Manejo e conduta das doenças vasculares do sistema porta

Manejo e conduta das doenças vasculares do sistema porta

Autores:

Lenon Cardoso,
Thiago Cerizza Pinheiro,
Maissa Marçola Scandiuzzi,
Fernanda Soares Simoneti,
Daniel Ilias,
Marlon Moda,
Ronaldo Antônio Borghesi

ARTIGO ORIGINAL

Jornal Vascular Brasileiro

versão impressa ISSN 1677-5449

J. vasc. bras. vol.14 no.1 Porto Alegre jan./mar. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1677-5449.20140063

INTRODUÇÃO

As doenças vasculares do sistema porta englobam o aneurisma e a trombose. Diferentemente dos aneurismas arteriais, os aneurismas venosos são incomuns. Geralmente, são descritos nas veias poplítea, jugular e safena, raramente ocorrendo em outros sítios1. Os aneurismas da veia porta (AVP) representam 3% dos aneurismas venosos2, sendo mais comuns na região extra-hepática, na confluência das veias esplênica e mesentérica superior, seguida da veia porta e suas ramificações3. Barzilai e Kleckner4 foram os primeiros a relatar um caso de AVP em 1956, ao descreverem a presença de aneurisma de veia porta com trombo no interior, rompido para o sistema biliar, na necropsia de um paciente cirrótico4. Desde então, foram descritos cerca de 200 casos destes na literatura5.

Ainda não foi estabelecida a fisiopatogenia da formação do aneurisma; no entanto, são descritas duas teorias: a congênita, por falha da regressão completa da veia vitelínica distal ou fraqueza da parede venosa interna, e a adquirida, secundária a doença hepática crônica, hipertensão portal, trauma, pancreatite ou cirurgia3. Acredita-se que o aumento da pressão intraluminal observada na hipertensão portal poderia levar à dilatação das paredes relativamente finas da veia porta. Entretanto, alguns autores acreditam que há alguma outra explicação devido à baixa incidência de aneurisma de veia porta nos pacientes com hipertensão portal6.

A trombose da veia porta (TVPo) se refere à obstrução completa ou parcial do fluxo sanguíneo na veia porta devido à presença de um trombo na luz do vaso7. A TVPo foi descrita pela primeira vez em 1869 por Balfour e Stewart8, e é considerada, no ocidente, a principal causa de hipertensão portal extra-hepática em doentes com fígado normal9. Embora seja um evento raro na população em geral, sua prevalência em doentes cirróticos varia de 4,4 a 15%, sendo responsável por 5 a 10% dos casos de hipertensão portal10.

Com a obstrução na veia porta, o fígado perde dois terços do seu suprimento sanguíneo. Apesar disso, essa condição é bem tolerada e os pacientes são, geralmente, assintomáticos, ao contrário de obstrução arterial aguda, que sempre leva a uma disfunção hepática aguda grave, a qual pode ser fatal 11 , 12. A obstrução da veia porta provoca dois mecanismos compensatórios: a vasodilatação da artéria hepática e o desenvolvimento de circulação colateral para desviar o fluxo sanguíneo da obstrução11. Esse processo acarreta uma perda de tecido hepático e, em longo prazo, consequente perda de função hepática13.

A etiologia da TVPo, geralmente, é multifatorial, sendo os fatores de risco divididos em locais e sistêmicos 11 , 14:

- Locais: câncer; lesões inflamatórias abdominais focais; lesão do sistema venoso portal (cirurgia, trauma e iatrogenia), e cirrose;

- Sistêmicos: trombofilias congênitas (fator V de Leiden, mutação no gene da protrombina, hiperhomocisteinemia, deficiência das proteínas C e S, e deficiência de antitrombina); trombofilias adquiridas (síndrome do anticorpo antifosfolípide e hiperhomocisteinemia); doenças mieloproliferativas; hemoglobinúria paroxística noturna; uso de anticoncepcionais orais; gestação, e puerpério.

As crianças também podem desenvolver TVPo após um episódio de onfalite ou após cateterização umbilical14.

Objetivo

Descrever um caso de aneurisma de veia porta e outro de trombose de veia porta, além de propor o seu manejo clínico-cirúrgico.

RELATO DOS CASOS

Caso 1. Paciente do sexo masculino, 27 anos, com quadro de dor crônica em hipocôndrio direito; foi internado em serviço de pronto-socorro, no qual foi realizada ultrassonografia de abdome (Figura 1), que demonstrou colecistopatia crônica calculosa e presença de TVPo. Foi realizada também uma tomografia computadorizada de abdome com contraste endovenoso, confirmando a presença TVPo (Figura 2). Os exames laboratoriais não evidenciaram alterações que pudessem esclarecer a sua etiologia; portanto, a trombose foi considerada idiopática. Optou-se pelo manejo clínico, com ácido acetilsalicílico 100 mg por dia, evoluindo com melhora clínica e seguimento ambulatorial.

Figura 1.   Ultrassonografia evidenciando veia porta com trombo hiperecoico e focos ecogênicos, que determinam sombra acústica posterior. Não há fluxo. Havia, também, presença de varizes ao redor da veia porta no hilo hepático. Baço com dimensões aumentadas. 

Figura 2.   Veia porta sem caracterização de fluxo com focos de calcificação (trombose crônica). Exuberante circulação colateral no hilo hepático (transformação cavernomatosa). Presença de esplenomegalia. 

Caso 2. Paciente do sexo masculino, 60 anos, assintomático, foi referenciado ao serviço de saúde terciário, devido aos seus antecedentes familiares de hepatopatia crônica. Na investigação, foi realizada ultrassonografia de abdome, que evidenciou esteatose hepática e presença de AVP (Figura 3). A tomografia computadorizada demonstrou uma dilatação aneurismática da veia porta proximal com diâmetro máximo de 5,5 cm, com colo de 1,1 cm e sem sinais de trombose (Figura 4). Neste paciente, também se optou por conduta expectante com seguimento ambulatorial.

Figura 3.   Ultrassonografia evidenciando o aneurisma de veia porta. 

Figura 4.  Visualização do aneurisma na tomografia computadorizada de abdome com contraste. 

DISCUSSÃO

As manifestações clínicas das doenças vasculares do sistema porta variam em função do grau de acometimento do parênquima hepático e do desenvolvimento dos mecanismos compensatórios.

A grande maioria dos pacientes portadores de AVP é assintomática, sendo o diagnóstico feito por um achado de exame de imagem solicitado por outros motivos. Quando presentes, os sintomas são causados por efeito de massa: dor abdominal, por compressão de estruturas vizinhas, e icterícia, por compressão dos ductos biliares. Pode ocorrer também sangramento gastrointestinal por ruptura do sistema biliar 3 , 6.

Sendo assim, a grande maioria dos médicos opta por realizar tratamento conservador, acompanhando o paciente com exames de imagem seriados. Em 2009, foi realizada uma revisão sistemática de 93 relatos publicados na literatura, que incluía 176 pacientes com 198 aneurismas venosos viscerais. Os autores concluíram que a observação cuidadosa é a conduta mais apropriada, exceto quando ocorrem complicações15. Recentemente, foi relatado um caso de um paciente do sexo masculino diagnosticado com AVP assintomático que foi acompanhado por oito anos e evoluiu com regressão completa do aneurisma, sem explicação16.

Ma et al.5, em 2012, propuseram um interessante algoritmo para manejo dos pacientes com AVP (Figura 5)5.

Figura 5. Adaptação do algoritmo proposto por Ma et al.5  

No que diz respeito à TVPo, o aparecimento e a extensão do trombo são determinantes nas manifestações clínicas, que são divididas em agudas e crônicas, e diferenciadas pelo aparecimento do cavernoma (rede de vasos colaterais conectando as porções proximal e distal ao trombo, que define a cronicidade do processo) 10 , 17. As manifestações agudas incluem congestão e isquemia intestinal, que podem causar dor e/ou distensão abdominal; diarreia; sangramento retal; náuseas; vômitos; anorexia; febre; acidose láctica; esplenomegalia, e sepse. Se a obstrução não for resolvida rapidamente, pode haver perfuração intestinal, peritonite, choque e óbito. Por outro lado, a TVPo pode ser assintomática em sua forma crônica, exceto pela presença de hiperesplenismo e consequente pancitopenia, varizes esofágicas, circulação colateral abdominal e ascite. Por esse fato, é necessário submeter todo paciente com TVPo a uma endoscopia digestiva alta10. Na Figura 6, adaptamos um diagrama proposto por pesquisadores chineses, que relaciona o curso da TVPo com a progressão dos sintomas17.

Figura 6. Progressão da trombose de veia porta e estratégia terapêutica em pacientes não neoplásicos e não cirróticos. Adaptado de Qi et al.17  

Pelo fato de os pacientes com TVPo, em sua fase crônica, serem muitas vezes assintomáticos, o diagnóstico é frequentemente um achado acidental de exame de imagem. Após a suspeita clínica, o primeiro exame usualmente solicitado é a ultrassonografia de abdome, que pode revelar presença de material sólido e hiperecoico na veia porta; distensão da veia porta e/ou tributárias, e uma rede de vasos colaterais ou cavernoma. Na sequência, para confirmação diagnóstica, pode-se solicitar a ultrassonografia de abdome com Doppler, a tomografia computadorizada ou a ressonância nuclear magnética10.

Embora já tenha sido descrita na literatura a resolução espontânea da TVPo na fase aguda em um paciente, o manejo terapêutico específico é mandatório para resolver a obstrução portal e evitar complicações sérias, principalmente para impedir a progressão para a fase crônica do processo18. O objetivo do tratamento é a correção dos fatores de risco, a prevenção da extensão da trombose e a obtenção da perviedade da veia porta10. A grande maioria dos autores recomenda terapia anticoagulante na fase aguda da doença; no entanto, isso é controverso quando se trata da fase crônica, pois pode acarretar evolução desfavorável das varizes esofagianas 11 , 19. Outros autores recomendam a terapia anticoagulante apenas em pacientes com confirmação de desordens trombóticas ou histórico familiar de trombose venosa20. As demais terapias são mais controversas entre os autores e incluem: trombólise, TIPS (transjugular intrahepatic portosystemic shunt) e shunt cirúrgico (esplenorrenal distal) 10 , 11 , 19.

O prognóstico está mais associado à presença de comorbidades e não à presença de varizes esofagianas sangrantes21. Um estudo realizado na cidade de Bolonha avaliou prospectivamente pacientes portadores de carcinoma hepatocelular candidatos a transplante hepático e concluiu que a TVPo, que não foi formada por invasão tumoral, não deve ser considerada como contraindicação absoluta ao transplante em pacientes com carcinoma hepatocelular e cirrose hepática22. Outro estudo, realizado na Universidade de Michigan, concluiu que a presença de TVPo pode estar associada à menor sobrevida em curto prazo após o transplante, o que deve orientar decisões acerca da indicação e do momento exato do transplante nesses pacientes23.

Diante do exposto, concluímos que as afecções vasculares do sistema porta são entidades raras que, na grande maioria das vezes, podem ser conduzidas de forma expectante. O acompanhamento rigoroso se faz necessário a fim de se avaliar a necessidade de intervenção nos casos de progressão da doença.

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