LA MORT ET LE SOIN. AUTOUR DE VLADIMIR JANKÉLÉVITCH

LA MORT ET LE SOIN. AUTOUR DE VLADIMIR JANKÉLÉVITCH

Autores:

Michel Jean-Marie Thiollent,
Daniella Munhoz da Costa Lima

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos de Saúde Pública

versão On-line ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.33 no.2 Rio de Janeiro 2017 Epub 30-Mar-2017

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311x00162116

Reflexão sobre a morte e o cuidado

O livro La Mort et le Soin [A Morte e o Cuidado], com o subtítulo Autour de Vladimir Jankélévitch [Em torno de Vladimir Jankélévitch], organizado por Élodie Lemoine & Jean-Philippe Pierron, foi publicado pela editora Presses Universitaires de France (PUF), em maio de 2016, no seio de uma coleção denominada Questions de Soin [Questões de Cuidado]. Reúne textos de diferentes autores, filósofos, médicos e sociólogos e apresenta um debate filosófico e ético sobre a morte - fato inevitável - e o cuidado de saúde como meio de prolongar a vida. Nessa coletânea, os autores destacam a obra de Jankélévitch 1 , filósofo francês descendente de família russa, professor da Université Paris-Sorbonne (França), de 1951 a 1979, considerando-a como ponto de partida para uma reflexão filosófica e ética sobre a morte e o cuidado. De acordo com Pierron, na introdução, a obra de Jankélévitch figura entre os principais livros sobre a filosofia da morte, em língua francesa, nos anos 1950-1970, juntamente com as obras de Morin 2 , Thomas 3 e Ariès 4 .

Existe um paradoxo inerente aos cuidados paliativos que refletem o paradoxo da moral para Jankélévitch. Ao mesmo tempo em que os cuidados paliativos atestam a fragilidade da atividade de cuidar, expõem com clareza violenta a certeza da morte. Não seria por acaso que a medicina paliativa é o local da atividade médica onde ressoam as questões mais "humanas" e essas questões convivem com um pluralismo ético e metafísico que refletem as próprias questões da sociedade frente ao fim da vida.

Para abordar os cuidados paliativos considerando essa multiplicidade de aspectos envolvidos, o livro apresenta diversas contribuições englobando desde artigos com olhar mais filosófico, como o de Pierron, até trabalhos que trazem dilemas do ponto de vista médico, como o de Pascale Vassal, que trata da questão da informação que deve ser dada ao paciente que irá morrer em breve, ou seja, da incerteza da resposta a perguntas do tipo: "Quanto tempo eu tenho?" e "Eu vou morrer?", quando apenas a certeza da morte existe.

Já na introdução do livro, Pierron destaca que o pensamento da morte proposto por Jankélévitch faz emergir paradoxos que questionam as relações entre, de um lado, saber, linguagem e ação e, do outro lado, a moralidade, permitindo esclarecer as incidências de uma incerteza fundamental no fim da vida.

Nesse sentido, Jankélévitch 5 afirma que, embora o homem seja impotente em relação ao fato da própria morte, tem o poder de modificar e de adiar a sua data. Como os antigos diziam (em latim), "mors certa, hora incerta".

Essa relação, por vezes paradoxal, entre a certeza de morrer e a incerteza do quando e como morrer está no centro da problemática de Jankélévitch, retomada e atualizada por Lemoine e Pierron, levando em conta a recente evolução dos cuidados paliativos e das modalidades de acompanhamento em fim de vida.

A especificidade da discussão filosófica consiste na referência aos conceitos de quodidade/quididade, que vêm do latim quiddita. Significam essência ou ser e remetem à distinção entre Quod e Quid. Para Jankélévitch, o termo quodidade estaria relacionado à certeza da morte, à morte em si, inevitável. E o termo quididade estaria relacionado à incerteza ao morrer, às circunstâncias em que a morte irá ocorrer.

Nas últimas décadas, ocorreu uma mudança importante na filosofia da medicina com relação à questão da morte. Anteriormente, a medicina procurava sempre chegar à cura e, assim, continuava enfrentando a doença para prorrogar a vida até o último suspiro do paciente. Agora, reconhece-se que a morte é inevitável. Há uma mudança de estado de espírito quanto à finitude da vida humana e, no plano psicossocial, o caráter paliativo do cuidado é aceito. O cuidado paliativo se torna uma nova "especialidade médica" e um tipo de acompanhamento psicológico para se preparar para a morte. O conceito de cuidado paliativo restaura o caráter social e interpessoal do cuidado, superando a concepção convencional de cura baseada em tecnologia e remédios.

Segundo a tendência atual, o conceito de cuidado para paciente em fim de vida não se limita a uma técnica médica ou de enfermagem convencional, mas adquire uma dimensão social, antropológica, histórica e ética, tornando-se objeto de investigação interdisciplinar. É importante observar que esse tipo de cuidado requer um relacionamento interpessoal, designado pelo termo de "acompanhamento".

Tanguy Châtel aborda, no capítulo O Acompanhante, um Equilibrista da Relação, essa mudança ocorrida na concepção do acompanhamento, mostrando a mutação que representa a passagem da cura baseada na certeza para o cuidado paliativo, relacionado com a incerteza gerenciada por meio de acompanhamento. A noção de acompanhamento se afastaria da ideia de controle (guidance) e abriria espaço para uma postura de mais subjetividade e autonomia. Desse modo, se acompanhar não for mais guiar, o acompanhante deixa de ter autoridade absoluta para mostrar o caminho do fim da vida e não pretende mais saber e decidir em nome do outro. O morrer não seria mais visto de forma normativa no futuro, mas sim, no presente com incertezas e perspectivas plurais.

Régis Aubry, no capítulo A Fecundidade Possível da Dúvida no Fim da Vida, considera que parte das incertezas remete ao sentimento do paciente, sofrimento e angústia, e outra parte seria de ordem conceitual, sociológica e filosófica. Nesse último aspecto, as principais perguntas poderiam ser formuladas da seguinte forma: O fim da vida deve se colocar na dependência da medicina ou no acompanhamento de próximos para não deixar sozinha uma pessoa que vai morrer? Em que medida é preciso medicalizar a última parte da vida? O que é a vida quando a consciência desaparece? O que faz sentido para uma pessoa no fim da vida? O que é a vida? O que é a morte?

Com efeito, a coletânea organizada por Lemoine e Pierron representa uma significativa contribuição para aqueles que se interessam em refletir sobre o tema dos cuidados paliativos de forma transdisciplinar, considerando, além dos aspectos médicos, aspectos filosóficos e sociológicos.

REFERÊNCIAS

1. Jankelevitch V. La mort. Paris: Flammarion; 2008.
2. Morin E. L'homme et la mort. Paris: Le Seuil; 1951.
3. Thomas L-V. Anthropologie de la mort. Paris: Payot; 1975.
4. Ariès P. Essai sur l'histoire de la mort en Occident du Moyen-Âge à nos jours. Paris: Le Seuil; 1975.
5. Jankelevitch V. Curso de filosofia moral. São Paulo: Editora Martins Fontes; 2008.