atua de forma acumulativa no organismo humano,5 portanto, há necessidade de realizar pesquisas longitudinais prospectivas que acompanhem estes trabalhadores, para determinar a incidência de sinais e sintomas e subsidiar o planejamento de intervenções para prevenção dos riscos à saúde destes profissionais, advindos da exposição da fumaça cirúrgica.

Diante do exposto, o objetivo deste estudo foi analisar os sinais e sintomas apresentados por médicos residentes das clínicas cirúrgicas e anestesiologia expostos à fumaça cirúrgica.

Métodos

Trata-se de um estudo de coorte prospectivo realizado em um hospital universitário do Sul do Brasil, que presta assistência à saúde de média e alta complexidade. Neste hospital são ofertadas anualmente 88 vagas de residência médica profissional, das quais 32 são para clínicas cirúrgicas.

A população do estudo foi composta de residentes de medicina, que atendiam aos critérios de inclusão: estar regularmente matriculado no curso de residência médica nos anos de 2015 e 2016, realizar atividades no centro cirúrgico e utilizar o eletrocautério nos atos anestésicos cirúrgicos. Foram excluídos os tabagistas, pelo motivo de que o cigarro apresenta composição semelhante à da fumaça cirúrgica,15 o que poderia ser um fator de confundimento.

Dos 64 residentes integrantes da população de estudo, após aplicados os critérios de elegibilidade, 39 se tornaram elegíveis para este estudo, conforme mostra a figura 1.

Figura 1 *Anestesiologia (n=5); Cirurgia geral (n=8); Cirurgia pediátrica (n=1); Cirurgia Vascular (n=1); Ginecologia (n=8); Neurocirurgia (n=1); Oftalmolologia (n=3); Ortopedia (n=3); Otorrinolaringologia (n=2); Urologia (n=1); **Anestesiologia (n=4); Cirurgia geral (n=8); Cirurgia Vascular (n=1); Ginecologia (n=8); Neurocirurgia (n=1); Oftalmolologia (n=3); Ortopedia (n=3); Otorrinolaringologia (n=2); Urologia (n=1). Esquema de obtenção da amostra analisada 

O recrutamento dos participantes da pesquisa foi realizado em dois momentos: no primeiro foram convidados os residentes ingressantes no ano de 2015, que foram orientados sobre os objetivos e métodos de estudo e convidados a fazer parte da pesquisa e os que aceitavam participar, assinavam o termo de consentimento livre e esclarecido. No segundo momento, o mesmo procedimento foi adotado para os ingressantes do ano letivo de 2016. As medições foram realizadas a cada três meses durante o seguimento dos residentes, ou seja, primeira medição (T0) coincidiu com três meses de início do curso; a segunda (T1), seis meses; a terceira (T2), nove meses; a quarta (T3), doze meses; a quinta (T4), quinze meses; a sexta (T5), dezoito meses; e a sétima (T6), 24 meses, que coincide com a finalização da residência médica. Assim, ambos grupos foram acompanhados por 17 meses, sendo que os residentes de 2015 no período de junho de 2015 a fevereiro de 2017 e os ingressantes de 2016, seguidos de junho de 2016 a fevereiro de 2018.

A coleta de dados foi realizada de forma individual com uso de um formulário construído e aplicado pelas próprias pesquisadoras com os seguintes dados sociodemográficos: idade (em anos) sexo (masculino e feminino), tempo formação (em anos) e especialidade (anestesiologia, cirurgia geral, cirurgia pediátrica, ginecologia e obstetrícia, ortopedia, otorrinolaringologia e neurologia). Para análise dos dados, a idade foi categorizada em ≤ 30 anos e ≥ 31 anos, o tempo de formação em ≤3 anos e ≥4 anos e a especialidade em cirurgiões e anestesistas. Este instrumento ainda continha os sinais e sintomas que a literatura relaciona à exposição a fumaça cirúrgica:1,8 sensação de corpo estranho na garganta (sim e não), congestão nasal (sim e não), ardência na faringe (sim e não), náuseas (sim e não), vômitos (sim e não), cefaleia (sim e não), irritação dos olhos (sim e não) e de outras mucosas (sim e não), espirros (sim e não), fraqueza (sim e não) e tontura (sim e não).

A análise dos dados foi realizada no Statistical Package of Social Sciences (SPSS), versão 20.0, por estatística descritiva, em que se utilizou frequências absolutas e relativas; e inferencial, com testes estatísticos e medidas de efeito. As incidências dos sinais e sintomas durante o seguimento foram comparadas pelo teste Q de Cochran, considerando T0, T3 e T6, visto que ocorreram dados missing nas medições de T2, T4 e T5. A associação entre as variáveis dependentes (sensação de corpo estranho na garganta, ardência na faringe, congestão nasal, náuseas e vômitos, cefaleia, irritação dos olhos e de outras mucosas, espirros, fraqueza e tontura) e as variáveis independentes (sexo, faixa etária, tempo de formado e especialidade) foram verificadas pelo teste exato de Fisher e o risco relativo, com respectivo intervalo de confiança de 95%, foi calculado como medida de efeito. Em todas as análises adotou-se p<0,05 como significância estatística.

O estudo atendeu aos critérios éticos em pesquisa envolvendo seres humanos, aprovado sob o número do Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE): 46229915.0.0000.5231.

Resultados

A amostra foi composta por 39 residentes, em sua maioria do sexo masculino (56,4%), com 30 anos ou menos (74,3%) e tempo de formação menor que três anos (71,8%). De acordo com as especialidades, 30,8% dos residentes representa a ginecologia e obstetrícia, cirurgia geral, 28,2%, anestesiologia, 20,5% e outras clínicas como ortopedia, cirurgia pediátrica, otorrinolaringologia e neurologia, 20,5%.

Na tabela 1 apresenta-se a incidência de sinais e sintomas apresentados pelos residentes expostos à fumaça cirúrgica durante os 17 meses de seguimento. Verificou-se que a incidência de ardência na faringe, náusea e vômito e irritação dos olhos ocorreram até o final do primeiro ano de residência.

Tabela 1 Incidência de sinais e sintomas apresentados por residentes de clínicas cirúrgicas e anestesiologia expostos a fumaça cirúrgica 

Sinais e Sintomas Seguimento p-value**
T0 (3 meses)* T3 (12 meses)* T6 (24 meses)*
n(%) n(%) n(%)
Sensação de corpo estranho na garganta 4(10,3) 3(7,7) 0(0) 0,156
Ardência de faringe 1(2,6) 5(12,8) 0(0) 0,030
Náusea e vômito 4(10,3) 0(0) 0(0) 0,018
Congestão nasal 6(15,4) 5(12,8) 1(2,6) 0,148
Cefaleia 7(17,9) 2(5,1) 3(7,7) 0,174
Irritação dos olhos 6(15,4) 6(15,4) 0(0) 0,050
Irritação de outras mucosas 5(12,8) 1(2,6) 1(2,6) 0,102
Espirros 4(10,3) 2(5,1) 1(2,6) 0,368
Tontura 2(5,1) 1(2,6) 2(5,1) 0,368
Fraqueza 0(0) 1(2,6) 0(0) 0,368

*tempo na residência; **Teste Q de Cochran

De acordo com a tabela 2, o risco de desenvolver ardência de faringe foi 7,765 vezes maior no sexo feminino, em comparação ao masculino. Os demais sinais e sintomas não apresentaram significância estatística com as características analisadas.

Tabela 2 Associação dos sinais e sintomas apresentados por residentes de clínicas cirúrgicas e anestesiologia expostos a fumaça cirúrgica com características sociodemográficas e ocupacionais 

Variáveis Sinais e Sintomas p-value* Risco Relativo (Intervalo de Confiança de 95%)
Não Sim
Sensação de corpo estranho na garganta
Idade ≤30 anos 25(86,2) 4(13,8) 0,490 0,690(0,148-3,210)
≥31 anos 8(80,0) 2(20,0)
Sexo feminino 14(82,4) 3(17,6) 0,535 1,294(0,298-5,627)
masculino 19(86,4) 3(13,6)
Tempo de formado ≤3 anos 23(82,1) 5(17,9) 0,447 1,964(0,258-14,965)
≥4 anos 10(90,9) 1(9,1)
Especialidade Cirurgiões 27(87,1) 4(12,9) 0,358 0,516(0,114-2,334)
Anestesistas 6(75,0) 2(25,0)
Ardência de faringe
Idade ≤30 anos 24(82,8) 5(17,2) 0,590 0,862(0,197-3,764)
≥31 anos 8(80,0) 2(20,0)
Sexo feminino 11(64,7) 6(35,3) 0,019 7,765(1,030-58,543)
masculino 21(95,5) 1(4,5)
Tempo de formado ≤3 anos 21(75,0) 7(25,0) 0,077 **
≥4 anos 11(100,0) 0(0,0)
Especialidade Cirurgiões 24(77,4) 7(22,6) 0,171 **
Anestesistas 8(100,0) 0(0,0)
Náusea e/ou vômito
Idade ≤30 anos 24(82,8) 5(17,2) 0,206 **
≥31 anos 10(100,0) 0(0,0)
Sexo feminino 14(82,4) 3(17,6) 0,375 1,941(0,364-10,348)
masculino 20(90,9) 2(9,1)
Tempo de formado ≤3 anos 24(85,7) 4(14,3) 0,562 1,571(0,197-12,545)
≥4 anos 10(90,9) 1(9,1)
Especialidade Cirurgiões 28(90,3) 3(9,7) 0,268 0,387(0,077-1,940)
Anestesistas 6(75,0) 2(25,0)
Congestão nasal
Idade ≤30 anos 21(72,4) 8(27,6) 0,493 1,379(0,350-5,443)
≥31 anos 8(80,0) 2(20,0)
Sexo feminino 14(82,4) 3(17,6) 0,265 0,555(0,168-1,833)
masculino 15(68,2) 7(31,8)
Tempo de formado ≤3 anos 20(71,4) 8(28,6) 0,409 1,571(0,394-6,269)
≥4 anos 9(81,8) 2(18,2)
Especialidade Cirurgiões 24(77,4) 7(22,6) 0,329 0,602(0,199-1,821)
Anestesistas 5(62,5) 3(37,5)
Cefaleia
Idade ≤30 anos 18(62,1) 11(37,9) 0,264 1,897(0,505-7,129)
≥31 anos 8(80,0) 2(20,0)
Sexo feminino 11(64,7) 6(35,3) 0,543 1,109(0,456-2,696)
masculino 15(68,2) 7(31,8)
Tempo de formado ≤3 anos 20(71,4) 8(28,6) 0,262 0,629(0,263-1,505)
≥4 anos 6(54,5) 5(45,5)
Especialidade Cirurgiões 23(74,2) 8(25,8) 0,064 0,413(0,185-0,921)
Anestesistas 3(37,5) 5(62,5)
Irritação dos olhos
Idade ≤30 anos 18(62,1) 11(37,9) 0,264 1,897(0,505-7,129)
≥31 anos 8(80,0) 2(20,0)
Sexo feminino 11(64,7) 6(35,3) 0,543 1,109(0,456-2,696)
masculino 15(68,2) 7(31,8)
Tempo de formado ≤3 anos 17(60,7) 11(39,3) 0,191 2,161(0,568-8,215)
≥4 anos 9(81,8) 2(18,2)
Especialidade Cirurgiões 21(67,7) 10(32,3) 0,544 0,860(0,307-2,409)
Anestesistas 5(62,5) 3(37,5)
Irritação de outras mucosas
Idade ≤30 anos 23(79,3) 6(20,7) 0,410 2,069(0,282-15,155)
≥31 anos 9(90,0) 1(10,0)
Sexo feminino 14(82,4) 3(17,6) 0,650 0,971(0,250-3,769)
masculino 18(81,8) 4(18,2)
Tempo de formado ≤3 anos 21(75,0) 7(25,0) 0,077 **
≥4 anos 11(100,0) 0(0,0)
Especialidade Cirurgiões 24(77,4) 7(22,6) 0,171 **
Anestesistas 8(100,0) 0(0,0)
Espirros
Idade ≤30 anos 23(79,3) 6(20,7) 0,410 2,069(0,282-15,155)
≥31 anos 9(90,0) 1(10,0)
Sexo feminino 15(88,2) 2(11,8) 0,326 0,518(0,114-2,350)
masculino 17(77,3) 5(22,7)
Tempo de formado ≤3 anos 22(78,6) 6(21,4) 0,346 2,357(0,319-17,397)
≥4 anos 10(90,9) 1(9,1)
Especialidade Cirurgiões 27(87,1) 4(12,9) 0,137 0,344(0,096-1,237)
Anestesistas 5(62,5) 3(37,5)
Fraqueza
Idade ≤30 anos 29(100,0) 0(0,0) 0,256 **
≥31 anos 9(90,0) 1(10,0)
Sexo feminino 17(100,0) 0(0,0) 0,564 1,048(0,956-1,148)
masculino 21(95,5) 1(4,5)
Tempo de formado ≤3 anos 28(100,0) 0(0,0) 0,282 **
≥4 anos 10(90,9) 1(9,1)
Especialidade Cirurgiões 31(100,0) 0(0,0) 0,205 **
Anestesistas 7(87,5) 1(12,5)
Tontura
Idade ≤30 anos 25(86,2) 4(13,8) 0,289 **
≥31 anos 10(100,0) 0(0,0)
Sexo feminino 15(88,2) 2(11,8) 0,593 1,294(0,202-8,271)
masculino 20(90,9) 2(9,1)
Tempo de formado ≤3 anos 25(89,3) 3(10,7) 0,687 1,179(0,137-10,149)
≥4 anos 10(90,9) 1(9,1)
Especialidade Cirurgiões 28(90,3) 3(9,7) 0,617 0,774(0,092-6,486)
Anestesistas 7(87,5) 1(12,5)

*teste Exato de Fisher; **não calculado devido à uma das caselas ser igual a zero

Discussão

Em relação às características sociodemográficas apresentadas pelos participantes deste estudo, o sexo predominante foi o masculino com 56,4% o que também foi encontrado em um estudo transversal realizado com 50 residentes, que verificou que 86% dos residentes eram do sexo masculino.1 Em relação à idade, a maioria (74,3%) estava abaixo dos 30 anos. No mesmo estudo transversal, a média da idade foi de 27 anos, com o intervalo de 26 a 28 anos.1

Os sintomas mais incidentes neste estudo foram irritação nos olhos, ardência de faringe e náusea e vômito. Porém, na literatura, a maior prevalência é de sensação de corpo estranho na garganta (58%), seguido da ardência de faringe (22%).1

Em um estudo transversal realizado na Turquia com 45 enfermeiras, circulantes e instrumentadoras, e 36 médicos, sendo eles cirurgiões e anestesistas que trabalham em centro cirúrgico, aponta que os médicos referiram ter cefaleia (58,3%), lacrimejamento dos olhos (41,7%), tosse (27,8%), irritação da garganta (38,9%), náusea (30,6%) seguido de sonolência, tontura e espirro (25%) e as enfermeiras, cefaleia (48,9%), lacrimejamento dos olhos (40%), tosse (48,9%), irritação da garganta (40%) e náusea (44,4%).14Diferente do que é apresentado neste coorte, no primeiro ano de residência, ardência de faringe, náusea, vômito e irritação dos olhos foram os sinais e sintomas que incidiram ainda no primeiro ano de exposição, com significância estatística.

Apesar da amostra deste estudo ser predominantemente masculina, é possível verificar que o risco de desenvolver ardência de faringe foi 7,765 vezes maior em indivíduos do sexo feminino em relação ao masculino. Porém, não há outros estudos que apresentem achados comparativos. Encontra-se na literatura que o sexo feminino apresenta mais náusea e tosse que aqueles do sexo masculino.15

Os compostos responsáveis pelo surgimento de sinais e sintomas como a irritação dos olhos são acetaldeído, acroleína, decano, furfural, tolueno e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos como o naftaleno. No caso de náusea e vomito o monóxido de carbono é o responsável por este sinal e sintoma, que em curto prazo as acrilonitrilas são responsáveis pela liberação de cianeto, decano e furfural. A irritação de faringe é citada como sintoma causado por ciclohexanona, decano, furfural, naftaleno, estireno, tolueno e xileno.7

As partículas formadas durante a utilização do eletrocautério são de aproximadamente 0,07 mícrons e representam maior risco para os pacientes e equipe cirúrgica, pois, devido ao seu tamanho, podem penetrar os pulmões causando inflamações crônicas.16

Existem medidas preventivas para diminuir a exposição ao risco químico, sendo recomendado que as salas operatórias estejam equipadas com sistemas de ventilação adequados e aspiradores para a retirada da fumaça cirúrgica, além do uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) pelos trabalhadores, como: máscara com filtragem de 95% das partículas (N95) e óculos com proteção.17

As máscaras cirúrgicas que são padronizadas como EPI nas salas operatórias,18 são responsáveis por proteger a equipe de gotículas e fluídos biológicos, e proteção dos instrumentais e de cavidade exposta dos microrganismos presentes na equipe. Todavia, não filtram pequenas partículas e, portanto, não são efetivas para proteção dos profissionais expostos a fumaça cirúrgica produzida pelo eletrocautério.16 Neste estudo há incidência de sintomas que podem ser causados pela inalação da fumaça cirúrgica, principalmente, devido a sua composição química, com partículas de 0,07 mícrons, considerados assim, como aerossóis.16 Portanto, a máscara cirúrgica, mesmo que recomendada, não é eficaz, para a proteção da equipe cirúrgica diante do risco químico da fumaça cirúrgica.

Os trabalhadores ao entrarem em uma sala operatória para um procedimento cirúrgico que utiliza a radiação, se paramentam com a vestimenta de chumbo, todavia, neste estudo, diante da exposição à fumaça cirúrgica, presente na maioria dos procedimentos, não utilizam a proteção adequada. Esse fato pode ocorrer por falta de conhecimento dos riscos químicos aos quais estão expostos os trabalhadores quando submetidos à inalação da fumaça cirúrgica. Assim, sugere-se que futuros estudos, analisem os aspectos que influenciam a tomada de decisão do trabalhador na adesão a medidas de proteção individual.

Apesar das recomendações citadas anteriormente, a incorporação de dispositivos para a proteção da exposição à fumaça cirúrgica ainda é precária, pois os trabalhadores referem incômodo relacionado ao ruído produzido pelo aparelho e ao uso da máscara.19,20

Como limitações do estudo, cita-se a ausência do controle de variáveis, tais como, doenças respiratórias crônicas preexistentes, tempo de exposição à fumaça e número de procedimentos cirúrgicos. Além disso, não havia dois pareamentos para cada caso com características semelhantes para fazer o grupo controle e a primeira medição em T0 não pode ser realizada no primeiro dia de ingresso da residência, porque a pesquisadora também começou a sua residência junto com os residentes participantes do estudo, sendo necessários três meses para a organização da pesquisa e a aprovação no comitê de ética em pesquisa. Ainda, a quantidade amostral pequena e local não possibilita a generalização dos resultados.

Sugere-se que estudos futuros sejam realizados ampliando a amostra, a inclusão do grupo controle e novos estudos com toda a equipe exposta a fumaça cirúrgica, incluindo trabalhadores da enfermagem que estão expostos à esse risco de modo rotineiro e, muitas vezes, em jornadas duplas de trabalho, bem como, estudos que testem a eficácia dos métodos de proteção recomendados pela literatura.

Apesar desses limites, este estudo é pioneiro no país no seguimento de residentes com este objetivo e identificou a incidência de sinais e sintomas relacionados a fumaça cirúrgica ainda no primeiro ano do curso. Essas informações ratificam a importância de traçar estratégias para prevenir os riscos oriundos da fumaça cirúrgica à saúde dos expostos.

Conclusão

Todos os sinais e sintomas analisados incidiram em até 12 meses do início da residência. Em relação aos fatores associados, o risco de desenvolver ardência de faringe foi 7,765 vezes maior no sexo feminino e os demais sinais e sintomas não apresentaram significância estatística em relação às características analisadas. Este estudo mostra que os trabalhadores de centro cirúrgico estão expostos aos riscos inerentes a inalação da fumaça cirúrgica, apontando a necessidade emergente da adoção de medidas de proteção com o uso de dispositivos de proteção como a máscara N95 e os evacuadores de fumaça cirúrgica. Desta forma, todos os trabalhadores que participam dos procedimentos cirúrgicos, devem buscar conhecimento sobre o assunto e fazer uso dos equipamentos de proteção individual, para a ocorrência de menores efeitos danosos em sua saúde.

REFERÊNCIAS

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