JOVENS EM RISCO SOCIAL: AVALIAÇÃO DE PROGRAMAS DE PREVENÇÃO À VIOLÊNCIA ARMADA. Souza ER, Peres MFT, Constantino P, Boghossian CO, Ruotti C, Freitas TV, Vicentin D. Brasília: Ministério da Saúde/Rio de Janeiro: Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli, Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz/São Paulo: Editora Hucitec; 2013. 166p. ISBN: 978-85-6480-631-3 (Editora Hucitec)

JOVENS EM RISCO SOCIAL: AVALIAÇÃO DE PROGRAMAS DE PREVENÇÃO À VIOLÊNCIA ARMADA. Souza ER, Peres MFT, Constantino P, Boghossian CO, Ruotti C, Freitas TV, Vicentin D. Brasília: Ministério da Saúde/Rio de Janeiro: Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli, Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz/São Paulo: Editora Hucitec; 2013. 166p. ISBN: 978-85-6480-631-3 (Editora Hucitec)

Autores:

Adalgisa Peixoto Ribeiro

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.31 no.2 Rio de Janeiro fev. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311XRE020215

A magnitude da violência contra a juventude brasileira pode ser observada por alguns indicadores que permitem afirmar que este grupo de 15 a 24 anos se encontra em risco. Os homicídios, um desses indicadores, foram responsáveis por 39,3% de todas as mortes de jovens no Brasil, em 2011, atingindo, sobretudo, pessoas do sexo masculino, de cor da pele preta/parda, vivendo em territórios empobrecidos. A taxa de mortalidade por essa agressão fatal foi de 53,4 jovens por 100 mil habitantes, em 2011 1.

Esses dados ajudam a pensar a vulnerabilidade desse grupo de brasileiros, enfocado no livro Jovens em Risco Social: Avaliação de Programas de Prevenção à Violência Armada. Para seus autores, jovens em risco social são aqueles que estão na iminência de serem vítimas ou autores de violência.

A obra se destaca no campo dos estudos sobre juventude e violência por apresentar uma avaliação minuciosa de programas de prevenção da violência armada entre jovens, iluminando o que dá certo nestas iniciativas e também os desafios para se realizar a prevenção da violência que atinge este grupo social.

O livro é o segundo volume da série Avaliação de Experiências de Prevenção de Violência organizada por Edinilsa Ramos de Souza e Maria Cecília de Souza Minayo. Os autores apresentam de forma envolvente a avaliação de dois projetos sociais de prevenção à violência armada entre os jovens: Redescobrindo o Adolescente na Comunidade/RAC, desenvolvido no Jardim Ângela, em São Paulo, e Luta pela Paz, que funciona na Maré, Rio de Janeiro. Ambos localizados em áreas com altos índices de violência contra a juventude.

Na Introdução os autores trazem à tona os eixos centrais de toda a obra: a vitimização dos jovens das periferias urbanas pela violência e os programas de prevenção voltados para esta problemática. Apresentam ainda uma discussão bem fundamentada sobre os jovens como vítimas e aprendizes da violência, nas relações intrafamiliares e comunitárias; os fatores de risco para a violência juvenil, enfocados com base na perspectiva do modelo ecológico preconizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Constatam a existência de inúmeros programas sociais no Brasil com esse objetivo e também a escassez de avaliações que apontem os êxitos e limites dessas iniciativas.

No primeiro capítulo, Programas de Prevenção da Violência entre Jovens: Um Caminho Teórico e de Práticas em Construção, é apresentada a evolução dos conceitos de prevenção e promoção da saúde e sua aplicação subsidiando ações de superação da violência. Destacam três momentos de confronto com a questão da violência, sendo o primeiro mais focado na repressão e controle, o segundo no reconhecimento da multicausalidade deste fenômeno e de sua prevenção, e o terceiro na recuperação dos vínculos sociais e humanos, no qual parece se ancorar as iniciativas mais recentes que têm o objetivo de prevenção e promoção. Os autores brindam os leitores com uma ampla revisão da literatura nacional e internacional sobre as iniciativas/programas de prevenção de violência e de avaliações que identificam as boas práticas no campo da prevenção. Os conceitos de resiliência e de protagonismo juvenil se destacam como essenciais na prevenção da violência juvenil. Uma espécie de pequeno e prático "manual" de desenvolvimento de programas de prevenção subsidiados pelo diagnóstico do problema, o conhecimento do contexto comunitário, e avaliação e acompanhamento de sua implementação fecham o capítulo.

O capítulo 2, Caminhos Metodológicos Percorridos, está dividido em duas partes: a primeira indica como está constituído o estudo exploratório da área do entorno dos projetos avaliados, e a segunda descreve a avaliação propriamente dita. Valendo-se das premissas da avaliação por triangulação de métodos, estratégia tradicionalmente usada pelo grupo de pesquisadores/autores do livro, a descrição deste caminho trilhado deixa claro o rigor metodológico que permitiu comparar os resultados encontrados nos dois projetos analisados. Nesse percurso foram criados indicadores que avaliaram estrutura, processo e resultados em quatro dimensões: jovem consigo mesmo, jovem e o outro, jovem e violência, e projeto.

Os capítulos 3, 4 e 5 apresentam descrições das áreas de estudo, características dos programas avaliados e dos jovens participantes do estudo, respectivamente. Nas áreas de estudo encontraram uma característica comum: a situação de vulnerabilidade social da população e, principalmente, dos jovens. Sobre os programas é importante destacar que o RAC realizava atendimento a adolescentes em conflito com a lei em cumprimento de liberdade assistida e prestação de serviços à comunidade e também a outros jovens da comunidade; o Luta pela Paz tinha como público alvo os adolescentes e jovens com históricos de envolvimento com violência armada. O primeiro financiado principalmente pelo setor público, e o segundo por instituições internacionais.

No capítulo 6, os autores dão visibilidade às Vivências e Percepções dos Jovens sobre a Violência. Os participantes dos programas avaliados se revelaram mais vítimas do que perpetradores de violência. Foram altas as proporções dos que foram vítimas diretas da violência mais grave e dos que testemunharam violência em seu bairro.

No capítulo 7, Os Múltiplos Olhares Avaliativos, os autores apresentam os indicadores quantitativos e qualitativos da avaliação dos dois projetos, bem como as percepções de seus atores (jovens e profissionais). Concluem a avaliação mostrando as fragilidades e as potencialidades para os programas alcançarem seu objetivo. Em breves palavras, o potencial do RAC firma-se na "promoção do desenvolvimento, calcada na transformação de valores, na capacitação profissional e na formação de vínculos" (p. 137). No caso do Luta pela Paz, seu potencial preventivo está no "estabelecimento de novas amizades; o amadurecimento em relação às responsabilidades e compromissos; a disciplina; o maior incentivo e disposição para o estudo e o trabalho; a melhora de seu temperamento e da maneira como se expressam; desenvolvendo maior respeito às diferenças e interferindo na sua visão de mundo" (p. 139).

No capítulo 8, as pesquisadoras reveem O RAC e o Luta pela Paz: Três Anos Após os Estudos Avaliativos, e atualizam informações para que o leitor tenha conhecimento do dinâmico processo de financiamento e de forças políticas que envolvem os projetos sociais. As mudanças foram substanciais. O RAC foi convertido em um Núcleo de Proteção Psicossocial Especial, incluindo os adolescentes em medida socioeducativa. O Luta pela Paz ampliou suas atividades e buscava superar as lacunas apontadas pela avaliação realizada e apresentada no livro.

Nas Considerações Finais, os autores retomam a importância da avaliação para a compreensão dos resultados de uma intervenção, sejam eles positivos ou negativos, e enfatizam a necessidade de inclusão de projetos de prevenção como esses nas agendas de políticas públicas intersetoriais para garantir sua sustentabilidade.

A leitura do Jovens em Risco... é indicada a estudiosos sobre o tema da juventude, da violência, da vulnerabilidade deste grupo às violências e ainda da avaliação. É indicado também a quem se dedica a desenvolver programas e projetos de prevenção à violência juvenil. Nessa leitura encontrará um trabalho sério, uma metodologia cuidadosa e replicável, e ainda um incentivo para a implementação de avaliações de projetos de prevenção à violência.

REFERÊNCIAS

1. Waiselfisz JJ. Homicídios e juventude no Brasil: mapa da violência 2013. Brasília: Secretaria Geral da Presidência da República, Secretaria Nacional de Juventude; 2013.