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Mapeamento do eixo condutor da prática fonoaudiológica em expressividade verbal no trabalho de competência comunicativa

Mapeamento do eixo condutor da prática fonoaudiológica em expressividade verbal no trabalho de competência comunicativa

Autores:

Maria Cristina de Menezes Borrego,
Mara Behlau

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.30 no.6 São Paulo 2018 Epub 29-Nov-2018

http://dx.doi.org/10.1590/2317-1782/20182018054

INTRODUÇÃO

A habilidade de se comunicar bem é um aspecto bastante valorizado nas relações interpessoais e no contexto profissional, favorecendo o avanço acadêmico e a ascensão na carreira. Ter domínio da linguagem e usar uma comunicação oral eficiente constituem, por vezes, uma tarefa desafiadora. Um grande número de pessoas refere medo de falar em público e identifica o treinamento voltado ao desenvolvimento desta habilidade como uma oportunidade para melhorar o desempenho de sua comunicação oral(1).

O treinamento fonoaudiológico em competência comunicativa promove o aperfeiçoamento da comunicação oral. Trata-se de um conjunto de estratégias que têm como objetivo principal oferecer aos indivíduos melhores condições de produção da voz e da comunicação oral(2,3), podendo incluir orientações, exercícios vocais e de expressividade verbal(4-9).

Na Fonoaudiologia brasileira, o trabalho com a expressividade verbal é uma abordagem que permeia, há muitos anos, as principais estratégias utilizadas para o aprimoramento da comunicação oral dos profissionais da voz(10). Apesar de os artigos mostrarem os efeitos positivos do treinamento vocal e seus resultados serem promissores(4-9), verifica-se que as pesquisas são muito distintas quanto ao delineamento do experimento, metodologia e procedimentos empregados. A falta de descrição detalhada e a não padronização dos procedimentos utilizados dificultam a comparação entre os estudos e o levantamento de dados mais robustos(2).

Diante dessa diversidade de informações, é necessário definir a finalidade e a estrutura do trabalho em competência comunicativa, além das abordagens e tipos de exercícios que fazem parte da prática fonoaudiológica em expressividade verbal nessa área. Sendo assim, o objetivo do presente artigo é apresentar um mapeamento do eixo condutor da prática fonoaudiológica em expressividade verbal no trabalho de competência comunicativa.

MÉTODO

A presente pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa sob o parecer nº 304.813. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Participaram do estudo 40 fonoaudiólogos seniores, voluntários, com larga experiência de atuação na área de voz. Perguntas relacionadas à competência comunicativa e à expressividade verbal foram apresentadas aos participantes ( Quadro 1 ). Os fonoaudiólogos foram divididos em subgrupos de sete a oito pessoas para debater as questões e, em seguida, compartilharam com o grupo as conclusões estabelecidas por consenso.

Quadro 1 Perguntas relacionadas à competência comunicativa e à expressividade vocal apresentadas aos participantes  

Encontro 1:
1) Num trabalho de aprimoramento da comunicação, como são distribuídas as estratégias considerando-se saúde vocal, exercícios fisiológicos e exercícios de expressividade? Há outro tipo de estratégia utilizado por você?
2) Como são selecionadas as estratégias considerando-se teoria e prática?
3) Quais os tipos de exercícios realizados: exercícios fonoaudiológicos, interpretação de textos, improvisação, leitura em voz alta, dinâmicas de grupo? Se outros, quais?
4) Qual é a duração mínima que um trabalho de aprimoramento da comunicação deve ter?
5) Qual é a quantidade média de participantes num trabalho de aprimoramento?
6) Como deve ser feita a entrega dos exercícios?
7) Quais os instrumentos de avaliação que você utiliza para medir os resultados do aprimoramento?
8) Que formação/experiência deve ter o fonoaudiólogo que aplica treinamentos de aprimoramento da comunicação?
Encontro 2:
1) O que é um trabalho de expressividade na prática fonoaudiológica?
2) Quais os objetivos dos exercícios de expressividade?
3) Quais os recursos vocais trabalhados nos exercícios de expressividade?
4) Quais as estratégias mais usadas nos exercícios de expressividade?
5) Descreva 2 exercícios de expressividade.

A atividade aconteceu em dois encontros. No primeiro, foram discutidas questões abrangentes sobre o trabalho de competência comunicativa, sua duração, número de participantes, forma de entrega dos exercícios, instrumentos de avaliação e formação do fonoaudiólogo que atua nessa área. Também foram investigadas a terminologia empregada e a divisão das estratégias de trabalho considerando-se orientação sobre saúde vocal, exercícios fisiológicos e de expressividade. No segundo encontro, foram debatidos aspectos específicos dos exercícios de expressividade, seus objetivos, os recursos vocais trabalhados e as estratégias mais utilizadas. Os participantes também descreveram dois exercícios de expressividade comumente empregados.

As respostas dos fonoaudiólogos foram coletadas e organizadas resumidamente em tópicos. Por fim, foram elencados os pontos concordantes e discordantes que surgiram na discussão entre os participantes.

RESULTADOS

O grupo concordou que o trabalho de competência comunicativa é prático, composto em grande parte por exercícios de expressividade, realizado com grupos pequenos e conduzido, preferencialmente, por um fonoaudiólogo especialista em voz. O registro audiovisual das atividades deve ser feito para acompanhamento e avaliação dos participantes. O grupo considerou que o trabalho de expressividade tem o objetivo de promover uma comunicação condizente com o contexto e a intenção do discurso, desenvolver a autopercepção e aprimorar a comunicação. Exercícios com fala encadeada, simulações e leitura de textos com diferentes emoções foram citados como estratégias do trabalho de expressividade.

Os pontos discordantes estão relacionados à duração do trabalho de competência comunicativa, às questões de ensino-aprendizagem e andragogia envolvidas nesse processo e, principalmente, à utilização de uma terminologia comum aos fonoaudiólogos que atuam nessa área ( Quadro 2 ).

Quadro 2 Resumo dos tópicos debatidos pelos fonoaudiólogos sobre o trabalho de expressividade verbal para a situação de fala em público  

PONTOS CONCORDANTES PONTOS DISCORDANTES
Trabalho essencialmente prático Duração
Estratégias de expressividade Questões relativas ao ensino-aprendizagem
Pequenos grupos de participantes Princípios da andragogia
Condução por fonoaudiólogo especialista em voz Terminologia empregada pelo fonoaudiólogo
Registro audiovisual do treinamento
Promoção da comunicação oral condizente com o conteúdo da mensagem
Autopercepção e consciência na comunicação oral
Exercícios de leitura oral e fala encadeada

DISCUSSÃO

A atuação fonoaudiológica em competência comunicativa abrange aspectos voltados à orientação sobre saúde e comportamento vocal, e ao treinamento vocal propriamente dito, por meio de exercícios de voz e de expressividade verbal. Na presente pesquisa, em que foi investigado o trabalho de expressividade verbal em competência comunicativa, fonoaudiólogos experientes na área de voz concordaram que o trabalho de competência comunicativa é prático, realizado com grupos pequenos e conduzido, preferencialmente, por um fonoaudiólogo especialista em voz.

A intervenção em grupo parece ser um arranjo produtivo para este tipo de treinamento, em que situações de debate e troca de ideias, opiniões e sugestões podem ser promovidas para expor o participante a diferentes contextos de comunicação e para instigar a sua atitude comunicativa. Ao assumir um papel ativo no processo, o participante pode explorar as sensações durante o exercício e o impacto na voz após sua execução, evitando realizar as propostas de forma mecânica (11). O registro audiovisual dos exercícios possibilita que o indivíduo observe seu desempenho comunicativo e discuta as impressões com os demais participantes, tornando-se uma ferramenta interessante para desenvolver a autopercepção. Tal estratégia também foi citada pelo grupo de fonoaudiólogos como um procedimento útil para acompanhamento e avaliação dos participantes.

Os fonoaudiólogos também consideraram que o trabalho em competência comunicativa é composto, em grande parte, por exercícios de expressividade que têm o objetivo de promover uma comunicação condizente com o contexto e a intenção do discurso, desenvolver a autopercepção e aprimorar a comunicação. A abordagem da expressividade oral faz parte da atuação fonoaudiológica há aproximadamente 40 anos, tanto na reabilitação como na intervenção junto ao profissional da voz(4-6,8,9).

Exercícios com fala encadeada, simulações e leitura de textos com diferentes emoções foram citados como estratégias do trabalho de expressividade. Na literatura especializada, encontram-se propostas de exercícios de expressividade que envolvem o uso de pausas, entoação, ênfases, velocidade de fala e articulação dos sons(4-6,8,9,12). Tais recursos são estimulados, muitas vezes, em situações em que a interpretação do texto já está programada e a forma de utilização de recursos como ênfases, pausas e modulação está pré-estabelecida, o que pode deixar de mobilizar o exercício de compreensão e construção do sentido do discurso pelos participantes. Ao considerar que o trabalho de expressividade se baseia na promoção da comunicação oral de forma condizente com o conteúdo da mensagem, a atuação fonoaudiológica poderia ser mais específica e efetiva se também estivesse focada no desenvolvimento de habilidades de compreensão do texto(7). Dessa forma, o trabalho em competência comunicativa conduziria à transformação do sujeito(13) e o fonoaudiólogo contribuiria para a formação de indivíduos com autonomia para tornarem-se os verdadeiros protagonistas de seu processo de desenvolvimento das habilidades de comunicação. Levando-se em conta esse cenário, o fonoaudiólogo especialista em voz e com experiência no trabalho de expressividade verbal, principalmente realizado em grupos, parece ser o profissional indicado para conduzir um programa de intervenção em competência comunicativa.

A discussão promovida pelo grupo de fonoaudiólogos também revelou que os pontos discordantes estão relacionados à duração do trabalho de competência comunicativa, às questões de ensino-aprendizagem e andragogia envolvidas nesse processo e, principalmente, à utilização de uma terminologia comum aos fonoaudiólogos que atuam nessa área.

Na prática clínica, o resultado de uma intervenção com um número pré-estabelecido de sessões provavelmente não reflete a melhor condição do trabalho de reabilitação(14). O mesmo pode ocorrer com as propostas de treinamento da competência comunicativa. Na literatura especializada, as referidas propostas duram, em média, de seis a oito encontros(4-6). Contudo, o treinamento realizado em contexto de pesquisa é elaborado de maneira idealizada e ocorre em ambiente fixo, bem distante das situações reais de atuação(14). Além disso, a prática fonoaudiológica mostra que diferentes perfis de grupos com demandas de comunicação diversas exigem, consequentemente, variados ajustes na determinação da duração da intervenção, fator que impacta a construção de programas mais uniformes.

Por tratar-se de uma abordagem voltada a adultos, o grupo considerou que os princípios da andragogia poderiam ser mais bem conhecidos e aplicados pelo fonoaudiólogo que conduz um trabalho de competência comunicativa. Questões relacionadas ao modelo andragógico são encontradas na literatura voltada à saúde coletiva que descreve ações educativas do fonoaudiólogo em promoção de saúde pública. Da mesma forma, são apresentadas estratégias que levam o indivíduo a perceber e refletir sobre sua realidade a partir das experiências relatadas num grupo de intervenção, sendo o fonoaudiólogo um facilitador no processo de ensino-aprendizagem(15). Ao entender que a educação é de responsabilidade compartilhada entre professor/instrutor e aluno/participante, parece ser interessante que o fonoaudiólogo inserido em programas de competência comunicativa com grupo se aproprie de tais conceitos e práticas, fazendo os ajustes necessários para sua realidade profissional, e incrementando suas estratégias de trabalho para que o grupo alcance um desempenho ainda melhor.

Por fim, a falta de uma terminologia comum aos fonoaudiólogos que trabalham com expressividade verbal é constatada na literatura especializada desde que os estudos na área se tornaram mais frequentes(10). Trata-se de um tema que merece reflexão e debate mais aprofundado, não sendo, entretanto, o foco de discussão do presente artigo. Vale ressaltar que grande parte das pesquisas na área adotam os termos e expressões encontradas mais frequentemente nas publicações(4-6,8,9,12). Enquanto o emprego de uma terminologia comum não está bem determinado, parece importante que os autores garantam que as expressões e os termos utilizados estejam sempre acompanhados de suas definições e conceituações, em busca de um melhor entendimento entre os pares.

CONCLUSÃO

A opinião dos fonoaudiólogos sobre o trabalho de expressividade verbal em competência comunicativa revela pontos de concordância quanto aos objetivos, exercícios e estratégias de acompanhamento e avaliação. Contudo, a falta de detalhamento na descrição do trabalho realizado e a imprecisão na terminologia empregada são fatores que comprometem a organização sistemática das informações referentes à atuação na área.

Este artigo não pretende apresentar um mapeamento completo da atuação fonoaudiológica no trabalho de expressividade em competência comunicativa. Futuras discussões envolvendo tais aspectos parecem ser fundamentais para a organização sistemática das informações referentes ao tema.

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