Leitura de rótulos alimentares entre usuários da atenção básica e fatores associados

Leitura de rótulos alimentares entre usuários da atenção básica e fatores associados

Autores:

Ivana Loraine Lindemann,
Manoela Teixeira da Silva,
Josi Guimarães César,
Raúl Andres Mendoza-Sassi

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1414-462Xversão On-line ISSN 2358-291X

Cad. saúde colet. vol.24 no.4 Rio de Janeiro out./dez. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1414-462x201600040234

Abstract

Objective

To determine the prevalence of reading food labels, associated factors and information consulted by adults and elderly users of primary care.

Methods

Cross-sectional study with data collected by questionnaire. It was asked about the habit of reading labels and those who answered affirmatively where questioned about what information they are consulting. Calculating the prevalence of the outcome and its association with demographic and socioeconomic characteristics, status and health services utilization, knowledge about health and nutrition and lifestyle habits.

Results

Among the 1,246 respondents, reading labels was reported by 70.9% and the associated factors were sex, age, marital status, education, diagnosis of chronic diseases, health and food self-perception, access to information on health and nutrition, guidance received for healthy eating and the practice of physical activity. The most consulted information was the expiration date (73.8%) and nutritional value (18%).

Conclusion

Reading food labels need to be popularized, through educational campaigns, or the interaction between users and health professionals. It is necessary to emphasize not only the importance of observing the validity of the products, but mainly to check the nutritional information in order to have healthier food choices.

Keywords:  primary care; health promotion; nutrition in public health; dietary behaviour; food labelling

INTRODUÇÃO

As elevadas taxas de doenças crônicas não transmissíveis, tendo o consumo alimentar como um dos principais fatores de risco1, dentro de um contexto que envolve um conjunto de alterações do estilo de vida e de alimentos disponíveis2, têm sido apontadas como um dos grandes problemas em termos de saúde populacional, tanto no Brasil como em outros países3,4.

Visando mudar esse cenário, importantes estratégias de promoção da saúde e da alimentação saudável têm sido propostas por organismos nacionais e internacionais1,4-6, a maioria das quais busca tornar as pessoas aptas ao autocuidado. No que se refere à alimentação saudável, especial destaque tem sido dado à divulgação do conhecimento sobre alimentos e sobre nutrição, essenciais para a autonomia do indivíduo5. Nesse contexto, os rótulos alimentares são apontados pela população como uma das principais fontes de informação utilizadas7. O rótulo se configura em um importante instrumento para escolhas alimentares saudáveis8,9, é reconhecido como tal pelos consumidores10,11, é capaz de melhorar os comportamentos alimentares10, de diminuir o risco para doenças12, e, sobretudo, é acessível à maior parte das pessoas.

No Brasil, a legislação alimentícia iniciou-se na década de 1960 e, ao longo dos anos, vem sendo aprimorada com o propósito de melhorar a qualidade dos alimentos e de preservar a saúde da população13. Com a criação e a regulamentação do Sistema Único de Saúde (SUS), boa parcela das questões relacionadas à produção e à comercialização de alimentos foi englobada pelo conjunto de ações da Vigilância Sanitária, sob a responsabilidade da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), criada em 1999 e vinculada ao Ministério da Saúde, incluindo os aspectos referentes à rotulagem14.

A atual Política Nacional de Alimentação e Nutrição assinala a educação alimentar e nutricional, além da regulação de alimentos, como importantes formas de promoção da alimentação saudável e da saúde5, cabendo aos profissionais de saúde, especialmente aos vinculados ao SUS e, mais especificamente, aos que atuam na atenção básica, orientar e estimular a leitura de rótulos de alimentos no sentido de qualificar as escolhas alimentares dos usuários5,15.

Em virtude da reconhecida importância dos rótulos alimentares, diversos aspectos relacionados, incluindo a frequência de leitura e os fatores associados ao hábito, têm sido objetos de estudo. As prevalências de leitura descritas variam de 5 a 95%7,11. Dentre os fatores associados, destacam-se sexo feminino16,17, idade mais avançada8,17,18, cor de pele branca19, presença de cônjuge20, maior renda12,18,19 e escolaridade21-23, melhor autopercepção da alimentação17, maior conhecimento sobre nutrição7,8,23, recebimento de orientação alimentar20, tabagismo12 e consumo de bebida alcoólica12. Ainda segundo a literatura disponível, as informações mais frequentemente consultadas são o valor calórico18, a validade11,21, a quantidade de gordura16 e de fibras8, e as informações nutricionais19.

Entretanto, cabe destacar que os referidos estudos, realizados com a população em geral, seja por amostragem de base populacional, seja por amostras de consumidores arrolados em locais de comercialização de alimentos, demonstraram que o hábito de leitura de rótulos não é universal, além de ser, muitas vezes, inadequado e insuficiente. Assim, tendo em vista que a promoção da saúde e da alimentação saudável é uma política pública, torna-se importante avaliar o quanto os usuários dos serviços públicos de saúde, de maneira especial os atendidos na atenção básica, apresentam comportamento similar ou distinto em termos de utilização de rótulos de alimentos. Diante disso, o objetivo deste estudo foi o de buscar informações específicas sobre esse grupo, avaliando a prevalência do hábito de ler rótulos de alimentos, fatores associados e informações consultadas com maior frequência.

MÉTODOS

Realizamos um estudo transversal, de base de serviços de saúde, de maio a outubro de 2013, na cidade de Pelotas, localizada ao sul do Estado do Rio Grande do Sul. De acordo com o censo demográfico de 2010, a população estimada para a cidade era de 328.275 habitantes, e o Índice de Desenvolvimento Humano, de 0,73924. No período, a rede de atenção básica de saúde era constituída de 36 unidades básicas de saúde (UBS) localizadas na zona urbana, das quais 14 possuíam Estratégia Saúde da Família (ESF), o que conferia uma cobertura de 38,9%.

População de estudo, cálculo de amostra e amostragem

Consideramos como elegíveis para o estudo usuários de todas as UBS urbanas, de ambos os sexos e com 20 ou mais anos de idade. Excluímos mulheres em período de gestação e/ou lactação e portadores de deficiência física ou mental.

A amostra calculada no Programa Epi Info 6.04 (Centers for Disease Control and Prevention, Atlanta, Estados Unidos), considerando diferentes fatores de risco, risco relativo de 2,0, nível de confiança de 95%, poder de 80%, relação de não expostos para expostos de até 1:9 e prevalência esperada do desfecho em não expostos de no mínimo 13%, resultou em 936 respondentes, os quais, acrescidos de 10% para possíveis perdas e 25% para fatores de confusão, totalizaram 1.264 indivíduos. O número de entrevistas em cada UBS foi proporcional à média de procedimentos realizados no mês anterior ao início da coleta de dados.

Variáveis estudadas

Os entrevistados responderam à pergunta: O(a) Sr(a) tem o hábito de ler os rótulos dos alimentos? As opções de resposta eram: sim, sempre; sim, às vezes; não, nunca. Mas, para fins de análise, foram agrupadas em sim e não. Àqueles que responderam sim, perguntamos: O que o(a) Sr(a) costuma ler nos rótulos? (resposta espontânea).

Analisamos a associação do hábito de ler rótulos com sexo, idade (medida em anos completos e categorizada em 20-39, 40-59 e ≥60), cor da pele autorreferida (branca e preta/parda), situação conjugal (com cônjuge e sem cônjuge), quintis de renda familiar mensal per capita (o 1º é o menos favorecido economicamente), escolaridade (medida em anos completos de estudo e categorizada em ensino fundamental, médio e superior ou mais), ocupação (trabalha e não trabalha), número de doenças crônicas não transmissíveis autorreferidas (referência ao diagnóstico médico de obesidade, diabetes, hipertensão, hipercolesterolemia, hipertrigliceridemia ou doença cardíaca, categorizada em nenhuma, 1-2 e ≥3 doenças), autopercepção da saúde e da alimentação (excelente, boa, regular e ruim), estado nutricional (avaliado pelo peso e altura autorreferidos e classificados pelo Índice de Massa Corporal [IMC]). Os pontos de corte utilizados para o IMC15 em adultos foram: baixo peso <18,5Kg/m2, eutrofia ≥18,5 e <25Kg/m2, sobrepeso ≥25 e <30Kg/m2, obesidade ≥30Kg/m2. Já, em idosos foram: baixo peso <22Kg/m2, eutrofia ≥22 e <27Kg/m2, sobrepeso ≥27Kg/m2. Para fins de análise, o estado nutricional foi categorizado em eutrofia ou excesso de peso. Analisamos ainda as variáveis de acesso a informações sobre saúde e sobre nutrição (sim e não), recebimento de orientação para alimentação saudável em consulta médica ou com outro profissional de saúde (sim e não), modelo de atenção à saúde implantado na UBS em que o usuário estava sendo atendido (tradicional e ESF), dificuldades para práticas alimentares saudáveis (sim e não), hábito de fumar (sim e não), prática de atividade física (sim e não) e consumo de bebida alcoólica (sim e não).

Instrumento e procedimentos

As entrevistas, utilizando um questionário pré-codificado e testado, foram realizadas por 12 entrevistadores treinados, os quais, em duplas, apresentavam-se à recepção da UBS, identificavam-se e convidavam os usuários elegíveis. Todos os participantes consentiram de forma livre e esclarecida. Nos casos de recusa, eram feitas duas novas tentativas, pelo outro entrevistador da dupla e pelo supervisor de campo, mas as perdas não foram repostas. As coletas foram feitas ao longo da semana, nos turnos manhã e tarde, de acordo com os horários de funcionamento das unidades, na sala de espera, antes das consultas, até que se completasse o número estipulado para cada UBS.

Processamento e análise estatística dos dados

Para dupla digitação, identificação de erros de amplitude ou consistência e limpeza do banco de dados, utilizamos o Programa EpiData 3.1 (EpiData Association, Dinamarca), e para análise estatística, o pacote estatístico Stata, versão 11 (Stata Corp., College Station, Estados Unidos). Descrevemos a amostra e calculamos as prevalências do desfecho e seu intervalo de confiança de 95% (IC95). Para verificar as associações entre o desfecho e os fatores de risco, fizemos a análise bivariada, calculando as razões de prevalências (RP) brutas e seus IC95.

Posteriormente, na multivariada, utilizamos a Regressão de Poisson com variância robusta, considerando a opção para amostra por conglomerados do Stata (robust) e tipo backward stepwise, seguindo um modelo hierárquico de análise preestabelecido. Do primeiro nível, fizeram parte as variáveis demográficas e socioeconômicas (sexo, idade, cor da pele, situação conjugal, renda, escolaridade e ocupação). No segundo, foram incluídas as referentes à situação de saúde (número de doenças crônicas não transmissíveis, estado nutricional e autopercepção da saúde e da alimentação). No terceiro, foram adicionadas as variáveis de conhecimento sobre saúde e nutrição (acesso a informações sobre saúde e sobre nutrição, recebimento de orientação sobre alimentação saudável e modelo de atenção à saúde). O quarto nível foi constituído pelos hábitos de vida (dificuldades para práticas alimentares saudáveis, hábito de fumar, prática de atividade física e consumo de bebida alcoólica). Todas as variáveis de cada nível entravam no modelo, mas as que tinham p>0,20 eram retiradas. A seguir, eram introduzidas as variáveis do nível inferior, e assim subsequentemente até o último nível. Nas variáveis categóricas politômicas, quando ordenadas, aplicamos o teste de Wald para tendência linear, e quando não ordenadas, o teste de heterogeneidade. Em todos os testes de significância, foi considerado um valor de p<0,05 de um teste bicaudal.

O protocolo de estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa na Área da Saúde, da Universidade Federal do Rio Grande, no Rio Grande do Sul, Brasil, CAAE nº 09931212.3.0000.5324, obedecendo à Resolução nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde e os princípios éticos contidos na Declaração de Helsinki.

RESULTADOS

Participaram 1.246 dos 1.264 adultos e idosos (1,4% de perda), caracterizando a amostra como predominantemente feminina (83,7%), de 40 a 59 anos (40%), de cor branca (63,3%) e com cônjuge (60,2%). A renda per capita variou de R$0,00 a R$3.333,33 (média 496,89±DP344,07), a maior parte dos participantes tinha ensino fundamental (64,68%) e não estava trabalhando (68,2%). (Tabela 1).

Tabela 1 Caracterização de adultos e idosos usuários da rede urbana de atenção básica de saúde, em Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 2013 (n=1.246) 

Variáveis n %
Demográficas
Sexo
Masculino 203 16,3
Feminino 1.043 83,7
Idade em anos completos
20-39 471 37,8
40-59 498 40,0
≥60 277 22,2
Cor da pele (n=1.244)*
Preta/parda 457 36,7
Branca 787 63,3
Situação conjugal
Com cônjuge 496 39,8
Sem cônjuge 750 60,2
Socioeconômicas
Quintis de renda familiar mensal per capita Média DP
142,95 71,69
289,53 37,90
416,78 51,78
629,13 67,08
1.034,87 304,83
Escolaridade (1.169)**
Ensino fundamental 755 64,6
Ensino médio 276 23,6
≥Ensino superior 138 11,8
Ocupação
Não trabalha 850 68,2
Trabalha 396 31,8
Situação de saúde
Número de doenças crônicas não transmissíveis autorreferidas
Nenhuma 576 46,2
1-2 486 39,0
≥3 184 14,8
Autopercepção da saúde
Excelente 122 9,8
Boa 606 48,6
Regular 432 34,7
Ruim 86 6,9
Estado nutricional (n=1.113)***
Excesso de peso 679 61,0
Eutrofia 434 39,0
Autopercepção da alimentação
Excelente 90 7,2
Boa 697 55,9
Regular 381 30,6
Ruim 78 6,3
Conhecimento sobre saúde e nutrição
Acesso a informações sobre saúde
Não 466 37,4
Sim 780 62,6
Acesso a informações sobre nutrição
Não 778 62,4
Sim 468 37,6
Recebimento de orientação para alimentação saudável
Não 524 42,1
Sim 722 57,9
Serviços de saúde
Modelo de atenção à saúde
Tradicional 577 46,3
Estratégia Saúde da Família 669 53,7
Hábitos de vida
Dificuldades para práticas alimentares saudáveis
Sim 387 31,1
Não 859 68,9
Hábito de fumar
Sim 292 23,4
Não 954 76,6
Prática de atividade física
Não 928 74,5
Sim 318 25,5
Consumo de bebida alcoólica
Sim 185 14,9
Não 1.061 85,1

*2 perdas

**77 perdas

***133 perdas

A ausência de diagnóstico médico de doença crônica foi referida por 46,2%, enquanto 58,4 e 63,1%, respectivamente, percebiam sua saúde e sua alimentação como positivas. O excesso de peso foi identificado em 61%, e o acesso a informações sobre saúde e sobre nutrição, em 62,6 e 37,6% respectivamente. O recebimento de orientação para alimentação saudável foi mencionado por 57,9%, e o atendimento em UBS com ESF, por 53,7%. Dificuldades para práticas alimentares saudáveis foram citadas por 68,9%, o hábito de fumar, por 23,4%, a prática de atividade física, por 25,5%, e o consumo de bebida alcoólica, por 14,9% (Tabela 1).

O hábito de ler rótulos de alimentos foi referido por 70,9% dos entrevistados (IC95:68,3-73,5). Quando ajustamos os fatores de risco conforme o modelo hierárquico de análise, observamos, no primeiro nível, probabilidade do desfecho 25% maior nas mulheres (RP=1,25; IC95:1,10-1,42) e 8% maior naqueles com cônjuge (RP=1,08; IC95:1,02-1,14). Confirmamos a tendência linear quanto à escolaridade, com propensão ao desfecho 19% maior naqueles com ensino superior ou mais (RP=1,19; IC95:1,09-1,30), e a identificamos em relação aos idosos que apresentaram probabilidade de desfecho 13% superior (RP=1,13; IC95:1,01-1,27) (Tabela 2).

Tabela 2 Análise bruta e ajustada de fatores associados ao hábito de ler rótulos de alimentos, referido por adultos e idosos usuários da rede urbana de atenção básica de saúde, em Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 2013 (n=1.168) 

Variáveis Bruta Ajustada
RP (IC95) p RP (IC95) p
Demográficasa (n=1.168)*
Sexo 0,001e 0,001e
Feminino 1,24 (1,09-1,40) 1,25 (1,10-1,42)
Idade em anos completos 0,798g 0,042f
40-59 1,00 (0,90-1,12) 1,04 (0,93-1,15)
≥60 1,04 (0,93-1,16) 1,13 (1,01-1,27)
Cor da pele 0,613e 0,903e
Branca 1,02 (0,94-1,10) 1,00 (0,92-1,08)
Situação conjugal 0,031e 0,007e
Com cônjuge 1,07 (1,01-1,13) 1,08 (1,02-1,14)
Socioeconômicasa
Quintis de renda familiar mensal per capita 0,371g 0,465g
1,03 (0,93-1,15) 1,01 (0,91-1,13)
1,07 (0,98-1,16) 1,06 (0,98-1,14)
1,00 (0,87-1,15) 0,98 (0,84-1,14)
1,08 (0,95-1,21) 1,04 (0,90-1,20)
Escolaridade <0,001f <0,001f
Ensino médio 1,13 (1,05-1,22) 1,14 (1,05-1,24)
≥Ensino superior 1,18 (1,09-1,29) 1,19 (1,09-1,30)
Ocupação 0,771e 0,948e
Trabalha 0,99 (0,91-1,08) 1,00 (0,92-1,10)
Situação de saúdeb (n=833)**
Número de doenças crônicas não transmissíveis autorreferidas 0,029g 0,012f
1-2 1,00 (0,93-1,08) 0,99 (0,90-1,08)
≥3 0,85 (0,75-0,96) 0,82 (0,72-0,95)
Autopercepção da saúde 0,828g 0,048f
Boa 1,04 (0,92-1,18) 1,03 (0,91-1,17)
Regular 1,00 (0,88-1,14) 1,07 (0,95-1,21)
Ruim 1,05 (0,84-1,32) 1,24 (1,00-1,54)
Estado nutricional 0,643e 0,176e
Eutrofia 0,99 (0,93-1,04) 0,96 (0,91-1,02)
Autopercepção da alimentação 0,001f <0,001f
Boa 0,98 (0,89-1,07) 0,94 (0,85-1,04)
Regular 0,92 (0,82-1,03) 0,88 (0,77-1,00)
Ruim 0,66 (0,51-0,84) 0,64 (0,50-0,82)
Conhecimento sobre saúde e nutriçãoc (n=1.064)***
Acesso a informações sobre saúde 0,001e 0,041e
Sim 1,22 (1,09-1,36) 1,13 (1,00-1,28)
Acesso a informações sobre nutrição <0,001e 0,018e
Sim 1,23 (1,14-1,32) 1,10 (1,02-1,19)
Recebimento de orientação sobre alimentação saudável 0,027e 0,012e
Sim 1,09 (1,01-1,19) 1,12 (1,03-1,23)
Serviços de saúdec
Modelo de atenção à saúde 0,817e 0,474e
Estratégia Saúde da Família 1,01 (0,94-1,08) 1,02 (0,96-1,10)
Hábitos de vidad (n=1.064)***
Dificuldades para práticas alimentares saudáveis 0,065e 0,353e
Não 1,09 (0,99-1,20) 1,04 (0,95-1,14)
Hábitos de fumar 0,431e 0,827e
Não 1,04 (0,95-1,13) 0,99 (0,92-1,07)
Prática de atividade física <0,001e 0,006e
Sim 1,14 (1,06-1,23) 1,12 (1,03-1,21)
Consumo de bebida alcoólica 0,441e 0,651e
Não 1,03 (0,95-1,13) 0,98 (0,90-1,07)

avariáveis do primeiro nível da análise hierárquica

bvariáveis do segundo nível da análise hierárquica

cvariáveis do terceiro nível da análise hierárquica

dvariáveis do quarto nível da análise hierárquica

eteste do qui-quadrado

fteste de tendência linear

gteste de heterogeneidade

Categorias de referência: sexo masculino; 20-39 anos de idade; cor da pele preta/parda; sem presença de cônjuge; 1º quintil de renda; ensino fundamental; não trabalha; nenhuma doença crônica não transmissível autorreferida; autopercepção da saúde excelente; excesso de peso; autopercepção da alimentação excelente; sem acesso a informações sobre saúde; sem acesso a informações sobre nutrição; não ter recebido orientação sobre alimentação saudável; modelo tradicional de atenção à saúde; com dificuldades para práticas alimentares saudáveis; ser fumante; não praticar atividade física; consumir bebida alcoólica

*78 perdas

**413 perdas

***182 perdas

Dentre as variáveis do segundo nível, mantiveram a tendência linear de associação com o desfecho o número de doenças crônicas autorreferidas, com probabilidade de leitura de rótulos 18% menor naqueles com diagnóstico médico de três ou mais doenças (RP=0,82; IC95:0,72-0,95), e a autopercepção da alimentação, com propensão ao desfecho 36% menor naqueles que a autoperceberam como ruim (RP=0,64; IC95:0,50-0,82). Com o ajuste, a autopercepção da saúde passou a apresentar tendência linear; assim, aqueles que a autoperceberam como ruim tiveram probabilidade de leitura de rótulos 24% superior (RP=1,24; IC95:1,00-1,54) (Tabela 2).

No terceiro nível, mostraram-se mais propensos ao desfecho os que tinham acesso a informações sobre saúde (RP=1,13; IC95:1,00-1,28) e sobre nutrição (RP=1,10; IC95:1,02-1,19) e aqueles que tinham recebido orientação para alimentação saudável (RP=1,12; IC95:1,03-1,23).

Finalmente, no último nível, a única variável que manteve significância na associação foi a prática de atividade física, com probabilidade de leitura de rótulos 12% maior (RP=1,12; IC95:1,03-1,21) (Tabela 2).

Conforme apresentado na Tabela 3, no tocante às informações buscadas nos rótulos, observamos que a data de validade foi a mais frequentemente consultada (73,8%), seguida de valor nutricional do alimento (18%).

Tabela 3 Frequência de leitura de informações nos rótulos de alimentos por adultos e idosos usuários da rede urbana de atenção básica de saúde, em Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 2014 (n=829) 

n %
Calorias 71 8,6
Carboidratos 52 6,3
Colesterol 11 1,3
Gorduras totais 87 10,5
Gorduras trans 22 2,7
Glúten 24 2,9
Ingredientes 78 9,4
Modo de preparo 16 1,9
Prazo de validade 612 73,8
Proteínas 14 1,7
Sódio 99 11,9
Valor nutricional* 149 18,0

*O item valor nutricional refere-se à resposta espontânea sem especificação do nutriente

Os itens conservantes, diet, gorduras saturadas, lactose, light, local de fabricação, marca, receitas e sabor foram mencionados por menos de 1% dos entrevistados

DISCUSSÃO

A principal contribuição do nosso estudo à literatura disponível sobre a temática da leitura de rótulos de alimentos é o acréscimo de informações específicas sobre usuários da atenção básica de saúde. Entretanto, antes de discutirmos nossos achados, salientamos como limitação a sua natureza transversal, o que faz com que os fatores identificados não possam ser apontados como determinantes, e sim como associados ao desfecho. Na mesma perspectiva, é necessário considerar a possibilidade de causalidade reversa. Outro aspecto a ser destacado é a maior proporção de mulheres na amostra, o que era esperado em função de o estudo ser de base de serviços de saúde e o fato de os usuários terem sido entrevistados nas salas de espera das UBS, o que pode ter sub ou superestimado algumas variáveis. Simultaneamente, cabe enfatizar pontos fortes da pesquisa, tais como o reduzido percentual de perdas e o poder estatístico adequado para a maior parte das comparações feitas.

Verificamos que a maioria dos entrevistados tinha o hábito de ler rótulos de alimentos. Esse resultado demonstra que brasileiros usuários da atenção básica de saúde apresentam comportamento semelhante à população geral de muitos países ao redor do mundo, onde pesquisas identificaram frequências elevadas de leitura, na maioria das vezes acima dos 50%10.

Observações realizadas no Brasil, com consumidores de supermercados, apontaram prevalências de leitura de rótulos de 68,5% no Paraná18, de 72,2% no Rio Grande do Sul22 e de 94,6% no Rio Grande do Norte11. Estudo feito com mulheres assistidas pela ESF em São Paulo verificou o hábito em 59,5% das entrevistadas21. Isso sugere que, similarmente à população geral de outros países, na comparação entre usuários da atenção básica e população geral no Brasil, o comportamento quanto à leitura de rótulos é, de modo geral, semelhante e apresenta frequência elevada, além de ter sido apontada majoritariamente por mais da metade dos entrevistados. Contudo, considerando a importância atribuída aos rótulos alimentares e o papel dos profissionais de saúde no estímulo ao seu uso para a promoção de escolhas alimentares saudáveis5,9, era de se esperar uma prevalência ainda maior de leitura de rótulos entre usuários da atenção básica de saúde.

Em relação aos fatores demográficos e socioeconômicos, para a maioria das variáveis analisadas, nossos achados demonstram consistência com a literatura, na medida em que também verificamos maior probabilidade do desfecho em mulheres16,17, nos mais velhos8,17,18, naqueles com cônjuge20 e com maior escolaridade21-23.

No que se refere à análise da associação entre características da situação de saúde e leitura de rótulos de alimentos, verificamos que quanto maior o número de doenças crônicas, menor a probabilidade do desfecho. Sendo a alimentação parte do tratamento não farmacológico de muitas dessas doenças, seria esperado que os diagnosticados consultassem rotineiramente as informações de composição nutricional dos alimentos para fazerem suas escolhas. Contudo, é importante considerar que a relação entre essas variáveis precisa ser mais bem elucidada, tendo em vista a falta de consistência entre os resultados disponíveis na literatura10,23.

Vimos que quanto pior a autopercepção da alimentação, menor a probabilidade do desfecho – a mesma situação foi verificada na população americana17. Isso sugere que aqueles que se alimentam inadequadamente apresentam menor preocupação com a alimentação e, consequentemente, dão menor importância aos rótulos de alimentos. Ao mesmo tempo, confirmamos que quanto pior a autopercepção da saúde, maior a probabilidade de leitura de rótulos de alimentos. Tal constatação, somada ao que foi descrito anteriormente relativo ao diagnóstico de doenças crônicas, está em consonância com a conhecida complexidade do processo de mudança de comportamento em saúde25, ratificando que muitas vezes não é a confirmação em si de uma doença que faz com que o indivíduo mude de atitude, e sim a sua percepção no que concerne à situação, exigindo, dessa forma, que o profissional de saúde não apenas faça o diagnóstico, mas também o sensibilize e o oriente para o autocuidado. Ainda dentre as variáveis desse nível de análise, de modo semelhante a outros estudos10,17,23, não observamos diferenças quanto ao estado nutricional.

Atendendo à nossa expectativa em relação aos efeitos do conhecimento de saúde e de nutrição sobre o desfecho, constatamos maior probabilidade de leitura de rótulos entre os usuários com acesso a informações sobre saúde e nutrição, e que receberam orientação para alimentação saudável. Outros estudos também observaram efeito positivo do conhecimento sobre nutrição7,8,10 e do recebimento de orientação alimentar20. No entanto, em virtude do vínculo previsto entre profissionais da ESF e usuários, bem como de sua natureza educativa e promotora de saúde, esperávamos maior probabilidade do desfecho entre os assistidos pelo modelo, o que não foi confirmado.

Dentre as variáveis contempladas nos hábitos de vida, a única que apresentou associação com o desfecho foi a prática de atividade física. Entretanto, tal constatação, assim como a relação do hábito de ler rótulos de alimentos com o tabagismo e com o consumo de bebida alcoólica, sugere a necessidade de estudos adicionais por apresentar-se de modo controverso na literatura10,12,16.

No que diz respeito às informações consultadas nos rótulos, a mais frequentemente referida pelos entrevistados foi a validade. Pesquisas executadas em outros países constataram que maior atenção era dada à quantidade de gordura16 e fibras8, entretanto cabe destacar que nesses estudos não foi avaliada a observância da validade.

Corroborando nossos achados, outros pesquisadores brasileiros também verificaram que a informação mais frequentemente consultada era a validade11,21. Isso sugere que o usuário lê aquilo que lhe interessa mais pontualmente e não avalia, de forma integrada, toda a informação contida nos rótulos. Tal comportamento expressa a necessidade de enfatizar aos brasileiros, especialmente aos usuários da atenção básica de saúde, não só a importância de observar a validade dos produtos, visto que cerca de 30% não a mencionaram, mas, principalmente, de orientá-los a consultar as informações nutricionais disponibilizadas nos rótulos, visando a escolhas alimentares mais saudáveis. Todavia, cabe frisar, neste momento, que não levamos em consideração, em nosso estudo, questões relacionadas ao grau de entendimento das informações disponíveis, bem como referentes à sua real influência na aquisição ou no consumo dos produtos. Tais pontos já têm sido avaliados na população em geral e têm se mostrado insuficientes9,23. Somente pesquisas que abarquem esses aspectos com usuários de sistemas públicos de saúde poderão trazer especial contribuição ao tema.

Para finalizar, ressaltamos que, embora a rotulagem nutricional seja reconhecida pela literatura como instrumento útil à promoção da saúde e da alimentação saudável, a leitura dos rótulos de alimentos precisa ser popularizada, seja por meio de campanhas educativas, seja pela interação entre usuários e profissionais de saúde. Considerando ainda a importância do adequado entendimento e utilização das informações disponibilizadas, cabe destacar o papel da educação alimentar e nutricional como ferramenta imprescindível ao desenvolvimento de habilidades individuais necessárias à efetivação de uma alimentação adequada e saudável26.

De modo geral, de acordo com nossos resultados, na atenção básica de saúde, merecem foco os homens, os adultos jovens, aqueles sem cônjuge, com menor escolaridade, com diagnóstico de doenças crônicas, com percepção ruim da sua alimentação e os que não têm acesso a informações sobre saúde e nutrição.

REFERÊNCIAS

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