Interprofissionalidade e ousadia: sobre “Conexões e fronteiras da interprofissionalidade: forma e formação”

Interprofissionalidade e ousadia: sobre “Conexões e fronteiras da interprofissionalidade: forma e formação”

Autores:

Hugo Mercer

ARTIGO ORIGINAL

Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão impressa ISSN 1414-3283versão On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.22 supl.2 Botucatu 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1807-57622018.0488

O trabalho de Ricardo Burg Ceccim fala de interprofissionalidade e também de ousadia. Recorre à ousadia para pensar de uma forma inovadora e utilizar referências que não são clássicas em um texto sobre educação - e ainda menos no campo da saúde. Em seu trabalho ocorrem metáforas, ocorre a caracterização de processos históricos, distinções etimológicas e alusões estéticas, e nesta combinação reside a ousadia, que serve para provocar o leitor, convidando-o a pensar a interprofissionalidade de uma maneira não convencional. Neste percurso, Burg Ceccim cita diversos autores1-4 com os quais tem afinidades, o que comprova a existência no Brasil de um clima intelectual ao redor da interprofissionalidade, com a consequente acumulação de experiências, avanços e frustrações, onde a ousadia está no fato de continuar a construir.

Em diversos trabalhos recentes, Naomar de Almeida Filho5-7 explica o papel desempenhado na América Latina pelo projeto de educação superior preconizado pela Revolução Francesa desde 1789. Sob a ótica desses trabalhos, podemos perceber que a influência francesa no projeto político emancipador que acompanhou os processos independentistas e de construção dos Estados modernos na região, foi maior do que aquela atribuída à reforma promovida nos EUA por Abraham Flexner, em torno de 1916. O projeto francês apontava para uma educação superior que permitisse o acesso de setores sociais até então marginalizados das profissões universitárias. Implicava em uma reorganização cognitiva e das ciências que, sustentada por um processo de secularização, transferia para o âmbito do Estado aquilo que até então havia sido um espaço excludente em mãos da igreja.

Além da consolidação de um espaço laico no qual formar os profissionais em medicina, engenharia ou direito, a partir da França, a educação superior experimentou modelos institucionais de Universidade; por um lado aquelas em que confluíam diversas ciências e que formavam os profissionais em torno de uma base conceitual comum, para em seguida se voltar à formação de especialistas em campos específicos do conhecimento e da prática. O outro modelo organizacional, abrangia as instituições acadêmicas “lineares” que desde o início das carreiras mantinham os estudantes dentro de uma linha específica própria de cada profissão. Escolas, Faculdades ou Academias educavam os futuros profissionais isolados das outras profissões, fragmentando por sua vez os currículos escolares em cátedras que reforçavam esta “linearidade” disciplinar.

A estrutura formativa era acompanhada de instâncias reguladoras que incluíam a intervenção estatal para acreditar as Escolas ou Faculdades e os colégios, grêmios, guildas, para reconhecer e habilitar para o desempenho profissional. Esse reconhecimento podia ser tarefa do próprio Estado ou podia ser delegada aos pares, que exerciam controle da quantidade e do desempenho de cada profissional. Esses modelos de Universidades, com maior ou menor afinidades e espaço para o diálogo entre disciplinas científicas correspondiam ao que viria a ser um tipo de produção industrial baseada em uma linha de produção que organiza os trabalhadores para um desempenho repetitivo, sistemático e padronizado, substituindo o artesanato por um trabalho coletivo e concentrado, em espaços desenhados para esse fim. A linha de produção industrial vai encontrar sua progressiva correspondência à organização do trabalho nos âmbitos acadêmicos e de aplicação da ciência em geral.

A mais de dois séculos da Revolução Francesa e a um século da reforma Flexneriana, este artigo de Burg Ceccim8 - e também a rica produção intelectual1-3 com que ele dialoga e que constrói - estimula a discussão de qual será o papel da educação e da prática interprofissional no futuro da formação universitária e no trabalho cotidiano dos serviços de saúde. A Universidade Linear e sua estrutura de Escolas e cátedras encontrou correspondência no que viria a se configurar como o modelo fordista de produção, e para tanto eram necessários profissionais que mantivessem essa linearidade, com sua implícita distribuição hierárquica do trabalho, com uma fragmentação disciplinar do conhecimento, e regras e normas que preservassem essa atribuição de capacidades e incumbências. Atualmente, numa época de capitalismo cognitivo - que consiste em um novo sistema histórico de acumulação- as dimensões cognitivas e intelectuais do trabalho assumem um papel de decisiva importância9 e substituem a centralidade que anteriormente correspondia ao capital fixo e ao trabalho material. Agora a valorização do capital se dá por meio da transformação do conhecimento em commodity. Por isso o motor, a principal força de mudança da atual organização produtiva é o conhecimento que é portado, contido e expresso na elevação educacional generalizada da força de trabalho. Tanto na produção industrial como na de serviços, os trabalhadores alcançam níveis educacionais mais altos.

Nesta organização da indústria e dos serviços, capaz de substituir a disciplina e a verticalidade linear, são exigidos trabalhadores e profissionais maleáveis, com a plasticidade necessária para dialogar e captar as dimensões que eram omitidas ou relegadas pela organização fordista do trabalho. A interprofissionalidade é superadora em relação a essas dimensões, sem dúvida, mas o mais importante - e aqui surge o que para mim se apresenta como uma valiosa contribuição de Ricardo Burg Ceccim - reside em que além de contribuir para melhorar a segurança do paciente, além de colaborar para humanizar as práticas e o bem-estar dos próprios trabalhadores, a interprofissionalidade abre a possibilidade de uma praxis diferente. Praxis entendida como uma política sustentada em afinidades e coerência de valores entre aqueles que integram a equipe de trabalho. Afinidade na forma de definir o objeto de trabalho e aquilo que se deseja transformar, seja uma pessoa que necessite atendimento e cuidado ou um conjunto populacional que reclame intervenções transformadoras.

Burg Ceccim define a praxis como pragmática de ensinar, aprender, fazer e agir, mas isto pode ser ampliado para “forma de fazer política”. Uma vez que a interprofissionalidade chega como uma integração de diferentes níveis de conhecimentos e práticas, e vai além das atuais incumbências que são reconhecidas pelos respectivos colégios profissionais e pelos padrões comumente aceitos nos processos de acreditação. A interprofissionalidade permite aos trabalhadores de saúde se formar em uma praxis em que a equipe de saúde melhora e amplia sua capacidade de escuta e consequentemente de convocatória diante das mudanças geradas pelas demandas e capacidades sociais. Não é fundamentada somente na tecnologia, nas descobertas científicas ou na divisão do trabalho entre os integrantes da equipe de saúde, mas se coloca em um lugar de privilegiada atenção às mudanças que ocorrem na população, nos conjuntos sociais, nos sujeitos. Uma praxis comprometida com a interprofissionalidade ganha sentido ao observar, avaliar e atuar com pessoas ou conjuntos sociais em função de direitos de cidadania, e não pelo fato de contar com cobertura financeira que permita o atendimento.

O potencial da interprofissionalidade reside em se transformar em um instrumento aceito e coerente, com modelos de determinação social da saúde, de equidade e justiça social; caso contrário poderá ser um recurso valioso mas perecível, do mesmo modo que outras modas pedagógicas. Por sua correspondência com mudanças na estrutura e na organização produtiva geral, a interprofissionalidade tem o potencial para ser um recurso inovador de indiscutível valor. Talvez em um futuro próximo, além de reclamar “Mais Médicos” seja necessário reclamar e promover a formação de “Mais equipes Interprofissionais”.

REFERÊNCIAS

1. Peduzzi M. Trabalho e educação na saúde: ampliação da abordagem de recursos humanos. Cienc Saude Colet. 2013; 18(6):1539-41.
2. Ellery AEL. Interprofissionalidade. In: Ceccim RB, Dallegrave D, Amorim ASL, Portes VM, Amaral BP, organizadores. EnSiQlopedia das residências em saúde. Porto Alegre: Rede UNIDA; 2018. p. 146-50.
3. Furtado JP. Arranjos insdtucionais e gestão da clínica: princípios da interdisciplinaridade e interprofissionalidade. Cad Bras Saude Ment. 2009; 1(1):1-11.
4. Ceccim RB, Cyrino EG. O sistema de saúde e as práticas educativas na formação dos estudantes da área. In: Ceccim RB, Cyrino EG, organizadores. Formação profissional em saúde e protagonismo dos estudantes: percursos na formação pelo trabalho. Porto Alegre: Rede UNIDA; 2017. p. 4-26.
5. Almeida-Filho N. O legado de Cabanis: hipótese sobre raízes da educação médica no Brasil. Cad Saude Publica. 2017; 33(7):e00206416.
6. Almeida-Filho N. Reconhecer flexner: inquérito sobre produção de mitos na educação médica no Brasil contemporâneo. Cad Saude Publica [Internet]. 2010 [citado 24 Jun 2018]; 26(12):2234-49. Disponíble en: .
7. Almeida-Filho N. Higher education and health care in Brasil. Lancet. 2011; 377(9781):1898-900.
8. Ceccim RB, Ferla AA. Linha de cuidado: a imagem da mandala na gestão em rede de práticas cuidadoras para uma outra educação dos profissionais em saúde. In: Pinheiro, R, Mattos RA, organizadores. Gestão em redes: práticas de avaliação, formação e participação em saúde. Rio de Janeiro: Abrasco; 2006. p.165-84.
9. Monnier JM, Vercellone C. Labour and welfare state in the transition to cognitive capitalism. En: Cvijanovic V, Andrea F, Carlo V, editores. Cognitive captalism and its reflections in south-eastern Europe [Internet]. Frankfurt: Peter Lang; 2010 [citado 24 Jun 2018]. p 71-87. Disponíble en: https://www.researchgate.net/profile/Carlo_Vercellone/publication/301652657_Labour_and_Welfare_State_in_the_Transition_to_Cognitive_Capitalism/links/5758203a08ae5c6549074ee5/Labour-and-Welfare-State-in-the-Transition-to-Cognitive-Capitalism.pdf
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