Investigação qualitativa e transformação da saúde coletiva

Investigação qualitativa e transformação da saúde coletiva

Autores:

Cristina Lavareda Baixinho,
Maria Helena Presado,
Jaime Ribeiro

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.24 no.5 Rio de Janeiro maio 2019 Epub 30-Maio-2019

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232018245.05962019

O aumento dos estudos qualitativos e mistos na saúde tem esbatido a dicotomia quanti/qualitativo, permitindo a diversificação de métodos e técnicas. Ao contrário das concepções tradicionalistas da investigação, baseadas no modelo biomédico e no paradigma pós-positivista, a investigação qualitativa traduz um significado e uma interpretação aos achados que permite um maior desenvolvimento do cidadão, inserido no seu espaço social e conceptualiza o mundo real com uma maior susceptibilidade de transformação.

Uma apreciação multidimensional, contribui para o desenvolvimento do conhecimento empírico, estético, pessoal, ético, biomecânico, entre outros. Um paradigma mais construtivista tem, progressivamente, aumentado a perspectiva de complementaridade e até de transdisciplinaridade em relação aos fenómenos da saúde.

A ciência e a diversificação dos saberes são cruciais para o desenvolvimento da saúde individual e coletiva. A relação do ser humano com a saúde e com os profissionais é complexa, envolve uma multiplicidade de fatores, nem sempre fáceis de identificar e controlar, que é influenciada e influencia as múltiplas relações, não podendo ser dissociada da experiência individual.

Ribeiro et al.1 ilustram bem esta complexidade ao afirmarem que a inseparabilidade dos fenómenos do seu contexto alicerça a investigação qualitativa, pois é impossível discernir opiniões, percepções e significados dos indivíduos silenciando o contexto.

Acrescemos que esta transformação qualitativa da investigação traduz-se num melhor conhecimento das transições e dos processos de adaptação face à saúde/doença, promovendo a qualidade dos cuidados, a literacia e a corresponsabilização na gestão da saúde.

Esta transformação fomenta a criatividade dos investigadores para responder aos desafios da “transferência” de conhecimento para os consumidores finais (profissionais) e para os beneficiários (clientes dos cuidados), garantindo que a pesquisa é alicerçada nas necessidades da prática.

Também a este nível a investigação qualitativa pode ser líder na disseminação dos resultados, permitindo diminuir o hiato conceptual e pragmático entre o que é produzido e o que é utlizado em prol da saúde, criando redes de comunicação e colaboração entre investigadores, profissionais e cidadãos que possibilitem o estudo e a reflexão sobre a melhor forma de colocar os achados da investigação qualitativa ao serviço da saúde coletiva, tanto do ponto de vista do processo (transferência) como do conteúdo (conhecimento).

A este desafio acresce o do promover uma tomada de decisão clínica qualitativa que utilize os resultados da investigação qualitativa com informações sobre preferências do cliente, experiência, contexto clínico e recursos para a tomada de decisão.

Esta edição da RC&SC integra artigos apresentados no 6° Congresso Ibero-Americano em Investigação Qualitativa (www.ciaiq.org), sujeitos a reformulação e a avaliação por pares. O contributo dos autores e a preocupação dos editores é contribuir para a disseminação do conhecimento que possibilite uma compreensão alargada das diferentes transições de vida e do seu impacto na saúde coletiva, com respeito pela individualidade e singularidade de cada um.

REFERÊNCIAS

1. Ribeiro J, Souza DN, Costa AP. Investigação qualitativa na área da saúde: por quê?. Cien Saude Colet [Internet]. 2016 Ago [citado 2018 Fev 07]; 21(8):2324-2324. Disponível em:
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