Má conduta científica: nosso primeiro caso (reconhecido)

Má conduta científica: nosso primeiro caso (reconhecido)

Autores:

Jacyr Pasternak

ARTIGO ORIGINAL

Einstein (São Paulo)

versão impressa ISSN 1679-4508versão On-line ISSN 2317-6385

Einstein (São Paulo) vol.12 no.4 São Paulo out./dez. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S1679-45082014ED3296

A einstein registrou, no fascículo anterior, a primeira retratação em razão de um caso de publicação duplicada: “Estimulação elétrica neuromuscular em pacientes graves em unidade de terapia intensiva: revisão sistemática”, por Lucas Lima Ferreira, Luiz Carlos Marques Vanderlei e Vitor Engrácia Valenti. Nosso periódico, como todo periódico indexado e revisado pelos pares, solicita aos autores declaração inequívoca em suas cartas de submissão assegurando que o artigo não foi anteriormente submetido a outro periódico. Tal carta é assinada por todos os autores, portanto, essa afirmação é considerada um fato. Neste caso, o fato era fictício...

A má conduta científica tem muitas faces: a publicação duplicada, talvez, seja uma das mais fáceis de descobrir. Essa prática era mais comum no passado, quando alguns “cientistas”, pressionados a publicar (“publique ou você dança”), procuravam periódicos pouco conhecidos, que não publicavam em língua inglesa, e tentavam submeter seus manuscritos a diversos deles ao mesmo tempo. Com a melhora dos sistemas de busca e de indexação, essa prática tornou-se mais e mais difícil de realizar. Uma análise de artigos retratados na literatura médica entre 2004 e 2013(1) mostrou aumento no número de artigos retratados nos últimos anos. A maioria das retratações foi de artigos originais, seguidos de relatos de casos.

O artigo recente de Lins e Carvalho(2) analisou a má conduta científica no Brasil. Esses autores encontraram um claro aumento na publicação de artigos em literatura médica e de casos de má conduta científica, incluindo resultados irreproduzíveis, “ciência salame” (um artigo fragmentado em 10 ou mais artigos) e publicações duplicadas. Na opinião de Lins e Carvalho, o aumento no número de produções científicas brasileiras na literatura médica não foi acompanhado da melhora na qualidade dos artigos – mas, sim, do oposto. Os autores discutem o foco dos Conselhos de Ética em Pesquisa brasileiros, nas próprias instituições e na Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP). Nenhum destes realiza vigilância sistemática para integridade em pesquisa, e inexistem órgãos específicos para investigar e lidar com a má conduta científica. Os esforços dos editores podem, pelo menos, diminuir a publicação duplicada: autores coreanos notaram altas taxas de publicações duplicadas de 5,9% em relação a todos os artigos publicados na Coreia em 2004, de 6,0% em 2005 e de 7,2% em 2006. Para reverter esse aumento de publicações duplicadas, foi elaborada uma base de dados, incluindo todos os manuscritos coreanos em medicina publicados por autores coreanos em periódicos indexados e não indexados. A campanha para finalizar a publicação duplicada alcançou sucesso: em 2009, apenas 1,2% de todos os artigos publicados eram duplicidades.(3)

Um artigo recente sobre submissão de artigos relatou que a maioria dos periódicos tem notado um claro aumento de artigos eticamente duvidosos, representando, portanto, uma sobrecarga significante aos editores. Tais artigos são recebidos, revisados e algumas vezes – o que é pior – publicados. Os editores não são detetives: quando os autores declaram por escrito que seu artigo é original, produzido com dados reais, não inventados; que os experimentos foram feitos como descrito; que os resultados não foram distorcidos para obter significância estatística; que o trabalho completo foi submetido; e que o artigo não foi previamente submetido a outra publicação, os editores acreditam em tais afirmações.(4) Como devemos lidar com submissões duplicadas? Uma carta ao editor publicada recentemente em um periódico iraniano dá sugestões excelentes para essa questão, as quais serão seguidas por nosso periódico.(5)

– os editores não devem permitir qualquer autor de submissão duplicada que publique novamente em seus periódicos;

– os periódicos envolvidos em submissões duplicadas devem comunicar o fato para base de dados indexadoras e outras bases, incluindo também os nomes de todos os autores (ou devemos chamá-los de “duplicadores?”);

– se os autores são de universidade ou estão recebendo financiamento público, as autoridades responsáveis devem ser informadas.

REFERÊNCIAS

Singh HP, Mahendra A, Yadava B, Singh H, Arora N, Arora M. A comprehensive analysis of articles reatracted between 2004 and 2013 from the biomedical literature – a call for reform. J Tradit Compl Med. 2014;4(3):136-9.
Lins L, Carvalho FM. Scientific integrity in Brazil. J Bioeth Inq. 2014;11(3):283-7.
Kim SY, Bae CW, Hahm CK, Cho HM. Duplicate publication rate decline in Korean medical Journals. J Korean Med Sci. 2014;29(2):172-5.
Murphy SP, Bulman C, Shariati B, Hausmann L; ISN Publications Committee. Submiting a manuscript for peer review: integrity, integrity, integrity. J Neurochem. 2014;128(3):341-3.
Yahyavi ST. Facing to duplicate submission as scientific misconduct. Iran J Psychiatry Behav. 2014;8(1):72.
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