Inovação, qualidade e quantidade: escolha dois

Inovação, qualidade e quantidade: escolha dois

Autores:

Cláudia Medina Coeli,
Marilia Sá Carvalho,
Luciana Dias de Lima

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0102-311Xversão On-line ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.32 no.1 Rio de Janeiro 2016 Epub 16-Fev-2016

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311XED010116

Inovação, qualidade e quantidade são atributos importantes na avaliação da produção científica de pesquisadores, grupos de pesquisa e programas de pós-graduação. Alcançar excelência simultaneamente nas três dimensões é impraticável. Uma produção científica inovadora e de qualidade não será volumosa, uma vez que novas ideias demandam tempo para serem adequadamente testadas. Por outro lado, é possível manter uma produção volumosa e de qualidade por meio da aplicação repetida de protocolos padronizados, mas ela não será inovadora, uma vez que protocolos rígidos são adequados apenas a poucos tipos de perguntas de investigação. Por fim, testar muitas hipóteses inovadoras em curto espaço de tempo inviabiliza a execução de pesquisas com o rigor metodológico necessário, e, em alguns casos extremos, estimula a adoção de práticas indesejadas como a fraude e a fabricação de dados.

Os processos de avaliação que priorizam a publicação de grandes volumes de artigos em revistas de elevado fator de impacto têm induzido pesquisadores a escolherem os trinômios alto volume/alta inovação/baixa qualidade, e alto volume/alta qualidade/baixa inovação. Em Micromotives and Macrobehavior1, Schelling defende a tese de que indivíduos adotam comportamentos para atingir objetivos pessoais de acordo com as suas preferências e, adicionalmente, que estes comportamentos e preferências são influenciados pelos comportamentos e preferências dos outros indivíduos. Para o autor, o sucesso de um indivíduo em se adaptar ao seu ambiente social não garante que o ambiente social criado seja satisfatório para si e para os demais indivíduos que coletivamente o construíram. Anderson et al. 2 identificaram, em um inquérito realizado com pesquisadores americanos, uma dissonância entre a crença do que seria um comportamento ideal a ser adotado pelos pesquisadores e a percepção de como os outros pesquisadores de fato se comportam. Para os autores, essa dissonância é prejudicial, pois gera desgaste e alienação, além de favorecer a adoção de comportamentos que fogem ao padrão idealizado.

A insatisfação com o sistema atual de avaliação da produção científica, e suas consequências indesejadas, tem sido explicitada por meio de uma série de manifestos como a The San Francisco Declaration on Research Assessment (DORA) (http://am.ascb.org/do ra/), o The Leiden Manifesto for Research Metrics (http://www.leidenmanifesto.org/), e a The Lancet REWARD (REduce research Waste And Reward Diligence) (http://www.thelan cet.com/campaigns/efficiency). Em todas as iniciativas apontadas, uma série de ações são propostas, visando a modificar a forma como a avaliação da produção científica deve ser conduzida. Na área de Saúde Coletiva no Brasil, o debate sobre a necessidade de se adotar novos modelos de avaliação de pesquisadores e programas de pós-graduação vem ganhando destaque no contexto recente. CSP tem buscado contribuir com esse debate a partir da publicação de editoriais e artigos sobre o tema.

Em uma série de artigos publicados no Lancet ligados a REWARD, estimou-se que 85% dos recursos aplicados em pesquisa podem ser considerados desperdício 3, em função de estudos mal desenvolvidos, desde a etapa de desenho até a análise dos dados 4. Revisões sistemáticas, que deveriam sintetizar as evidências, com frequência não cumprem este papel adequadamente porque fazem a síntese de pesquisas de baixa qualidade 5. Por fim, a qualidade do texto submetido à publicação também é motivo de preocupação 6.

Em 2015, ultrapassamos a marca de mais de dois mil artigos submetidos a CSP. Como editoras, nos sentimos honradas em receber tantas submissões. Entretanto, nos causa preocupação o fato de recusarmos, sem encaminhar para revisão por pares, cerca de 70% dos artigos submetidos. Baixa relevância, pouca originalidade e inadequação metodológica constituem os principais motivos dessa recusa inicial. Em parte dos casos, recursos aplicados com o financiamento de pesquisa podem estar sendo desperdiçados. Os custos envolvidos na publicação representam apenas uma fração dos recursos destinados ao financiamento de pesquisas. Em CSP, preservamos a gratuidade da publicação para autores, mas todo artigo processado, seja ele aceito ou recusado, tem um custo e um gasto público associados. A adoção de critérios estritos para a publicação de artigos em CSP visa a não somente manter a qualidade dos conteúdos publicados, mas também evitar o desperdício de recursos nos processos de revisão por pares, editoração e publicação.

O problema do desperdício na produção científica deve ser encarado não com cortes lineares de orçamento, mas com a adoção de critérios adequados para a avaliação de pesquisadores, projetos e produtos científicos. Entretanto, evitar o desperdício também passa pelas escolhas que, como pesquisadores e autores, fazemos.

Cláudia Medina Coeli
Marilia Sá Carvalho
Luciana Dias de Lima
Editoras

REFERÊNCIAS

1. Schelling TC. Micromotives and macrobehavior. Revised edition. New York: W. W. Norton & Company; 2006.
2. Anderson MS, Martinson BC, De Vries R. Normative dissonance in science: results from a national survey of U.S. scientists. J Empir Res Hum Res Ethics 2007; 2:3-14.
3. Chalmers I, Bracken MB, Djulbegovic B, Garattini S, Grant J, Gülmezoglu AM, et al. How to increase value and reduce waste when research priorities are set. Lancet 2014; 383:156-65.
4. Ioannidis JPA, Greenland S, Hlatky MA, Khoury MJ, Macleod MR, Moher D, et al. Increasing value and reducing waste in research design, conduct, and analysis. Lancet 2014; 383:166-75.
5. Roberts I, Ker K. How systematic reviews cause research waste. Lancet 2015; 386:1536.
6. Carvalho MS, Travassos C, Coeli CM. Um bom texto. Cad Saúde Pública 2013; 29:1701-3.