Liderança coaching: questionários de avaliação de percepções de líderes e liderados na enfermagem

Liderança coaching: questionários de avaliação de percepções de líderes e liderados na enfermagem

Autores:

Maria Lúcia Alves Pereira Cardoso,
Laís Helena Ramos,
Maria D’Innocenzo

ARTIGO ORIGINAL

Einstein (São Paulo)

versão impressa ISSN 1679-4508versão On-line ISSN 2317-6385

Einstein (São Paulo) vol.12 no.1 São Paulo jan./mar. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S1679-45082014AO2888

INTRODUÇÃO

As organizações de saúde mostram caminhos vinculados às variáveis referentes às ameaças e oportunidades existentes nas atuais relações de mercado. Tais variáveis são representadas por “inputs” sociais, educacionais, legais, tecnológicos, culturais, políticos e outros fatores altamente imprevisíveis em qualquer ambiente. O hospital, como um segmento que se enquadra nesse cenário, deve possuir uma gestão de pessoas, na qual os líderes devem atuar de modo dinâmico, orquestrado e interativo, observando atentamente as transformações do ambiente externo, a fim de efetuar mudanças no ambiente interno.

A liderança é um fator importante que gera e aplica energia nas pessoas, proporciona-lhes uma direção e sincroniza seus esforços. Com efeito, representa o indicador fundamental do potencial de uma empresa, diferentemente dos resultados financeiros, que apenas indicam onde a empresa já esteve. Uma liderança forte faz com que uma boa empresa seja ainda melhor, da mesma forma que uma fraca liderança reduz seu potencial e, com o tempo, a destrói. (1)

Hersey e Blanchard (2) definiram liderança como “o processo de influenciar as atividades de indivíduos ou grupos para a consecução de um objetivo numa dada situação”. Para esses autores, a definição não está atrelada ao tipo de organização; quando um indivíduo busca influenciar o comportamento de outro indivíduo ou de um grupo, em relação às suas atividades dentro de uma empresa, escola ou hospital, pode-se afirmar que ele exerceu liderança.

Dentro dessa abordagem, as organizações precisam se transformar em sistemas de aprendizagem organizacional, nos quais o trabalho em equipe seja incentivado, e as pessoas possam conquistar autonomia e autorrealização. Sem isso, sentem-se limitadas, tornando-se necessário liberá-las, conduzi-las e incentivá-las. O coaching passa a constituir uma ferramenta indispensável para a autocorreção do comportamento e do aprendizado dentro da organização, e os coaches traduzem-se como elementos necessários à sua instituição.

Krausz (3) definiu coaching como um processo que contribui para que as pessoas e os grupos transformem-se; reflitam a respeito de sua visão de mundo, de seus valores e crenças; aprofundem sua aprendizagem; incorporem novas habilidades e capacidades; e expandam sua prontidão para agir de forma coerente e eficaz. Por essa razão, constituem um modo de provocação construtivo, de desafio e estímulo para o desenvolvimento e a aprendizagem contínuos.

O processo coaching exige uma longa preparação organizacional, pois cada líder precisa ser preparado e desenvolvido. Assim, o coaching propõe uma mudança cultural rumo à descentralização e à participação, o que requer uma nova mentalidade dentro das organizações. O desenvolvimento das competências necessárias às lideranças é o objetivo.

No Brasil, a prática de coaching é relativamente nova, e poucos são os trabalhos acadêmicos que fazem alusão a ela, sobretudo na saúde e na enfermagem. Recentemente, tal prática foi aplicada para avaliar a liderança exercida por enfermeiras, mostrando-se uma estratégia gerencial no desenvolvimento de pessoas. (4)

Para o domínio de algumas competências associadas à liderança, destacam-se as competências necessárias ao enfermeiro-líder: comunicar; dar e receber feedback ; dar poder e exercer influência; e apoiar a equipe para que resultados organizacionais sejam alcançados − tudo isso são as dimensões do processo coaching . (5)

O desenvolvimento das lideranças é a revitalização estratégica e instrumental para proporcionar habilidades e perspectivas aos gestores, para que se transformem em líderes- coaches de seus liderados- coachees , em busca de resultados concretos e melhoria contínua de desempenho. Entretanto, não há estudo que tenha avaliado a percepção de enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem a respeito da liderança, considerando as dimensões do processo coaching.

Este estudo utilizou a avaliação investigativa, tendo como objeto a análise da percepção de enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem sobre o exercício da liderança, considerando as dimensões do processo coaching, almejando que os resultados auxiliem na produção de um conhecimento específico e na construção de dois instrumentos de quantificação da competência de liderança na enfermagem.

OBJETIVO

Apresentar o desenvolvimento, a análise de conteúdo e a confiabilidade de dois questionários, para avaliar a percepção de enfermeiros-líderes, técnicos e auxiliares de enfermagem liderados, sobre a prática da liderança e a relação com as dimensões do processo coaching.

MÉTODOS

Os procedimentos metodológicos propostos para a realização desta pesquisa dividiram-se em duas etapas. Na primeira, foram analisadas as dimensões da liderança coaching com uma premissa relacionada a seus determinantes, premissa esta que se constituiu a partir de um consenso do conteúdo dos instrumentos na avaliação por juízes, utilizando-se a técnica Delphi. A segunda compreendeu o delineamento da pesquisa, tendo o estudo de campo sido realizado em quatro hospitais gerais, sem fins lucrativos, de grande porte, localizados na cidade de São Paulo (SP): dois deles caracterizados como universitários, e dois como hospitais de direito privado, no período de junho a dezembro de 2011. Analisou-se a prática da liderança, sob a percepção de enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem.

Trata-se de um estudo metodológico, de abordagem quanti-qualitativa, que teve como meta a instrumentação que se refere à construção e à validação de instrumentos de medida, ou seja, que visa à “construção e validação de instrumentos formais, quantitativos, com a finalidade de pesquisa ou clínica”. (6) Como referencial teórico-metodológico para a adaptação e criação dos instrumentos, foram usados os pressupostos de Pasquali, (7) segundo os quais, de forma geral, os instrumentos de medida devem ser claros, compreensíveis, de fácil aplicação e passíveis de utilização em diversos contextos.

Aspectos éticos

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo, nº 1.405/2009. O Termo de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE) foi assinado previamente pelos juízes e sujeitos participantes.

Desenvolvimento dos instrumentos

Os instrumentos de pesquisa foram criados e alicerçados na experiência da pesquisadora, e as proposições foram fundamentadas na literatura sobre liderança à luz do referencial teórico da Liderança Situacional, de Hersey e Blanchard, (2) amplamente utilizado em estudos na Enfermagem, bem como em extensa pesquisa bibliográfica sobre coaching.

Optou-se pelo uso de questionários, sendo um direcionado aos enfermeiros (líderes), denominado Questionário de Autopercepção do Enfermeiro no Exercício da Liderança (QUAPEEL − Anexo 1), e o outro destinado aos técnicos e auxiliares de enfermagem (liderados), denominado Questionário de Percepção do Técnico e Auxiliar de Enfermagem no Exercício da Liderança (QUEPTAEEL − Anexo 2). Ambos os questionários contêm questões estruturadas e são compostos por três partes: a primeira é formada por dados sociodemográficos dos sujeitos; a segunda com perguntas abertas e fechadas, relativas aos conhecimentos dos sujeitos sobre a temática da liderança; e a terceira com questões relativas às habilidades e atitudes exercidas pelos líderes e liderados na prática da liderança coaching . Essa última é composta por um instrumento de medida escalar.

A escala é um dispositivo destinado a atribuir um escore numérico às pessoas e, frequentemente, é incorporada a um questionário. (6) Neste estudo, foi usada a escala de Likert, com seis campos de variação; os participantes foram solicitados a indicar o grau de concordância e de discordância nas afirmativas.

Ao final de cada instrumento, foi incluída uma questão específica também fechada, para classificação geral dos instrumentos construídos. O intuito da questão foi avaliar sua aplicabilidade nas instituições de saúde, especificamente no contexto hospitalar. A seguinte mensuração foi utilizada: plenamente aplicável, aplicável, relativa aplicabilidade e não aplicável.

Validade do conteúdo

A validade do conteúdo representa o conteúdo ou o domínio de um dado constructo. O universo do conteúdo fornece a base para a formulação dos critérios que o representarão. Inicialmente, trata-se de definir o conceito e identificar as dimensões componentes do conceito, daí, então, são formulados os critérios. Quando o pesquisador completa essa tarefa, submete a ferramenta ou, no caso, o instrumento a um grupo de juízes, considerados especialistas nesse conceito. (8)

Para verificar a validade de conteúdo, os instrumentos foram submetidos à avaliação de juízes com conhecimento e experiência na área, que atenderam a pelo menos dois dos seguintes critérios: gerência, ensino, pesquisa e consultoria na área de enfermagem e liderança de pessoas, serem sócios da Sociedade Brasileira de Gerenciamento em Enfermagem (SOBRAGEN) e possuírem publicações na temática estudada. Desse grupo de 24 juízes, 5 eram administradores, engenheiros e psicólogos especialistas em gestão de pessoas e coaching , e 19 enfermeiros-gestores e líderes da enfermagem.

Após o contato informal, os juízes receberam uma carta-convite e concordância da participação no estudo, acompanhada por uma cópia dos instrumentos e das instruções de administração, e pela pontuação dos escores e questionários de validação do conteúdo.

Quanto à clareza, os juízes utilizaram a avaliação dos instrumentos como parâmetro, considerando quando a proposição fosse objetiva, inteligível e com expressões inequívocas; quanto à relevância, se fosse significativa para conhecer as crenças dos participantes da pesquisa, o conteúdo e a pertinência das assertivas em cada uma das dimensões, assim como a necessidade de incluir ou excluir alguma proposição. A escala intervalar também foi avaliada em relação a ser apropriada, excessiva ou insuficiente.

Para constituir o consenso, estabeleceu-se o percentual mínimo de 75% de concordância entre os juízes. Para isso, foram realizados dois ciclos necessários para atingir os valores mínimos estabelecidos.

Após cada fase da técnica Delphi, os dados obtidos foram digitados pela pesquisadora em uma planilha do programa de computador Microsoft Excel ® , contendo o código dos instrumentos (número ordinal crescente) e o grau de concordância entre os juízes foi verificado. Todas as respostas foram compiladas em uma lista, com a opinião dos respondentes a cada elemento, assim todas as modificações realizadas foram declaradas, conforme o julgamento dos proponentes.

Os dados resultantes do consenso de opiniões entre os juízes foram analisados sob a orientação de uma bioestatística e os seguintes métodos foram empregados: validação do instrumento por especialistas e avaliação de consistência interna. Somente, após a validação do conteúdo dos instrumentos de pesquisa pelos experts e ajustes necessários para sua adequação é que ocorreu a próxima fase da pesquisa: o pré-teste.

Aplicação dos instrumentos de pesquisa: pré-teste

Nesta etapa do estudo, foi possível evidenciar se os requisitos relacionados ao vocabulário e à clareza das questões estavam adequados, assegurando que as variáveis do estudo fossem mensuradas. As poucas sugestões declaradas por enfermeiros, técnicos de enfermagem para adequação dos instrumentos foram acatadas pela pesquisadora, por terem sido consideradas pertinentes, favorecendo a visualização e a formatação do questionário.

A versão final dos questionários foi aplicada a 279 enfermeiros e 608 técnicos e auxiliares de enfermagem atuantes nas unidades de internação de clínica médico-cirúrgica, unidades de terapia intensiva adulto, unidades de pronto-socorro adulto, unidades de centro cirúrgico e central de material e esterilização que atenderam aos critérios de elegibilidade.

RESULTADOS

Os dois questionários (Anexos 1 e 2) foram desenvolvidos compondo três partes. A terceira parte tinha 20 proposições, denominadas determinantes das dimensões do processo coaching; a cada dimensão, foram atribuídas quatro situações baseadas nas habilidades e atitudes do enfermeiro-líder, graduadas de forma crescente quanto à prática da liderança, com escores de 5 a 1. As percepções do líder e de seus liderados consistiram na análise das dimensões em relação a cada um dos 20 determinantes e à opção da situação que melhor representou o exercício da liderança.

Quatro dimensões do processo coaching foram avaliadas: comunicação, dar e receber feedback , dar poder e exercer influência e apoiar a equipe para alcance dos resultados organizacionais. A avaliação da validade de conteúdo por grupo de juízes subsidiaram as modificações e adequação dos instrumentos QUAPEEL e QUEPTAEEL à realidade da prática da liderança na enfermagem.

Verifica-se que a concordância entre os juízes no primeiro ciclo variou de 61,9% a 95,2%, com a média percentual de 78,8%. Quanto aos determinantes propostos, se clara e relevante, a opção foi “concordo”; se clara e não relevante, a opção foi “discordo” e se a questão era relevante e não clara, a opção foi “altero”. Nesse caso, os experts propuseram sugestões para modificação das definições conceituais.

No segundo ciclo da técnica Delphi, os determinantes da análise de autopercepção dos enfermeiros sobre o exercício da liderança foram pontuados pelos juízes, entre o percentual mínimo de 81,2% e máximo 93,7%. Dos seis determinantes de habilidades e atitudes exercidas pelos enfermeiros-líderes do instrumento QUAPEEL, dois tiveram de ser adequados, assim como no QUEPTAEEL três encerraram com adequação quanto à construção da frase e correção de linguagem, e sugestões simples de melhoria de enunciado. Nenhum dos determinantes propostos foi excluído ou considerado não pertinente à temática. Para esse último, a concordância entre os juízes variou entre 56,3 e 93,8%, com média percentual de 76,4%.

Na opinião dos juízes, houve confiabilidade das escalas com o resultado do alfa de Cronbach para o QUAPEEL, sendo baixo no primeiro ciclo (0,466) e alto no segundo (0,698); para o QUEPTAEEL, no primeiro ciclo foi bastante alto (0,821) e no segundo ciclo alto (0,608). A escala psicométrica foi considerada apropriada por 16 (76%) juízes, e a aplicabilidade dos instrumentos plenamente aplicável por 13 (68%) e aplicável por 6 (32%) juízes.

As tabelas 1 e 2 contêm os resultados da análise de consistência interna, de todos determinantes do processo coaching proposto para os questionários avaliadas por meio do alfa de Cronbach, considerando um nível de significância de 5%. Ambos os questionários apontaram fortíssima consistência da escala.

Tabela 1 . Distribuição do alfa de Cronbach para todos os determinantes do processo coaching, relativos ao instrumento dos enfermeiros – Questionário de Autopercepção do Enfermeiro no Exercício da Liderança 

Determinantes do processo coaching Correlação do item com a correlação total Alfa – se o item for deletado
4.1. Sei ouvir os liderados 0,451 0,899
4.2. Consigo manter o interesse dos liderados na manutenção e continuidade do diálogo 0,487 0,898
4.3. Transmito orientação e aconselhamento aos liderados atendendo a suas necessidades profissionais 0,422 0,899
4.4. Utilizo a comunicação verbal e mantenho atenção à comunicação não verbal no diálogo com os liderados 0,373 0,901
4.5. Contribuo para que a minha comunicação seja eficaz nas relações de trabalho com os liderados 0,416 0,900
4.6. Dou orientações aos liderados, de acordo com as necessidades individuais demonstrando como as tarefas devem ser realizadas 0,580 0,895
4.7. Esclareço dúvidas dos liderados referentes às suas tarefas 0,489 0,898
4.8. Reconheço e valorizo os liderados pelo que fazem ou pela forma como se comportam 0,485 0,898
4.9. Oriento os liderados mostrando um novo caminho a seguir quando não correspondem ao desempenho esperado 0,533 0,897
4.10. Acompanho periodicamente o desempenho dos liderados 0,584 0,895
4.11. Estimulo a prática de dar e receber feedback com os liderados 0,556 0,896
4.12. Exerço influência nos liderados favorecendo condições para ampliar suas competências na busca de resultados eficazes 0,585 0,895
4.13. Compartilho as decisões com os liderados relacionadas com as suas atividades 0,551 0,896
4.14. Delego atividades aos liderados compartilhando responsabilidades 0,530 0,897
4.15. Contribuo para o desenvolvimento profissional dos meus liderados 0,561 0,896
4.16. Auxilio os liderados quando estão enfrentando alguma dificuldade profissional 0,582 0,895
4.17. Valorizo a opinião dos liderados para alterar um procedimento ou propor alguma mudança operacional 0,537 0,897
4.18. Estabeleço junto de cada liderado da minha equipe as metas a serem atingidas 0,690 0,892
4.19. Acompanho periodicamente cada liderado quanto aos resultados apresentados 0,646 0,893
4.20. Acordo o prazo necessário para cada liderado para que as metas sejam alcançadas 0,550 0,897

Alfa total 0,911

Tabela 2 . Distribuição do alfa de Cronbach a todos os determinantes do processo coaching, relativos ao instrumento dos técnicos e auxiliares de enfermagem – Questionário de Percepção do Técnico e Auxiliar de Enfermagem no Exercício da Liderança 

Determinantes do processo coaching Correlação do item com a correlação total Alfa − se o item for deletado
4.1. Sou ouvido (a) pelo (a) meu (minha) líder 0,694 0,950
4.2. Recebo a atenção e o interesse do (a) líder na continuidade do diálogo 0,722 0,950
4.3. Recebo orientação e aconselhamento do (a) líder quando preciso atender a minhas necessidades profissionais 0,730 0,950
4.4. Utilizo a comunicação verbal e mantenho a atenção à comunicação não verbal no diálogo com o meu (minha) líder 0,545 0,952
4.5. Contribuo para a comunicação eficaz nas relações de trabalho com meu (minha) líder 0,547 0,952
4.6. Recebo orientações de meu (minha) líder e demonstrações de como as tarefas devem ser realizadas por mim, conforme minhas necessidades 0,641 0,951
4.7. Recebo esclarecimento do (a) meu (minha) líder, quando tenho dúvidas em minhas tarefas 0,620 0,951
4.8. Sou reconhecido (a) e valorizado (a) pelo (a) líder, pelo que faço ou pela forma como me comporto 0,741 0,949
4.9. Sou orientado (a) a seguir um novo caminho quando não correspondo ao desempenho esperado 0,650 0,951
4.10. Sou acompanhado (a) periodicamente no meu desempenho 0,660 0,951
4.11. Recebo e pratico o feedback com o (a) líder 0,706 0,950
4.12. Sou influenciado (a) por meu (minha) líder, ampliando minhas competências na busca de resultados eficazes 0,785 0,949
4.13. O (a) meu (minha) líder compartilha as decisões comigo 0,750 0,949
4.14. Recebo orientações do (a) meu (minha) líder para exercer as atividades e percebo compartilhamento de responsabilidades 0,783 0,949
4.15. O (a) meu (minha) líder contribui para meu desenvolvimento 0,802 0,948
4.16. O (a) meu (minha) líder fica à disposição para me auxiliar quando estou enfrentando alguma dificuldade profissional 0,727 0,949
4.17. O (a) meu (minha) líder valoriza minha opinião para alterar um procedimento ou propor alguma mudança operacional 0,712 0,950
4.18. O (a) meu (minha) líder define comigo as metas a serem atingidas 0,737 0,949
4.19. O (a) meu (minha) líder acompanha periodicamente os resultados apresentados por mim 0,755 0,949
4.20. Sei o prazo previsto para que as metas sejam alcançadas por mim 0,551 0,952

Alfa total 0,952

Na tabela 1, observou-se o valor de alfa de Cronbach muito alto (0,911) para o QUAPEEL e, na tabela 2, valor bastante alto (0,952) para o QUEPTAEEL. O valor do alfa de Cronbach varia de 0 a 1 e aponta uma maior consistência quanto mais próximo estiver de 1. Assim, análise confirmatória demonstrou que os modelos estavam bem ajustados.

A partir dos dados da tabela 3, constatou-se que houve diferença estatisticamente significante entre: a percepção dos líderes em relação a todas dimensões, com média de 84,4 (desvio padrão − DP:8,8), e dos liderados, com média de 81,4 (DP:12,5) − valor de p de 0,001; entre as dimensões comunicação e percepção dos líderes, com média de 21,43 (DP:2,15), e dos liderados, com média de 22,2 (DP:2,5) − valor de p<0,001; e sobre dar e receber feedback para os líderes, com média de 21,80 (DP: 2,35), e os liderados, com média de 21,0 (DP:3,2) − valor de p=0,008 do teste t Student.

Tabela 3 . Distribuição da análise estatística e valor de p do teste t de Student conforme a comparação de percepção das dimensões do processo coaching entre enfermeiros-líderes e técnicos e auxiliares de enfermagem-liderados de todos os hospitais 

Determinantes n Média Mediana Desvio-padrão Mínimo Máximo
Pontuação total (líder)* 249 84,4 85 8,8 51 100
Pontuação total (liderado)* 249 81,4 84,2 12,5 39 100
Comunicação (líder)* 249 21,43 21 2,15 14 25
Comunicação (liderado)* 249 22,2 23 2,5 8 25
Dar e receber feedback (líder)** 249 21,8 22 2,35 14 25
Dar e receber feedback (liderado)** 249 21 22 3,2 9,5 25
Dar poder e exercer influência (líder)*** 249 20,99 21 2,75 12 25
Dar poder e exercer influência (liderado)*** 249 20,3 21,2 3,8 6,5 25
Apoiar a equipe para alcance de resultados (líder)**** 249 20,19 21 3,38 6 25
Apoiar a equipe para alcance de resultados (liderado)**** 249 21 3,8 5 25 20,15

Na opinião dos 279 enfermeiros, o instrumento QUAPEEL de autopercepção do exercício da liderança foi considerado plenamente aplicável para 78 (28,0%), aplicável para 178 (63,8%) e relativamente aplicável para 23 (8,2%) enfermeiros. Não houve opção pela alternativa não aplicável, evidenciando sua aplicabilidade. Dentre 606 (99,6%) liderados respondentes, o instrumento QUEPTAEEL foi considerado aplicável para 358 (59,1%), plenamente aplicável para 169 (27,9%), relativamente aplicável para 74 (12,2%) e só 5 (0,8%) técnicos e auxiliares de enfermagem optaram pela alternativa não aplicável.

DISCUSSÃO

O objetivo deste estudo foi apresentar o desenvolvimento, bem como a análise de conteúdo da confiabilidade de dois questionários destinados a avaliar a percepção de enfermeiros-líderes, técnicos e auxiliares de enfermagem – liderados sobre a prática da liderança e a relação com as dimensões do processo coaching. Os achados demonstraram que se tratam de instrumentos de medidas conceitualmente válidos, compreensíveis para os enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, e coerentes nos atributos que mensuram.

Entende-se que os achados estabeleceram um consenso de conceituação das situações que representam habilidades e atitudes exercidas por enfermeiros-líderes e seus liderados na prática da liderança coaching , conforme a concordância e as sugestões declaradas pelos juízes, por considerar que foram pertinentes ao conteúdo de cada proposição.

Há evidências positivas quanto à confiabilidade dos instrumentos QUAPEEL e QUEPTAEEL, pois os questionários mostraram-se plenamente aplicáveis e apontaram que a concordância de representatividade dos determinantes, frente ao universo do processo de liderança coaching , foi consistente e demonstrou concretude de conteúdo.

A validade de conteúdo tem sido definida como o grau no qual o instrumento tem um apropriado conjunto de itens para representar um construto (9) ou, ainda, a extensão por meio da qual um instrumento representa adequadamente o domínio de interesse, ao procurar medir um determinado fenômeno. (10)

Os instrumentos iniciais, até a versão final, foram cuidadosamente modificados no decorrer das duas fases. Todos os 20 determinantes foram tratados com uniformidade de importância, mas acredita-se que, na prática, alguns determinantes (como os da dimensão comunicação) possam ser considerados mais determinantes ao enfermeiro-líder no exercício da liderança coaching.

Nesse sentido, o resultado confirma que a comunicação é um instrumento crucial no processo de liderança, sendo um recurso que permite ao líder aproximar-se dos liderados com o intuito de compreender as atividades de cada um, compartilhar ideias e visões, bem como criar interdependências para o desenvolvimento do trabalho por meio das equipes. (11)

Diante dos resultados apresentados, considerando a percepção dos técnicos e auxiliares de enfermagem sobre a prática da liderança e a relação com as dimensões do processo coaching , pode-se afirmar que houve coerência com a percepção dos enfermeiros. Verificou-se ainda que os liderados têm uma visão positiva, ao declararem a aplicabilidade prática das dimensões do processo coaching e ao admitirem que consideravam adequada a liderança exercida pelo enfermeiro-líder no dia a dia do trabalho.

CONCLUSÃO

Por meio da validação estatística, comparou-se a possibilidade de utilização dos instrumentos QUAPEEL e QUEPTAEEL com outras amostras de estudo, pois houve evidências de confiabilidade e aplicabilidade. Embora tenham sido utilizadas no nível de avaliação da percepção e da opinião, ficou clara a possibilidade de emprego em níveis da aplicação e na avaliação do impacto, em consonância com a prática da liderança coaching na enfermagem.

Os instrumentos QUAPEEL e QUEPTAEEL podem ser utilizados dentro dos hospitais, como estratégia no mapeamento da liderança exercida pelos enfermeiros-líderes e para identificar os efeitos da adoção de práticas que influenciem o processo coaching. As considerações são sugestivas, visto que, para delinear o desempenho efetivo dessa prática, seria necessário vivenciar o modelo de medição proposto.

Por ser este um dos primeiros trabalhos acadêmicos, senão o primeiro, a tratar diretamente da prática de liderança na enfermagem, considerando as dimensões do processo coaching no Brasil, torna-se claro que muito ainda precisa ser pesquisado e aprofundado a respeito.

REFERÊNCIAS

1. Charan R. O líder criador de líderes. Traduzido por Cristina Yamagami. Rio de Janeiro: Elsevier; 2008.
2. Hersey P, Blanchard KH. Psicologia para administradores: a teoria e as técnicas da liderança situacional. Traduzido por Edwino A. Royer. São Paulo:EPU;1986.
3. Krausz RR. Coaching executivo: a conquista da liderança. São Paulo: Nobel; 2007.
4. Cardoso ML, Ramos LH, D Innocenzo M. Liderança Coaching: um modelo de referência para o exercício do enfermeiro-líder no contexto hospitalar. Rev Esc Enferm USP. 2011;45(3):730-7.
5. Cardoso ML. Liderança Coaching: um modelo de referência para o exercício do enfermeiro-líder no contexto hospitalar [tese]. São Paulo: Universidade Federal de São Paulo; 2006.
6. Polit DF, Beck CT, Hungler BP. Fundamentos de pesquisa em enfermagem: métodos, avaliação e utilização. 5a ed. Porto Alegre: Artes Médicas; 2004.
7. Pasquali L. Psicometria: teoria e testes na psicologia e na educação. Petrópolis: Vozes; 2003.
8. LoBiondo-Wood G, Haber J. Pesquisa em enfermagem: métodos, avaliação crítica e utilização. 4a ed. Traduzido por Cabral IE. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan; 2001.
9. Polit DF, Beck CT. Nursing research: principles and methods. 7th ed. Philadelphia: Lippincott; 2004.
10. Wynd CA, Schmidt B, Schaefer MA. Two quantitative approaches for estimating contente validity. West J Nurs Res. 2003;25(5):508-18.
11. Galvão CM, Sawada NO, Castro AP, Corniani F. Liderança e comunicação: estratégias essenciais para o gerenciamento da assistência de enfermagem no contexto hospitalar. Rev Latinoam Enferm. 2000;8(5):34-43.
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